Psicologa Organizacional

10 de maio de 2015

Psicologia, Religião e a Ética: um estudo sobre a atuação destas práticas na sociedade contemporânea



A ética é primordial para que a atuação do profissional psicólogo seja íntegra, pautada no respeito ao sujeito humano, dos pacientes, e outros profissionais envolvidos na área. Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo, toda profissão define-se a partir de um corpo de práticas que busca atender demandas sociais, norteados por elevados padrões técnicos e pela existência de normas éticas que garantam a adequada relação de cada profissional com seus pares e com a sociedade como um todo. O objetivo da ética é de fomentar a autorreflexão de cada indivíduo sobre a sua conduta profissional e responsabilizá-lo pelas suas ações.
Para iniciar a análise, verificamos que o interesse pelo estudo sobre Religião no ambiente Acadêmico é crescente, embora não seja muito comum esta abordagem nos grandes Centros Universitários.

De acordo com a pesquisa feita por PAIVA G.J et.al. no artigo Psicologia da Religião no Brasil: a produção em periódicos e livros. Verifica-se, na população universitária e no público em geral, grande interesse pelo tratamento psicológico do fenômeno religioso. Não é claro, contudo, o móvel desse interesse nem mesmo no meio universitário. Tem-se verificado com frequência que estudantes de Psicologia e de outras áreas recorrem à disciplina PR (Psicologia Religiosa) para resolverem problemas pessoais, levantados pelo encontro da religião que trouxeram da família com a perspectiva acadêmica, sobretudo psicológica. O conteúdo curricular das disciplinas de Psicologia, de modo geral, não inclui referência à religião, de modo que a PR é procurada, pelos estudantes, como um recurso para a superação do desconforto resultante do desencontro entre religião e ciência psicológica.
É notável que a curiosidade e o desconforto das pessoas sobre este assunto muitas vezes concentra-se dentro da sala de aula, na construção de referência, por ser bastante discutido, mas pouco fundamentado. É importante salientar que há o crescimento de acadêmicos que cursam Psicologia vinculada a diversas religiões. Mas de onde que surge todo este questionamento? Por que duas áreas tão diferentes podem confundir as pessoas se não houver um bom discernimento?  
Tudo começa com um mesmo foco: o homem – o comportamento do homem no meio em que vive. Este é o principal ponto em comum entre a Psicologia e religião. Somos construídos de acordo com as nossas crenças e tudo começa quando acreditamos em algo que possa nos fortalecer de alguma forma. A partir daí agrupam-se pessoas que compartilham a mesma ideia e procuram seguir as mesmas crenças, neste caso, religiosas. De outro lado, a ciência também é construída por crenças, de experimentos que levaram a inúmeras consequências prováveis, aumentando a credibilidade, e assim foram fortalecidos pelo povo.
As pessoas passaram a ter duas formas eficazes para encontrar respostas para algum problema: Acreditar em algo maior para manter viva a esperança e a vontade de permanecer vivo de acordo com o mundo subjetivo de cada um. O estudo da Religião preza pelo equilíbrio e a paz de espírito de qualquer ser humano assim como a Psicologia enquanto ciência preza pelo bem estar físico e mental do indivíduo. Deste modo as duas práticas se complementam.
A Psicologia e Religião é um assunto que trás diversas opiniões sobre a mesma questão. De acordo com o artigo de PAIVA G.J. Psicologia e Espiritualidade. Congresso de Psicologia Unifil Universidade de São Paulo .  “Se, com efeito, a realização do potencial humano, a auto-realização, for entendida como desabrochar na pessoa do que de melhor existe em sua capacidade, que inclui a comunhão com o outro e com o universo, é lícito reconhecer nesse empenho uma libertação do aqui-e-agora, do imediato, do concreto material, em direção a uma totalidade maior, eventualmente cósmica. Isso corresponde ao que contemporaneamente se denomina por espiritualidade. Outra posição, ligada ao ‘movimento de conscientização’, é apresentada por Lucy Bregman, da Universidade Temple. Bregman (2001) sustenta, teórica e empiricamente, que a psicologia tem recursos próprios, não opostos os recursos religiosos mais independentes deles, para lidar com a preparação para a morte com o luto dos sobreviventes. Para ela, a psicologia tem espiritualidade, porque a morte desvela para quem parte e para quem fica dimensões do self e do universo, que escapam aos limites do aqui-e-agora.
A espiritualidade da psicologia na morte se expressa pela tristeza, pelo desgosto, pelo medo, pela raiva e pelo sentimento de ultraje frente à perda pessoal e social; se expressa também pela consciência de que a morte faz parte do ciclo da vida e ‘nos une com os outros seres vivos num ecossistema que opera com harmonia, senão com finalidade e [...] benevolência (p.327)’. Considera-se essas formas de espiritualidade oriundas da psique humana, enquanto exigência intrínseca de auto-realização, que inclui a comunhão com o outro, e enquanto reage às frustrações que atingem a auto-realização.”
Já de acordo com o artigo de ADAMI, A.R.; PASTOR G. Pastor e Psicólogo trabalhando juntos.“Notamos assim, que os campos, a formação, as atividades e a atuação são distintos, mas não opostos. Contudo, há um elemento comum que os une e que deve ser o lugar do diálogo entre a Teologia e a Psicologia, é a visão de homem, a antropologia, já que ambos, pastor e psicólogo, têm sua atenção voltada e dedicada para o ser humano.”
De outro modo o psiquiatra cristão brasileiro, Uriel Heckert, apresentou o trabalho Psiquiatria e Cristianismo, no IX Congresso Mundial de Psiquiatria (1993), no qual cita um outro psicólogo e pastor, o Dr. J. H. Ellens, que diz:
"'Vejo a teologia e a psicologia como perspectivas ou pontos de referência diferentes, com diferentes universos de discurso, lidando com o mesmo assunto. Interagem em quatro níveis na busca pela verdade a respeito de seu objetivo: no nível teórico de suposições, conceitos e definição de teoria, no de pesquisa metodológica, no de banco de dados (que dados procurar, como procurar e como aparecem) e no nível de experiência clínica. ' Para concluir: 'Seu tema comum é a condição humana. Interseccionam-se, por isso, na antropologia que funciona ou se forma em todos os níveis de intersecção acima citados. '”.
O problema começa quando há conflitos de valores e de condutas do profissional Psicólogo dentro das instituições religiosas. Em muitos casos, há profissionais contratados pelo corpo administrativo desses espaços religiosos a fim de fornecer serviços terapêuticos de psicologia camuflados por uma terminologia espiritual. Há Psicólogos atuando em igrejas, templos, casas de reflexão espirituais, por exemplo, usando a escuta clínica e abordagens psicoterápicas para tratar os fiéis, e assim atraí-los com a finalidade de convertê-los usando a Psicologia como ferramenta para tal. Esta atitude é considerada uma enorme falta de ética. Quando o Psicólogo presta serviços havendo um vínculo deste porte com as instituições religiosas, a intenção pode ter esta triste finalidade.
 Quando esta prática é voltada para comunidade ao entorno, para fins de serviços sociais, e que estas instituições religiosas sedem ou alugam seus espaços para atender este público dentro de um setting terapêutico adequado, percebe-se que este movimento está de acordo com as normas éticas e morais segundo o código de Psicologia vigente. Por este motivo é preciso ter muita atenção.
O fato de existirem Psicólogos adeptos a diversas religiões sendo eles pastores, conselheiros, religiosos e ministros atuando na área de Psicologia, não há indicadores de problemas. Cada indivíduo tem a sua liberdade para escolher o que quiser, contudo, suas crenças não podem influenciar jamais dentro das práticas Psicológicas.
A Psicologia é uma ciência que está inserida em várias áreas e nos últimos anos cada vez mais no ambiente religioso, mas não podem interferir os valores pessoais de cada profissional, seus instrumentos, na fé e na fragilidade das pessoas assim como usar técnicas psicoterápicas para atrair fiéis.
A situação contrária também acontece: religiosos, pastores, conselheiros dentro da igreja, encontram maior resistência para encaminhar assuntos psicológicos aos profissionais que atuam na área. Muitos tentam resolver possíveis problemas de cunho psicológico dos fieis fazendo rezas e atitudes mais drásticas. Não que sejam menos eficazes, mas é preciso ter um bom senso e encaminhar estes assuntos aos seus respectivos meios de ajuda, quando necessário.
Considerações Finais
É importante não desqualificar as práticas religiosas e psicológicas, pois estas têm grande credibilidade dentro da sociedade contemporânea. Psicologia e Religião é assunto bastante complexo, por isso é preciso uma educação adequada frisando a ética para evitar condutas impróprias como as citadas acima. É preciso ter atenção para que as duas áreas não invadam o espaço uma da outra.
A Psicologia e Religião são complementares. Devem ser discutidas sempre para desmistificar ideias preconceituosas sobre a Ciência e Religião. Debates, artigos e estudos são os caminhos mais eficazes para quebrar tabus, para conscientizar as pessoas que o respeito e a compreensão fazem cair por terra à ignorância que cultivamos por vários anos. Só assim, poderemos exercer práticas justas e íntegras e com muito mais transparência.

Motivação da Alma


9 de maio de 2015

AS ESCOLAS PRÉ-SOCRÁTICAS



AS ESCOLAS PRÉ-SOCRÁTICAS

Os chamados filósofos pré-socráticos, que viveram entre os séculos IV a.C. a V a.C., provêm dessas cidades e essa origem os identifica. Assim, falamos de Tales de Mileto,
Anaxímenes de Mileto, Pitágoras de Samos, Heráclito de Éfeso,
Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômena, Leucipo de Abdera, Demócrito de Abdera, Parmênides de Eleia.
Em vista da distância histórica e das fontes documentais precárias que permaneceram para a posteridade, em sua maioria fragmentos de obras, algumas completamente perdidas, esses primeiros filósofos são estudados de maneira agrupada, isto é, por região, ou teorias com algum grau de semelhança. Por isso, falamos em escola jônica, isto é, as colônias gregas localizadas na Ásia Menor; escola eleata, de Eleia na Magna Grécia. Os dois outros grupos são reunidos por preocupações semelhantes e provêm de diferentes partes da região expandida da Grécia.
O que você deve perceber nas teorias, que serão brevemente expostas a seguir, não é a verdade ou falsidade de suas afirmações, mas a maneira como organizam as explicações, buscando como causa a phýsis em sua visibilidade ou a arkhé. O visível e o invisível nem sempre separam e definem esses termos, pois, em alguns casos, eles coincidem.
Vamos conhecê-las!

A escola jônica
Chamados de físicos ou naturalistas, os filósofos considerados dessa divisão são: Tales de Mileto (cerca de 625/4-558/6 a.C.), Anaxímenes de Mileto (cerca de 585-528/5 a.C.) e Anaximandro de Mileto (cerca de 610-547 a.C.), que elaboraram teorias hilozoístas, atribuíram movimento próprio e transformação à matéria.
Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo e também um dos 7 Sábios da Antiguidade.
Aristóteles (em Metafísica, I, 3.983 b6) expressou da seguinte maneira as ideias de Tales: “Tales, o fundador de tal filosofia [cosmologia], diz ser a água [o princípio], levado sem dúvida a esta concepção por ver que o alimento de todas as coisas é úmido, e que o próprio quente dele procede e dele vive (ora, aquilo de que as coisas vêm é, para todos, o seu princípio)”. Existem informações secundárias sobre certas habilidades práticas de
Tales, que teria sido político e uma espécie de engenheiro, por ter estudado a causa das enchentes do rio Nilo em sua viagem ao Egito e pretender desviar o curso de um rio. A ele também se atribui a descoberta da constelação da Ursa Menor, um auxílio à navegação.
A definição da água como phýsis ou princípio explicativo de tudo o que existe e de como tudo veio a ser confere, ao mesmo tempo, unidade à causa e à ideia de que esta causa, de onde tudo parte e para a qual regressa, possui um movimento que lhe é inerente. Pode-se encontrar, portanto, na natureza um elemento que explica a origem da vida e o seu próprio movimento desta: no estado úmido, encontra-se vida; no ressequido, a morte.
Anaxímenes de Mileto segue o raciocínio de Tales, escolhendo na natureza um elemento que organiza e explica a ordem do universo. Para ele, este é pneuma, palavra traduzida por ar, sopro vital e também alma ou espírito. Anaxímenes concebe o ar como phýsis e como arkhé. A ordem do mundo se estabelece no ritmo de uma respiração vital. Em um fragmento compilado por Simplício (Aécio, I, 3.4), lemos: “Como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém”. Nesse sentido, novamente, a matéria, o ar em diferentes estados, interna e externamente, possui a qualidade de movimentar a si mesmo.
A definição de phýsis contrasta com a de Anaximandro, no que diz respeito ao aspecto indeterminado do apeíron. O ar é infinito, mas determinado como matéria menos corpórea do que a água.
Anaximandro de Mileto foi discípulo de Anaxímenes. Em sua cosmologia, o princípio explicativo que rege a ordem das coisas torna-se mais claramente arkhé, pois não corresponde mais a um elemento mais ou menos visível na natureza. Tratase do ápeiron; o prefixo “a” significa ausência ou negação de
“peras”, que significa limite. Literalmente ápeiron é o “sem limite” ou ilimitado, entendido pela quantidade, e indeterminado ou indefinido, pela qualidade.
O apeíron é um princípio eterno, imortal e imperecível, isto é, não foi gerado, não degenera e não finda. Essa é uma importante distinção de sua cosmologia em relação às
teogonias, nas quais os deuses eram gerados e, mesmo que fossem imortais, não existiram desde sempre. O devir surge do apeíron como ordem temporal das coisas que, ao fim, a ele retornam. Essa ordem temporal é entendida como uma lei necessária, sob o jugo da justiça e injustiça. Conceitos que se desprendem do vocabulário da polis e integram as cosmologias.

A escola pitagórica ou itálica
 A existência histórica de Pitágoras de Samos (cerca de 580/78-497/6 a.C.) não foi comprovada. Costuma-se atribuir a ele a própria composição da palavra filosofia (philia+sophia).
O filósofo seria um frequentador de jogos públicos que não se deixaria levar pela emoção, mas pela observação distanciada.
Essa definição bem como a “paternidade” do teorema de
Pitágoras não são comprováveis e se misturam à figura lendária do filósofo que teria nascido na ilha de Samos, ao lado da Ásia
Menor. Já o pitagorismo existiu como movimento, no outro extremo do mapa, na Magna Grécia, atualmente, sul da Itália e Sicília.

Ensinamentos, contribuições e decadência do pitagorismo
Com base no orfismo, a doutrina pitagórica acreditava na reencarnação da alma e propunha um processo de purificação através da vida contemplativa ou theoria, isto é, contemplar com os olhos do espírito, examinar para conhecer. Cultivava-se uma prática de purificação por meio do silêncio, do isolamento e da abstinência de sexo, carnes e bebidas alcoólicas. Buscavase a alma de tipo contemplativa, evitando as de tipo cúpida e mundana, limitadas às esferas da paixão e da vaidade.
Esse aspecto moral jamais desapareceu do pitagorismo, compondo um grupo em seu interior conhecido como acústicos ou acusmáticos. O outro grupo era o dos matemáticos, que, segundo Aristóteles, muito contribuíram para o avanço da matemática, criando a geometria e estabelecendo a relação entre geometria e aritmética.
Definiram pela primeira vez a ideia de unidade, de sequência ordenada de números, distinguiram o número par (divisível e ilimitado) e o número ímpar (indivisível e limitado), definiram campos, limites e pontos.

Quando falamos em matemática, é bom lembrarmos que se trata de um conhecimento que possui diferenças fundamentais com o que hoje entendemos por essa matéria. Em primeiro lugar porque os números não são algarismos, uma abstração inventada pelos árabes, mas palavras, sendo que a ideia de zero não existe.
O número um, por exemplo, representa para o pitagorismo esse princípio ou arkhé de todas as coisas, a harmonia e proporção, a unidade primeira, na qual existe a totalidade de todos os números.
Todo o conhecimento depende dessa unidade e do movimento que se estabelece a partir dela.
O início do desenvolvimento da matemática foi o estudo da lira tetracorde, a lira de quatro cordas de Orfeu, utilizada nos rituais de purificação. Desse estudo surgiu uma figura geométrica composta por 10 pontos, distribuídos em forma de triângulo, com quatro pontos de cada lado e um no centro. A figura foi chamada de tetráktys da década, ou seja, o número dez (década), constituído por quatro (tetra) pontos, com um ponto no centro. O resultado é uma figura perfeita que combina a unidade, a díade, a tríade e a quadra e resulta em uma harmonia perfeita entre números pares e ímpares:
Dessa figura, resultam outras, que os pitagóricos intitulam de número quadrado e o número retângulo. A continuidade dos estudos matemáticos revelou outras figuras geométricas, o pentágono e a estrela de cinco vértices nele contida, mas conduziu também à ruptura dos pitagóricos, que se deu entre o grupo dos matemáticos e os que prezavam os ensinamentos morais e as práticas ascéticas. O famoso teorema de Pitágoras, isto é, que se atribui a Pitágoras, mostra o descaminho do ideal que buscava a unidade no número, pois não se pode mais representar um número inteiro nem por uma fracção de números inteiros.
Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 a.C.)
Heráclito de Éfeso é considerado, ao lado de Parmênides, o fundador de preocupações centrais da filosofia e do conhecimento. Você pode perceber a presença do orfismo no fragmento abaixo, transcrito em seu contexto e a ênfase dada ao movimento:

Fragmento XXXVI:
Orfeu poetou: “para o vapor é água mutação, para as águas, morte; da água, terra, e, da terra, novamente água: desta, então, vapor, todo éter modificando-se” (Fonte: Clemente de Alexandria, Stromata, VI, 17)
Heráclito daí colhe suas palavras, quando assim escreve: “para os vapores, tornar-se água é morte; para a água, tornarse terra é morte; mas da terra nasce a água, da água, vapor”
(COSTA, 2002, p.93). Essa transformação das coisas, que é incessante, transparece nos famosos fragmentos abaixo citados, (idem, p. 205):

Fragmento XLIX:
“Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos” . Fragmento L:  “Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio”.

Esses fragmentos refletem a questão do movimento e a transformação constante, na qual estamos imersos. Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, pois as águas não são mais as mesmas e nós não somos os mesmos, estamos todos em constante estado de mutação. Essa mudança, no entanto, ocorre de maneira equilibrada ou como equilíbrio de
opostos, resultando em harmonia por meio do conflito.
Heráclito nomeia dois princípios para expressar esse movimento e o conflito que existe dentro de uma medida: o lógos e o fogo primordial. Eles são arkhé como princípios organizadores e explicativos de todas as coisas. O fogo que nunca se apaga não corresponde exatamente ao elemento natural, mas simboliza a medida equilibrada de todo movimento. O lógos é uma espécie de lei que comanda a multiplicidade aparente das coisas, conferindo-lhe unidade e harmonia.
O mundo é um eterno devir para Heráclito, mas não como movimento desordenado, não há caos e particularidades, mas há o lógos que ordena e equilibra a realidade aparente.
Heráclito critica veementemente todo conhecimento que se baseia na opinião (dóxa), critica também os poetas
Homero, Hesíodo e os pitagóricos. Como Parmênides e Platão,
Heráclito funda seu pensamento na oposição entre aparência e essência.

A escola eleata
O principal eleata é Parmênides (cerca de 530-460 a.C.).
Quando lemos o fragmento do belo poema intitulado “Sobre a natureza”, imaginamos tratar-se de um poeta e não daquele que inicia a lógica, fundando os princípios de identidade e de não-contradição. Parmênides funda igualmente a ontologia, ao utilizar a palavra Ser para expressar a arkhé de todas as coisas.
No poema, após evocar as musas, que mostram o caminho à carruagem conduzida por aquele que quer saber, abrindo as portas do céu e ultrapassando umbrais, ele e as musas chegam à Deusa (a razão) que se dirige desta forma ao aprendiz:

Pois bem, eu te direi, e tu recebes a palavra que ouviste, os únicos caminhos de inquérito que são a pensar: o primeiro, que é e portanto que não é não ser, de Persuasão é caminho (pois à verdade acompanha); o outro, que não é e portanto que é preciso não ser, este então, eu te digo, é atalho de todo incrível (*no qual não se deve crer); pois nem conhecerias o que não é, nem o dirias.
(In: PRÉ-SOCRÁTICOS, 1978, p.142).

Só aquilo que é (o Ser) pode ser pensado e dito. O que não é (o não-Ser) não pode ser pensado, nem dito. Parmênides cria, portanto, uma identidade entre ser, pensar e dizer que elimina o seu oposto como via de investigação impossível. O primeiro caminho, o único que deve ser percorrido por aquele que quer conhecer, é o caminho da verdade (alétheia). O caminho a ser evitado é o da opinião (dóxa). O Ser, possível de ser conhecido por meio do primeiro caminho, é entendido por Parmênides com base nas seguintes características: não foi gerado e não perece, isto é, é eterno, fixo, imóvel, uno, contínuo, inteiro, sem fim, indivisível, idêntico a si mesmo, pleno, encontra-se em limites como o de uma esfera.
Aparência e essência, novamente, são os polos estruturais da oposição entre opinião, como uma falsa ou aparente verdade, e essência, a que é verdadeira e alcançável apenas pelo pensamento. Nesse sentido, Parmênides concorda com Heráclito e ambos criticam a dóxa. A grande divergência entre os dois filósofos ocorre em função do movimento e da imobilidade do Ser.
Zenão de Eléa (cerca de 504/1-? a.C.), discípulo de
Parmênides, não escreveu uma cosmologia, mas se empenhou em criar raciocínios lógicos complicados, chamados aporias, para defender seu mestre, submetido a verdadeiras pilhérias ao não aceitar o movimento como hipótese para o conhecimento verdadeiro.
Podemos afirmar que jamais a filosofia nascente será a mesma diante desse confronto Parmênides-Heráclito, pois como explicar o movimento e a multiplicidade que enxergamos no mundo como resultado de um princípio imóvel e completo que não admite o movimento? Ou como pensarmos o mundo como devir/movimento constante, sem precisar um princípio de identidade que se separa da realidade transformadora?

A escola da pluralidade
Esta escola é justamente caracterizada por teorias que multiplicam o princípio ou ser parmenediano e buscam conciliá- lo com o movimento heraclitiano. Vamos conhecer os princípios nomeados pelos filósofos dessa escola?
Empédocles de Agrigento (cerca de 490-435 a.C.): compõe sua cosmologia com base na combinação do ser parmenidiano, dividido em quatro raízes (rizómata) e duas forças de movimento: philia e neikos, amor ou amizade e ódio.
As quatro raízes correspondem aos quatro elementos naturais: terra, água, ar e fogo. Elas, embora separadas, guardam as características do ser de Parmênides. A diferença é que para
Parmênides o ser era indivisível. A solução para o conflito, originado pela oposição Heráclito-Parmênides, é admitir o movimento de união e separação. No início de tudo, as raízes estavam misturadas, foi necessária a ação de neikos para separá-las. Separadas, contudo, elas não geram, nem reciclam suas características próprias. Philia vem, portanto, reunilas novamente, até o momento em que se faz necessária a intervenção de neikos. Desse movimento de união e separação, surgem todas as coisas e a ordenação da natureza.
Anaxágoras de Clazômena (cerca de 500-428 a.C.):
Se as raízes multiplicam o ser de Parmênides, as sementes (spérmata) pensadas por Anaxágoras, com as mesmas características do ser parmenediano, fragmentam mais ainda o ser. Elas não são visíveis ao olho humano. Em relação ao movimento, Anaxágoras, diferentemente de Empédocles, nomeia uma só força: noûs (inteligência cósmica). No início havia uma indissociação de elementos, misturados em um magma primitivo. O noûs criou, de fora dessa mistura, um movimento turbilhonante que separou as sementes de maneira múltipla e originou tudo o que existe. Leucipo de Abdera (outras fontes se referem a Mileto ou Eleia) (cerca de 500-? a.C.) e Demócrito de Abdera (cerca de 469-360 a.C.): esses atomistas, além de radicalizarem a multiplicação do ser parmediano, criam em sua teoria uma compreensão inédita: a admissão do não-ser como vácuo.
Átomo, que literalmente quer dizer o não-cortável, corresponde ao ser de Parmênides, à diferença que são múltiplos, infinitos e automoventes. Se eles correspondem ao ser, o espaço, no qual se movem, não pode coincidir com a ideia de ser. Logo, o espaço vazio, no qual os átomos se movem, chocando-se uns contra os outros e originando todas as coisas existentes no universo, é o vácuo ou o não ser. Nessa teoria, que não descarta a ideia central de ser em Parmênides e não nega o movimento do qual tudo se origina de Heráclito, encontramos a variação mais ousada das teorias pluralistas e que exercerá forte influência em seus sucessores.



Fonte: Educação, história e sociedade : módulo 1 : Filosofia e  Educação, volume 2 / Elaboração de conteúdo: Carla  Milani Damião. – [Ilhéus, BA] : UAB/UESC, [2009].  1 v. (várias paginações).

O NASCIMENTO DA FILOSOFIA



O NASCIMENTO DA FILOSOFIA

Segundo os historiadores, a filosofia tem data e local de nascimento: século V a.C. em Atenas, Grécia Antiga. Considerase também o surgimento, no século anterior, século VI a.C., das cosmologias, teorias sobre a ordenação da natureza que investigam a origem e o princípio de todas as coisas. Os cosmólogos não eram atenienses, mas gregos, em sua maioria, provindos da expansão geográfica da Grécia na Antiguidade.
Ao determinar a data e o local de origem da filosofia, os historiadores buscam fornecer um entendimento específico desse tipo de conhecimento que o torna diferente da religião, por sua característica política e antropocêntrica. Esse sentido de filosofia, portanto, não se confunde com a utilização da palavra em sentido amplo ou vago, como “filosofia de vida” ou “filosofia do trabalho”.
Por outro lado, não é difícil perceber associações com outras culturas e religiões, quando estudamos os problemas que orientaram as primeiras teorias na filosofia. Vemos, com isso, um problema de interpretação em relação à origem, que se estendeu ao longo dos séculos e que se tornou motivo de debate na primeira parte do século passado.
Alguns estudos demonstram a assimilação de conhecimentos científicos, como a astronomia e a matemática, provenientes do Oriente: Egito e Mesopotâmia. Essa “importação” de conhecimentos ocorreu devido à expansão marítima grega, que ocorria em função do comércio e da colonização grega na Ásia Menor e Sul da Itália.
Várias teorias em relação ao surgimento foram comprovadas ou reprovadas, em alguns casos em função de descobertas arqueológicas, no século passado (XX), de documentos até então desconhecidos, ou mesmo de documentos já conhecidos e que, relidos com o suporte dos novos meios tecnológicos, revelaram textos sobre textos, isto é, palimpsestos, no reaproveitamento do material utilizado nos manuscritos: o papiro.

Antes mesmo da descoberta do Papiro de Derveni, alguns historiadores do período atribuíam elevada importância à relação entre mito, religião e filosofia, inovando a interpretação que datava desde o período helênico, com Diógenes Laércio, na obra Vida e doutrina dos filósofos, século II, que afirmava uma clara distinção entre razão (Filosofia) e mito (narrativas sobre divindades e seus feitos). Estudos mais aprofundados demonstraram existir um tipo de conhecimento organizador da realidade nas narrativas fabulosas do mito. Essa estrutura racional do mito, segundo Francis M. Cornford, em Principium Sapientiae. As origens do pensamento grego, obra publicada em 1952, estaria presente nas primeiras cosmologias, procurando comprovar o vínculo entre mito, religião e filosofia.
Chauí (2002) dialoga com importantes historiadores da filosofia as teses extremistas (mito ou razão; influência oriental ou originalidade ocidental) sobre a origem da filosofia e encontram um meio termo nos seguintes aspectos:

Em relação ao mito
Houve, no mito, uma aproximação de deuses e homens, seja pelo caráter antropomórfico dos deuses, seja pela divinização dos homens que mantinham um estreito vínculo com as divindades por meio da narrativa do poeta-aedo, das sacerdotisas e pela prática de sacrifícios. Reconhece-se nessas narrativas uma organização racional que busca explicar a origem do mundo e a organização social.

Em relação à invenção grega
O que os gregos nos séculos VI e V a.C. inventaram, além do que incorporaram de outras culturas, diz respeito à transformação de aspectos práticos da vida em conhecimento racional, abstrato e universal. Esses conhecimentos provêm da prática comercial e marítima, da invenção da moeda, do calendário e, principalmente, da organização política da cidade organizada por leis e instituições públicas. A democracia é uma forma inédita de organização política que não se baseava mais no poder tradicional do patriarca (do chefe de família, da tribo ou do rei), aliado ao poder sacerdotal.

Em relação à razão
Os gregos inventam uma forma laica de discursar, relacionada à prática e à organização dos negócios públicos, isto é, à política. Essa fala dessacralizada busca organizar sistematicamente seu pensamento em função de um princípio universal: o conceito, a ideia, a lei, o axioma.
Os primeiros filósofos ou filósofos pré-socráticos, embora não estivessem com suas indagações voltadas exclusivamente para o contexto da pólis ateniense e para os problemas éticos e morais, exercitaram o desprendimento da explicação religiosa dogmática e elaboraram teorias sobre o surgimento do universo e de como este se organiza.
Como você pode notar, o mito também explica o surgimento do mundo em suas narrativas. São Teogonias, isto é, narrativas sobre como as divindades ou deuses (Théos) foram gerados (“gonia” vem de genos, em grego, geração, gênese).
Essa geração, como a dos humanos, era entendida como procriação e, por isso, os seres (a Terra, o Céu) e as divindades copulam e geram outros seres. A explicação para tudo o que existe é de ordem sobrenatural. Igualmente, as cosmologias procuram por uma explicação para o surgimento da ordem na natureza e no mundo, e, mesmo que ainda utilizem, às vezes, o vocabulário, o mito, a causa nomeada é de ordem racional.
Antes de reconhecermos os princípios encontrados para a explicação do cosmos, vamos ver quais são as preocupações gerais dos pré-socráticos, conforme Mondolfo (1971), em O pensamento antigo
Qual é a origem de todas as coisas?
Como um único princípio pode dar origem à multiplicidade das coisas?
Como o imutável pode dar origem ao mutável?
Como o múltiplo retorna ao múltiplo?

Esse mesmo autor nomeia as seguintes características, algumas mais evidentes, outras menos, nas teorias dos pré- socráticos:
Trata-se de uma cosmologia enquanto explicação sobre a ordem presente do mundo em vista de sua origem ou causa, forma, transformação, repetição e término;
A phýsis (natureza, “brotação”), palavra traduzida por natureza, é o fundo imortal e perene de onde tudo brota e para onde tudo regressa. Ela é a qualidade primordial da origem e constituição de todos os seres.
A manifestação invisível da phýsis, com as mesmas características, mas só alcançável pelo pensamento, é a arkhé (princípio, começo, ponto de partida, princípio organizador do cosmos);
Há uma preocupação marcante com o devir ou vira-ser.
O movimento kínesis (movimento, ação) ou movimento de transformação dos seres ocupa papel central nas teorias, bem como seu contrário: o repouso e a estabilidade dos seres;

Há distinção entre “aparência” e “essência”, principalmente nos pensamentos de Heráclito e Parmênides. À primeira se relaciona a dóxa (opinião) e à segunda, a essência.

Agora que você já tem ideia de quais são as preocupações e características das cosmologias pré-socráticas, vamos estudar cada uma delas!


Fonte: Educação, história e sociedade : módulo 1 : Filosofia e  Educação, volume 2 / Elaboração de conteúdo: Carla  Milani Damião. – [Ilhéus, BA] : UAB/UESC, [2009].  1 v. (várias paginações).