Diálogo sobre a Existência
Por
Acimarley Freitas
Dizem
que, em algum lugar onde os relógios não fazem sentido e as pressas humanas não
encontram morada, três antigas companheiras resolveram se encontrar.
Sentaram-se à sombra de uma árvore tão velha quanto o primeiro sonho e tão jovem
quanto a esperança de uma criança.
Ali
estavam a Vida, a Dúvida e a Morte.
A
Vida chegou primeiro. Veio descalça, com os cabelos bagunçados pelo vento e as
mãos marcadas pelas experiências. Carregava risos, cicatrizes, fotografias
amareladas, amores que deram certo e outros que ensinaram a amar diferente.
Pouco
depois, apareceu a Dúvida.
Ninguém
a convidava para as festas, embora ela sempre acabasse chegando. Trazia consigo
uma mochila cheia de perguntas. Não tinha respostas prontas. Tinha olhos curiosos
e um jeito inquieto de olhar o horizonte.
Por
último, chegou a Morte.
Ao
contrário do que contavam sobre ela, não vestia preto. Também não carregava
foice ou ameaças. Tinha um semblante sereno e um silêncio que não assustava.
Parecia apenas alguém que conhecia o valor de cada segundo.
A
Vida sorriu.
—
Que bom que vocês vieram.
A
Dúvida foi a primeira a falar:
—
Nunca entendi por que as pessoas não gostam de mim. Quando apareço, tentam me
expulsar. Querem certezas, fórmulas, garantias. Mal sabem que fui eu quem
ensinou a humanidade a descobrir o fogo, atravessar oceanos e perguntar às
estrelas o que havia além do céu.
A
Vida concordou.
— É
verdade. Sem você, ninguém teria coragem de mudar de profissão, declarar um
amor, fazer uma oração ou começar de novo. Você é a mãe da curiosidade e a
companheira do crescimento.
A
Dúvida abaixou a cabeça.
Talvez
fosse a primeira vez que alguém lhe dizia isso.
Então
a Morte falou:
—
Comigo acontece algo parecido. Falam meu nome baixinho. Evitam pensar em mim.
Fingem que não existo. Mas, se eu não estivesse aqui, vocês já perceberam que a
Vida perderia parte do seu valor?
As
duas ficaram em silêncio.
A
Morte continuou:
— Se
tudo fosse eterno, quem abraçaria demoradamente os pais? Quem aproveitaria o
cheiro do café da manhã? Quem diria "eu te amo" antes de sair de
casa? A consciência de que o tempo é limitado faz do instante um presente.
A
Vida olhou para a amiga com ternura.
— Você
não é minha inimiga.
—
Nunca fui — respondeu a Morte. — Caminhamos juntas desde o primeiro suspiro.
A
Dúvida, curiosa, perguntou:
—
Então por que os seres humanos têm tanto medo de você?
A
Morte pensou por alguns instantes.
—
Talvez porque confundam fim com ausência. Talvez porque ainda não tenham
aprendido que perder faz parte de amar. Talvez porque o desconhecido sempre
desperte inquietação.
A
Vida segurou as mãos das duas.
—
Acho que o problema não está em nós. Está no desejo humano de controlar aquilo
que foi feito para ser vivido.
A
Dúvida sorriu.
— Eu
apareço para ensinar que nem tudo precisa ser compreendido de imediato.
A
Vida completou:
— Eu
existo para lembrar que cada dia é uma oportunidade.
E a
Morte concluiu:
— Eu
chego para recordar que nada do que foi amado é pequeno demais para ter valido
a pena.
O
vento passou pela árvore.
As
folhas dançaram como quem concordava com aquela conversa.
E,
por um instante, as três perceberam que eram menos diferentes do que
imaginavam.
A
Vida oferecia o caminho.
A
Dúvida ensinava a caminhar.
E a
Morte lembrava que nenhum passo deveria ser desperdiçado.
Talvez
a existência humana seja exatamente isso: um diálogo constante entre o que
vivemos, o que ainda não sabemos e aquilo que, inevitavelmente, um dia nos
convidará a descansar.
Enquanto
esse encontro não acontece, há pessoas para abraçar, sonhos para reconstruir,
lágrimas para secar, perdões para conceder e horizontes para descobrir.
A
Vida não pede perfeição.
A
Dúvida não exige respostas imediatas.
E a
Morte, curiosamente, talvez não queira ser lembrada como tragédia, mas como a
silenciosa professora que nos ensina a urgência do amor.
No
fim das contas, enquanto caminhava para casa, ouvi dizer que aquelas três
amigas chegaram a uma conclusão.
A
Vida olhou para a Dúvida e para a Morte e disse:
— O
ser humano passa tanto tempo tentando entender vocês que, às vezes, esquece de
me viver.
E as
três sorriram.
Porque
sabiam que a maior resposta para a existência nunca esteve nas certezas
absolutas, nem na negação das despedidas.
Talvez
ela esteja na coragem de acordar todas as manhãs, mesmo sem compreender todos
os mistérios, e ainda assim escolher amar, aprender e seguir adiante.
Afinal,
há perguntas que não foram feitas para serem respondidas.
Foram
feitas para nos ensinar a viver.