CARÊNCIA
Penia,
Deusa da Carência
Há palavras que carregam consigo uma história maior
do que o seu próprio tamanho.
Carência é uma delas.
Quando dizemos que alguém é carente, quase sempre
imaginamos uma pessoa que precisa demais: precisa de atenção, de afeto, de
reconhecimento, de companhia, de aprovação. Às vezes, falamos disso com certa
reprovação, como se sentir falta de alguma coisa fosse uma espécie de fraqueza
moral.
Mas e se
a carência não for simplesmente uma fraqueza?
E se,
antes de ser um defeito, ela for uma experiência profundamente humana?
É aqui que podemos encontrar Penia,
personagem da mitologia grega que aparece de maneira particularmente
interessante no Banquete, de Platão. E é importante fazer uma ressalva:
embora frequentemente seja chamada de “deusa da pobreza” ou “deusa da
carência”, neste texto nos interessa exclusivamente aquilo que sua figura
representa como falta, ausência, necessidade, privação e desejo.
Penia é, simbolicamente, aquilo que não temos.
Aquilo que sentimos faltar.
Aquilo que nos faz olhar para a vida e pensar:
“Eu preciso de alguma coisa que ainda não
encontrei.”
E talvez seja justamente aí que comece uma das
experiências mais profundas da existência humana.
1. A
carência não é apenas ter pouco
Quando ouvimos a palavra carência, geralmente
pensamos em ausência de alguma coisa concreta.
Falta dinheiro.
Falta comida.
Falta emprego.
Falta casa.
Falta saúde.
Falta companhia.
Falta amor.
Mas a carência não se limita àquilo que podemos
colocar em uma conta bancária ou medir em uma balança.
Existe uma carência que não aparece nos exames
laboratoriais.
É a
carência de reconhecimento.
A
carência de pertencimento.
A
carência de segurança.
A
carência de sentido.
A
carência de ser ouvido.
A
carência de sentir que a própria existência importa para alguém.
E aqui a Psicologia encontra uma antiga intuição
filosófica.
Décadas depois de Platão, diferentes teorias
psicológicas passaram a investigar as necessidades humanas e sua relação com a
motivação. Abraham Maslow, por exemplo, propôs que o comportamento humano está
relacionado a necessidades que podem envolver aspectos fisiológicos, segurança,
amor, estima e realização pessoal. Para ele, necessidades não satisfeitas podem
ocupar fortemente a vida psíquica e orientar o comportamento.
Em outras palavras:
aquilo que nos falta pode começar a organizar
aquilo que fazemos.
2. Penia:
a personificação da falta
No Banquete, Platão apresenta, por meio do
discurso de Diotima, uma narrativa simbólica sobre a origem de Eros.
Penia aparece como figura da necessidade e da
pobreza. Ela se aproxima de Poros, associado à disponibilidade de recursos,
caminhos e meios. Dessa união nasce Eros, que carregará em si características
contraditórias: de um lado, a falta; de outro, a capacidade de buscar aquilo
que falta.
Não precisamos, neste artigo, entrar nos inúmeros
atributos atribuídos a Eros.
Basta perceber uma coisa:
Eros nasce da carência.
E
isso é filosoficamente poderoso.
Porque significa que o desejo não nasce
necessariamente daquilo que possuímos.
O desejo nasce, muitas vezes, daquilo que
percebemos não possuir.
Platão coloca essa questão de maneira bastante
direta: desejamos aquilo que não temos, aquilo que nos falta ou aquilo que não
está presente.
Então talvez a carência não seja simplesmente o
vazio.
Talvez ela seja também o espaço onde nasce o
movimento.
3. O ser
humano é um ser que sente falta
Pense em uma criança.
Ela sente fome e procura alimento.
Sente medo e procura proteção.
Sente solidão e procura alguém.
Sente curiosidade e procura conhecimento.
Sente dor e procura cuidado.
Desde os primeiros momentos da vida, somos seres
orientados para aquilo que nos falta.
A teoria do apego, desenvolvida inicialmente por
John Bowlby e posteriormente ampliada por inúmeros pesquisadores, mostra como a
busca por proximidade e segurança ocupa um papel importante no desenvolvimento
humano. A criança procura a figura de apego especialmente diante do medo, da
ameaça ou da vulnerabilidade, utilizando essa relação como fonte de segurança e
como base para explorar o mundo.
Isso nos ensina algo muito simples:
precisar de alguém não é necessariamente sinal de
fraqueza.
É parte da condição humana.
O problema não está em precisar.
O problema começa quando acreditamos que precisar
nos torna inferiores.
4. Existe
uma diferença entre carência e fraqueza
Vivemos em uma sociedade que frequentemente
glorifica a autossuficiência.
“Eu não
preciso de ninguém.”
“Eu me
viro sozinho.”
“Não
dependo de ninguém.”
“Não
preciso de aprovação.”
“Não
preciso de carinho.”
À primeira vista, essas frases parecem demonstrar
força.
Mas, às vezes, podem esconder justamente o
contrário.
Porque uma pessoa pode aprender a dizer “não
preciso” quando, na verdade, passou a vida inteira aprendendo que
demonstrar necessidade era perigoso.
É importante não transformar isso em diagnóstico.
Nem
toda independência é defesa.
Nem
toda necessidade é saudável.
Nem toda
carência significa sofrimento psicológico.
Mas existe uma questão que merece nossa atenção:
o que fazemos com aquilo que nos falta?
Essa talvez seja uma pergunta mais importante do
que simplesmente perguntar:
“Do que você é carente?”
5. A
carência pode virar busca
Imagine uma pessoa que sente que não é reconhecida.
Ela pode transformar essa falta em uma busca
permanente por aplausos.
Pode trabalhar excessivamente.
Pode tentar agradar todo mundo.
Pode precisar constantemente ouvir:
“Você é
incrível.”
“Você é
importante.”
“Você é
especial.”
E, quando não recebe isso, sente novamente o vazio.
A busca tenta preencher a carência.
Mas nem sempre consegue.
É como beber água do mar quando se está com sede:
momentaneamente existe uma sensação de ingestão, mas a necessidade fundamental
não é verdadeiramente resolvida.
Por isso, precisamos compreender que satisfazer
uma necessidade não é necessariamente o mesmo que anestesiar uma falta.
A Psicologia da Autodeterminação, desenvolvida por
Edward Deci e Richard Ryan, identifica três necessidades psicológicas básicas
relacionadas ao funcionamento e ao bem-estar: autonomia, competência e
relacionamento/pertencimento. Quando essas necessidades são favorecidas,
tendem a contribuir para motivação e bem-estar; quando são frustradas, podem
ocorrer prejuízos motivacionais e psicológicos.
Portanto, não somos carentes apenas porque queremos
alguma coisa.
Somos seres humanos que precisam de condições
relacionais e psicológicas para florescer.
6.
Algumas carências não pedem pessoas; pedem compreensão
Existe uma armadilha perigosa:
acreditar que toda carência afetiva será resolvida
quando encontrarmos “a pessoa certa”.
Nem sempre.
Às vezes, alguém entra em um relacionamento
esperando que o outro resolva uma história que começou muito antes daquele
encontro.
Então a pessoa amada passa a carregar uma
responsabilidade impossível:
“Faça-me sentir suficiente.”
“Prove
que você não vai embora.”
“Diga
que me ama.”
“Demonstre
que eu sou importante.”
“Não
me decepcione.”
“Não
me abandone.”
E, pouco a pouco, o relacionamento deixa de ser
encontro e transforma-se em tratamento para uma falta que ninguém sozinho
consegue preencher.
É por isso que precisamos ter cuidado.
O outro pode oferecer afeto.
Pode oferecer presença.
Pode oferecer cuidado.
Pode caminhar conosco.
Mas
ninguém deveria ser obrigado a carregar sozinho o peso de construir nossa
autoestima, nosso sentido de existência ou nossa identidade.
7. A
carência também pode ser social
Existe ainda uma dimensão que não podemos ignorar.
Nem toda carência nasce dentro do indivíduo.
Algumas são produzidas pelas circunstâncias
sociais.
Uma pessoa que passa fome não está necessariamente
enfrentando uma “carência emocional”.
Uma criança que cresce sem acesso adequado à
educação enfrenta uma privação concreta.
Uma família que vive sem segurança, sem moradia
adequada ou sem condições mínimas de sobrevivência experimenta uma carência que
não pode ser reduzida à Psicologia individual.
É preciso ter cuidado para não psicologizar aquilo
que também é social.
Às vezes, o indivíduo não precisa simplesmente
“aprender a lidar com sua carência”.
Ele precisa de direitos, oportunidades,
políticas públicas, solidariedade e condições concretas de existência.
A
carência, portanto, pode ser psicológica, afetiva, material, social ou
existencial.
E cada uma exige uma forma diferente de
compreensão.
8. Penia
mora em muitos lugares
Penia pode estar naquele homem que trabalha todos
os dias, mas ainda sente que não conseguiu provar seu valor.
Pode estar na mulher que cuida de todos, mas não
sabe quem cuida dela.
Pode estar no adolescente que passa horas nas redes
sociais procurando alguma confirmação de que é aceito.
Pode estar no idoso que possui uma casa cheia de
objetos, mas uma agenda vazia de visitas.
Pode estar naquele profissional que conquistou
títulos, dinheiro e reconhecimento, mas continua perguntando silenciosamente:
“Será que eu sou suficiente?”
E pode estar naquele sujeito que sorri para todos
enquanto carrega, em segredo, uma falta que ninguém conhece.
A
carência nem sempre grita.
Às vezes, ela trabalha silenciosamente.
Ela aparece no excesso.
No controle.
Na necessidade de agradar.
Na dificuldade de ficar sozinho.
Na busca incessante por aprovação.
Na
incapacidade de dizer “não”.
No medo de ser abandonado.
Na necessidade de ser indispensável.
E, às vezes, aparece justamente naquela pessoa que
insiste:
“Eu não preciso de ninguém.”
9. O
perigo não está em sentir falta
Sentir falta faz parte da vida.
O problema surge quando transformamos a falta em
identidade.
“Eu
sou abandonado.”
“Eu
sou rejeitado.”
“Eu
não sou suficiente.”
“Ninguém
fica.”
“Ninguém
me ama.”
“Nunca
vou conseguir.”
Observe a diferença.
Uma coisa é dizer:
“Estou sentindo falta de amor.”
Outra, muito diferente, é concluir:
“Eu não sou digno de amor.”
A primeira frase descreve uma experiência.
A segunda transforma uma experiência em identidade.
E isso pode mudar completamente a maneira como uma
pessoa passa a enxergar a si mesma.
10. A
carência pode ensinar
Talvez seja aqui que a imagem de Penia se torne
mais interessante.
A carência nos incomoda.
Mas também pode nos ensinar.
Quem sente falta pode aprender a procurar.
Quem reconhece que não sabe pode aprender.
Quem percebe que precisa de ajuda pode pedir ajuda.
Quem reconhece a própria solidão pode construir
vínculos.
Quem percebe sua insegurança pode desenvolver
recursos.
Quem reconhece sua fragilidade pode descobrir que
vulnerabilidade não é sinônimo de incapacidade.
A carência pode ser uma professora difícil.
Mas professora.
Ela nos revela onde dói.
E aquilo que dói merece ser compreendido, não
necessariamente escondido.
11. Nem
toda falta precisa ser preenchida imediatamente
Existe uma cultura da urgência.
Sentiu solidão?
Arrume alguém.
Sentiu tristeza?
Distraia-se.
Sentiu vazio?
Compre alguma coisa.
Sentiu insegurança?
Procure aprovação.
Sentiu falta?
Substitua.
Mas
talvez algumas faltas precisem primeiro ser escutadas.
Nem todo vazio precisa ser imediatamente ocupado.
Alguns precisam ser compreendidos.
Porque, às vezes, corremos tanto para preencher o
espaço que nunca descobrimos por que ele estava vazio.
A psicoterapia pode justamente oferecer um espaço
de elaboração dessa experiência: não necessariamente para eliminar toda
carência, algo impossível para qualquer ser humano, mas para compreender como determinadas
necessidades aparecem, que significados receberam ao longo da história pessoal
e quais maneiras mais saudáveis existem de lidar com elas.
12.
Talvez a maturidade não seja deixar de precisar
Talvez maturidade não seja chegar ao ponto de dizer:
“Eu não preciso de ninguém.”
Talvez seja conseguir dizer:
“Eu preciso de algumas coisas, reconheço isso e sei
cuidar dessas necessidades sem transformar o outro em responsável pela minha
existência.”
Isso é diferente.
É mais humano.
Mais realista.
Mais saudável.
Precisar não diminui ninguém.
O que precisamos aprender é como precisar.
Como pedir.
Como receber.
Como oferecer.
Como estabelecer limites.
Como suportar algumas ausências.
Como construir vínculos.
Como desenvolver autonomia.
Como reconhecer aquilo que está sob nossa
responsabilidade e aquilo que pertence ao outro.
13. Penia
e o espelho humano
Talvez Penia seja interessante justamente porque
ela nos obriga a olhar para uma verdade que nem sempre gostamos de admitir:
somos incompletos.
Há coisas que não sabemos.
Há coisas que não conseguimos.
Há pessoas que precisamos.
Há momentos em que precisamos de ajuda.
Há perdas que nos atravessam.
Há feridas que não desaparecem apenas porque
decidimos ser fortes.
Há necessidades que retornam.
Há desejos que permanecem.
Há vazios que fazem parte da experiência de
existir.
E reconhecer isso não deveria produzir vergonha.
Deveria produzir humanidade.
CONCLUSÃO: O QUE FAZER COM A NOSSA PENIA?
Talvez a pergunta não seja:
“Como faço para nunca mais sentir carência?”
Mas:
“O que faço quando percebo que algo está faltando
em mim?”
Se falta afeto, posso aprender a construir
vínculos.
Se falta segurança, posso buscar proteção e apoio.
Se falta reconhecimento, posso investigar de onde
vem minha necessidade de validação.
Se falta pertencimento, posso procurar relações nas
quais exista reciprocidade.
Se falta autonomia, posso começar a escolher.
Se falta competência, posso aprender.
Se falta sentido, posso perguntar o que realmente
importa para mim.
Se existe uma carência antiga, posso procurar
compreendê-la em vez de simplesmente escondê-la.
E, quando necessário, posso pedir ajuda.
Porque pedir ajuda também é uma forma de
inteligência.
Talvez seja essa a grande lição escondida na figura
de Penia:
a carência não precisa ser o lugar onde terminamos.
Ela pode ser o lugar de onde começamos.
A falta pode gerar movimento.
O vazio pode gerar pergunta.
A pergunta pode gerar consciência.
A consciência pode gerar escolha.
E a escolha pode transformar uma existência.
No fundo, talvez todos carreguemos um pouco de
Penia.
Todos temos alguma falta.
Todos desejamos alguma coisa.
Todos, em algum momento, olhamos para a própria
vida e pensamos:
“Ainda falta alguma coisa.”
E talvez isso não seja uma condenação.
Talvez seja simplesmente a condição humana.
Porque enquanto houver algo que nos falte, haverá
também uma possibilidade de buscar.
E enquanto houver busca, ainda haverá caminho.
Penia representa a falta.
Mas a história humana começa justamente quando
temos coragem de olhar para aquilo que nos falta e perguntar:
“O que essa carência está tentando me dizer?”
Referências bibliográficas
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOWLBY,
John. Apego
e perda: volume 1 — Apego. Nova York: Basic Books, 1969/1982.
Título original: Attachment and Loss: Vol. 1. Attachment.
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Título original: The “What” and “Why” of Goal Pursuits: Human Needs
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WATERS,
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Título original: A Secure Base Script Perspective on Attachment:
Progress, Promise, and Prospects.
Acimarley
Freitas
Psicólogo Clínico | CRP-04/54732