Psicologa Organizacional

11 de junho de 2026

 


Quando a Fé Encontra a Psicologia

 

Por Acimarley Freitas

Outro dia, enquanto aguardava minha vez em uma sala de espera, ouvi uma senhora contar uma história.

Ela falava baixo, como quem revela um segredo antigo.

Disse que, todas as noites, conversava com o marido, falecido havia alguns anos.

Não o via exatamente.

Também não o tocava.

Mas sentia sua presença.

Às vezes, dizia ela, era como um perfume conhecido.

Outras vezes, um sonho tão real que acordava com a sensação de ter compartilhado mais uma noite de conversa.

Uma jovem que estava próxima sorriu.

— Minha avó também dizia isso.

Um rapaz interrompeu:

— Isso é saudade.

Um senhor comentou:

— Isso é espiritualidade.

Outro respondeu:

— Isso é coisa da cabeça.

E, de repente, percebi que aquela pequena sala de espera havia se transformado em uma das maiores discussões da humanidade.

Afinal...

Quando a fé encontra a Psicologia, quem está certo?

Talvez a pergunta esteja errada.

Desde que o ser humano descobriu que existia, passou a olhar para aquilo que não conseguia explicar.

Os antigos olhavam para os trovões e enxergavam deuses.

Os povos indígenas conversavam com a floresta.

Os ancestrais africanos mantinham viva a memória dos que partiram.

As grandes religiões encontraram diferentes formas de compreender o sagrado.

Uma igreja pode chamar de dom espiritual.

Um centro espírita pode compreender como mediunidade.

Um terreiro pode interpretar como manifestação das entidades.

Um povo tradicional pode dizer que são os ancestrais caminhando entre os vivos.

E, curiosamente, todas essas experiências carregam algo em comum.

O desejo humano de encontrar sentido.

Talvez ninguém consiga viver muito tempo acreditando que o universo seja apenas um grande acidente sem significado.

Há perguntas que parecem morar dentro de nós desde o nascimento.

Por que estamos aqui?

O que existe depois da morte?

Existe algo maior do que nós?

Há uma alma?

Existe Deus?

Existe um mundo invisível?

A Filosofia faz perguntas.

A religião oferece caminhos.

A ciência investiga fenômenos.

E a Psicologia?

A Psicologia talvez faça algo muito bonito.

Ela escuta.

Escuta quem acredita.

Escuta quem duvida.

Escuta quem sofre.

Escuta quem busca respostas.

Talvez esse seja um de seus maiores desafios.

Nem transformar toda experiência espiritual em doença.

Nem explicar todo sofrimento humano apenas pelo sobrenatural.

Porque a vida parece ser mais complexa do que nossas teorias.

Penso em uma mãe que perdeu um filho e, durante alguns meses, sonha frequentemente com ele.

Penso em alguém que, durante uma oração, sente uma paz difícil de explicar.

Penso em uma pessoa que, em um ritual religioso, experimenta uma profunda transformação interior.

Essas experiências pertencem à humanidade.

Elas atravessam culturas, povos e séculos.

Mas também penso em alguém que vive atormentado por medos constantes.

Que se isola.

Que sofre.

Que deixa de viver.

Que sente sua realidade se desfazer diante dos próprios olhos.

Talvez essa pessoa precise de acolhimento.

Talvez precise da família.

Talvez precise da comunidade religiosa.

Talvez precise da Psicologia.

Talvez precise da Medicina.

Talvez precise de todas elas caminhando juntas.

Existe uma curiosidade sobre o ser humano.

Gostamos de escolher lados.

Ciência ou religião.

Razão ou fé.

Corpo ou alma.

Como se a existência fosse obrigada a caber em nossas divisões.

Mas a vida parece não gostar de fronteiras tão rígidas.

A mesma pessoa que frequenta uma universidade pode fazer uma oração antes de uma prova.

O médico pode agradecer a Deus por uma cirurgia bem-sucedida.

O psicólogo pode respeitar a espiritualidade de seu cliente.

O religioso pode reconhecer a importância dos cuidados com a saúde mental.

Talvez maturidade seja justamente isso.

Reconhecer que o outro pode enxergar o mundo por uma janela diferente da nossa.

Há alguns anos, conheci um velho jardineiro.

Enquanto cuidava das plantas, ele disse algo que nunca esqueci.

— Existem flores que gostam do Sol.

Existem flores que gostam da sombra.

Existem flores que precisam de muita água.

Existem flores que quase vivem da seca.

Mas todas continuam sendo flores.

Acho que as pessoas são parecidas.

Algumas encontram sentido na oração.

Outras na meditação.

Outras na ciência.

Outras na arte.

Outras ainda permanecem procurando.

E talvez a procura também seja uma forma de espiritualidade.

No fim daquela conversa na sala de espera, a senhora voltou a sorrir.

Alguém perguntou:

— A senhora acredita mesmo que conversa com seu marido?

Ela olhou para todos nós.

Pensou por alguns segundos.

E respondeu:

— Não sei explicar.

Só sei que, depois dessas conversas, meu coração fica em paz.

Ninguém respondeu.

Talvez porque existam perguntas que a ciência ainda investiga.

Perguntas que a religião contempla.

Perguntas que a Filosofia admira.

Perguntas que a Psicologia escuta.

E perguntas que simplesmente acompanham a condição humana.

Naquela noite, enquanto caminhava para casa, olhei para o céu.

As estrelas continuavam onde sempre estiveram.

Pensei nos livros.

Nas teorias.

Nas religiões.

Nos consultórios.

Nos templos.

Nos hospitais.

Nos terreiros.

Nas igrejas.

Nos centros espirituais.

Nas pessoas que acreditam.

Nas pessoas que duvidam.

E descobri uma pequena verdade que talvez sirva para todos nós.

Talvez a maior demonstração de inteligência não seja provar que estamos certos.

Talvez seja aprender a caminhar com humildade diante dos mistérios que ainda não compreendemos.

Porque, no fundo, a fé e a Psicologia talvez não sejam inimigas.

Talvez sejam duas viajantes encontrando-se na mesma estrada, tentando compreender o coração humano.

E quem sabe o maior mistério não esteja nas respostas que encontramos...

Mas na capacidade profundamente humana de continuar fazendo perguntas.

 


Estou Ansioso

 

 

Outro dia, enquanto esperava minha vez na fila do café, ouvi um rapaz falando ao telefone:

 

— Acho que estou ansioso.

 

A frase parecia simples. Hoje em dia, ela atravessa mesas de bar, corredores de escola, salas de espera, grupos de família e até comentários nas redes sociais. "Estou ansioso."

 

Fiquei pensando na força dessa pequena expressão.

 

Porque existe uma ansiedade que visita a gente como quem bate à porta para avisar que algo importante está para acontecer.

 

A criança que mal consegue dormir na véspera do aniversário.

 

O adolescente contando os dias para a formatura.

 

A jovem ajeitando a roupa antes da entrevista de emprego.

 

O pai esperando o nascimento do filho.

 

O estudante olhando para a porta da sala, minutos antes da prova.

 

O torcedor acompanhando os pênaltis de uma final de campeonato.

 

Há um coração acelerado que faz parte da própria aventura de estar vivo.

 

Talvez a vida tenha colocado essa inquietação dentro de nós como quem coloca vento nas velas de um barco. Sem ela, talvez não estudássemos, não amássemos, não sonhássemos, não saíssemos de casa em busca de novos caminhos.

 

Existe uma ansiedade que não é inimiga. É companheira das expectativas, das esperanças e dos encontros importantes da existência.

 

Mas há dias em que a história parece diferente.

 

A entrevista termina, e a inquietação continua.

 

A prova acaba, mas a mente não descansa.

 

O casamento acontece, o filho nasce, as férias chegam, o problema passa... e, ainda assim, o coração parece não receber a notícia de que o perigo foi embora.

 

É como um guarda de trânsito que continua apitando em uma rua completamente vazia.

 

E talvez seja aí que muita gente faça uma confusão.

 

Confundimos o estado de estar ansioso com a experiência de viver permanentemente em alerta.

 

Uma coisa é a chuva da tarde.

 

Outra é morar dentro de uma tempestade.

 

A sociedade moderna também parece ter dificuldade em perceber essa diferença.

 

Vivemos em um tempo em que tudo precisa ser urgente.

 

As mensagens chegam imediatamente.

 

As notícias correm mais rápido que o pensamento.

 

As redes sociais nos apresentam centenas de vidas aparentemente perfeitas antes mesmo do café da manhã.

 

Os aplicativos contam nossos passos, nosso sono, nossos batimentos e, às vezes, até nossos fracassos.

 

Parece que existe um cronômetro invisível dizendo:

 

"Corra. Você está atrasado."

 

Mas atrasado para quê?

 

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do nosso tempo.

 

Estamos correndo para conquistar sonhos ou para não sermos esquecidos?

 

Estamos vivendo nossos próprios calendários ou tentando acompanhar o relógio dos outros?

 

Talvez uma parte da nossa inquietação venha desse estranho costume de comparar o capítulo dois da nossa vida com o capítulo vinte da vida alheia.

 

E, no meio disso tudo, muitas pessoas carregam batalhas silenciosas que ninguém consegue enxergar.

 

Há quem diga "estou ansioso" querendo dizer apenas que está esperando uma boa notícia.

 

Há quem diga exatamente a mesma frase enquanto luta, todos os dias, contra um medo constante que parece não encontrar motivo para ir embora.

 

Nenhuma dessas experiências merece julgamento.

 

Nenhuma delas deveria ser motivo de vergonha.

 

Porque sentir faz parte da condição humana.

 



 

Diálogo sobre a Existência

 

Por Acimarley Freitas

 

Dizem que, em algum lugar onde os relógios não fazem sentido e as pressas humanas não encontram morada, três antigas companheiras resolveram se encontrar. Sentaram-se à sombra de uma árvore tão velha quanto o primeiro sonho e tão jovem quanto a esperança de uma criança.

 

Ali estavam a Vida, a Dúvida e a Morte.

 

A Vida chegou primeiro. Veio descalça, com os cabelos bagunçados pelo vento e as mãos marcadas pelas experiências. Carregava risos, cicatrizes, fotografias amareladas, amores que deram certo e outros que ensinaram a amar diferente.

 

Pouco depois, apareceu a Dúvida.

 

Ninguém a convidava para as festas, embora ela sempre acabasse chegando. Trazia consigo uma mochila cheia de perguntas. Não tinha respostas prontas. Tinha olhos curiosos e um jeito inquieto de olhar o horizonte.

 

Por último, chegou a Morte.

 

Ao contrário do que contavam sobre ela, não vestia preto. Também não carregava foice ou ameaças. Tinha um semblante sereno e um silêncio que não assustava. Parecia apenas alguém que conhecia o valor de cada segundo.

 

A Vida sorriu.

 

— Que bom que vocês vieram.

 

A Dúvida foi a primeira a falar:

 

— Nunca entendi por que as pessoas não gostam de mim. Quando apareço, tentam me expulsar. Querem certezas, fórmulas, garantias. Mal sabem que fui eu quem ensinou a humanidade a descobrir o fogo, atravessar oceanos e perguntar às estrelas o que havia além do céu.

 

A Vida concordou.

 

— É verdade. Sem você, ninguém teria coragem de mudar de profissão, declarar um amor, fazer uma oração ou começar de novo. Você é a mãe da curiosidade e a companheira do crescimento.

 

A Dúvida abaixou a cabeça.

 

Talvez fosse a primeira vez que alguém lhe dizia isso.

 

Então a Morte falou:

 

— Comigo acontece algo parecido. Falam meu nome baixinho. Evitam pensar em mim. Fingem que não existo. Mas, se eu não estivesse aqui, vocês já perceberam que a Vida perderia parte do seu valor?

 

As duas ficaram em silêncio.

 

A Morte continuou:

 

— Se tudo fosse eterno, quem abraçaria demoradamente os pais? Quem aproveitaria o cheiro do café da manhã? Quem diria "eu te amo" antes de sair de casa? A consciência de que o tempo é limitado faz do instante um presente.

 

A Vida olhou para a amiga com ternura.

 

— Você não é minha inimiga.

 

— Nunca fui — respondeu a Morte. — Caminhamos juntas desde o primeiro suspiro.

 

A Dúvida, curiosa, perguntou:

 

— Então por que os seres humanos têm tanto medo de você?

 

A Morte pensou por alguns instantes.

 

— Talvez porque confundam fim com ausência. Talvez porque ainda não tenham aprendido que perder faz parte de amar. Talvez porque o desconhecido sempre desperte inquietação.

 

A Vida segurou as mãos das duas.

 

— Acho que o problema não está em nós. Está no desejo humano de controlar aquilo que foi feito para ser vivido.

 

A Dúvida sorriu.

 

— Eu apareço para ensinar que nem tudo precisa ser compreendido de imediato.

 

A Vida completou:

 

— Eu existo para lembrar que cada dia é uma oportunidade.

 

E a Morte concluiu:

 

— Eu chego para recordar que nada do que foi amado é pequeno demais para ter valido a pena.

 

O vento passou pela árvore.

 

As folhas dançaram como quem concordava com aquela conversa.

 

E, por um instante, as três perceberam que eram menos diferentes do que imaginavam.

 

A Vida oferecia o caminho.

 

A Dúvida ensinava a caminhar.

 

E a Morte lembrava que nenhum passo deveria ser desperdiçado.

 

Talvez a existência humana seja exatamente isso: um diálogo constante entre o que vivemos, o que ainda não sabemos e aquilo que, inevitavelmente, um dia nos convidará a descansar.

 

Enquanto esse encontro não acontece, há pessoas para abraçar, sonhos para reconstruir, lágrimas para secar, perdões para conceder e horizontes para descobrir.

 

A Vida não pede perfeição.

 

A Dúvida não exige respostas imediatas.

 

E a Morte, curiosamente, talvez não queira ser lembrada como tragédia, mas como a silenciosa professora que nos ensina a urgência do amor.

 

No fim das contas, enquanto caminhava para casa, ouvi dizer que aquelas três amigas chegaram a uma conclusão.

 

A Vida olhou para a Dúvida e para a Morte e disse:

 

— O ser humano passa tanto tempo tentando entender vocês que, às vezes, esquece de me viver.

 

E as três sorriram.

 

Porque sabiam que a maior resposta para a existência nunca esteve nas certezas absolutas, nem na negação das despedidas.

 

Talvez ela esteja na coragem de acordar todas as manhãs, mesmo sem compreender todos os mistérios, e ainda assim escolher amar, aprender e seguir adiante.

 

Afinal, há perguntas que não foram feitas para serem respondidas.

 

Foram feitas para nos ensinar a viver.