Psicologa Organizacional

1 de julho de 2026

 

Pateta no Trânsito






O homem que mora atrás do volante

 

Há alguns dias, voltei a assistir ao antigo desenho do Pateta no trânsito.

 

Confesso que, desta vez, não enxerguei um desenho. Enxerguei pessoas.

 

Enxerguei a mim.

 

Enxerguei você.

 

É curioso como uma animação tão simples consegue dizer tanto sobre a natureza humana.

 

O Pateta caminha pelas ruas com leveza. Sorri para quem encontra, espera a sua vez, demonstra gentileza. Parece alguém que compreendeu que a vida fica melhor quando existe espaço para o outro.

 

Então ele entra no carro.

 

Nada muda por fora.

 

É o mesmo chapéu.

 

O mesmo rosto.

 

A mesma roupa.

 

Mas algo acontece por dentro.

 

A calma cede lugar à impaciência.

 

O sorriso desaparece.

 

A gentileza se perde entre a buzina, a pressa e o desejo de chegar primeiro.

 

Enquanto assistia, uma pergunta permaneceu comigo:

 

Será que o volante transforma as pessoas ou apenas revela aquilo que elas ainda não aprenderam a cuidar dentro de si?

 

Talvez o trânsito seja um dos lugares mais sinceros da vida.

 

Ali não dirigimos apenas um automóvel.

 

Dirigimos nossas emoções.

 

Levamos conosco o cansaço da semana, as preocupações da família, as palavras que ouvimos e ainda doem, as frustrações que insistimos em carregar.

 

O carro apenas nos acompanha.

 

Quem realmente conduz a viagem é aquilo que habita o nosso coração.

 

Tenho aprendido, ao longo dos anos, que quase nunca nos irritamos apenas com o motorista que fechou nossa passagem.

 

Na maioria das vezes, reagimos também a muitas outras coisas que já estavam dentro de nós.

 

O trânsito apenas encontra essas emoções pelo caminho.

 

Talvez seja por isso que sempre acreditei que a Psicologia do Trânsito fala muito menos sobre veículos do que sobre pessoas.

 

Antes de sermos motoristas, somos seres humanos.

 

Pessoas que também se cansam.

 

Que também choram.

 

Que também erram.

 

Que também desejam chegar em casa e encontrar um pouco de paz.

 

Quando esquecemos disso, deixamos de enxergar pessoas e passamos a enxergar apenas obstáculos.

 

O carro da frente deixa de ser alguém.

 

O pedestre vira um atraso.

 

O ciclista se transforma em um incômodo.

 

E, sem perceber, perdemos uma das coisas mais bonitas da convivência humana: a capacidade de reconhecer o outro como alguém tão importante quanto nós.

 

Talvez seja isso que mais me encanta na Abordagem Centrada na Pessoa.

 

Ela me recorda, todos os dias, que cada ser humano carrega uma história que eu desconheço.

 

Quem dirige devagar pode estar vivendo um dia difícil.

 

Quem demorou a arrancar no sinal talvez tenha recebido uma notícia que mudou sua vida.

 

Quem errou pode estar apenas tentando continuar.

 

Nós nunca sabemos.

 

E justamente porque não sabemos, a gentileza continua sendo uma das formas mais profundas de respeito.

 

No fim, percebi que aquele velho desenho nunca quis ensinar apenas educação no trânsito.

 

Ele quis nos lembrar de algo muito maior.

 

Existe um homem que mora atrás do volante.

 

Existe uma mulher atrás do volante.

 

Existe uma história.

 

Existe um coração.

 

Existe alguém lutando batalhas que os nossos olhos não conseguem ver.

 

Talvez o grande desafio não seja aprender a dirigir melhor.

 

Talvez seja aprender a continuar humano, mesmo quando a vida acelera.

 

Porque chegar alguns minutos antes raramente muda a nossa história.

 

Mas chegar com o coração em paz... isso muda tudo.

 

No trânsito e na vida, a direção mais segura continua sendo aquela guiada pela empatia.

                                         

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico e do Trânsito

CRP- 04/54732


17 de junho de 2026


 

O Poder Terapêutico da Oração

 

Há dias em que a vida parece falar alto demais.

 

São contas para pagar, notícias difíceis, saudades que apertam, medos que não têm nome e perguntas que insistem em permanecer sem resposta. Nessas horas, a alma faz o que pode. Uns choram. Outros se calam. Há quem caminhe sem destino, quem procure um amigo e quem coloque uma música para tocar.

 

E há quem ore.

 

Como psicólogo, já escutei muitas histórias. Algumas delas carregavam a certeza de que tudo estava perdido. Outras traziam a dor de quem havia tentado ser forte por tempo demais. Curiosamente, em muitos desses encontros, a oração aparecia não como uma obrigação religiosa, mas como um lugar de descanso.

 

Talvez porque a oração seja uma das poucas experiências da vida em que não precisamos fingir.

 

Podemos chegar diante de Deus sem maquiagem emocional.

 

Não é preciso parecer forte.

 

Não é necessário organizar as palavras.

 

Não há exigência de discursos bonitos.

 

A oração aceita lágrimas, silêncios e até revoltas.

 

Há pessoas que acreditam que orar é convencer Deus a fazer a nossa vontade. Com o passar dos anos, tenho pensado diferente. Talvez a oração tenha menos a ver com mudar os planos do céu e mais com reorganizar os nossos próprios sentimentos.

 

Enquanto falamos, vamos nos ouvindo.

 

Enquanto choramos, vamos nos acolhendo.

 

Enquanto esperamos, vamos descobrindo que ainda existe esperança.

 

A psicologia nos ensina que colocar emoções em palavras diminui o peso daquilo que carregamos. A espiritualidade, por sua vez, acrescenta uma dimensão ainda mais profunda: a sensação de que não estamos sozinhos na caminhada.

 

Não são poucos os pacientes que me dizem:

— Doutor, depois que orei, o problema continuou o mesmo, mas eu já não me sentia da mesma forma.

 

Essa frase sempre me faz refletir.

 

Talvez esse seja um dos maiores milagres da oração.

 

Ela nem sempre muda as circunstâncias imediatamente, mas pode mudar a maneira como atravessamos as circunstâncias.

 

A tempestade continua.

 

Mas o coração encontra abrigo.

 

O diagnóstico ainda existe.

 

Mas o medo perde um pouco da sua força.

 

A saudade permanece.

 

Mas a lembrança ganha um toque de gratidão.

 

É como se a oração acendesse uma pequena luz dentro da gente, lembrando que há caminhos que os olhos ainda não conseguem enxergar.

 

Penso também que a oração tem uma curiosa semelhança com o encontro terapêutico. Em ambos os espaços existe alguém disposto a ouvir. Na terapia, um ser humano oferece escuta, presença e acolhimento. Na oração, a fé nos convida a acreditar que existe um Deus atento até às palavras que nunca saíram da boca.

 

Talvez por isso o salmista tenha escrito que Deus recolhe as lágrimas.

 

Que imagem bonita.

 

Um Deus que não despreza o sofrimento, não apressa o luto e não diz que sentir é sinal de fraqueza.

 

Um Deus que permanece.

 

Vivemos em uma época em que quase tudo precisa ser rápido. Mensagens instantâneas, respostas imediatas, entregas no mesmo dia. Mas existem dores que não obedecem ao relógio e feridas que não cicatrizam com pressa.

 

A oração nos ensina a arte da espera.

 

Ela nos lembra que há processos que acontecem em silêncio, como a semente que cresce debaixo da terra antes de aparecer em forma de flor.

 

Talvez você esteja vivendo um desses dias difíceis.

 

Talvez tenha perdido alguém, recebido uma notícia inesperada, enfrentado uma crise familiar ou simplesmente acordado cansado da vida.

 

Se for assim, permita-se orar.

 

Não porque a oração seja uma fórmula mágica contra o sofrimento.

 

Mas porque ela pode ser um abraço quando ninguém souber o que dizer.

 

Pode ser um descanso quando as forças acabarem.

 

Pode ser uma ponte entre a sua dor e a esperança.

 

E, quem sabe, ao terminar sua oração, você descubra que Deus não retirou imediatamente o peso dos seus ombros.

 

Mas caminhou ao seu lado, ajudando você a carregá-lo.

 

E isso, para muitos corações cansados, já é uma forma profunda de cura.

 

Se esta crônica encontrou espaço no seu coração, compartilhe com alguém que talvez esteja precisando de um pouco de esperança hoje.

 

 Se você está atravessando um momento difícil, lembre-se: pedir ajuda, conversar e cuidar da saúde emocional também são formas de coragem e de fé.

 

 "Lancem sobre Ele toda a sua ansiedade, porque Ele tem cuidado de vocês." (1 Pedro 5:7).

11 de junho de 2026

 


Quando a Fé Encontra a Psicologia

 

Por Acimarley Freitas

Outro dia, enquanto aguardava minha vez em uma sala de espera, ouvi uma senhora contar uma história.

Ela falava baixo, como quem revela um segredo antigo.

Disse que, todas as noites, conversava com o marido, falecido havia alguns anos.

Não o via exatamente.

Também não o tocava.

Mas sentia sua presença.

Às vezes, dizia ela, era como um perfume conhecido.

Outras vezes, um sonho tão real que acordava com a sensação de ter compartilhado mais uma noite de conversa.

Uma jovem que estava próxima sorriu.

— Minha avó também dizia isso.

Um rapaz interrompeu:

— Isso é saudade.

Um senhor comentou:

— Isso é espiritualidade.

Outro respondeu:

— Isso é coisa da cabeça.

E, de repente, percebi que aquela pequena sala de espera havia se transformado em uma das maiores discussões da humanidade.

Afinal...

Quando a fé encontra a Psicologia, quem está certo?

Talvez a pergunta esteja errada.

Desde que o ser humano descobriu que existia, passou a olhar para aquilo que não conseguia explicar.

Os antigos olhavam para os trovões e enxergavam deuses.

Os povos indígenas conversavam com a floresta.

Os ancestrais africanos mantinham viva a memória dos que partiram.

As grandes religiões encontraram diferentes formas de compreender o sagrado.

Uma igreja pode chamar de dom espiritual.

Um centro espírita pode compreender como mediunidade.

Um terreiro pode interpretar como manifestação das entidades.

Um povo tradicional pode dizer que são os ancestrais caminhando entre os vivos.

E, curiosamente, todas essas experiências carregam algo em comum.

O desejo humano de encontrar sentido.

Talvez ninguém consiga viver muito tempo acreditando que o universo seja apenas um grande acidente sem significado.

Há perguntas que parecem morar dentro de nós desde o nascimento.

Por que estamos aqui?

O que existe depois da morte?

Existe algo maior do que nós?

Há uma alma?

Existe Deus?

Existe um mundo invisível?

A Filosofia faz perguntas.

A religião oferece caminhos.

A ciência investiga fenômenos.

E a Psicologia?

A Psicologia talvez faça algo muito bonito.

Ela escuta.

Escuta quem acredita.

Escuta quem duvida.

Escuta quem sofre.

Escuta quem busca respostas.

Talvez esse seja um de seus maiores desafios.

Nem transformar toda experiência espiritual em doença.

Nem explicar todo sofrimento humano apenas pelo sobrenatural.

Porque a vida parece ser mais complexa do que nossas teorias.

Penso em uma mãe que perdeu um filho e, durante alguns meses, sonha frequentemente com ele.

Penso em alguém que, durante uma oração, sente uma paz difícil de explicar.

Penso em uma pessoa que, em um ritual religioso, experimenta uma profunda transformação interior.

Essas experiências pertencem à humanidade.

Elas atravessam culturas, povos e séculos.

Mas também penso em alguém que vive atormentado por medos constantes.

Que se isola.

Que sofre.

Que deixa de viver.

Que sente sua realidade se desfazer diante dos próprios olhos.

Talvez essa pessoa precise de acolhimento.

Talvez precise da família.

Talvez precise da comunidade religiosa.

Talvez precise da Psicologia.

Talvez precise da Medicina.

Talvez precise de todas elas caminhando juntas.

Existe uma curiosidade sobre o ser humano.

Gostamos de escolher lados.

Ciência ou religião.

Razão ou fé.

Corpo ou alma.

Como se a existência fosse obrigada a caber em nossas divisões.

Mas a vida parece não gostar de fronteiras tão rígidas.

A mesma pessoa que frequenta uma universidade pode fazer uma oração antes de uma prova.

O médico pode agradecer a Deus por uma cirurgia bem-sucedida.

O psicólogo pode respeitar a espiritualidade de seu cliente.

O religioso pode reconhecer a importância dos cuidados com a saúde mental.

Talvez maturidade seja justamente isso.

Reconhecer que o outro pode enxergar o mundo por uma janela diferente da nossa.

Há alguns anos, conheci um velho jardineiro.

Enquanto cuidava das plantas, ele disse algo que nunca esqueci.

— Existem flores que gostam do Sol.

Existem flores que gostam da sombra.

Existem flores que precisam de muita água.

Existem flores que quase vivem da seca.

Mas todas continuam sendo flores.

Acho que as pessoas são parecidas.

Algumas encontram sentido na oração.

Outras na meditação.

Outras na ciência.

Outras na arte.

Outras ainda permanecem procurando.

E talvez a procura também seja uma forma de espiritualidade.

No fim daquela conversa na sala de espera, a senhora voltou a sorrir.

Alguém perguntou:

— A senhora acredita mesmo que conversa com seu marido?

Ela olhou para todos nós.

Pensou por alguns segundos.

E respondeu:

— Não sei explicar.

Só sei que, depois dessas conversas, meu coração fica em paz.

Ninguém respondeu.

Talvez porque existam perguntas que a ciência ainda investiga.

Perguntas que a religião contempla.

Perguntas que a Filosofia admira.

Perguntas que a Psicologia escuta.

E perguntas que simplesmente acompanham a condição humana.

Naquela noite, enquanto caminhava para casa, olhei para o céu.

As estrelas continuavam onde sempre estiveram.

Pensei nos livros.

Nas teorias.

Nas religiões.

Nos consultórios.

Nos templos.

Nos hospitais.

Nos terreiros.

Nas igrejas.

Nos centros espirituais.

Nas pessoas que acreditam.

Nas pessoas que duvidam.

E descobri uma pequena verdade que talvez sirva para todos nós.

Talvez a maior demonstração de inteligência não seja provar que estamos certos.

Talvez seja aprender a caminhar com humildade diante dos mistérios que ainda não compreendemos.

Porque, no fundo, a fé e a Psicologia talvez não sejam inimigas.

Talvez sejam duas viajantes encontrando-se na mesma estrada, tentando compreender o coração humano.

E quem sabe o maior mistério não esteja nas respostas que encontramos...

Mas na capacidade profundamente humana de continuar fazendo perguntas.

 


Estou Ansioso

 

 

Outro dia, enquanto esperava minha vez na fila do café, ouvi um rapaz falando ao telefone:

 

— Acho que estou ansioso.

 

A frase parecia simples. Hoje em dia, ela atravessa mesas de bar, corredores de escola, salas de espera, grupos de família e até comentários nas redes sociais. "Estou ansioso."

 

Fiquei pensando na força dessa pequena expressão.

 

Porque existe uma ansiedade que visita a gente como quem bate à porta para avisar que algo importante está para acontecer.

 

A criança que mal consegue dormir na véspera do aniversário.

 

O adolescente contando os dias para a formatura.

 

A jovem ajeitando a roupa antes da entrevista de emprego.

 

O pai esperando o nascimento do filho.

 

O estudante olhando para a porta da sala, minutos antes da prova.

 

O torcedor acompanhando os pênaltis de uma final de campeonato.

 

Há um coração acelerado que faz parte da própria aventura de estar vivo.

 

Talvez a vida tenha colocado essa inquietação dentro de nós como quem coloca vento nas velas de um barco. Sem ela, talvez não estudássemos, não amássemos, não sonhássemos, não saíssemos de casa em busca de novos caminhos.

 

Existe uma ansiedade que não é inimiga. É companheira das expectativas, das esperanças e dos encontros importantes da existência.

 

Mas há dias em que a história parece diferente.

 

A entrevista termina, e a inquietação continua.

 

A prova acaba, mas a mente não descansa.

 

O casamento acontece, o filho nasce, as férias chegam, o problema passa... e, ainda assim, o coração parece não receber a notícia de que o perigo foi embora.

 

É como um guarda de trânsito que continua apitando em uma rua completamente vazia.

 

E talvez seja aí que muita gente faça uma confusão.

 

Confundimos o estado de estar ansioso com a experiência de viver permanentemente em alerta.

 

Uma coisa é a chuva da tarde.

 

Outra é morar dentro de uma tempestade.

 

A sociedade moderna também parece ter dificuldade em perceber essa diferença.

 

Vivemos em um tempo em que tudo precisa ser urgente.

 

As mensagens chegam imediatamente.

 

As notícias correm mais rápido que o pensamento.

 

As redes sociais nos apresentam centenas de vidas aparentemente perfeitas antes mesmo do café da manhã.

 

Os aplicativos contam nossos passos, nosso sono, nossos batimentos e, às vezes, até nossos fracassos.

 

Parece que existe um cronômetro invisível dizendo:

 

"Corra. Você está atrasado."

 

Mas atrasado para quê?

 

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do nosso tempo.

 

Estamos correndo para conquistar sonhos ou para não sermos esquecidos?

 

Estamos vivendo nossos próprios calendários ou tentando acompanhar o relógio dos outros?

 

Talvez uma parte da nossa inquietação venha desse estranho costume de comparar o capítulo dois da nossa vida com o capítulo vinte da vida alheia.

 

E, no meio disso tudo, muitas pessoas carregam batalhas silenciosas que ninguém consegue enxergar.

 

Há quem diga "estou ansioso" querendo dizer apenas que está esperando uma boa notícia.

 

Há quem diga exatamente a mesma frase enquanto luta, todos os dias, contra um medo constante que parece não encontrar motivo para ir embora.

 

Nenhuma dessas experiências merece julgamento.

 

Nenhuma delas deveria ser motivo de vergonha.

 

Porque sentir faz parte da condição humana.