Psicologa Organizacional

20 de julho de 2026

 



Às vezes, a escola é o lugar mais seguro que eles têm

 

Há quem enxergue a escola apenas como um prédio. Salas, carteiras, quadro, livros, provas e boletins. Mas quem já caminhou pelos corredores da educação, quem já ouviu o silêncio de uma criança e a ausência de um adolescente, sabe que a escola é muito mais do que um espaço de aprendizagem. Ela é, muitas vezes, um lugar de sobrevivência.

 

Cada carteira vazia ou ocupada carrega uma história que raramente aparece na chamada.

 

Na primeira fila, senta a menina que aprendeu cedo demais que existem mãos que machucam, quando deveriam proteger.

 

Mais atrás, está o menino que só faz uma refeição completa quando atravessa o portão da escola. A merenda, para ele, não é um complemento; é esperança servida em um prato.

 

No canto da sala, quase invisível, está aquele que perdeu a mãe e ainda tenta entender como o mundo continua girando depois que a pessoa mais importante foi embora.

 

Há também quem chegue sonolento porque passou a noite ouvindo discussões, gritos e o som das garrafas quebrando. O álcool nunca entra sozinho em uma casa; frequentemente leva consigo o medo, a insegurança e o silêncio.

 

Outro estudante não consegue esconder a tristeza. O pai agride a mãe. E, sem perceber, ele aprende que a violência também deixa marcas em quem apenas assiste.

 

Existe aquela criança que nunca teve uma festa de aniversário. Nunca apagou uma vela. Nunca ouviu um coro desafinado cantando "Parabéns". Cresceu acreditando que celebrar a própria existência era um privilégio reservado aos outros.

 

E há quem carregue a dor mais silenciosa de todas: a de não se sentir amado.

 

Como psicólogo, aprendi que comportamento é linguagem. O aluno agitado pode estar gritando por socorro. O que dorme durante a aula talvez esteja exausto de uma noite sem paz. O que desafia o professor pode estar apenas testando se, finalmente, alguém permanecerá ao seu lado.

 

Como professor, aprendi que ensinar Filosofia não é apenas apresentar Platão, Aristóteles ou Kant. É ensinar um jovem a perguntar pelo sentido da própria existência, mesmo quando a vida parece ter lhe negado todas as respostas.

 

Educar é um ato profundamente humano.

 

Às vezes, uma palavra acolhedora vale mais do que uma aula perfeita. Um olhar atento pode impedir uma desistência. Um bom dia dito com sinceridade pode ser a única demonstração de afeto que um aluno receberá naquele dia.

 

Não conhecemos a batalha que cada estudante enfrenta antes de ocupar sua carteira. Por isso, antes de julgar a nota, o comportamento ou o silêncio, vale a pena lembrar que ninguém aprende plenamente quando está apenas tentando sobreviver.

 

A escola não pode resolver todos os problemas do mundo. Mas pode impedir que o mundo destrua completamente uma criança.

 

E talvez essa seja uma das missões mais nobres da educação: fazer com que cada aluno encontre, entre paredes de concreto, aquilo que tantas vezes lhe falta do lado de fora — segurança, respeito, esperança e a certeza de que sua vida tem valor.

 

Acimarley Freitas

Psicólogo, Professor de Filosofia


 


Atrás do Trio Elétrico, Só Não Vai Quem Já Morreu

 

Há frases que atravessam gerações. Elas sobrevivem ao tempo, às mudanças e até mesmo às rugas que, discretamente, a vida desenha em nosso rosto.

 

Outro dia, sem que eu esperasse, a Alexa resolveu tocar uma música qualquer. Bastaram os primeiros acordes, e lá estava ela, na voz de Bel Marques, ecoando uma das frases mais conhecidas do Carnaval da Bahia:

 

"Atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu."

 

Por alguns instantes, o tempo parou.

 

Fechei os olhos e me vi novamente nos anos 80. Um menino que cresceu ouvindo aquela canção. Depois, já adolescente, caminhando pelas micaretas de Vitória da Conquista, na Bahia. O coração acelerado, os amigos, a alegria espontânea, os sonhos ainda sem prazo para acontecer. Havia inocência. Havia descobertas. Havia uma vida inteira pela frente.

 

São lembranças que hoje fazem parte da minha memória afetiva. Memórias que o tempo não apaga; apenas transforma em saudade.

 

Então abri os olhos.

 

Hoje tenho cinquenta anos. Sou pai de Pedro e Augusto. Psicólogo, professor, escritor, filósofo. A juventude ficou para trás, mas a pergunta permaneceu viva dentro de mim.

 

O que essa frase significa agora?

 

Será que ela fala apenas do Carnaval?

 

Penso que não.

 

Hoje acredito que ela fala, sobretudo, da vida.

 

Porque o trio elétrico pode ser entendido como a própria existência, sempre em movimento. A vida não espera. Ela passa diante de nós todos os dias, convidando-nos a caminhar, a amar, a recomeçar, a cantar, a dançar, a criar novas histórias.

 

O trio representa a arte que nos emociona.

 

A música que nos desperta.

 

A dança que devolve leveza ao corpo.

 

A cultura que preserva nossas raízes.

 

Os encontros que alimentam a alma.

 

A esperança que insiste em nascer depois das maiores tempestades.

 

Mas também me pergunto...

 

Quantas pessoas estão respirando, porém deixaram de caminhar atrás do seu próprio trio?

 

Quantas continuam vivas biologicamente, mas perderam a alegria de existir?

 

A dor, o luto, a ansiedade, a depressão, as frustrações e as perdas, muitas vezes, silenciosamente, fazem com que alguém abandone o desfile da própria vida.

 

É uma espécie de morte que não aparece nos atestados de óbito.

 

É a morte da esperança.

 

A morte dos sonhos.

 

A morte da capacidade de sentir encanto.

 

Como psicólogo, aprendi que viver não é apenas manter o coração batendo. É preservar a capacidade de sentir. De se emocionar. De acreditar que ainda vale a pena.

 

Talvez seja esse o verdadeiro convite escondido naquela antiga canção.

 

Enquanto houver vida, ainda existe um trio passando diante de nós.

 

Talvez ele não tenha caixas de som gigantes.

 

Talvez não venha cercado por multidões.

 

Às vezes, ele chega na forma de um abraço inesperado, do sorriso de um filho, de uma conversa sincera, de um novo amanhecer, de um livro, de uma oração, de uma música tocada por acaso dentro de casa.

 

E, de repente, percebemos que ainda estamos vivos.

 

O tempo passou. Passará para todos nós.

 

Mas há algo que o tempo jamais conseguirá envelhecer: a capacidade humana de reencontrar sentido para viver.

 

Hoje, aquela velha frase do Carnaval já não me convida apenas para seguir um trio elétrico pelas ruas da Bahia.

 

Ela me convida a algo muito maior.

 

Convida-me a continuar seguindo a vida.

 

Porque, no fim das contas, morrer não é apenas deixar de existir.

 

Às vezes, a verdadeira morte acontece quando desistimos de caminhar.

 

E enquanto houver um motivo para amar, aprender, servir, sonhar e recomeçar, o trio continuará passando.

 

A pergunta que permanece não é se ele vai passar.

 

A pergunta é:

 

Você ainda está caminhando atrás do seu?

 

Acimarley Freitas


9 de julho de 2026

 

 


O lugar onde a alma recomeça

 

Há dias em que o silêncio faz mais perguntas do que o mundo inteiro.

 

Ele senta ao nosso lado, percorre os corredores da memória e abre gavetas que passamos anos tentando manter fechadas. Não para nos punir. Apenas para nos lembrar de que tudo aquilo que evitamos continua vivendo dentro de nós.

 

É curioso...

 

Passamos boa parte da vida tentando convencer os outros de quem somos, enquanto gastamos tão pouco tempo descobrindo quem realmente nos tornamos.

 

Há pessoas que envelhecem sem jamais se encontrarem.

 

Colecionam conquistas, acumulam diplomas, multiplicam bens, cercam-se de gente... e, ainda assim, carregam um vazio que nenhuma novidade consegue preencher. Não porque lhes falte alguma coisa, mas porque se afastaram da única companhia da qual nunca poderiam fugir: elas mesmas.

 

Talvez o maior cansaço não seja o excesso de trabalho.

 

Seja o peso de sustentar uma versão de si que já morreu por dentro.

 

E insistir em carregar o que já perdeu o sentido também é uma forma silenciosa de sofrimento.

 

O autoconhecimento não acontece quando encontramos respostas. Ele começa quando temos coragem de abandonar as perguntas erradas.

 

Não é "por que eu errei?".

 

É "o que esse erro revela sobre minhas necessidades, meus medos e minha história?"

 

Não é "como apago o passado?".

 

É "como permito que ele deixe de escrever o meu futuro?"

 

Existe uma diferença profunda entre viver preso ao que aconteceu e aprender com o que aconteceu.

 

A primeira escolha nos transforma em prisioneiros.

 

A segunda nos transforma em autores.

 

Somos ensinados a esconder nossas rachaduras, quando talvez fossem justamente elas que permitiriam a entrada da luz da consciência.

 

Ninguém amadurece negando a própria humanidade.

 

Crescemos quando deixamos de lutar contra quem somos e começamos, finalmente, a nos escutar.

 

Sem julgamento.

 

Sem condenação.

 

Sem a necessidade de sermos perfeitos para merecermos continuar.

 

A vida não pede perfeição.

 

Pede presença.

 

Porque toda transformação verdadeira nasce do encontro entre aquilo que sentimos e a coragem de não fugir desse sentimento.

 

Fechar ciclos nunca significou esquecer pessoas, lugares ou histórias.

 

Significa retirar deles o poder de decidir quem você será daqui para frente.

 

Ressignificar é devolver ao passado o lugar que lhe pertence: atrás de você.

 

Não como uma prisão.

 

Mas como uma estrada que, apesar dos desvios, trouxe você até aqui.

 

Há uma beleza que só aparece quando paramos de pedir licença para recomeçar.

 

Afinal, quem disse que você precisa continuar sendo a pessoa que precisou existir para sobreviver ontem?

 

A vida muda.

 

As dores mudam.

 

Os sonhos mudam.

 

E você também pode mudar.

 

Sem culpa.

 

Sem vergonha.

 

Sem carregar a obrigação de justificar cada passo dado em direção a si mesmo.

 

Talvez seja esse o encontro mais raro da existência: olhar para dentro e perceber que ainda existe vida onde você acreditava haver apenas ruínas.

 

Porque nenhuma estação permanece para sempre.

 

Depois do inverno, a árvore não pede desculpas por florescer.

 

Ela apenas floresce.

 

Quem sabe esteja aí a resposta que você tanto procura.

 

Não no desejo de voltar a ser quem era.

 

Mas na coragem de tornar-se quem sempre esteve esperando para nascer.

 

E talvez seja isso que chamamos de liberdade: quando o passado deixa de ser sentença, o presente deixa de ser culpa e o futuro volta, finalmente, a ser uma possibilidade.

 

Acimarley Freitas


2 de julho de 2026

 




A Gazeta das Ruas da Bahia

 

Um conto de caso sobre o dia em que a Bahia decidiu ser livre

 

Por Acimarley Freitas

 

Venham depressa!

 

Cheguem mais perto!

 

Fechem as portas para o vento não levar a notícia, porque o que vou contar não é conversa de viajante nem exagero de feira.

 

Aconteceu na Bahia.

 

E quem viu, jura que nunca esquecerá.

 

Era o segundo dia do mês de julho do ano de Nosso Senhor de 1823. Logo cedo, o sol nasceu diferente. Parecia saber que aquele não seria um dia qualquer.

 

As ruas de Salvador acordaram inquietas. O povo cochichava nas esquinas. Mulheres rezavam. Crianças corriam sem entender direito o motivo da agitação. Os sinos das igrejas pareciam tocar mais alto.

 

De um lado estavam as tropas portuguesas, decididas a manter o domínio sobre a província. Do outro, homens e mulheres que já não aceitavam viver sob ordens vindas do outro lado do oceano.

 

Não pensem que essa história foi escrita apenas por soldados.

 

Foi escrita também por gente simples.

 

Lavradores.

 

Pescadores.

 

Artesãos.

 

Padres.

 

Escravizados que sonhavam com dias mais justos.

 

Negros libertos.

 

Índios.

 

Mulheres que recusaram permanecer apenas observando as janelas da História.

 

Dizem que entre elas caminhava uma mulher de coragem imensa.

 

Chamava-se Maria Quitéria.

 

Vestiu-se como soldado para lutar pela liberdade da Bahia quando poucos acreditavam que uma mulher pudesse ocupar aquele lugar. Empunhou armas, enfrentou batalhas e mostrou que a coragem não escolhe gênero.

 

Também contam que outra heroína percorria os campos levando mantimentos, mensagens e esperança.

 

Era Maria Felipa, mulher negra da Ilha de Itaparica, que reuniu outras mulheres para enfrentar soldados portugueses. Há quem diga que usaram galhos de cansanção para surpreender os inimigos e incendiaram embarcações, impedindo o avanço das tropas.

 

E como esquecer da jovem abadessa Joana Angélica?

 

Quando soldados portugueses tentaram invadir o Convento da Lapa, ela colocou o próprio corpo diante da porta.

 

Pediu que respeitassem aquele lugar santo.

 

A resposta veio em forma de baioneta.

 

Seu sangue tornou-se um dos símbolos da resistência baiana.

 

Enquanto isso, o general francês Pierre Labatut, contratado para organizar o Exército Libertador, conduzia parte das tropas brasileiras. Ao lado dele lutavam inúmeros oficiais, voluntários e cidadãos comuns que acreditavam que a independência proclamada meses antes por Dom Pedro, às margens do Ipiranga, ainda precisava ser conquistada na Bahia.

 

Porque, vejam bem...

 

Embora o Brasil tivesse declarado sua independência em 7 de setembro de 1822, os portugueses permaneciam ocupando Salvador.

 

Era preciso libertar a Bahia para consolidar, de fato, a independência do país.

 

E foi então que aconteceu.

 

As tropas portuguesas embarcaram rumo à Europa.

 

O povo tomou as ruas.

 

Os abraços substituíram o medo.

 

As bandeiras tremularam.

 

Os sinos voltaram a tocar.

 

As vozes se misturavam em um só coro.

 

"A Bahia venceu!"

 

Quem passava pela praça dizia que nunca tinha visto tanta gente sorrindo ao mesmo tempo.

 

Havia lágrimas.

 

Havia cantorias.

 

Havia esperança.

 

Naquele instante, não era apenas uma cidade que respirava aliviada.

 

Era um povo inteiro que descobria o significado da palavra liberdade.

 

Desde então, todo dia 2 de Julho deixou de ser apenas uma data.

 

Transformou-se em memória viva.

 

Um lembrete de que a independência do Brasil não terminou às margens do riacho do Ipiranga.

 

Ela precisou ser defendida com coragem nas ruas, nos conventos, nos campos e nas águas da Bahia.

 

E assim encerro esta notícia, escrita às pressas para que ninguém diga, no futuro, que desconhecia o valor desse povo.

 

Porque há dias que passam.

 

Há dias que ficam registrados nos livros.

 

E há dias, como este, que permanecem para sempre na alma de uma nação.

 

Que nunca nos falte memória para honrar aqueles que fizeram da coragem o caminho da liberdade.

 

E que, sempre que o calendário anunciar o 2 de Julho, a Bahia continue lembrando ao Brasil que a independência também foi conquistada com o sotaque, a bravura e o coração do povo baiano.

 




Vicaricídio:

Quando a Violência Atinge a Alma Antes de Ferir o Corpo

 

Por Acimarley Freitas

 

Há dores que chegam fazendo barulho. Outras entram em silêncio, ocupam todos os cômodos da alma e fazem da própria casa um lugar de medo.

 

O vicaricídio nasce exatamente nesse território escuro.

 

Imagine alguém que descobre que não consegue mais controlar a pessoa que dizia amar. Então, decide atingir aquilo que ela mais ama. Os filhos. A família. Os animais de estimação. A reputação. Os sonhos. Tudo aquilo que possui valor afetivo passa a ser usado como arma.

 

Essa é a lógica da violência vicária.

 

Não é apenas provocar sofrimento. É destruir emocionalmente alguém utilizando terceiros como instrumentos de vingança.

 

O agressor sabe onde mora o amor. E é exatamente ali que ele dispara.

 

A vítima, muitas vezes, demora a perceber que vive esse tipo de violência. No início parecem pequenas manipulações.

 

"Se você me deixar, nunca mais verá seus filhos."

 

"Vou destruir sua vida."

 

"Ninguém vai acreditar em você."

 

"Você vai pagar pelo que fez."

 

As ameaças aumentam. O medo cresce. O isolamento aparece. A autoestima desaparece lentamente.

 

Até que um dia a vítima já não consegue distinguir onde termina o medo e onde começa a própria identidade.

 

O que é o vicaricídio?

 

O termo está relacionado à forma mais extrema da violência vicária, quando o agressor provoca a morte de filhos ou de pessoas profundamente amadas pela vítima com o objetivo de causar sofrimento psicológico irreparável. Em um sentido mais amplo, a violência vicária também inclui ameaças, manipulações e agressões dirigidas a pessoas ou seres pelos quais a vítima tem forte vínculo afetivo.

 

Como identificar?

 

Alguns sinais merecem atenção:

 

ameaças constantes envolvendo filhos ou familiares;

 

chantagem emocional;

 

perseguição após separação;

 

tentativa de afastar os filhos da mãe ou do pai por manipulação;

 

controle financeiro;

 

humilhações públicas;

 

destruição de objetos com valor sentimental;

 

agressões a animais de estimação;

 

comportamentos obsessivos e vingativos.

 

 

O que a legislação diz?

 

No Brasil, embora o termo "vicaricídio" ainda não possua um tipo penal específico, essas condutas podem ser enquadradas em diversos dispositivos legais, conforme o caso:

 

Lei Maria da Penha, quando caracterizada violência psicológica, moral, patrimonial ou física.

 

Crimes previstos no Código Penal, como ameaça, perseguição (stalking), lesão corporal, homicídio, sequestro, constrangimento ilegal e outros.

 

Medidas protetivas de urgência podem ser solicitadas para preservar a integridade da vítima e dos filhos.

 

 

Diversos países, como Espanha e México, têm discutido ou adotado medidas específicas para reconhecer e combater a violência vicária, ampliando a proteção às vítimas e às crianças.

 

Consequências psicológicas

 

Quem vive esse tipo de violência pode desenvolver:

 

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT);

 

ansiedade intensa;

 

depressão;

 

ataques de pânico;

 

insônia;

 

culpa excessiva;

 

medo constante;

 

isolamento social;

 

dificuldades em confiar nas pessoas;

 

ideação suicida em casos graves.

 

 

As crianças também podem apresentar prejuízos importantes no desenvolvimento emocional, escolar e social.

 

Como ajudar uma pessoa que está vivendo isso?

 

O primeiro passo não é dar conselhos.

 

É acreditar.

 

Escutar sem julgamento.

 

Acolher.

 

Orientar para que procure ajuda especializada.

 

Estimular o registro de provas, mensagens, gravações e testemunhas, quando possível e permitido pela legislação.

 

Buscar imediatamente apoio da rede de proteção, familiares confiáveis, assistência social, serviços de saúde, psicólogos, advogados e autoridades policiais sempre que houver risco.

 

Ninguém deveria enfrentar essa violência sozinho.

 

Tratamento

 

O tratamento deve ser individualizado.

 

A psicoterapia é considerada fundamental para reconstrução emocional, elaboração do trauma, fortalecimento da autoestima e recuperação da sensação de segurança. Abordagens baseadas em evidências, como terapias focadas no trauma, podem ser indicadas conforme cada caso.

 

Quando existem sintomas importantes de depressão, ansiedade, insônia ou TEPT, o psiquiatra poderá indicar farmacoterapia, utilizando antidepressivos, ansiolíticos ou outros medicamentos apropriados. A medicação trata sintomas; a psicoterapia ajuda a elaborar a experiência traumática e promover recuperação.

 

Quem é o agressor?

 

Não existe um perfil único.

 

Entretanto, muitos apresentam características como:

 

necessidade extrema de controle;

 

incapacidade de aceitar rejeição;

 

ciúme patológico;

 

manipulação;

 

baixa tolerância à frustração;

 

comportamento possessivo;

 

ausência ou redução da empatia;

 

desejo de vingança;

 

alternância entre sedução e agressividade;

 

tendência a responsabilizar sempre o outro pelos próprios atos.

 

 

É importante destacar que essas características não permitem diagnosticar um transtorno mental específico. Somente uma avaliação clínica especializada pode fazê-lo.

 

O vicaricídio talvez seja uma das formas mais cruéis de violência porque transforma o amor em instrumento de destruição.

 

Quem agride não procura justiça.

 

Procura sofrimento.

 

Por isso, reconhecer os primeiros sinais pode salvar vidas.

 

Se você conhece alguém que vive sob ameaças constantes, não minimize o problema. Muitas tragédias poderiam ter sido evitadas se alguém tivesse escutado, acreditado e oferecido ajuda no momento certo.

 

Que a sociedade aprenda a proteger antes de lamentar. Porque nenhuma pessoa deveria descobrir que amar alguém pode ser transformado, pelas mãos da violência, na sua maior fonte de dor.

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico

CRP – 04/54732