SURPRESAS NO CÉU
Uma
fábula sobre a graça, os julgamentos e a estranha mania humana de querer ser
Deus
Depois dos séculos dos séculos...
Quando
o último relógio cansou de contar as horas, quando os calendários perderam a
serventia e quando a humanidade finalmente percebeu que o botão “adiar” não
funcionava para a eternidade...
Chegou
o fim.
Não
houve segunda-feira.
Não
houve boleto.
Não
houve reunião.
Não
houve “depois eu vejo”.
Não
houve WhatsApp.
E,
principalmente, não houve tempo para aquela velha frase:
“Um dia eu mudo.”
O
dia chegou.
E
todos descobriram uma coisa extraordinária:
Deus
não precisava de senha.
A
RECEPÇÃO DO CÉU
No
Céu havia várias salas.
Uma
delas estava lotada.
Era
a sala dos salvos.
E
ali havia gente de todos os tipos.
Gente
que ninguém esperava.
Gente
que alguns juravam que jamais estaria ali.
E
gente que, durante a vida inteira, tinha sido utilizada como exemplo de “como
não ser”.
No
meio da multidão, alguém gritou:
—
Não acredito!
Outro
perguntou:
— O
quê?
—
Olha quem está ali!
E
apontou.
Era
Michael Jackson.
Mais
adiante:
Elvis
Presley.
Depois:
Raul
Seixas.
Mussum.
Bezerra
da Silva.
Luiz
Gonzaga.
Reginaldo
Rossi.
Cazuza.
Renato
Russo.
E
tantos outros artistas.
Alguns
conhecidos.
Outros
completamente desconhecidos na Terra.
E
havia cantores gospel também.
João.
José.
Maria.
Zito.
Lindomar.
Havia
gente simples.
Gente
anônima.
Gente
que nunca subiu em um púlpito.
Gente
que nunca teve microfone.
Gente
que nunca gravou um CD.
Gente
que nunca teve milhões de seguidores.
Mas
também havia uma coisa que deixou muita gente desconcertada:
alguns
famosos cantores gospel não estavam ali.
Estavam
em outra sala.
Diante
do Tribunal.
O
PRIMEIRO CURTO-CIRCUITO TEOLÓGICO
Foi
aquele momento em que a teologia de muita gente simplesmente travou.
Como
computador antigo.
Tela
azul.
Sistema
operacional da religião:
ERRO
404 — GRAÇA NÃO ENCONTRADA.
Um
homem perguntou:
—
Mas como assim?
O
anjo respondeu:
—
Como assim o quê?
—
Raul Seixas aqui?
—
Sim.
—
Elvis?
— Sim.
—
Mussum?
—
Sim.
—
Cazuza?
—
Sim.
O
homem começou a suar.
—
Mas eles não eram...
O
anjo completou:
— O
quê?
—
Você sabe...
—
Não. Quero ouvir você dizer.
—
Eles eram do mundo!
O
anjo ficou olhando.
— E
você?
O
homem ficou em silêncio.
—
Você nasceu onde?
— No
mundo.
—
Viveu onde?
— No
mundo.
—
Comeu onde?
— No
mundo.
—
Trabalhou onde?
— No
mundo.
— E
quando pecou?
O
homem abaixou a cabeça.
— No
mundo.
O
anjo sorriu:
—
Então talvez o problema nunca tenha sido estar no mundo.
A
RELIGIÃO ENTROU EM PÂNICO
O
problema é que algumas pessoas tinham passado a vida inteira construindo um Céu
imaginário.
Um
Céu com catraca.
Um
Céu com uniforme.
Um
Céu com crachá.
Um
Céu com código de vestimenta.
Um
Céu com departamento de fiscalização.
Um
Céu onde Deus ficava atrás do balcão perguntando:
—
Qual é a sua denominação?
—
Qual igreja?
—
Qual ministério?
—
Qual doutrina?
—
Qual versão bíblica?
—
Quantos jejuns?
—
Quantas campanhas?
—
Quantos cultos?
—
Quantos “glórias a Deus”?
—
Quantas almas você ganhou?
E,
depois de analisar a ficha, o funcionário celestial carimbava:
APROVADO.
Ou:
INDEFERIDO.
O
problema é que esse Céu nunca foi o Céu.
Era
apenas a projeção ampliada da nossa própria necessidade de controlar.
O
CÉU NÃO TINHA A NOSSA LISTA
Então
apareceu um grupo de religiosos indignados.
Um
deles gritou:
—
Deve haver algum engano!
O
anjo respondeu:
—
Qual?
—
Essas pessoas não poderiam estar aqui!
—
Por quê?
—
Porque não viveram como nós.
O
anjo perguntou:
— E
quem disse que “como vocês” era o padrão?
Ninguém
respondeu.
Então
ele abriu um livro.
Não
era o livro das regras humanas.
Era
o livro da vida.
E
disse:
—
Vocês cometeram um erro muito interessante.
—
Qual?
—
Confundiram santidade com aparência de santidade.
Silêncio.
—
Confundiram fé com performance.
Mais
silêncio.
—
Confundiram doutrina com transformação.
O
silêncio começou a ficar constrangedor.
—
Confundiram religião com Deus.
Agora
ninguém respirava direito.
O
EVANGELHO DOS QUE APONTAM O DEDO
Na
Terra, algumas pessoas tinham aprendido uma espécie de evangelho peculiar.
Era
simples.
Tinha
apenas três passos:
1.
Descobrir o pecado do outro.
2.
Condená-lo.
3.
Sentir-se melhor consigo mesmo.
Era
um evangelho extremamente barato.
Não
precisava de arrependimento.
Não
exigia autoconhecimento.
Não
provocava mudança interior.
Bastava
encontrar alguém pior.
E
pronto!
A
consciência dormia tranquila.
Era
uma espécie de analgésico espiritual.
Enquanto
eu encontro alguém para condenar, não preciso investigar aquilo que está
apodrecendo dentro de mim.
ENTÃO
APARECEU O ESPELHO
No
centro do Céu surgiu um espelho.
Mas
não refletia o rosto.
Refletia
a alma.
E aí
começou o verdadeiro problema.
O
homem que gritava:
—
Pecador!
viu
quantas vezes havia ferido pessoas.
A
mulher que dizia:
—
Deus abomina!
viu
quantas vezes havia sido incapaz de amar.
O
pregador que falava sobre humildade viu seu próprio orgulho.
O
especialista em pecado alheio viu seu próprio armário cheio de esqueletos.
O
homem que cantava sobre graça percebeu que não sabia perdoar.
E
aquele que nunca tinha cantado uma única música gospel apareceu diante do
espelho chorando porque havia passado a vida tentando fazer o bem sem receber
aplausos.
Foi
quando alguém perguntou:
—
Senhor, por que isso está acontecendo?
E
uma voz respondeu:
—
Porque vocês passaram a vida olhando para o espelho dos outros. Agora olhem
para o próprio.
ROMANOS
12:2 ENTROU NA SALA
Foi
então que alguém abriu as Escrituras.
E
apareceu aquela velha frase de Paulo:
“E
não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa
mente.”
Romanos
12:2.
E
talvez aqui esteja uma das grandes ironias da nossa história.
Passamos
anos pedindo que Deus mudasse o mundo.
Mas
Paulo falou de renovação da mente.
Queremos
um mundo novo.
Deus
começa falando:
“Renove
você.”
Queremos
que Deus transforme nossa família.
Ele
pergunta:
“E
você?”
Queremos
que Deus converta nosso vizinho.
Ele
pergunta:
“E
seu coração?”
Queremos
saber quem vai para o Céu.
Ele
pergunta:
“E
você está vivendo de modo coerente com aquilo que diz acreditar?”
A
MAIOR SURPRESA
Então
um homem perguntou ao anjo:
—
Afinal, qual foi a maior surpresa do Céu?
O
anjo respondeu:
—
Não foi descobrir que Raul Seixas estava aqui.
—
Nem Elvis?
—
Não.
—
Nem os Mamonas?
—
Também não.
—
Então qual foi?
O
anjo olhou para ele.
E
disse:
— A
maior surpresa foi descobrir que algumas pessoas que passaram a vida inteira
falando sobre Deus...
nunca
permitiram que Deus transformasse aquilo que havia dentro delas.
O
homem ficou imóvel.
O
anjo continuou:
— E
outra surpresa foi descobrir que algumas pessoas que vocês julgavam perdidas...
estavam
muito mais abertas à graça do que aqueles que se consideravam donos dela.
A
MORAL DA FÁBULA
Talvez
você esteja esperando que eu termine dizendo:
“E,
portanto, Raul Seixas foi salvo.”
Não.
Não
sei.
Eu
não estava lá.
Você
também não.
E,
sinceramente?
Ainda
bem.
Porque
se estivéssemos lá, provavelmente estaríamos tentando organizar a fila.
Eu
colocaria alguns na frente.
Você
colocaria outros.
Alguém
pediria prioridade.
Outro
procuraria um conhecido.
Um
terceiro tentaria falar com o responsável.
E
alguém certamente perguntaria:
—
Mas esse aqui entrou?
Porque
essa é uma das nossas especialidades:
queremos
administrar aquilo que Deus nunca nos entregou para administrar.
A
Bíblia diz:
«“Não
julgueis, para que não sejais julgados.”
Mateus
7:1»
E
logo depois Jesus fala do cisco no olho do outro e da trave no nosso.
Que
metáfora maravilhosa!
O
sujeito carregando uma madeireira inteira dentro do olho preocupado com um
cisco alheio.
É
quase uma piada.
Só
que é uma piada sobre nós.
E
AGORA, A PARTE QUE INCOMODA
Talvez
esta fábula não seja sobre quem está no Céu.
Talvez
seja sobre quem está dentro de nós.
Porque
existe um Raul Seixas imaginário que você condena.
Um Elvis que você rejeita.
Um
Cazuza que você não perdoa.
Um
pecador que você considera sem jeito.
Mas
talvez exista também, escondido dentro de você, algo que você não quer
enxergar.
Uma
arrogância.
Um
preconceito.
Uma
ferida.
Uma
mágoa.
Uma
inveja.
Uma
vaidade religiosa.
Uma
necessidade de aprovação.
Uma
máscara.
Um
ressentimento.
Um
pecado que você chama de “fraqueza”.
E o
pecado do outro você chama de:
“Falta
de Deus.”
Talvez
seja por isso que a verdadeira conversão seja tão difícil.
Porque
é muito mais confortável converter o outro do que permitir que Deus nos
converta.
NO
FINAL...
Quando
todas as vozes se calaram, um anjo passou entre as pessoas e disse:
—
Vocês podem continuar discutindo quem merece a graça...
Fez
uma pausa.
— Ou
podem finalmente compreender a graça.
E
saiu.
Na
parede ficou apenas uma frase:
“Cuide
da sua salvação.”
Não
da salvação do vizinho.
Não
da reputação espiritual do cantor.
Não
da aparência religiosa da família.
Não
da denominação.
Não
da lista dos “bons”.
Da
sua.
Porque
talvez a pergunta que deveria tirar nosso sono não seja:
“Será
que Raul Seixas foi para o Céu?”
Talvez
seja:
“O
que eu estou fazendo com a oportunidade que Deus me deu de transformar quem eu
sou?”
E
essa pergunta...
Essa
é muito mais perigosa.
Porque
não permite apontar o dedo.
Ela
obriga a olhar para dentro.
E,
quando olhamos para dentro de verdade, descobrimos que o maior milagre talvez
não seja Deus decidir quem entra no Céu.
Talvez
seja Deus conseguir entrar...
em
nós.
E
transformar uma mente endurecida.
Um
coração ferido.
Uma
fé arrogante.
Uma
religião sem amor.
Um
discurso sem prática.
Uma
vida que aprendeu a falar de Deus...
mas
ainda precisa aprender a parecer-se com aquilo que prega.
No
fim, talvez a maior surpresa do Céu não seja encontrar quem julgávamos indigno.
Talvez
seja descobrir que Deus nunca precisou da nossa autorização para exercer
misericórdia.
E
que, enquanto estávamos ocupados fazendo listas...
Ele
continuava olhando para pessoas.
Não
para rótulos.
Não
para currículos religiosos.
Não
para performances.
Para
pessoas.
Inclusive
para nós.
E
talvez seja justamente aí que começa a verdadeira preocupação:
não
com quem estará no Céu...
mas
com quem estamos nos tornando enquanto ainda estamos aqui.
Acimarley
Freitas