Psicologa Organizacional

13 de agosto de 2026

 


Toda Mulher Guarda um Universo que Não se Revela de Uma Só Vez

 

Há pessoas que passam pela vida como quem atravessa uma sala.

 

Chegam, olham, conversam, sorriem e vão embora.

 

E há mulheres.

 

Não porque sejam mais difíceis de compreender do que os homens, mas porque, muitas vezes, carregam dentro de si uma quantidade de histórias que não cabem naquilo que mostram.

 

Talvez por isso alguns homens olhem para uma mulher e pensem que precisam desvendá-la.

 

Como se ela fosse um enigma.

 

Como se houvesse uma resposta escondida em algum lugar.

 

Como se bastasse descobrir a combinação certa de palavras para abrir todas as portas.

 

Mas não é assim.

 

Uma mulher não é um mistério esperando por alguém que venha solucioná-la.

 

Ela é uma história acontecendo.

 

E histórias não se desvendam à força.

 

Leem-se.

 

Com paciência.

 

Com presença.

 

Com escuta.

 

Com respeito.

 

Há mulheres que aprenderam a sorrir enquanto choravam por dentro.

 

Outras se tornaram fortes porque a vida não lhes ofereceu muitas oportunidades para serem frágeis.

 

Há aquelas que parecem independentes, mas gostariam de encontrar alguém diante de quem não precisassem ser fortes o tempo inteiro.

 

Há mulheres que falam muito porque precisam ser ouvidas.

 

E há aquelas que se calam porque, em algum momento da vida, descobriram que ninguém realmente queria escutar.

 

Há mulheres que amam intensamente.

 

Outras aprenderam a amar com cuidado.

 

Algumas entregam o coração rapidamente.

 

Outras passaram tanto tempo reconstruindo os pedaços de si mesmas que agora observam antes de confiar.

 

E talvez exista uma coisa que muitos esquecem:

 

Cada mulher carrega uma história que começou muito antes de qualquer relacionamento.

 

Antes do namorado.

 

Antes do marido.

 

Antes dos filhos.

 

Antes da profissão.

 

Antes dos títulos.

 

Houve uma menina.

 

Uma menina que sonhou.

 

Que teve medo.

 

Que desejou ser aceita.

 

Que talvez tenha ouvido palavras que nunca deveria ter ouvido.

 

Que talvez tenha recebido abraços que ainda hoje moram em sua memória.

 

Que aprendeu, pouco a pouco, o significado de ser mulher em um mundo que tantas vezes tentou dizer a ela quem deveria ser.

 

Por isso, quando alguém encontra uma mulher, não encontra apenas o presente.

 

Encontra também memórias.

 

Experiências.

 

Feridas.

 

Desejos.

 

Esperanças.

 

Contradições.

 

E uma infinidade de coisas que não aparecem na primeira conversa.

 

É por isso que conhecer alguém exige tempo.

 

Não basta saber sua comida preferida.

 

Nem sua música.

 

Nem o lugar onde gosta de viajar.

 

Conhecer alguém é perceber o que acontece quando ela está triste.

 

É perceber como seus olhos mudam quando fala de algo que ama.

 

É compreender seus silêncios sem transformá-los imediatamente em acusações.

 

É saber que, algumas vezes, “está tudo bem” significa exatamente isso.

 

Mas, em outras, significa:

 

“Eu ainda não sei como explicar o que estou sentindo.”

 

E talvez amar seja justamente oferecer espaço para que a explicação possa nascer.

 

Porque algumas pessoas querem respostas imediatas.

 

Querem saber:

 

“Por que você está assim?”

 

“Por que mudou?”

 

“Por que está distante?”

 

“Por que não fala?”

 

Mas nem toda emoção chega organizada.

 

Existem sentimentos que precisam primeiro ser sentidos para depois serem compreendidos.

 

A Psicologia sabe disso.

 

A Filosofia também.

 

E a vida ensina diariamente.

 

O ser humano não é uma equação matemática.

 

Não existe uma fórmula capaz de explicar completamente alguém.

 

E talvez essa seja uma das belezas dos relacionamentos.

 

Nunca terminamos de conhecer verdadeiramente quem amamos.

 

Sempre existe uma nova camada.

 

Uma nova descoberta.

 

Um novo medo que aparece.

 

Um novo sonho que nasce.

 

Uma nova versão daquela pessoa que chega com o tempo.

 

É como observar o mar.

 

Podem passar anos olhando para ele e, ainda assim, nunca conhecerão todas as profundezas.

 

Com as pessoas acontece algo semelhante.

 

Há profundidades que não aparecem na superfície.

 

E há mulheres que passaram tanto tempo tentando sobreviver que ninguém percebeu o quanto gostariam, simplesmente, de poder descansar.

 

Descansar de agradar.

 

Descansar de provar.

 

Descansar de parecer forte.

 

Descansar da obrigação de estar sempre bonita, sempre disponível, sempre compreensiva, sempre pronta.

 

Talvez uma das formas mais bonitas de amar uma mulher seja permitir que ela seja humana.

 

Que tenha dias bons e ruins.

 

Que mude de opinião.

 

Que diga não.

 

Que estabeleça limites.

 

Que chore.

 

Que ria alto.

 

Que tenha medo.

 

Que seja contraditória.

 

Que seja inteira.

 

Porque amor não deveria ser uma tentativa de moldar alguém.

 

Amor deveria ser encontro.

 

E encontro verdadeiro não acontece quando uma pessoa tenta transformar a outra naquilo que gostaria que ela fosse.

 

Acontece quando duas pessoas conseguem dizer:

 

“Eu vejo você.”

 

Não apenas a aparência.

 

Não apenas o sorriso.

 

Não apenas aquilo que você oferece.

 

Eu vejo você.

 

Vejo sua história.

 

Vejo suas lutas.

 

Vejo suas imperfeições.

 

Vejo suas forças.

 

E, mesmo sem compreender tudo, escolho respeitar aquilo que ainda não conheço.

 

Talvez seja esse o verdadeiro mistério de uma mulher.

 

Não aquilo que ela esconde.

 

Mas aquilo que ainda está descobrindo sobre si mesma.

 

Porque ninguém chega ao fim da própria história completamente decifrado.

 

Nem homens.

 

Nem mulheres.

 

Somos todos territórios em construção.

 

Todos carregamos quartos dentro da alma onde nem nós mesmos entramos com frequência.

 

Por isso, talvez não precisem tentar desvendar uma mulher.

 

Caminhem ao lado dela.

 

Escutem.

 

Observem.

 

Perguntem.

 

Respeitem.

 

Tenham paciência.

 

Porque algumas das coisas mais bonitas que alguém pode descobrir sobre outra pessoa não aparecem quando se procura desesperadamente por respostas.

 

Aparecem quando existe confiança suficiente para que o outro finalmente diga:

 

“Agora posso mostrar quem sou.”

 

E quando isso acontece, talvez percebam que nunca estiveram diante de um mistério.

 

Estavam diante de um universo.

 

E universos não foram feitos para serem conquistados.

 

Foram feitos para serem contemplados, respeitados e conhecidos, pouco a pouco.

 

Acimarley Freitas


10 de agosto de 2026

 



SURRA: CORREÇÃO OU AGRESSÃO?

E por que não o diálogo?

 

Há momentos em que eles olham para os filhos e pensam:

“Esse menino está precisando de uma surra.”

Não dizem isso necessariamente porque não amam.

Às vezes dizem justamente porque acreditam que estão tentando educar.

É uma frase antiga. Passada de geração em geração, como uma receita de família.

“Comigo foi assim.”

“Meu pai me bateu e eu aprendi.”

“Se não apanhar, não respeita.”

“Uma surra resolve.”

E talvez seja justamente aí que começa uma das conversas mais difíceis da parentalidade.

Porque é preciso perguntar:

O que eles chamam de surra?

É um tapa?

É um chinelo?

É um cinto?

É uma palmada?

É um puxão de orelha?

É um empurrão?

É um soco?

É bater uma vez?

É bater várias?

É bater com a mão aberta ou com algum objeto?

E quando começa a doer?

Quando fica vermelho?

Quando fica roxo?

Quando deixa marca?

Quando a criança chora?

Quando sente medo?

Ou será que a violência começa muito antes da marca aparecer na pele?

Talvez seja preciso parar por alguns minutos diante dessas perguntas.

Porque a palavra “surra” costuma esconder muitas coisas.

Às vezes, ela aparece disfarçada de correção.

Às vezes, vem acompanhada da palavra “educação”.

Às vezes, chega depois de um dia difícil, quando o adulto está cansado, frustrado, preocupado, irritado e sem saber mais o que fazer.

A criança derruba alguma coisa.

O adolescente responde.

A filha mente.

O filho desobedece.

Eles pedem cinco vezes.

A criança não escuta.

O adolescente fecha a porta.

A paciência termina.

E então a mão parece encontrar uma resposta mais rápida do que a palavra.

Bateu.

Por alguns segundos, tudo fica em silêncio.

A criança chora.

O adulto respira.

E talvez ele pense:

“Agora aprendeu.”

Mas será que aprendeu?

Essa é a pergunta que precisa permanecer.

Porque uma criança pode aprender a interromper um comportamento depois de apanhar.

Mas talvez não tenha aprendido aquilo que o adulto queria ensinar.

Pode ter aprendido outra coisa.

Que quem é maior pode bater em quem é menor.

Que o medo é uma forma de obediência.

Que esconder é mais seguro do que contar.

Que errar pode ser perigoso.

Que conversar não adianta.

Que quando alguém perde o controle, o corpo do outro pode virar lugar de descarga.

E existe uma diferença enorme entre aprender uma regra e aprender por que aquela regra existe.

A ciência contemporânea é bastante clara nesse ponto. A Organização Mundial da Saúde define castigo corporal como o uso de força física com intenção de causar algum grau de dor ou desconforto, mesmo que leve. As evidências reunidas pela organização associam o castigo corporal a maior risco de problemas comportamentais, agressividade, prejuízos emocionais e outros efeitos negativos, sem demonstrar benefícios positivos para o desenvolvimento infantil. (Organização Mundial da Saúde)

Então talvez seja necessário abandonar uma velha pergunta:

“Quanto posso bater sem machucar?”

E começar outra:

“Por que preciso bater para educar?”

Porque essa pergunta muda tudo.

Se existe um limite.

Se existe uma regra.

Se existe uma consequência.

Se existe um comportamento que precisa ser corrigido...

por que a correção precisa necessariamente passar pela dor?


Mas existe outra questão ainda mais delicada.

E quando os pais não sabem dialogar?

Essa pergunta precisa ser feita sem julgamento.

Porque muitos pais não aprenderam.

Foram criados no grito.

Cresceram ouvindo:

“Cala a boca!”

“Você não tem que questionar.”

“Enquanto morar aqui, você obedece.”

“Eu mando e você obedece.”

“Se fizer de novo, vai apanhar.”

Talvez nunca tenham visto uma mãe sentar ao lado de uma criança e dizer:

“Eu entendo que você está com raiva. Mas não pode fazer isso.”

Talvez nunca tenham aprendido que limite não precisa vir acompanhado de humilhação.

Que autoridade não precisa de violência.

Que firmeza não é agressividade.

Que dizer “não” não exige levantar a mão.

E que educar não significa permitir tudo.

Dialogar não é deixar a criança fazer o que quiser.

Esse talvez seja um dos maiores equívocos.

Diálogo não é ausência de limite.

Diálogo é limite acompanhado de explicação.

É consequência acompanhada de responsabilidade.

É autoridade acompanhada de vínculo.

É dizer:

“Eu não vou permitir que você bata no seu irmão.”

E não:

“Se você bater nele, eu vou bater em você.”

Percebem a diferença?

Na primeira frase, eles ensinam um limite.

Na segunda, ensinam uma contradição.

Dizem:

“Bater é errado.”

Enquanto batem.

A criança pode não compreender a teoria.

Mas compreende a experiência.


E existe ainda uma coisa que poucos falam.

Um diálogo pode doer.

Não a dor da violência.

A dor de ouvir a verdade.

Às vezes, uma conversa séria é muito mais difícil do que uma palmada.

Olhar para o filho e dizer:

“Você errou.”

“Isso teve consequências.”

“Eu estou decepcionado.”

“Você precisa reparar o que fez.”

“Hoje você não terá aquele privilégio.”

“Vamos conversar novamente quando você estiver mais calmo.”

Isso exige mais do adulto.

Bater pode levar segundos.

Educar pode levar anos.

A violência é imediata.

A educação é processo.

A mão resolve o instante.

A palavra constrói o futuro.

E talvez seja justamente por isso que educar sem violência seja tão difícil.

Porque exige que os adultos também se eduquem.


Não é simples.

Não existe uma frase mágica.

Não existe um manual capaz de transformar todos os pais em especialistas em educação emocional.

Há crianças diferentes.

Famílias diferentes.

Histórias diferentes.

Contextos diferentes.

Existem pais exaustos.

Existem adolescentes desafiadores.

Existem crianças que testam limites.

Existem conflitos familiares profundamente complexos.

Por isso, não se trata de colocar os pais no banco dos réus.

Trata-se de colocá-los diante de uma pergunta.

O que eles receberam como educação e o que desejam transmitir aos próprios filhos?

Porque talvez uma das maiores tarefas da paternidade e da maternidade seja interromper aquilo que atravessou gerações.

Eles receberam violência.

Não precisam necessariamente entregá-la.

Receberam silêncio.

Podem ensinar diálogo.

Receberam medo.

Podem ensinar segurança.

Receberam gritos.

Podem aprender a conversar.

Receberam a ideia de que autoridade significa força.

Podem descobrir que autoridade também significa presença, coerência e responsabilidade.


E quando a raiva chegar?

Porque ela vai chegar.

Pais também são humanos.

Eles se irritam.

Eles se cansam.

Eles perdem a paciência.

A questão talvez não seja nunca sentir raiva.

É aprender o que fazer com ela.

Talvez seja sair por alguns minutos.

Respirar.

Esperar.

Não decidir no auge da irritação.

Porque uma decisão tomada com raiva pode deixar uma marca que uma conversa posterior não consegue apagar completamente.

A criança precisa aprender a controlar seus impulsos.

Mas quem ensina isso?

O adulto.

E talvez uma das primeiras aulas seja justamente esta:

“Eu estou muito bravo agora. Preciso me acalmar antes de conversar com você.”

Isso também é educação.


Então, afinal...

Surra é correção ou agressão?

Talvez a pergunta precise ser ainda mais profunda.

Se uma pessoa utiliza a força física para causar dor ou desconforto como forma de punição, a ciência contemporânea não trata isso como uma estratégia benéfica de disciplina. A OMS inclui palmadas, tapas e o uso de objetos como cinto ou sapato entre exemplos de castigo corporal. (Organização Mundial da Saúde)

Mas existe algo ainda maior do que definir a palavra.

Existe a possibilidade de escolher outro caminho.

Porque educar não é simplesmente conseguir que uma criança obedeça.

É ajudá-la a compreender limites.

É ensiná-la a lidar com frustrações.

É desenvolver responsabilidade.

É mostrar que escolhas produzem consequências.

É ensinar que sentimentos podem ser expressos sem destruir o outro.

É preparar alguém para viver em sociedade sem precisar usar a força para ser respeitado.

E talvez seja aqui que a palavra diálogo ganhe outro significado.

Dialogar não é falar bonito.

Não é fazer discurso.

Não é perguntar “entendeu?” depois de vinte minutos falando.

Dialogar é escutar.

É perguntar.

É explicar.

É estabelecer limites.

É sustentar consequências.

É reconhecer o próprio erro.

É dizer:

“Eu errei quando gritei com você.”

Porque pais também podem pedir desculpas.

E talvez essa seja uma das maiores lições que uma criança pode receber.


No fim, talvez a questão não seja escolher entre surra ou conversa.

Talvez seja escolher entre duas formas de autoridade.

Uma autoridade que diz:

“Você vai me obedecer porque tem medo de mim.”

E outra que ensina:

“Você vai aprender a respeitar limites porque compreende o valor deles.”

A primeira pode produzir obediência.

A segunda pode produzir consciência.

E existe uma diferença enorme entre uma criança que obedece porque tem medo e uma pessoa que aprendeu a fazer escolhas porque compreendeu as consequências.

A primeira olha para o adulto.

A segunda começa a olhar para dentro.

Talvez seja isso que eles realmente estejam tentando ensinar quando dizem que querem “educar”.

Não apenas fazer o filho obedecer.

Mas ajudá-lo a se tornar alguém capaz de escolher.

Porque a mão pode fazer uma criança parar.

O grito pode fazê-la calar.

O medo pode fazê-la obedecer.

Mas somente a educação pode ajudá-la a compreender.

E talvez a palavra mais forte que um pai possa dizer não seja:

“Você vai apanhar.”

Talvez seja:

“Sente aqui. Nós precisamos conversar.”

Porque existem palavras que machucam.

Existem palavras que humilham.

Mas também existem palavras que colocam limites, despertam consciência e transformam.

A diferença está em saber usá-las.

Educar também é aprender a falar sem ferir.

E, algumas vezes, a conversa mais difícil da infância é justamente aquela que pode evitar uma ferida para a vida inteira.


Acimarley Freitas