UMA ANÁLISE DE "O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA" DE JOSÉ SARAMAGO SOB A PERSPECTIVA DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA
RESUMO
O
presente artigo propõe uma leitura crítica do livro "O Conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago, à luz da
Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers, articulando conceitos de
subjetividade, empatia, aceitação incondicional, além das relações entre o Eu
real e o Eu ideal, autoestima e ressignificação. Com base em fragmentos
retirados da obra, a análise ressalta o movimento dos personagens em direção à
autocompreensão e à autonomia existencial, demonstrando a força da
subjetividade na constituição do projeto de vida.
INTRODUÇÃO
"O
Conto da Ilha Desconhecida", publicado em 1997, constitui uma narrativa
alegórica na qual Saramago reflete sobre o eterno desejo humano de busca e
autodescoberta. Sob a ótica da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, é
possível explorar, de modo aprofundado, as nuances da subjetividade humana
manifestas na obra, relacionando-as à formação do Eu, aos desafios entre o Eu
real e o Eu ideal, e aos processos de ressignificação presentes nos caminhos
dos personagens.
SUJEITIVIDADE
HUMANA E A BUSCA EXISTENCIAL
A
subjetividade, conceito fundamental tanto na Psicologia quanto na Filosofia,
adquire contornos sutis na obra ao aproximar o leitor dos anseios e inquietudes
do protagonista: o homem que pede ao rei um barco para buscar a "ilha
desconhecida do mapa". Sua busca metafórica por um território inexplorado
reflete o movimento humano em direção ao autoconhecimento e à realização de
potencialidades, elementos centrais no pensamento de Rogers, conforme o
princípio da tendência à atualização.
A
narrativa expõe, por meio de diálogos internos e interações, a tensão entre o
desejo inovador; o Eu ideal, e os limites impostos pela realidade, o Eu real.
Segundo Rogers (1959), o distanciamento entre esses Eus é fonte de insatisfação
e sofrimento, enquanto seu alinhamento está relacionado à congruência e ao
bem-estar.
“É
preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós.”
(SARAMAGO, 1997, p. 32).
Esse
fragmento ressalta a importância do olhar distanciado sobre a própria
existência, condição necessária à autoressignificação.
PERSONAGENS
PRINCIPAIS E O PROCESSO DE MUDANÇA
No
núcleo da narrativa estão dois personagens: o homem do barco e a mulher da
limpeza. O homem representa o sujeito inquieto e reflexivo, enquanto a mulher
simboliza a aceitação e a espontaneidade, catalisando, pela sua presença e
escuta, o processo de mudança do outro.
A
empatia, conceito central na abordagem rogeriana, é manifesta na capacidade da
mulher de acolher o projeto do homem com respeito e colaboração, validando seus
anseios e angústias:
“A
mulher da limpeza disse, Eu vou contigo, porque sempre desejei ver uma ilha
desconhecida.” (SARAMAGO, 1997, p. 48)
A
partir desse momento, ambos estabelecem um diálogo pautado pela escuta ativa e
pela ausência de julgamento, condições essenciais para o crescimento
psicológico, segundo Rogers (1961).
EMPATIA,
ACEITAÇÃO INCONDICIONAL E (RE)CONSTRUÇÃO DO EU
A
relação entre os protagonistas exemplifica o ambiente facilitador idealizado
por Rogers: ambiente permeado por empatia, aceitação incondicional positiva e
autenticidade. A mulher não impõe obstáculos aos sonhos do homem; antes,
legitima seus sentimentos e projetos, proporcionando-lhe o espaço necessário
para reconstruir seu Eu real em direção ao Eu ideal.
A
autoestima e o sentimento de valor pessoal crescem à medida que o homem
reconhece, na relação, um espaço para expressar sua vulnerabilidade e
incertezas, conforme exemplificado:
“O
homem sorriu, sentindo-se aceito de uma forma que nunca antes experimentara.”
(adaptado de SARAMAGO, 1997)
Este
ambiente de aceitação incondicional possibilita a ressignificação do passado e
das expectativas de futuro, tornando-se um catalisador para a tomada de
decisões autônomas e responsáveis.
RESSIGNIFICAÇÃO
E AUTONOMIA
No
desenrolar da narrativa, observa-se um processo contínuo de ressignificação. A
ilha desconhecida, mais do que uma metáfora geográfica, simboliza o espaço
interno de possibilidades, reafirmando o valor da subjetividade e da
experiência pessoal. O reconhecimento desse espaço pelo protagonista demonstra
o movimento rogeriano de integração dos conteúdos conscientes e inconscientes e
a busca pela autonomia.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Em
"O Conto da Ilha Desconhecida", José Saramago constrói uma narrativa
que, sob a luz da Abordagem Centrada na Pessoa, evidencia com vigor a
potencialidade transformadora da subjetividade, do apoio empático e da
aceitação incondicional. Ao favorecer a congruência entre Eu real e Eu ideal, a
relação dialógica entre os personagens permite não apenas a ressignificação de
trajetórias, mas também a elevação da autoestima e a emergência de projetos
autênticos de vida.
REFERÊNCIAS
-
ROGERS, Carl R. **Tornar-se pessoa: um ponto de vista sobre a psicoterapia**.
São Paulo: Martins Fontes, 1977.
-
ROGERS, Carl R. **A abordagem centrada no cliente**. São Paulo: Martins Fontes,
1983.
-
SARAMAGO, José. **O conto da ilha desconhecida**. São Paulo: Companhia das
Letras, 1997.
-
BARROS, D. D.; MOREIRA, V. da S. **A subjetividade como tarefa: contribuições
da Abordagem Centrada na Pessoa**. Psicologia em Revista, v. 18, n. 2, p.
309-326, 2012.
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