Psicologa Organizacional

11 de junho de 2026


 

Diálogo sobre a Existência

 

Por Acimarley Freitas

 

Dizem que, em algum lugar onde os relógios não fazem sentido e as pressas humanas não encontram morada, três antigas companheiras resolveram se encontrar. Sentaram-se à sombra de uma árvore tão velha quanto o primeiro sonho e tão jovem quanto a esperança de uma criança.

 

Ali estavam a Vida, a Dúvida e a Morte.

 

A Vida chegou primeiro. Veio descalça, com os cabelos bagunçados pelo vento e as mãos marcadas pelas experiências. Carregava risos, cicatrizes, fotografias amareladas, amores que deram certo e outros que ensinaram a amar diferente.

 

Pouco depois, apareceu a Dúvida.

 

Ninguém a convidava para as festas, embora ela sempre acabasse chegando. Trazia consigo uma mochila cheia de perguntas. Não tinha respostas prontas. Tinha olhos curiosos e um jeito inquieto de olhar o horizonte.

 

Por último, chegou a Morte.

 

Ao contrário do que contavam sobre ela, não vestia preto. Também não carregava foice ou ameaças. Tinha um semblante sereno e um silêncio que não assustava. Parecia apenas alguém que conhecia o valor de cada segundo.

 

A Vida sorriu.

 

— Que bom que vocês vieram.

 

A Dúvida foi a primeira a falar:

 

— Nunca entendi por que as pessoas não gostam de mim. Quando apareço, tentam me expulsar. Querem certezas, fórmulas, garantias. Mal sabem que fui eu quem ensinou a humanidade a descobrir o fogo, atravessar oceanos e perguntar às estrelas o que havia além do céu.

 

A Vida concordou.

 

— É verdade. Sem você, ninguém teria coragem de mudar de profissão, declarar um amor, fazer uma oração ou começar de novo. Você é a mãe da curiosidade e a companheira do crescimento.

 

A Dúvida abaixou a cabeça.

 

Talvez fosse a primeira vez que alguém lhe dizia isso.

 

Então a Morte falou:

 

— Comigo acontece algo parecido. Falam meu nome baixinho. Evitam pensar em mim. Fingem que não existo. Mas, se eu não estivesse aqui, vocês já perceberam que a Vida perderia parte do seu valor?

 

As duas ficaram em silêncio.

 

A Morte continuou:

 

— Se tudo fosse eterno, quem abraçaria demoradamente os pais? Quem aproveitaria o cheiro do café da manhã? Quem diria "eu te amo" antes de sair de casa? A consciência de que o tempo é limitado faz do instante um presente.

 

A Vida olhou para a amiga com ternura.

 

— Você não é minha inimiga.

 

— Nunca fui — respondeu a Morte. — Caminhamos juntas desde o primeiro suspiro.

 

A Dúvida, curiosa, perguntou:

 

— Então por que os seres humanos têm tanto medo de você?

 

A Morte pensou por alguns instantes.

 

— Talvez porque confundam fim com ausência. Talvez porque ainda não tenham aprendido que perder faz parte de amar. Talvez porque o desconhecido sempre desperte inquietação.

 

A Vida segurou as mãos das duas.

 

— Acho que o problema não está em nós. Está no desejo humano de controlar aquilo que foi feito para ser vivido.

 

A Dúvida sorriu.

 

— Eu apareço para ensinar que nem tudo precisa ser compreendido de imediato.

 

A Vida completou:

 

— Eu existo para lembrar que cada dia é uma oportunidade.

 

E a Morte concluiu:

 

— Eu chego para recordar que nada do que foi amado é pequeno demais para ter valido a pena.

 

O vento passou pela árvore.

 

As folhas dançaram como quem concordava com aquela conversa.

 

E, por um instante, as três perceberam que eram menos diferentes do que imaginavam.

 

A Vida oferecia o caminho.

 

A Dúvida ensinava a caminhar.

 

E a Morte lembrava que nenhum passo deveria ser desperdiçado.

 

Talvez a existência humana seja exatamente isso: um diálogo constante entre o que vivemos, o que ainda não sabemos e aquilo que, inevitavelmente, um dia nos convidará a descansar.

 

Enquanto esse encontro não acontece, há pessoas para abraçar, sonhos para reconstruir, lágrimas para secar, perdões para conceder e horizontes para descobrir.

 

A Vida não pede perfeição.

 

A Dúvida não exige respostas imediatas.

 

E a Morte, curiosamente, talvez não queira ser lembrada como tragédia, mas como a silenciosa professora que nos ensina a urgência do amor.

 

No fim das contas, enquanto caminhava para casa, ouvi dizer que aquelas três amigas chegaram a uma conclusão.

 

A Vida olhou para a Dúvida e para a Morte e disse:

 

— O ser humano passa tanto tempo tentando entender vocês que, às vezes, esquece de me viver.

 

E as três sorriram.

 

Porque sabiam que a maior resposta para a existência nunca esteve nas certezas absolutas, nem na negação das despedidas.

 

Talvez ela esteja na coragem de acordar todas as manhãs, mesmo sem compreender todos os mistérios, e ainda assim escolher amar, aprender e seguir adiante.

 

Afinal, há perguntas que não foram feitas para serem respondidas.

 

Foram feitas para nos ensinar a viver.

 


A Motiva(ação)

 

Por Acimarley Freitas

Outro dia, enquanto esperava minha vez em uma fila de banco, observei um senhor de cabelos brancos conversando com um menino.

O garoto parecia inquieto.

Olhava para o relógio.

Olhava para a porta.

Olhava para o celular.

Suspirava.

Então perguntou ao avô:

— Vô, quanto tempo falta?

O velho sorriu e respondeu:

— Para quê?

O menino pensou um pouco.

— Para a gente ir embora.

O senhor olhou para ele e disse algo que talvez nem ele mesmo soubesse o tamanho da sabedoria que carregava:

— Engraçado… quando eu tinha a sua idade, queria que o tempo passasse rápido. Hoje, queria que ele andasse devagar.

A fila continuou.

Mas aquela conversa ficou comigo.

Talvez porque ela revele uma das maiores inquietações do ser humano.

Estamos sempre esperando alguma coisa.

Esperamos o fim da aula.

Esperamos a faculdade.

Esperamos o emprego.

Esperamos a promoção.

Esperamos encontrar alguém.

Esperamos casar.

Esperamos os filhos crescerem.

Esperamos a aposentadoria.

Esperamos as férias.

Esperamos a sexta-feira.

Esperamos o próximo feriado.

Esperamos a motivação chegar.

E, enquanto esperamos, a vida vai acontecendo.

Existe uma curiosidade sobre a palavra motivação.

As pessoas costumam imaginá-la como uma visita inesperada.

Um dia ela bate à porta.

Entra.

Senta no sofá.

E diz:

— Hoje você vai conquistar o mundo.

Mas a experiência humana parece funcionar de outro jeito.

Há dias em que acordamos cheios de energia.

Há dias em que não.

Há manhãs em que acreditamos em nós mesmos.

Há tardes em que duvidamos de tudo.

Há noites em que pensamos em desistir.

E talvez isso seja mais comum do que gostamos de admitir.

Vivemos numa época curiosa.

As redes sociais transformaram a motivação em espetáculo.

Alguém acorda às cinco da manhã.

Corre dez quilômetros.

Lê três livros.

Abre uma empresa.

Investe na bolsa.

Prepara um café perfeito.

Sorri para a câmera.

E ainda encontra tempo para dizer que basta querer.

Enquanto isso, do outro lado da tela, existe alguém tentando apenas levantar da cama para enfrentar mais um dia.

E essa pessoa acredita que está falhando na vida.

Talvez este seja um dos grandes enganos do nosso tempo.

Confundir motivação com comparação.

Há pessoas que passam a vida tentando alcançar sonhos que nunca foram seus.

Compram aquilo que não desejavam.

Estudam o que não gostam.

Vestem personagens.

Sorriem fotografias.

Acumulam conquistas.

Mas não conseguem encontrar sentido.

E então surge uma pergunta desconfortável.

Quem escolheu a vida que estou vivendo?

Foi meu coração?

Foi minha família?

Foi a sociedade?

Foi o medo?

Foi a necessidade de aprovação?

Ou fui eu?

Talvez a motivação não seja uma chama que aparece do nada.

Talvez seja uma fogueira.

E fogueiras não permanecem acesas sozinhas.

Precisam de pequenos gravetos.

Pequenos cuidados.

Pequenas escolhas.

Um passo.

Uma conversa.

Um abraço.

Uma caminhada.

Uma página lida.

Uma oração.

Um café compartilhado.

Um pedido de ajuda.

Uma noite de sono.

Uma pausa necessária.

A vida parece gostar das pequenas coisas.

Curiosamente, são elas que sustentam as grandes.

Penso também que existe uma diferença entre viver empurrado e viver chamado.

Há quem acorde todos os dias apenas porque precisa.

E há quem encontre alguma razão para caminhar.

Essa razão não precisa ser grandiosa.

Pode ser cuidar de um filho.

Ensinar uma criança.

Cultivar uma planta.

Construir uma casa.

Ajudar alguém.

Aprender um instrumento.

Fazer um bolo para a família.

Ou simplesmente descobrir quem se é.

Talvez a maior motivação do ser humano não esteja em conquistar o mundo.

Talvez esteja em não abandonar a si mesmo.

E isso me faz lembrar do velho da fila.

Enquanto o menino queria que o tempo corresse, ele desejava apenas permanecer um pouco mais naquele instante.

Talvez porque tenha descoberto algo que a juventude demora a entender.

A felicidade raramente mora na chegada.

Ela gosta do caminho.

Gosta das conversas.

Dos tropeços.

Dos recomeços.

Dos encontros.

Dos dias comuns.

Dos afetos simples.

Dos sonhos possíveis.

Talvez seja por isso que tantas pessoas, ao alcançarem aquilo que tanto desejavam, sintam um estranho vazio.

Elas descobriram que o destino não era o verdadeiro presente.

O presente era a caminhada.

E agora deixo uma pergunta.

Quando foi a última vez que você parou de esperar a vida começar e percebeu que ela já estava acontecendo?

Talvez a motivação não seja encontrar forças para chegar a algum lugar.

Talvez seja descobrir que existe uma razão para dar o próximo passo.

E, quem sabe, enquanto você termina esta leitura, exista uma pequena fila em algum lugar, um avô conversando com um neto, uma criança olhando para o relógio e um adulto correndo atrás do amanhã.

Talvez nenhum deles saiba.

Mas a vida, silenciosamente, continua convidando cada um de nós para a mesma aventura:

Não a de sermos extraordinários.

Mas a de sermos verdadeiros.

E talvez a história que você acabou de ler não seja sobre motivação.

Talvez ela seja sobre você.

 



Aperriado:

Uma Filosofia Tipicamente Brasileira

 

Por Acimarley Freitas

Existe uma palavra que deveria ser patrimônio cultural do Brasil.

Não está nos grandes tratados de filosofia. Não aparece nos manuais de administração. Pouco interessa aos economistas. Mas explica boa parte da vida do trabalhador brasileiro.

A palavra é: aperriado.

Aperriado não é apenas estar preocupado.

Também não é estar triste.

Muito menos estressado.

Aperriado é um estado de espírito.

É uma experiência existencial.

É quase uma pós-graduação em sobrevivência.

O trabalhador acorda cedo, ainda escuro. Pega o celular para conferir as horas.

Sem bateria.

O carregador ficou na sala.

Já começa aperriado.

Levanta correndo.

Vai tomar café.

O pão acabou.

O café também.

Aperriado pela segunda vez.

Olha para o relógio.

Está atrasado.

Corre para o ponto de ônibus.

O ônibus passa lotado.

O próximo só Deus sabe quando.

Enquanto espera, abre o aplicativo do transporte.

O Uber está no dinâmico.

Quarenta e oito reais.

"Vou esperar baixar."

Espera cinco minutos.

Sessenta e dois reais.

O algoritmo parece perceber o desespero humano.

Aperriado.

Finalmente consegue chegar ao trabalho.

No intervalo, lembra que precisa apresentar um comprovante de residência.

Abre a gaveta.

A conta de luz está no nome da mãe.

A água, no nome do pai.

A internet, no nome da esposa.

O aluguel não aceitam.

A autodeclaração ninguém sabe se vale.

O trabalhador começa a questionar se realmente mora onde mora.

Aperriado.

Chega a hora do almoço.

Pega o celular para fazer um Pix.

Digita rápido.

Confirma.

Envia.

Cinco segundos depois, percebe.

Mandou para o número errado.

A pessoa visualiza.

Não responde.

O trabalhador descobre que confiança no próximo é um conceito bastante relativo.

Aperriado.

No fim do expediente, resolve passar no supermercado.

Pega apenas três produtos.

Uma banana.

Um leite.

Um pacote de arroz.

Escolhe a fila menor.

Naturalmente, a senhora da frente resolve discutir o preço da cebola, procurar moedas na bolsa e lembrar que esqueceu um item.

A fila ao lado, com quinze pessoas, anda mais rápido.

Existe uma lei universal que explica isso.

Mas a ciência ainda não descobriu qual é.

Aperriado.

Na volta para casa, o celular avisa:

"Seu pacote de dados acabou."

Sem internet.

Sem aplicativo.

Sem música.

Sem mapa.

Sem notícias.

Pela primeira vez em muito tempo, resta apenas uma companhia.

Os próprios pensamentos.

Talvez seja esse o maior aperreio dos tempos modernos.

Ficar sozinho consigo mesmo.

Chega em casa cansado.

Abre a geladeira.

Lembra que amanhã vence a conta da água.

Semana que vem o cartão.

No outro mês o IPVA.

A escola do menino.

O remédio da mãe.

A manutenção do carro.

A vida adulta parece um grupo de WhatsApp onde os boletos nunca param de mandar mensagem.

Aperriado.

Mas existe algo curioso no brasileiro.

Mesmo aperriado, ele faz piada.

Conta histórias.

Divide um café.

Ajuda um vizinho.

Empresta uma ferramenta.

Leva um amigo de moto.

Faz um churrasco com pouco dinheiro.

Dá risada das próprias dificuldades.

Talvez seja essa a nossa maior riqueza.

A capacidade de transformar o aperreio em conversa.

A preocupação em solidariedade.

O cansaço em esperança.

Porque, pensando bem, a vida nunca foi totalmente organizada.

Sempre haverá um ônibus atrasado.

Uma fila demorada.

Um Pix enviado errado.

Um documento faltando.

Um Uber no dinâmico.

Um comprovante de residência que não comprova residência.

Sempre haverá algum aperreio esperando por nós.

A diferença talvez esteja em como caminhamos com eles.

Há pessoas que colecionam problemas.

Outras colecionam histórias.

E suspeito que o segredo da felicidade não seja viver sem aperreios.

Isso seria impossível.

Talvez o segredo seja olhar para a vida e dizer:

— "Meu Deus, que aperreio..."

Respirar fundo.

Dar uma risada.

E continuar caminhando.

Porque, no fim das contas, o brasileiro já descobriu uma verdade que poucos filósofos conseguiram explicar:

Quem aprende a rir dos pequenos aperreios da vida acaba descobrindo que a felicidade, muitas vezes, mora justamente no intervalo entre um problema e outro.