Psicologa Organizacional

20 de agosto de 2026

 




Uma empresa chamada “Família”

 

Certa vez, alguém me disse:

— Às vezes, tenho a impressão de que moro em uma empresa chamada família.

Eu ri.

Mas, depois, fiquei pensando.

Talvez seja exatamente assim que muitas famílias estejam funcionando.

Existe um setor financeiro: alguém paga as contas, alguém reclama dos gastos, alguém pergunta por que a fatura do cartão veio tão alta.

Existe o setor de recursos humanos: quem está cansado, quem está sobrecarregado, quem precisa de férias e quem já está pensando seriamente em pedir demissão.

Existe o setor de logística: levar filho para a escola, buscar, passar no supermercado, levar ao médico, resolver aquele problema que apareceu justamente no dia em que ninguém tinha tempo.

Existe o setor de alimentação: “O que vamos comer hoje?”

E existe uma pergunta que parece simples, mas pode provocar uma reunião extraordinária:

— Quem vai lavar a louça?

Na empresa chamada “Família”, todo mundo tem uma função.

Só que existe um pequeno problema:

algumas pessoas acumulam cargos demais.

Tem gente que é mãe, esposa, profissional, cozinheira, motorista, cuidadora, psicóloga, administradora, mediadora de conflitos e, quando sobra tempo, tenta lembrar quem ela mesma é.

Tem homem que também vive assim.

Trabalha o dia inteiro, resolve problemas, sustenta responsabilidades e chega em casa com a sensação de que o expediente terminou.

Mas, na verdade, começou o segundo turno.

Porque família não fecha às 18 horas.

Não tem feriado.

Não tem banco de horas.

E, infelizmente, algumas pessoas acreditam que amor é suficiente para manter essa empresa funcionando.

Não é.

Amor é fundamental.

Mas relacionamento precisa de parceria.

Uma família não deveria funcionar como uma empresa em que existe um diretor e vários funcionários.

Família deveria ser sociedade.

Sociedade afetiva.

Sociedade de responsabilidades.

Sociedade de sonhos.

Sociedade de cuidado.

O problema é que, às vezes, alguém vira o “funcionário do mês” durante anos.

Resolve tudo.

Organiza tudo.

Lembra de tudo.

Cuida de todos.

Até que um dia se cansa.

E quando finalmente diz:

— Eu não aguento mais.

A família se assusta.

Mas talvez a pergunta não devesse ser:

“Por que você está tão cansado?”

Talvez fosse:

“Por que deixamos você carregar tudo sozinho durante tanto tempo?”

Existe também outro detalhe curioso nessa empresa chamada família.

Todos querem receber benefícios.

Carinho.

Atenção.

Respeito.

Comida pronta.

Casa organizada.

Filhos bem cuidados.

Abraços.

Companhia.

Mas nem sempre todos querem participar da administração.

E relacionamento não sobrevive quando apenas uma pessoa trabalha para mantê-lo de pé.

Uma hora, a conta chega.

E não estou falando da conta de energia.

Estou falando da conta emocional.

Ela chega em forma de silêncio.

De irritação.

De distância.

De falta de desejo.

De conversas que deixam de existir.

De pessoas que moram na mesma casa, mas vivem em mundos completamente diferentes.

É quando alguém percebe que está casado, mas emocionalmente desempregado.

Ou pior:

trabalhando sozinho em uma empresa que deveria ter dois sócios.

Talvez precisemos rever o conceito de família.

Não é apenas dividir o mesmo endereço.

Não é apenas pagar contas juntos.

Não é apenas ter filhos.

Não é apenas postar fotografias bonitas nas redes sociais.

Família é também perguntar:

— Como você está?

E esperar a resposta.

É perceber o cansaço antes que ele vire exaustão.

É dividir tarefas sem transformar cada ajuda em favor.

É cuidar sem contabilizar.

É reconhecer que ninguém deveria precisar adoecer para finalmente ser ouvido.

Talvez a família seja a única empresa em que o lucro não pode ser medido em dinheiro.

O lucro está no abraço.

Na confiança.

Na segurança emocional.

Na infância dos filhos.

Na cumplicidade do casal.

Na sensação de chegar em casa e pensar:

“Aqui eu posso descansar. Aqui eu não preciso fingir.”

E talvez seja essa a grande diferença.

Uma empresa tradicional existe para produzir resultados.

Uma família deveria existir para produzir vínculos.

Porque, no final da vida, dificilmente alguém perguntará quantas reuniões participou, quantas horas extras fez ou quantos boletos pagou.

Talvez a pergunta seja outra:

“Você esteve presente na vida daqueles que amava?”

Por isso, de vez em quando, talvez seja necessário convocar uma reunião extraordinária da empresa chamada “Família”.

Sem planilhas.

Sem cobranças.

Sem discursos.

Apenas sentar ao redor da mesa e perguntar:

— Está todo mundo bem?

E, principalmente, ter coragem para ouvir quando alguém responder:

— Não.

Porque uma família saudável não é aquela que nunca tem problemas.

É aquela em que ninguém precisa enfrentar os problemas sozinho.

No fim das contas, talvez a família seja a empresa mais importante que construiremos na vida.

E seu maior patrimônio não é a casa, o carro ou o dinheiro no banco.

É aquilo que não aparece no balanço patrimonial:

o amor que conseguimos preservar enquanto a vida acontecia.

 

 

Acimarley Freitas

 


13 de agosto de 2026



Amo meus filhos, mas odeio ser mãe

 

Há frases que assustam porque parecem não combinar com aquilo que aprendemos a chamar de amor.

 

“Amo meus filhos, mas odeio ser mãe.”

 

Quando uma mulher pronuncia essa frase, quase sempre existe alguém pronto para julgá-la. Afinal, fomos ensinados a imaginar que a maternidade deveria ser sinônimo de realização, plenitude, entrega, instinto e felicidade permanente. A mãe deveria amar sem limites, cuidar sem reclamar, suportar sem se cansar e sorrir mesmo quando estivesse exausta.

 

Mas o ser humano não é feito de sentimentos puros.

 

Somos feitos de contradições.

 

E talvez uma das tarefas mais difíceis da existência seja aprender que sentimentos aparentemente opostos podem morar na mesma casa.

 

Uma mãe pode amar profundamente seus filhos e, ao mesmo tempo, sentir raiva da rotina, do excesso de responsabilidades, da perda de liberdade, da cobrança social, da solidão, do cansaço e da sensação de ter deixado partes de si mesma pelo caminho.

 

Ela pode olhar para uma criança dormindo e sentir uma ternura indescritível.

 

E, algumas horas antes, ter pensado:

 

“Eu não aguento mais.”

 

Isso não necessariamente é falta de amor.

 

Às vezes, é excesso de peso.

 

O amor não elimina a ambivalência

 

A Psicologia há muito tempo nos ensina que os afetos humanos são mais complexos do que as categorias “bom” e “ruim”.

 

Donald Winnicott, ao falar da experiência materna, rompeu com a fantasia da mãe perfeita. A própria ideia de uma “mãe suficientemente boa” já contém uma provocação: a criança não precisa de uma mãe idealizada, mas de uma pessoa real, limitada, humana, capaz de cuidar e também de reconhecer seus próprios limites.

 

A maternidade, portanto, não transforma uma mulher em santa.

 

Ela continua sendo mulher.

 

Continua tendo desejos, projetos, necessidades, frustrações, sexualidade, cansaço, sonhos, raiva, medo e necessidade de silêncio.

 

Carl Rogers nos ajudaria a olhar para essa experiência sem começar pelo julgamento. Antes de perguntar “que tipo de mãe pensa assim?”, talvez fosse necessário perguntar:

 

“Como é viver dentro dessa mulher?”

 

Essa pergunta muda tudo.

 

Porque, quando alguém consegue dizer “eu amo meus filhos, mas odeio ser mãe”, talvez esteja tentando comunicar algo muito mais profundo:

 

“Eu amo meus filhos, mas não estou suportando a maneira como estou vivendo a maternidade.”

 

E existe uma diferença enorme entre essas duas afirmações.

 

A sociedade também fabrica a culpa

 

A Sociologia nos permite ampliar o olhar.

 

A maternidade não acontece no vazio. Ela acontece dentro de uma sociedade que distribui papéis, expectativas e responsabilidades.

 

Durante séculos, muitas culturas ensinaram que cuidar seria naturalmente uma tarefa feminina. A mulher deveria administrar a casa, acompanhar os filhos, organizar a rotina, lembrar das consultas, preparar refeições, administrar emoções, conciliar trabalho e família e, ainda por cima, parecer feliz.

 

Quando alguma coisa dá errado, frequentemente a pergunta é:

 

“Cadê a mãe?”

 

Poucas vezes perguntamos:

 

“Cadê a rede de apoio?”

 

“Como está dividida a responsabilidade?”

 

“Quanto essa mulher dorme?”

 

“Quem cuida de quem cuida?”

 

É aqui que o problema deixa de ser exclusivamente individual.

 

Uma mulher pode estar sofrendo não porque “não nasceu para ser mãe”, mas porque está tentando cumprir sozinha uma função que deveria ser compartilhada por família, comunidade, políticas públicas e sociedade.

 

O sociólogo poderia nos lembrar que aquilo que parece uma experiência exclusivamente privada também pode possuir raízes sociais.

 

O sofrimento individual, muitas vezes, carrega marcas coletivas.

 

A Filosofia pergunta: quem disse que a maternidade deveria ser assim?

 

A Filosofia tem uma pergunta incômoda:

 

Quem escreveu o roteiro que estamos tentando seguir?

 

Quem determinou que uma boa mãe não pode desejar ficar sozinha?

 

Quem decidiu que amor verdadeiro não pode coexistir com irritação?

 

Quem decretou que cuidar significa desaparecer?

 

Talvez Simone de Beauvoir nos ajudasse a perceber que muitos papéis atribuídos às mulheres não são simplesmente “naturais”; são também construções históricas e culturais.

 

E talvez Sócrates nos lembrasse da importância de examinar aquilo que recebemos como verdade.

 

Se uma mulher diz:

 

“Eu amo meus filhos, mas odeio ser mãe”,

 

talvez a primeira atitude filosófica não seja condená-la.

 

Talvez seja perguntar:

 

O que exatamente ela chama de “ser mãe”?

 

Ela odeia os filhos?

 

Ou odeia não ter tempo para si?

 

Odeia cuidar?

 

Ou odeia cuidar sozinha?

 

Odeia a maternidade?

 

Ou odeia a expectativa de ser perfeita?

 

Odeia seus filhos?

 

Ou está simplesmente cansada?

 

Entre uma pergunta e outra existe um universo psicológico inteiro.

 

E a Teologia?

 

A Teologia também precisa aprender a lidar com a humanidade sem transformar toda contradição em pecado.

 

A Bíblia nunca apresentou seres humanos emocionalmente lineares.

 

Elias teve medo.

 

Davi chorou.

 

Jó questionou.

 

Jeremias lamentou.

 

Jesus, diante da dor, também experimentou angústia.

 

As Escrituras não escondem a dimensão vulnerável da existência.

 

Talvez porque a fé não seja a negação da humanidade.

 

Talvez seja justamente a possibilidade de encontrar sentido dentro dela.

 

Amar não significa nunca sentir raiva.

 

Ter fé não significa nunca questionar.

 

Ser mãe não significa nunca desejar fugir.

 

A maturidade espiritual talvez esteja menos em esconder sentimentos e mais em aprender a atravessá-los sem permitir que eles destruam aquilo que amamos.

 

Porque sentimento não é sentença.

 

Sentir não é necessariamente escolher.

 

Pensar não é necessariamente fazer.

 

Ter raiva não significa agredir.

 

Desejar silêncio não significa abandonar.

 

Sentir-se cansada não significa ser uma mãe ruim.

 

Mas também precisamos ter responsabilidade: quando o sofrimento é intenso, persistente e começa a comprometer o cuidado, a segurança, os vínculos ou a própria vida da mulher, não devemos romantizá-lo.

 

É preciso pedir ajuda.

 

O mistério dos afetos humanos

 

Talvez seja aqui que a linguagem encontre seus próprios limites.

 

A palavra “amor” parece pequena demais para explicar tudo aquilo que sentimos.

 

Amamos e nos irritamos.

 

Desejamos proximidade e, às vezes, precisamos de distância.

 

Queremos cuidar e, simultaneamente, queremos ser cuidados.

 

Sentimos gratidão e cansaço.

 

Ternura e raiva.

 

Orgulho e culpa.

 

Presença e vontade de desaparecer por algumas horas.

 

O ser humano é paradoxal.

 

E a literatura sempre soube disso.

 

Fernando Pessoa escreveu que o poeta é um fingidor, não porque necessariamente minta, mas porque a experiência humana é complexa demais para caber numa única expressão.

 

Talvez a maternidade também seja assim.

 

Existem mães felizes.

 

Existem mães exaustas.

 

Existem mães arrependidas.

 

Existem mães apaixonadas pelos filhos e profundamente frustradas com a própria experiência materna.

 

Existem mães que encontraram na maternidade um sentido.

 

E existem mulheres que amam seus filhos, mas sentem que perderam uma parte de si mesmas depois que se tornaram mães.

 

Tudo isso pode coexistir.

 

É normal?

 

A palavra “normal” precisa ser usada com cuidado.

 

Sentir ambivalência na maternidade é uma experiência humana possível e não transforma automaticamente uma mulher em alguém doente ou inadequado.

 

Mas “ser possível” não significa que todo sofrimento deva ser simplesmente suportado.

 

É preciso compreender sua intensidade, frequência, contexto e consequências.

 

É diferente dizer:

 

“Estou exausta e, às vezes, odeio essa rotina.”

 

de dizer:

 

“Não consigo mais estabelecer vínculo com meu filho, não encontro sentido na vida e tenho pensamentos persistentes de machucá-lo ou desaparecer.”

 

São experiências que exigem leituras e cuidados diferentes.

 

Por isso, a Psicologia Clínica não deveria entrar nessa história carregando um martelo para bater o carimbo de “normal” ou “anormal”.

 

Ela entra com escuta.

 

Com presença.

 

Com acolhimento.

 

Com responsabilidade.

 

E, principalmente, com perguntas.

 

A clínica não condena o afeto; ela o compreende

 

Na clínica psicológica, não precisamos começar dizendo:

 

“Você não pode sentir isso.”

 

Podemos começar dizendo:

 

“Vamos tentar compreender isso.”

 

Porque aquilo que é empurrado para a sombra frequentemente retorna de formas mais dolorosas.

 

A mulher que não pode dizer “estou cansada” talvez diga através do corpo.

 

A que não pode admitir raiva talvez transforme a raiva em culpa.

 

A que acredita precisar ser perfeita talvez viva permanentemente fracassando diante de um ideal impossível.

 

A que não encontra espaço para si pode começar a desejar desaparecer.

 

A Psicologia Clínica escuta, acolhe, provoca e ajuda a ressignificar.

 

Não para ensinar a mulher a amar aquilo que ela não consegue amar.

 

Mas para ajudá-la a compreender o que existe por trás daquilo que sente.

 

Talvez exista luto pela antiga identidade.

 

Talvez exista solidão.

 

Talvez exista sobrecarga.

 

Talvez exista uma história familiar marcada por modelos de maternidade dolorosos.

 

Talvez exista depressão, ansiedade ou outro sofrimento psíquico que precise de avaliação profissional.

 

Talvez exista simplesmente uma mulher que precisa, pela primeira vez, poder dizer:

 

“Eu também preciso de alguém cuidando de mim.”

 

Entre o amor e o limite

 

Talvez uma das maiores violências contra a maternidade seja transformar o amor em obrigação de perfeição.

 

Filhos não precisam de mães perfeitas.

 

Precisam de adultos suficientemente disponíveis, responsáveis, afetivos e capazes de reconhecer seus limites e reparar seus erros.

 

Uma mãe pode errar.

 

Pode pedir desculpas.

 

Pode precisar de ajuda.

 

Pode dizer “hoje não estou bem”.

 

Pode precisar de algumas horas sozinha.

 

Pode amar os filhos e desejar uma vida que não seja exclusivamente definida pela maternidade.

 

Isso não diminui necessariamente seu amor.

 

Talvez apenas devolva a ela uma coisa que jamais deveria ter perdido:

 

a condição de ser pessoa.

 

Porque antes de ser mãe, existe uma mulher.

 

E antes de ser mulher, existe um ser humano.

 

Com história.

 

Com desejos.

 

Com feridas.

 

Com sonhos.

 

Com contradições.

 

Com uma subjetividade que não desaparece quando nasce um filho.

 

Talvez a pergunta precise mudar

 

Talvez não devêssemos perguntar:

 

“Como uma mãe pode dizer que ama os filhos e odeia ser mãe?”

 

Talvez devêssemos perguntar:

 

“O que está acontecendo na vida dessa mulher para que amar seus filhos esteja convivendo com tanto sofrimento?”

 

Essa pergunta não absolve nem condena.

 

Ela compreende.

 

E compreender não significa concordar com tudo.

 

Compreender significa procurar a raiz antes de julgar o fruto.

 

A Psicologia nos ensina a escutar.

 

A Sociologia nos ensina a enxergar as estruturas.

 

A Filosofia nos ensina a questionar as certezas.

 

A Teologia nos convida a olhar para a fragilidade humana sem abandonar a esperança.

 

E as Letras nos lembram que, às vezes, uma única frase carrega uma biblioteca inteira de dores.

 

“Amo meus filhos, mas odeio ser mãe.”

 

Talvez essa frase não seja uma declaração de ausência de amor.

 

Talvez seja um pedido de socorro disfarçado de confissão.

 

Talvez seja uma mulher tentando separar duas coisas que a sociedade colocou dentro da mesma palavra:

 

ser mãe e deixar de ser ela mesma.

 

E talvez a verdadeira transformação comece quando alguém finalmente se senta ao lado dela sem escândalo, sem sermão, sem condenação e pergunta:

 

“Eu estou aqui. Pode me contar. O que exatamente você está vivendo?”

 

Porque, às vezes, o caminho para ressignificar um afeto não começa tentando mudá-lo.

 

Começa tendo coragem de escutá-lo.

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico e professor