Psicologa Organizacional

27 de agosto de 2026

 


Quando o silêncio de um adolescente começa a pedir socorro

 

Havia alguma coisa diferente nele.

Não era apenas tristeza.

Era um silêncio que chegava antes dele.

A mãe percebeu primeiro. O quarto permanecia fechado por mais tempo. O celular já não parecia suficiente para distraí-lo. Os amigos começaram a desaparecer da rotina. As notas, antes razoáveis, começaram a cair. E aquilo que ele gostava de fazer já não despertava o mesmo brilho.

— É adolescência — alguém disse.

Talvez fosse.

Mas talvez não fosse apenas isso.

A adolescência é uma travessia. O corpo muda, a identidade começa a ser reconstruída, as relações ganham novos significados e perguntas que antes não existiam começam a ocupar espaço dentro da cabeça:

Quem sou eu?

Onde pertenço?

Será que sou bom o bastante?

Alguém realmente me entende?

É justamente nesse território de tantas transformações que a depressão pode aparecer.

E existe um problema: nem sempre a depressão adolescente se apresenta com lágrimas.

Às vezes, ela chega vestida de irritação.

Às vezes, de isolamento.

Às vezes, de preguiça.

Às vezes, de excesso de sono.

Às vezes, de noites inteiras acordado.

Às vezes, de uma queda inexplicável no rendimento escolar.

E, às vezes, chega escondida atrás de uma frase aparentemente simples:

— Tanto faz.

Mas talvez não seja “tanto faz”.

Talvez seja:

“Eu não sei mais como explicar o que está acontecendo comigo.”

A depressão não é falta de força de vontade.

Também não é frescura.

E não significa que o adolescente seja fraco.

Ela pode afetar pensamentos, emoções, corpo, comportamento, relações familiares, amizades, estudos e até a maneira como ele imagina o próprio futuro.

Um adolescente deprimido pode olhar para a própria vida e enxergar apenas portas fechadas.

Pode perder o prazer por aquilo que antes fazia sentido.

Pode sentir-se inútil.

Pode acreditar que é um problema para a família.

Pode pensar que ninguém compreenderia.

E talvez seja justamente por isso que precisamos aprender a fazer perguntas diferentes.

Em vez de:

— Por que você está assim?

Talvez seja melhor:

— O que está acontecendo com você?

Em vez de:

— Você tem tudo e ainda reclama?

Talvez:

— Eu percebi que você mudou. Quer conversar comigo?

Porque existe uma diferença enorme entre julgar um comportamento e compreender um sofrimento.

A Psicologia nos ensina que aquilo que aparece do lado de fora nem sempre revela aquilo que está acontecendo por dentro.

Um adolescente irritado pode estar triste.

Um adolescente isolado pode estar pedindo aproximação.

Um adolescente que perdeu o interesse pode estar emocionalmente esgotado.

E aquele que responde “não sei” talvez realmente não saiba explicar.

Por isso, escutar é tão importante.

Escutar sem transformar imediatamente cada frase em sermão.

Escutar sem comparar.

Escutar sem dizer:

— Na minha época era muito pior.

A dor não deixa de ser dor porque outra pessoa sofreu mais.

Cada pessoa vive sua própria experiência.

Mas compreender não significa diagnosticar.

Nem toda tristeza é depressão.

Nem toda irritabilidade é transtorno.

Nem toda queda escolar significa doença.

É preciso olhar para a duração, intensidade, frequência, contexto e prejuízo que os sintomas estão causando.

É preciso investigar.

É preciso diferenciar.

Às vezes, aquilo que parece depressão pode estar relacionado à ansiedade, ao bullying, a dificuldades de aprendizagem, ao TDAH, ao autismo, ao luto, a conflitos familiares, ao trauma, ao uso de substâncias ou até a uma condição médica.

E existe uma investigação especialmente importante:

o transtorno bipolar.

Antes de concluir que alguém apresenta um quadro depressivo, o profissional precisa compreender toda a história daquela pessoa.

Porque diagnóstico não é simplesmente marcar sintomas em uma lista.

Diagnóstico é compreender uma história.

E tratamento também não é uma receita pronta.

Para alguns adolescentes, a psicoterapia será fundamental.

Para outros, poderá ser necessária uma avaliação psiquiátrica.

Em determinados casos, o psiquiatra poderá indicar medicação.

Em outros, a psicoterapia e as intervenções psicossociais poderão ocupar papel central.

E há algo que também pode fazer diferença: movimento.

Caminhar.

Correr.

Praticar esporte.

Dançar.

Tocar um instrumento.

Sair de casa.

Encontrar um amigo.

Voltar, aos poucos, a fazer alguma coisa que um dia trouxe prazer.

Não porque exercício ou música sejam uma “cura mágica”.

Mas porque o ser humano precisa de corpo, vínculo, rotina, experiência e significado.

Às vezes, a recuperação começa com uma pequena mudança.

Uma caminhada.

Uma conversa.

Uma consulta.

Uma sessão de terapia.

Uma noite melhor de sono.

Um adulto que finalmente percebeu.

Uma mãe que parou de cobrar e começou a escutar.

Um pai que deixou de perguntar “o que você tem?” e passou a dizer:

Eu estou aqui.

Talvez seja essa uma das coisas mais importantes que uma família pode oferecer.

Presença.

Não a presença que vigia.

A presença que acompanha.

Não a presença que controla.

A presença que protege.

Não a presença que exige explicações imediatas.

A presença que diz:

“Você não precisa enfrentar isso sozinho.”

E existe uma parte dessa conversa que não pode ser escondida.

Quando um adolescente fala sobre morte, desaparecimento, vontade de morrer ou desejo de machucar a si mesmo, não é hora de discutir se aquilo é exagero.

É hora de levar a sério.

É hora de aproximar.

É hora de procurar ajuda profissional e garantir segurança.

Porque algumas frases são pedidos de socorro que chegam disfarçados.

E talvez uma das maiores responsabilidades de quem cuida de um adolescente seja aprender a ouvir aquilo que ele ainda não conseguiu dizer claramente.

A depressão pode escurecer o presente e fazer o futuro parecer inexistente.

Mas o futuro não desapareceu.

Ele apenas pode estar difícil de enxergar.

Por isso, talvez seja preciso emprestar esperança a quem, naquele momento, não consegue encontrá-la sozinho.

Não prometendo que tudo será fácil.

Não dizendo que “amanhã passa”.

Mas caminhando junto.

Porque tratamento é caminho.

Psicoterapia é caminho.

Cuidado é caminho.

Família é caminho.

E pedir ajuda também é caminho.

Talvez aquele adolescente sentado sozinho no quarto não esteja querendo desaparecer.

Talvez ele esteja querendo que desapareça a dor.

E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Por isso, antes de chamarmos um adolescente de rebelde, preguiçoso, ingrato ou difícil, talvez devêssemos fazer uma pausa.

Olhar nos olhos.

Sentar ao lado.

E perguntar, com verdadeira disposição para ouvir:

— Como você está por dentro?

Talvez ele fique em silêncio.

Tudo bem.

Não precisamos preencher imediatamente o silêncio.

Às vezes, a primeira forma de cuidado é simplesmente permanecer.

Porque há silêncios que não significam ausência.

Há silêncios que estão procurando coragem.

E, quando finalmente encontram alguém disposto a escutar, podem se transformar em palavras.

E algumas palavras, quando encontram acolhimento, podem ser o começo de uma nova história.

Acimarley Freitas
Psicólogo Clínico e Professor

 


A pessoa de ânimo dobre

 

Há pessoas que parecem morar em dois lugares ao mesmo tempo.

 

Dizem que querem ir, mas permanecem paradas.

Dizem que acreditam, mas vivem como se não acreditassem.

Dizem que amam, mas agem como quem já decidiu partir.

Querem a mudança, mas continuam abraçadas aos velhos hábitos.

 

São pessoas divididas por dentro.

 

A Bíblia chama isso de “ânimo dobre”.

 

Tiago escreveu: “O homem de ânimo dobre é inconstante em todos os seus caminhos” (Tiago 1:8). No texto grego aparece a palavra dípsychos — formada por dis, “duas vezes”, e psyché, “alma”. A ideia é a de alguém com a interioridade dividida: duas vontades, dois interesses, duas direções.

 

Não é simplesmente alguém que tem dúvidas.

 

A dúvida faz parte da experiência humana. Todos nós, em algum momento, hesitamos. Todos temos dias em que a coragem diminui e o medo fala mais alto.

 

O problema começa quando a pessoa transforma a indecisão em modo de vida.

 

Ela quer Deus, mas também quer aquilo que Deus lhe pede para abandonar.

 

Quer uma vida nova, mas não quer abrir mão da antiga.

 

Quer paz, mas alimenta conflitos.

 

Quer relacionamentos saudáveis, mas continua repetindo comportamentos que adoecem suas relações.

 

Quer ser livre, mas permanece dependente da aprovação dos outros.

 

Quer mudar, mas encontra sempre uma justificativa para continuar igual.

 

É como alguém que coloca um pé no caminho e mantém o outro no lugar.

 

E assim não consegue caminhar.

 

Talvez uma das maiores dificuldades do ser humano contemporâneo seja justamente essa: saber o que deseja, mas não conseguir alinhar desejo, pensamento, palavra e atitude.

 

Vivemos em uma época de muitas possibilidades. Podemos mudar de profissão, de cidade, de relacionamento, de opinião, de grupo, de projeto e até de identidade virtual com uma velocidade impressionante.

 

Mas existe uma coisa que nenhuma tecnologia consegue fazer por nós:

 

decidir quem queremos ser.

 

Porque uma vida dividida produz uma existência cansada.

 

A pessoa de ânimo dobre passa boa parte da vida negociando consigo mesma.

 

“Eu vou mudar.”

 

Mas não muda.

 

“Dessa vez será diferente.”

 

E repete.

 

“Não quero mais isso.”

 

E volta.

 

“Preciso me afastar.”

 

Mas permanece.

 

“Preciso começar.”

 

Mas adia.

 

E, pouco a pouco, a pessoa deixa de perceber que sua maior prisão talvez não esteja nas circunstâncias externas, mas na divisão interna que a impede de assumir uma direção.

 

Tiago usa outra vez a expressão dípsychos quando escreve: “vós que sois de ânimo dobre, purificai o coração” (Tiago 4:8).

 

É interessante perceber que, nessa segunda passagem, o problema aparece relacionado ao coração.

 

Como se dissesse:

 

“Não basta aproximar-se de Deus com os lábios; é preciso reorganizar o coração.”

 

Porque há pessoas que vivem uma espécie de duplicidade existencial.

 

Uma versão delas aparece para o mundo.

 

Outra permanece escondida dentro delas.

 

Sorriso por fora.

 

Confusão por dentro.

 

Fé nas palavras.

 

Medo nas decisões.

 

Promessas no discurso.

 

Contradições nas atitudes.

 

E talvez seja justamente aí que começa o processo de amadurecimento: quando deixamos de tentar parecer inteiros e começamos a reconhecer honestamente nossas próprias divisões.

 

Reconhecer não é fraqueza.

 

É o primeiro passo para mudar.

 

Talvez você não precise, hoje, tomar todas as decisões da sua vida.

 

Mas talvez precise tomar uma decisão verdadeira.

 

Aquela que você vem adiando.

 

Aquela conversa que precisa acontecer.

 

Aquele hábito que precisa ser abandonado.

 

Aquele projeto que precisa começar.

 

Aquela porta que precisa ser fechada.

 

Ou aquela outra que, finalmente, precisa ser aberta.

 

Porque viver é escolher caminhos.

 

E cada escolha, silenciosamente, vai construindo a pessoa que nos tornamos.

 

O homem de ânimo dobre não é aquele que um dia teve dúvidas.

 

É aquele que se acostumou a viver dividido.

 

E ninguém precisa permanecer assim para sempre.

 

Há momentos em que precisamos parar diante do espelho e perguntar:

 

“Afinal, para onde estou indo?”

 

Não para acusarmos a nós mesmos.

 

Mas para finalmente escolhermos um caminho.

 

Porque quando o coração encontra uma direção, a vida começa a recuperar o sentido.

 

E talvez maturidade seja exatamente isso:

 

deixar de viver entre duas vontades e começar a viver de acordo com aquilo que, no mais profundo da alma, reconhecemos como verdadeiro.

 

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja:

 

“Por que estou tão perdido?”

 

Mas:

 

“O que dentro de mim ainda está dividido?”

 

Às vezes, a resposta para essa pergunta é o começo de uma vida inteira.

 

Acimarley Freitas

 


CARÊNCIA


Penia, Deusa da Carência

 

Há palavras que carregam consigo uma história maior do que o seu próprio tamanho.

 

Carência é uma delas.

Quando dizemos que alguém é carente, quase sempre imaginamos uma pessoa que precisa demais: precisa de atenção, de afeto, de reconhecimento, de companhia, de aprovação. Às vezes, falamos disso com certa reprovação, como se sentir falta de alguma coisa fosse uma espécie de fraqueza moral.

Mas e se a carência não for simplesmente uma fraqueza?

E se, antes de ser um defeito, ela for uma experiência profundamente humana?

É aqui que podemos encontrar Penia, personagem da mitologia grega que aparece de maneira particularmente interessante no Banquete, de Platão. E é importante fazer uma ressalva: embora frequentemente seja chamada de “deusa da pobreza” ou “deusa da carência”, neste texto nos interessa exclusivamente aquilo que sua figura representa como falta, ausência, necessidade, privação e desejo.

Penia é, simbolicamente, aquilo que não temos.

Aquilo que sentimos faltar.

Aquilo que nos faz olhar para a vida e pensar:

“Eu preciso de alguma coisa que ainda não encontrei.”

E talvez seja justamente aí que comece uma das experiências mais profundas da existência humana.

 

1. A carência não é apenas ter pouco

Quando ouvimos a palavra carência, geralmente pensamos em ausência de alguma coisa concreta.

Falta dinheiro.

Falta comida.

Falta emprego.

Falta casa.

Falta saúde.

Falta companhia.

Falta amor.

Mas a carência não se limita àquilo que podemos colocar em uma conta bancária ou medir em uma balança.

Existe uma carência que não aparece nos exames laboratoriais.

É a carência de reconhecimento.

A carência de pertencimento.

A carência de segurança.

A carência de sentido.

A carência de ser ouvido.

A carência de sentir que a própria existência importa para alguém.

E aqui a Psicologia encontra uma antiga intuição filosófica.

Décadas depois de Platão, diferentes teorias psicológicas passaram a investigar as necessidades humanas e sua relação com a motivação. Abraham Maslow, por exemplo, propôs que o comportamento humano está relacionado a necessidades que podem envolver aspectos fisiológicos, segurança, amor, estima e realização pessoal. Para ele, necessidades não satisfeitas podem ocupar fortemente a vida psíquica e orientar o comportamento.

Em outras palavras:

aquilo que nos falta pode começar a organizar aquilo que fazemos.

 

2. Penia: a personificação da falta

No Banquete, Platão apresenta, por meio do discurso de Diotima, uma narrativa simbólica sobre a origem de Eros.

Penia aparece como figura da necessidade e da pobreza. Ela se aproxima de Poros, associado à disponibilidade de recursos, caminhos e meios. Dessa união nasce Eros, que carregará em si características contraditórias: de um lado, a falta; de outro, a capacidade de buscar aquilo que falta.

 

Não precisamos, neste artigo, entrar nos inúmeros atributos atribuídos a Eros.

Basta perceber uma coisa:

Eros nasce da carência.

E isso é filosoficamente poderoso.

Porque significa que o desejo não nasce necessariamente daquilo que possuímos.

O desejo nasce, muitas vezes, daquilo que percebemos não possuir.

Platão coloca essa questão de maneira bastante direta: desejamos aquilo que não temos, aquilo que nos falta ou aquilo que não está presente.

Então talvez a carência não seja simplesmente o vazio.

Talvez ela seja também o espaço onde nasce o movimento.

 

3. O ser humano é um ser que sente falta

Pense em uma criança.

Ela sente fome e procura alimento.

Sente medo e procura proteção.

Sente solidão e procura alguém.

Sente curiosidade e procura conhecimento.

Sente dor e procura cuidado.

Desde os primeiros momentos da vida, somos seres orientados para aquilo que nos falta.

A teoria do apego, desenvolvida inicialmente por John Bowlby e posteriormente ampliada por inúmeros pesquisadores, mostra como a busca por proximidade e segurança ocupa um papel importante no desenvolvimento humano. A criança procura a figura de apego especialmente diante do medo, da ameaça ou da vulnerabilidade, utilizando essa relação como fonte de segurança e como base para explorar o mundo.

Isso nos ensina algo muito simples:

precisar de alguém não é necessariamente sinal de fraqueza.

É parte da condição humana.

O problema não está em precisar.

O problema começa quando acreditamos que precisar nos torna inferiores.

 

4. Existe uma diferença entre carência e fraqueza

Vivemos em uma sociedade que frequentemente glorifica a autossuficiência.

“Eu não preciso de ninguém.”

“Eu me viro sozinho.”

“Não dependo de ninguém.”

“Não preciso de aprovação.”

“Não preciso de carinho.”

À primeira vista, essas frases parecem demonstrar força.

Mas, às vezes, podem esconder justamente o contrário.

Porque uma pessoa pode aprender a dizer “não preciso” quando, na verdade, passou a vida inteira aprendendo que demonstrar necessidade era perigoso.

É importante não transformar isso em diagnóstico.

Nem toda independência é defesa.

Nem toda necessidade é saudável.

Nem toda carência significa sofrimento psicológico.

Mas existe uma questão que merece nossa atenção:

o que fazemos com aquilo que nos falta?

Essa talvez seja uma pergunta mais importante do que simplesmente perguntar:

“Do que você é carente?”

 

5. A carência pode virar busca

Imagine uma pessoa que sente que não é reconhecida.

Ela pode transformar essa falta em uma busca permanente por aplausos.

Pode trabalhar excessivamente.

Pode tentar agradar todo mundo.

Pode precisar constantemente ouvir:

“Você é incrível.”

“Você é importante.”

“Você é especial.”

E, quando não recebe isso, sente novamente o vazio.

A busca tenta preencher a carência.

Mas nem sempre consegue.

É como beber água do mar quando se está com sede: momentaneamente existe uma sensação de ingestão, mas a necessidade fundamental não é verdadeiramente resolvida.

Por isso, precisamos compreender que satisfazer uma necessidade não é necessariamente o mesmo que anestesiar uma falta.

A Psicologia da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, identifica três necessidades psicológicas básicas relacionadas ao funcionamento e ao bem-estar: autonomia, competência e relacionamento/pertencimento. Quando essas necessidades são favorecidas, tendem a contribuir para motivação e bem-estar; quando são frustradas, podem ocorrer prejuízos motivacionais e psicológicos.

Portanto, não somos carentes apenas porque queremos alguma coisa.

Somos seres humanos que precisam de condições relacionais e psicológicas para florescer.

 

6. Algumas carências não pedem pessoas; pedem compreensão

Existe uma armadilha perigosa:

acreditar que toda carência afetiva será resolvida quando encontrarmos “a pessoa certa”.

Nem sempre.

Às vezes, alguém entra em um relacionamento esperando que o outro resolva uma história que começou muito antes daquele encontro.

Então a pessoa amada passa a carregar uma responsabilidade impossível:

“Faça-me sentir suficiente.”

“Prove que você não vai embora.”

“Diga que me ama.”

“Demonstre que eu sou importante.”

“Não me decepcione.”

“Não me abandone.”

E, pouco a pouco, o relacionamento deixa de ser encontro e transforma-se em tratamento para uma falta que ninguém sozinho consegue preencher.

É por isso que precisamos ter cuidado.

O outro pode oferecer afeto.

Pode oferecer presença.

Pode oferecer cuidado.

Pode caminhar conosco.

Mas ninguém deveria ser obrigado a carregar sozinho o peso de construir nossa autoestima, nosso sentido de existência ou nossa identidade.

 

7. A carência também pode ser social

Existe ainda uma dimensão que não podemos ignorar.

Nem toda carência nasce dentro do indivíduo.

Algumas são produzidas pelas circunstâncias sociais.

Uma pessoa que passa fome não está necessariamente enfrentando uma “carência emocional”.

Uma criança que cresce sem acesso adequado à educação enfrenta uma privação concreta.

Uma família que vive sem segurança, sem moradia adequada ou sem condições mínimas de sobrevivência experimenta uma carência que não pode ser reduzida à Psicologia individual.

É preciso ter cuidado para não psicologizar aquilo que também é social.

Às vezes, o indivíduo não precisa simplesmente “aprender a lidar com sua carência”.

Ele precisa de direitos, oportunidades, políticas públicas, solidariedade e condições concretas de existência.

A carência, portanto, pode ser psicológica, afetiva, material, social ou existencial.

E cada uma exige uma forma diferente de compreensão.

 

8. Penia mora em muitos lugares

Penia pode estar naquele homem que trabalha todos os dias, mas ainda sente que não conseguiu provar seu valor.

Pode estar na mulher que cuida de todos, mas não sabe quem cuida dela.

Pode estar no adolescente que passa horas nas redes sociais procurando alguma confirmação de que é aceito.

Pode estar no idoso que possui uma casa cheia de objetos, mas uma agenda vazia de visitas.

Pode estar naquele profissional que conquistou títulos, dinheiro e reconhecimento, mas continua perguntando silenciosamente:

“Será que eu sou suficiente?”

E pode estar naquele sujeito que sorri para todos enquanto carrega, em segredo, uma falta que ninguém conhece.

A carência nem sempre grita.

Às vezes, ela trabalha silenciosamente.

Ela aparece no excesso.

No controle.

Na necessidade de agradar.

Na dificuldade de ficar sozinho.

Na busca incessante por aprovação.

Na incapacidade de dizer “não”.

No medo de ser abandonado.

Na necessidade de ser indispensável.

E, às vezes, aparece justamente naquela pessoa que insiste:

“Eu não preciso de ninguém.”

 

9. O perigo não está em sentir falta

Sentir falta faz parte da vida.

O problema surge quando transformamos a falta em identidade.

“Eu sou abandonado.”

“Eu sou rejeitado.”

“Eu não sou suficiente.”

“Ninguém fica.”

“Ninguém me ama.”

“Nunca vou conseguir.”

Observe a diferença.

Uma coisa é dizer:

“Estou sentindo falta de amor.”

Outra, muito diferente, é concluir:

“Eu não sou digno de amor.”

A primeira frase descreve uma experiência.

A segunda transforma uma experiência em identidade.

E isso pode mudar completamente a maneira como uma pessoa passa a enxergar a si mesma.

 

10. A carência pode ensinar

Talvez seja aqui que a imagem de Penia se torne mais interessante.

A carência nos incomoda.

Mas também pode nos ensinar.

Quem sente falta pode aprender a procurar.

Quem reconhece que não sabe pode aprender.

Quem percebe que precisa de ajuda pode pedir ajuda.

Quem reconhece a própria solidão pode construir vínculos.

Quem percebe sua insegurança pode desenvolver recursos.

Quem reconhece sua fragilidade pode descobrir que vulnerabilidade não é sinônimo de incapacidade.

A carência pode ser uma professora difícil.

Mas professora.

Ela nos revela onde dói.

E aquilo que dói merece ser compreendido, não necessariamente escondido.

 

11. Nem toda falta precisa ser preenchida imediatamente

Existe uma cultura da urgência.

Sentiu solidão?

Arrume alguém.

Sentiu tristeza?

Distraia-se.

Sentiu vazio?

Compre alguma coisa.

Sentiu insegurança?

Procure aprovação.

Sentiu falta?

Substitua.

Mas talvez algumas faltas precisem primeiro ser escutadas.

Nem todo vazio precisa ser imediatamente ocupado.

Alguns precisam ser compreendidos.

Porque, às vezes, corremos tanto para preencher o espaço que nunca descobrimos por que ele estava vazio.

A psicoterapia pode justamente oferecer um espaço de elaboração dessa experiência: não necessariamente para eliminar toda carência, algo impossível para qualquer ser humano,  mas para compreender como determinadas necessidades aparecem, que significados receberam ao longo da história pessoal e quais maneiras mais saudáveis existem de lidar com elas.

 

12. Talvez a maturidade não seja deixar de precisar

Talvez maturidade não seja chegar ao ponto de dizer:

“Eu não preciso de ninguém.”

Talvez seja conseguir dizer:

“Eu preciso de algumas coisas, reconheço isso e sei cuidar dessas necessidades sem transformar o outro em responsável pela minha existência.”

Isso é diferente.

É mais humano.

Mais realista.

Mais saudável.

Precisar não diminui ninguém.

O que precisamos aprender é como precisar.

Como pedir.

Como receber.

Como oferecer.

Como estabelecer limites.

Como suportar algumas ausências.

Como construir vínculos.

Como desenvolver autonomia.

Como reconhecer aquilo que está sob nossa responsabilidade e aquilo que pertence ao outro.

 

13. Penia e o espelho humano

Talvez Penia seja interessante justamente porque ela nos obriga a olhar para uma verdade que nem sempre gostamos de admitir:

somos incompletos.

Há coisas que não sabemos.

Há coisas que não conseguimos.

Há pessoas que precisamos.

Há momentos em que precisamos de ajuda.

Há perdas que nos atravessam.

Há feridas que não desaparecem apenas porque decidimos ser fortes.

Há necessidades que retornam.

Há desejos que permanecem.

Há vazios que fazem parte da experiência de existir.

E reconhecer isso não deveria produzir vergonha.

Deveria produzir humanidade.

 

CONCLUSÃO: O QUE FAZER COM A NOSSA PENIA?

Talvez a pergunta não seja:

“Como faço para nunca mais sentir carência?”

Mas:

“O que faço quando percebo que algo está faltando em mim?”

Se falta afeto, posso aprender a construir vínculos.

Se falta segurança, posso buscar proteção e apoio.

Se falta reconhecimento, posso investigar de onde vem minha necessidade de validação.

Se falta pertencimento, posso procurar relações nas quais exista reciprocidade.

Se falta autonomia, posso começar a escolher.

Se falta competência, posso aprender.

Se falta sentido, posso perguntar o que realmente importa para mim.

Se existe uma carência antiga, posso procurar compreendê-la em vez de simplesmente escondê-la.

E, quando necessário, posso pedir ajuda.

Porque pedir ajuda também é uma forma de inteligência.

Talvez seja essa a grande lição escondida na figura de Penia:

a carência não precisa ser o lugar onde terminamos.

Ela pode ser o lugar de onde começamos.

A falta pode gerar movimento.

O vazio pode gerar pergunta.

A pergunta pode gerar consciência.

A consciência pode gerar escolha.

E a escolha pode transformar uma existência.

No fundo, talvez todos carreguemos um pouco de Penia.

Todos temos alguma falta.

Todos desejamos alguma coisa.

Todos, em algum momento, olhamos para a própria vida e pensamos:

“Ainda falta alguma coisa.”

E talvez isso não seja uma condenação.

Talvez seja simplesmente a condição humana.

Porque enquanto houver algo que nos falte, haverá também uma possibilidade de buscar.

E enquanto houver busca, ainda haverá caminho.

Penia representa a falta.

Mas a história humana começa justamente quando temos coragem de olhar para aquilo que nos falta e perguntar:

“O que essa carência está tentando me dizer?”

 

Referências bibliográficas

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOWLBY, John. Apego e perda: volume 1 — Apego. Nova York: Basic Books, 1969/1982.
Título original: Attachment and Loss: Vol. 1. Attachment.

DECI, Edward L.; RYAN, Richard M. O “quê” e o “porquê” das buscas por objetivos: necessidades humanas e a autodeterminação do comportamento. Psychological Inquiry, v. 11, n. 4, p. 227–268, 2000.
Título original: The “What” and “Why” of Goal Pursuits: Human Needs and the Self-Determination of Behavior.

MASLOW, Abraham H. Uma teoria da motivação humana. Psychological Review, v. 50, n. 4, p. 370–396, 1943.
Título original: A Theory of Human Motivation.

PLATÃO. O Banquete. Especialmente o discurso de Sócrates/Diotima, 200e–212c. Tradução do título original: Symposium.

RYAN, Richard M.; DECI, Edward L. Teoria da autodeterminação e a facilitação da motivação intrínseca, do desenvolvimento social e do bem-estar. American Psychologist, v. 55, n. 1, p. 68–78, 2000.
Título original: Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation, Social Development, and Well-Being.

WATERS, Everett; WATERS, Harold. Uma perspectiva do roteiro de uma base segura sobre o apego: avanços, possibilidades e perspectivas. In: Advances in Child Development and Behavior, v. 69, 2025.
Título original: A Secure Base Script Perspective on Attachment: Progress, Promise, and Prospects.

Acimarley Freitas
Psicólogo Clínico | CRP-04/54732