Amo meus filhos, mas odeio ser mãe
Há
frases que assustam porque parecem não combinar com aquilo que aprendemos a
chamar de amor.
“Amo meus filhos, mas odeio
ser mãe.”
Quando
uma mulher pronuncia essa frase, quase sempre existe alguém pronto para julgá-la.
Afinal, fomos ensinados a imaginar que a maternidade deveria ser sinônimo de
realização, plenitude, entrega, instinto e felicidade permanente. A mãe deveria
amar sem limites, cuidar sem reclamar, suportar sem se cansar e sorrir mesmo
quando estivesse exausta.
Mas
o ser humano não é feito de sentimentos puros.
Somos
feitos de contradições.
E
talvez uma das tarefas mais difíceis da existência seja aprender que
sentimentos aparentemente opostos podem morar na mesma casa.
Uma
mãe pode amar profundamente seus filhos e, ao mesmo tempo, sentir raiva da
rotina, do excesso de responsabilidades, da perda de liberdade, da cobrança
social, da solidão, do cansaço e da sensação de ter deixado partes de si mesma
pelo caminho.
Ela
pode olhar para uma criança dormindo e sentir uma ternura indescritível.
E,
algumas horas antes, ter pensado:
“Eu
não aguento mais.”
Isso
não necessariamente é falta de amor.
Às
vezes, é excesso de peso.
O
amor não elimina a ambivalência
A
Psicologia há muito tempo nos ensina que os afetos humanos são mais complexos
do que as categorias “bom” e “ruim”.
Donald
Winnicott, ao falar da experiência materna, rompeu com a fantasia da mãe
perfeita. A própria ideia de uma “mãe suficientemente boa” já contém uma provocação:
a criança não precisa de uma mãe idealizada, mas de uma pessoa real, limitada,
humana, capaz de cuidar e também de reconhecer seus próprios limites.
A
maternidade, portanto, não transforma uma mulher em santa.
Ela
continua sendo mulher.
Continua
tendo desejos, projetos, necessidades, frustrações, sexualidade, cansaço,
sonhos, raiva, medo e necessidade de silêncio.
Carl
Rogers nos ajudaria a olhar para essa experiência sem começar pelo julgamento.
Antes de perguntar “que tipo de mãe pensa assim?”, talvez fosse necessário
perguntar:
“Como
é viver dentro dessa mulher?”
Essa
pergunta muda tudo.
Porque,
quando alguém consegue dizer “eu amo meus filhos, mas odeio ser mãe”, talvez
esteja tentando comunicar algo muito mais profundo:
“Eu amo meus filhos, mas não estou
suportando a maneira como estou vivendo a maternidade.”
E
existe uma diferença enorme entre essas duas afirmações.
A
sociedade também fabrica a culpa
A
Sociologia nos permite ampliar o olhar.
A
maternidade não acontece no vazio. Ela acontece dentro de uma sociedade que
distribui papéis, expectativas e responsabilidades.
Durante
séculos, muitas culturas ensinaram que cuidar seria naturalmente uma tarefa
feminina. A mulher deveria administrar a casa, acompanhar os filhos, organizar
a rotina, lembrar das consultas, preparar refeições, administrar emoções,
conciliar trabalho e família e, ainda por cima, parecer feliz.
Quando
alguma coisa dá errado, frequentemente a pergunta é:
“Cadê a mãe?”
Poucas
vezes perguntamos:
“Cadê a rede de apoio?”
“Como está dividida a responsabilidade?”
“Quanto essa mulher dorme?”
“Quem cuida de quem cuida?”
É
aqui que o problema deixa de ser exclusivamente individual.
Uma
mulher pode estar sofrendo não porque “não nasceu para ser mãe”, mas porque
está tentando cumprir sozinha uma função que deveria ser compartilhada por
família, comunidade, políticas públicas e sociedade.
O
sociólogo poderia nos lembrar que aquilo que parece uma experiência
exclusivamente privada também pode possuir raízes sociais.
O
sofrimento individual, muitas vezes, carrega marcas coletivas.
A
Filosofia pergunta: quem disse que a maternidade deveria ser assim?
A
Filosofia tem uma pergunta incômoda:
Quem
escreveu o roteiro que estamos tentando seguir?
Quem
determinou que uma boa mãe não pode desejar ficar sozinha?
Quem
decidiu que amor verdadeiro não pode coexistir com irritação?
Quem
decretou que cuidar significa desaparecer?
Talvez
Simone de Beauvoir nos ajudasse a perceber que muitos papéis atribuídos às
mulheres não são simplesmente “naturais”; são também construções históricas e
culturais.
E
talvez Sócrates nos lembrasse da importância de examinar aquilo que recebemos
como verdade.
Se
uma mulher diz:
“Eu
amo meus filhos, mas odeio ser mãe”,
talvez
a primeira atitude filosófica não seja condená-la.
Talvez
seja perguntar:
O
que exatamente ela chama de “ser mãe”?
Ela
odeia os filhos?
Ou
odeia não ter tempo para si?
Odeia
cuidar?
Ou
odeia cuidar sozinha?
Odeia
a maternidade?
Ou
odeia a expectativa de ser perfeita?
Odeia
seus filhos?
Ou
está simplesmente cansada?
Entre
uma pergunta e outra existe um universo psicológico inteiro.
E a
Teologia?
A Teologia também precisa
aprender a lidar com a humanidade sem transformar toda contradição em pecado.
A
Bíblia nunca apresentou seres humanos emocionalmente lineares.
Elias
teve medo.
Davi
chorou.
Jó
questionou.
Jeremias
lamentou.
Jesus,
diante da dor, também experimentou angústia.
As
Escrituras não escondem a dimensão vulnerável da existência.
Talvez
porque a fé não seja a negação da humanidade.
Talvez
seja justamente a possibilidade de encontrar sentido dentro dela.
Amar
não significa nunca sentir raiva.
Ter
fé não significa nunca questionar.
Ser
mãe não significa nunca desejar fugir.
A
maturidade espiritual talvez esteja menos em esconder sentimentos e mais em
aprender a atravessá-los sem permitir que eles destruam aquilo que amamos.
Porque
sentimento não é sentença.
Sentir
não é necessariamente escolher.
Pensar
não é necessariamente fazer.
Ter
raiva não significa agredir.
Desejar
silêncio não significa abandonar.
Sentir-se
cansada não significa ser uma mãe ruim.
Mas
também precisamos ter responsabilidade: quando o sofrimento é intenso,
persistente e começa a comprometer o cuidado, a segurança, os vínculos ou a
própria vida da mulher, não devemos romantizá-lo.
É preciso
pedir ajuda.
O
mistério dos afetos humanos
Talvez
seja aqui que a linguagem encontre seus próprios limites.
A
palavra “amor” parece pequena demais para explicar tudo aquilo que sentimos.
Amamos
e nos irritamos.
Desejamos
proximidade e, às vezes, precisamos de distância.
Queremos
cuidar e, simultaneamente, queremos ser cuidados.
Sentimos
gratidão e cansaço.
Ternura
e raiva.
Orgulho
e culpa.
Presença
e vontade de desaparecer por algumas horas.
O
ser humano é paradoxal.
E a
literatura sempre soube disso.
Fernando
Pessoa escreveu que o poeta é um fingidor, não porque necessariamente minta,
mas porque a experiência humana é complexa demais para caber numa única
expressão.
Talvez
a maternidade também seja assim.
Existem
mães felizes.
Existem
mães exaustas.
Existem
mães arrependidas.
Existem
mães apaixonadas pelos filhos e profundamente frustradas com a própria
experiência materna.
Existem
mães que encontraram na maternidade um sentido.
E existem mulheres que amam seus filhos,
mas sentem que perderam uma parte de si mesmas depois que se tornaram mães.
Tudo
isso pode coexistir.
É
normal?
A
palavra “normal” precisa ser usada com cuidado.
Sentir
ambivalência na maternidade é uma experiência humana possível e não transforma
automaticamente uma mulher em alguém doente ou inadequado.
Mas
“ser possível” não significa que todo sofrimento deva ser simplesmente
suportado.
É
preciso compreender sua intensidade, frequência, contexto e consequências.
É
diferente dizer:
“Estou exausta e, às vezes,
odeio essa rotina.”
de
dizer:
“Não consigo mais estabelecer vínculo
com meu filho, não encontro sentido na vida e tenho pensamentos persistentes de
machucá-lo ou desaparecer.”
São
experiências que exigem leituras e cuidados diferentes.
Por
isso, a Psicologia Clínica não deveria entrar nessa história carregando um
martelo para bater o carimbo de “normal” ou “anormal”.
Ela entra com escuta.
Com presença.
Com acolhimento.
Com responsabilidade.
E, principalmente, com perguntas.
A
clínica não condena o afeto; ela o compreende
Na
clínica psicológica, não precisamos começar dizendo:
“Você
não pode sentir isso.”
Podemos
começar dizendo:
“Vamos tentar compreender
isso.”
Porque
aquilo que é empurrado para a sombra frequentemente retorna de formas mais
dolorosas.
A
mulher que não pode dizer “estou cansada” talvez diga através do corpo.
A
que não pode admitir raiva talvez transforme a raiva em culpa.
A
que acredita precisar ser perfeita talvez viva permanentemente fracassando
diante de um ideal impossível.
A
que não encontra espaço para si pode começar a desejar desaparecer.
A Psicologia Clínica escuta, acolhe,
provoca e ajuda a ressignificar.
Não
para ensinar a mulher a amar aquilo que ela não consegue amar.
Mas
para ajudá-la a compreender o que existe por trás daquilo que sente.
Talvez
exista luto pela antiga identidade.
Talvez
exista solidão.
Talvez
exista sobrecarga.
Talvez
exista uma história familiar marcada por modelos de maternidade dolorosos.
Talvez
exista depressão, ansiedade ou outro sofrimento psíquico que precise de
avaliação profissional.
Talvez
exista simplesmente uma mulher que precisa, pela primeira vez, poder dizer:
“Eu
também preciso de alguém cuidando de mim.”
Entre
o amor e o limite
Talvez
uma das maiores violências contra a maternidade seja transformar o amor em
obrigação de perfeição.
Filhos
não precisam de mães perfeitas.
Precisam
de adultos suficientemente disponíveis, responsáveis, afetivos e capazes de
reconhecer seus limites e reparar seus erros.
Uma
mãe pode errar.
Pode
pedir desculpas.
Pode
precisar de ajuda.
Pode
dizer “hoje não estou bem”.
Pode
precisar de algumas horas sozinha.
Pode
amar os filhos e desejar uma vida que não seja exclusivamente definida pela
maternidade.
Isso
não diminui necessariamente seu amor.
Talvez
apenas devolva a ela uma coisa que jamais deveria ter perdido:
a
condição de ser pessoa.
Porque
antes de ser mãe, existe uma mulher.
E
antes de ser mulher, existe um ser humano.
Com
história.
Com
desejos.
Com
feridas.
Com
sonhos.
Com
contradições.
Com
uma subjetividade que não desaparece quando nasce um filho.
Talvez
a pergunta precise mudar
Talvez
não devêssemos perguntar:
“Como
uma mãe pode dizer que ama os filhos e odeia ser mãe?”
Talvez
devêssemos perguntar:
“O
que está acontecendo na vida dessa mulher para que amar seus filhos esteja
convivendo com tanto sofrimento?”
Essa
pergunta não absolve nem condena.
Ela
compreende.
E
compreender não significa concordar com tudo.
Compreender
significa procurar a raiz antes de julgar o fruto.
A
Psicologia nos ensina a escutar.
A
Sociologia nos ensina a enxergar as estruturas.
A
Filosofia nos ensina a questionar as certezas.
A
Teologia nos convida a olhar para a fragilidade humana sem abandonar a
esperança.
E as
Letras nos lembram que, às vezes, uma única frase carrega uma biblioteca
inteira de dores.
“Amo
meus filhos, mas odeio ser mãe.”
Talvez
essa frase não seja uma declaração de ausência de amor.
Talvez seja um pedido de
socorro disfarçado de confissão.
Talvez
seja uma mulher tentando separar duas coisas que a sociedade colocou dentro da
mesma palavra:
ser
mãe e deixar de ser ela mesma.
E
talvez a verdadeira transformação comece quando alguém finalmente se senta ao
lado dela sem escândalo, sem sermão, sem condenação e pergunta:
“Eu estou aqui. Pode me contar. O que
exatamente você está vivendo?”
Porque,
às vezes, o caminho para ressignificar um afeto não começa tentando mudá-lo.
Começa tendo coragem de escutá-lo.
Acimarley
Freitas
Psicólogo
Clínico e professor
