Psicologa Organizacional

26 de março de 2026

 


Analfabetismo, Semianalfabetismo e o Desafio da Habilitação no Brasil: uma análise à luz da Psicologia do Trânsito

 

Por Acimarley Freitas – Psicólogo Clínico e do Trânsito

 

O processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no Brasil não se resume à aprendizagem mecânica de conduzir um veículo. Trata-se, antes de tudo, de um processo complexo que envolve competências cognitivas, emocionais e sociais, diretamente relacionadas à preservação da vida no trânsito. Nesse contexto, emerge uma problemática relevante e ainda pouco debatida de forma aprofundada: a presença de candidatos analfabetos ou semianalfabetos no processo de habilitação.

 

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, em seu artigo 140, é requisito básico para a obtenção da CNH que o candidato “saiba ler e escrever”. Essa exigência não é meramente formal. Ela se fundamenta na necessidade de que o futuro condutor seja capaz de compreender sinalizações, interpretar normas, processar informações rápidas e tomar decisões seguras no ambiente viário.

Entretanto, a realidade educacional brasileira apresenta um cenário desafiador. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que uma parcela significativa da população ainda enfrenta dificuldades básicas de leitura e escrita, sendo classificada como analfabeta ou analfabeta funcional. Estima-se que entre 10% e 15% dos brasileiros estejam nessa condição, o que impacta diretamente processos que exigem habilidades mínimas de letramento como é o caso da habilitação.

No âmbito da avaliação psicológica, regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia por meio de resoluções específicas, e também pelas normativas do Conselho Nacional de Trânsito, o psicólogo do trânsito tem a responsabilidade técnica e ética de investigar se o candidato possui condições cognitivas e emocionais adequadas para dirigir. Essa avaliação inclui entrevista individual, observação comportamental e aplicação de testes psicológicos validados cientificamente.

Esses instrumentos avaliam funções como atenção (concentrada, dividida e alternada), memória visual, raciocínio lógico e inteligência prática, capacidades fundamentais para o ato de dirigir, que envolve constante captação e processamento de informações em tempo real. Além disso, são analisados traços de personalidade, como impulsividade, agressividade e controle emocional, aspectos amplamente discutidos por teóricos como Aaron T. Beck e Hans Eysenck, que destacam a influência desses fatores no comportamento humano.

No entanto, na prática pericial, observa-se uma dificuldade recorrente: muitos candidatos apresentam limitações significativas já nas etapas iniciais do processo, como o simples preenchimento de dados básicos (nome, naturalidade, escolaridade, CPF). Atividades que geralmente demandariam poucos minutos podem se estender por um tempo muito maior, revelando dificuldades de compreensão e execução.

Outro ponto crítico refere-se à aplicação dos testes psicológicos. Grande parte desses instrumentos contém instruções escritas que exigem leitura e interpretação. Mesmo quando o psicólogo intervém como facilitador, explicando verbalmente as orientações, alguns candidatos ainda não conseguem compreender ou executar adequadamente as tarefas. Nesses casos, a validade psicométrica do teste é comprometida, tornando inviável uma análise precisa e ética.

É importante destacar que a inaptidão nesses casos não decorre, necessariamente, de transtornos psicológicos, psicopatologias ou déficits cognitivos estruturais. Trata-se, muitas vezes, de uma limitação decorrente de uma escolarização precária ou insuficiente. Assim, esses candidatos são considerados inaptos temporariamente, não por incapacidade intrínseca, mas por ausência de habilidades básicas exigidas pelo processo.

Essa realidade coloca a Psicologia do Trânsito em uma posição delicada. Por um lado, há o compromisso ético com a segurança coletiva; por outro, o risco de ser percebida como uma barreira de acesso a um direito social. No entanto, é fundamental compreender que dirigir não é apenas um direito, é uma responsabilidade que envolve riscos reais à vida própria e à de terceiros.

Autores como Kurt Lewin já destacavam que o comportamento humano é resultado da interação entre indivíduo e ambiente. No trânsito, esse ambiente é dinâmico, complexo e, muitas vezes, imprevisível. Um condutor que não consegue interpretar uma placa, compreender uma instrução ou reagir adequadamente a um estímulo pode representar um risco significativo.

Diante desse cenário, torna-se urgente a implementação de políticas públicas que enfrentem essa problemática de forma estrutural. Não se trata de flexibilizar critérios técnicos, mas de promover condições para que mais cidadãos alcancem os requisitos mínimos necessários. Programas de alfabetização de jovens e adultos, como os historicamente defendidos por Paulo Freire, podem ser um caminho fundamental nesse processo de inclusão responsável.

Além disso, é necessário que os órgãos reguladores ampliem o debate sobre possíveis adaptações metodológicas, sem comprometer o rigor científico e a segurança do processo. A questão não é apenas permitir que mais pessoas obtenham a CNH, mas garantir que essas pessoas estejam, de fato, preparadas para assumir o volante com responsabilidade.

Em síntese, o desafio dos analfabetos e semianalfabetos no processo de habilitação é, antes de tudo, um reflexo de desigualdades educacionais históricas. A Psicologia do Trânsito não deve ser vista como um obstáculo, mas como um instrumento de proteção à vida. Afinal, no trânsito, cada decisão importa.

Porque não se trata apenas de dirigir. Trata-se de preservar vidas.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BRASIL. Código de Trânsito Brasileiro. Brasília: 1997.

 

Conselho Nacional de Trânsito. Resoluções vigentes sobre processo de habilitação.

 

Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 009/2011 e atualizações sobre avaliação psicológica no trânsito.

 

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Indicadores de alfabetização no Brasil.

 

BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva e os Transtornos Emocionais.

 

EYSENCK, Hans J. Estrutura da Personalidade Humana.

 

LEWIN, Kurt. Teoria de Campo em Ciência Social.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido.


25 de março de 2026

 



O Conceito de “Catalizador” e o “Eu Atuante” na Abordagem Centrada na Pessoa

 

Na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl Rogers, o terapeuta é visto não como um agente diretivo que conduz ativamente o processo terapêutico, mas como um catalisador: alguém cuja presença, atitudes e postura facilitam a emergência e o desenvolvimento das potencialidades do cliente. Neste sentido, o conceito de “catalizador” refere-se à função de promover, sem interferir ou dirigir, as transformações internas daquele que busca o processo terapêutico.

O Terapeuta como Catalizador

Na química, o catalisador é uma substância que aumenta a velocidade de uma reação, sem, no entanto, ser consumida ou alterar a natureza final dos elementos envolvidos. Rogers (1957; 1961) utiliza essa metáfora para ilustrar o papel do terapeuta na ACP: o terapeuta cria as condições relacionais — empatia, congruência e consideração positiva incondicional — em que o cliente se sente seguro para explorar seus sentimentos, valores e vivências, possibilitando mudanças espontâneas e genuínas. Dessa forma, o “catalisador” não determina o produto final (as escolhas ou o destino do cliente), mas atua facilitando o processo de autodescoberta e crescimento.

Jurema Cunha (2017), referência brasileira na ACP, reforça esse entendimento ao afirmar que o terapeuta, ao manter uma postura autêntica e de escuta ativa, funciona como um espelho relacional que potencializa a experiência interna do cliente, sem invadir ou antecipar respostas. O catalisador, aqui, é essencialmente uma presença que respeita os tempos e as necessidades do outro.

O “Eu Atuante” na Perspectiva Rogeriana

O “eu atuante” ou self em ação, na perspectiva da ACP, emerge justamente da relação facilitadora oferecida pelo terapeuta-catalisador. Não se trata de uma ação imposta, mas do florescimento da capacidade do próprio cliente de experimentar e agir de acordo com seus próprios valores, necessidades e percepções. É neste espaço relacional, seguro e validante, que o cliente passa a sentir-se suficientemente fortalecido para confiar em seus próprios recursos internos e assumir uma postura ativa diante de sua vida e escolhas.

Rogers (1961) ressalta que a tendência atualizante é inerente a todos os seres humanos, e o terapeuta catalisador favorece a manifestação desse potencial. O “eu atuante” revela-se quando o indivíduo, livre de pressões externas e de julgamentos, assume o protagonismo de seu processo de mudança. Isso demanda uma escuta profunda por parte do terapeuta e a oferta de um setting que respeite a autonomia e o ritmo singular de cada pessoa.

Considerações Finais

A atuação do terapeuta como catalisador, na Abordagem Centrada na Pessoa, promove a ativação do “eu atuante” do cliente. Nessa perspectiva, o desenvolvimento pessoal é visto como um movimento espontâneo, fruto de um encontro genuíno e acolhedor, onde o terapeuta não dirige, mas facilita, respeitando o protagonismo e a liberdade do cliente. Ao longo de todo o processo, evidenciam-se a ética e a confiança radical na tendência construtiva do ser humano.

 

Referências Bibliográficas

  • Cunha, J. (2017). Acolhimento e Presença: Reflexões sobre o Setting na Abordagem Centrada na Pessoa. Porto Alegre: Sulina.
  • Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95-103.
  • Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person: A Therapist's View of Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin.



 


O SETTING TERAPÊUTICO NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

 

O conceito de setting terapêutico é fundamental na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl Rogers, e refere-se ao conjunto de condições físicas, psíquicas e relacionais que possibilitam o encontro genuíno entre terapeuta e cliente. O setting, neste contexto, transcende a mera disposição espacial, compreendendo um ambiente relacional pautado pela autenticidade, aceitação e compreensão empática, elementos considerados nucleares na promoção do crescimento psicológico e na facilitação da mudança.

Fundamentação do Setting Terapêutico na ACP

Carl Rogers (1951, 1961), em suas obras pioneiras, destaca que o setting deve ser um espaço livre de julgamentos, no qual o cliente se sinta seguro para expressar sentimentos, conflitos e experiências. Para Rogers, o ambiente terapêutico não está apenas fisicamente delimitado, mas é construído a partir da atitude do terapeuta que se propõe a oferecer as chamadas “condições necessárias e suficientes”: consideração positiva incondicional, empatia e congruência (Rogers, 1957; 1961). Estes elementos criam a atmosfera de confiança e liberdade responsável pelo caráter transformador do processo.

O setting envolve elementos concretos como privacidade, conforto, ausência de interrupções externas e aspectos simbólicos, como a postura ética, o respeito à confidencialidade e a responsabilização pelo espaço comum (Cunha, 2017). A teórica brasileira Jurema Cunha enfatiza a importância do setting como um lugar de acolhimento psíquico, argumentando que a presença acolhedora do terapeuta é, ela mesma, terapêutica, pois ativa no cliente o sentimento de pertencimento e disponibilidade interna para o autoconhecimento.

A Dinâmica do Setting como Espaço Favorecedor da Experiência

Na ACP, o setting é considerado uma extensão da atitude fenomenológica: o terapeuta suspende juízos e expectativas, focando integralmente na experiência do cliente. Rogers defende que, nesse espaço, a escuta empática e a autenticidade do terapeuta funcionam como catalisadores de um processo de autodescoberta. O setting, portanto, é um ambiente sustentador, em que se vivenciam relações horizontais, de não-diretividade, onde o cliente se torna protagonista de sua própria trajetória (Rogers, 1983).

Cunha (2017) reafirma a centralidade do setting ao postular que “não existe processo terapêutico genuíno sem uma ambiência protetora, legitimadora e calorosa” (Cunha, 2017, p. 98). Dessa forma, o setting funciona como um continente psíquico, um “espaço potencial” no sentido de Winnicott (1975), mesmo que, na prática da ACP, a noção se expanda para uma vivência de encontro e disponibilidade radical.

Considerações Finais

O setting terapêutico na Abordagem Centrada na Pessoa é mais que um espaço físico: consiste em uma construção relacional que demanda, do terapeuta, presença autêntica, empatia e aceitação incondicional. Constitui-se como “ambiente facilitador” capaz de promover a liberdade experiencial e o desenvolvimento pleno do potencial humano, elementos fundamentais para o exercício clínico e ético do psicólogo na contemporaneidade.

 

Referências Bibliográficas

  • Cunha, J. (2017). Acolhimento e Presença: Reflexões sobre o Setting na Abordagem Centrada na Pessoa. Porto Alegre: Editora Sulina.
  • Rogers, C. R. (1951). Client-Centered Therapy: Its Current Practice, Implications, and Theory. Boston: Houghton Mifflin.
  • Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95–103.
  • Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person: A Therapist’s View of Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin.
  • Rogers, C. R. (1983). Liberdade para Aprender. Porto Alegre: Artmed.
  • Winnicott, D. W. (1975). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.

 



O Conceito de Amor: Um Panorama Histórico, Filosófico e Científico

 

O conceito de amor figura entre os mais desafiadores e polissêmicos da história humana, abarcando dimensões biológicas, sociais, filosóficas e psicológicas. A análise histórica e epistemológica do amor revela não apenas a plasticidade desse fenômeno, mas também como diferentes culturas e períodos históricos moldaram sua compreensão e expressão.

Amor na Antiguidade: Mito, Filosofia e Primeiras Tentativas de Sistematização

Nas civilizações antigas, o amor era, frequentemente, associado tanto ao sagrado quanto ao profano. Na Grécia Antiga, por exemplo, os múltiplos termos – eros, philia, ágape, storge – demonstram a riqueza conceitual desse sentimento (Vernant, 1990). Platão, em seu "Banquete", propõe o amor como um processo de elevação, saindo do desejo sensual em direção ao amor pelo conhecimento e pela beleza do mundo das ideias (Platão, 2012). Já Aristóteles, em sua "Ética a Nicômaco", associa o amor à amizade virtuosa, essencial para o desenvolvimento moral e político do ser humano (Aristóteles, 2009). Em contraposição, Eros, para os mitos, representava tanto fertilidade como imprevisibilidade e transgressão.

No contexto judaico-cristão, o amor é elevado a dimensão ética e divina. O ágape torna-se o centro do ensinamento cristão, resumido na máxima “amai-vos uns aos outros” (João, 13:34), deslocando o amor do desejo ao altruísmo e à compaixão, influenciando profundamente o imaginário ocidental (Brown, 1994).

Idade Média e Modernidade: Do Amor Cortês ao Romantismo

Durante a Idade Média, emerge o conceito de amor cortês, notavelmente nas cortes europeias, impregnado de idealizações estéticas e morais, muitas vezes em tensão com a instituição do casamento (Dubby, 1984). No Renascimento, recupera-se a noção platônica de amor ideal, mas, já na modernidade, a cultura do amor passa a sofrer intensa transformação.

O Iluminismo, com sua ênfase na razão, desloca o amor do terreno apenas passional para entendimentos mais sociais e institucionais – em Rousseau ou Kant, o amor é visto tanto como sentimento como substrato moral para a construção civilizatória. Entretanto, é no Romantismo do século XIX que o amor é redefinido como fulcro da individualidade: emerge, nesse período, a valorização do amor passional, singular, quase redentor (Singer, 2009).

Século XX em Diante: Intersecções com Psicologia, Neurociência e Multiculturalidade

No século XX, a psicologia e a sociologia oferecem novas perspectivas. Freud entende o amor como expressão do instinto sexual (libido) recalcado e fonte de neuroses (Freud, 1905). Erich Fromm, em "A Arte de Amar" (1956), propõe o amor como arte e escolha ativa, deslocando-o do mero acaso ou destino para a esfera da responsabilidade. Para Fromm, o amor é “a única resposta sensata para o problema da existência humana” (Fromm, 2006).

No behaviorismo, conforme Skinner (1971), o amor é visto como comportamento aprendido e reforçado pelo ambiente social, destituído de essência metafísica, mas fundamental para a coesão e sobrevivência social. A terapia cognitivo-comportamental, por sua vez, associa o amor à interação entre pensamentos, emoções e comportamentos aprendidos, estabelecendo um elo entre biologia, cultura e subjetividade (Beck, 2011).

Nas últimas décadas, a neurociência tem contribuído com explicações acerca da base biológica do amor, identificando a ação de neurotransmissores como a dopamina e a oxitocina (Fisher, 2006), mostrando que amar envolve circuitos cerebrais ligados à recompensa, apego e cuidado parental.

Paralelamente, as contribuições culturais e pós-modernas desafiam as visões unificadas. As etnografias antropológicas sobre povos africanos, asiáticos e ameríndios evidenciam variações profundas quanto a afetos, uniões e expressões amorosas, revelando que o conceito de amor, longe de ser universal, é permeado por valores, tabus e práticas específicas (Levi-Strauss, 1987).

Considerações Finais

Atravessando mitologia, filosofia, religião, ciências humanas e as atuais pesquisas neurocientíficas, o amor persiste como objeto fronteiriço entre o corpo e a cultura, entre a universalidade biológica e a pluralidade de sentidos. A compreensão do amor, portanto, exige um olhar transdisciplinar e atento à multiculturalidade, alertando-nos de que qualquer definição será sempre provisória, situada, provocativa.

 

Referências Bibliográficas

  • Aristóteles. (2009). Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret.
  • Beck, A. T. (2011). Terapia Cognitiva: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed.
  • Brown, P. (1994). The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity. New York: Columbia University Press.
  • Dubby, G. (1984). O Amor Cortês. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Fisher, H. (2006). Why We Love: The Nature and Chemistry of Romantic Love. New York: Henry Holt.
  • Fromm, E. (2006). A Arte de Amar. Rio de Janeiro: Record.
  • Freud, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. São Paulo: Imago.
  • Lévi-Strauss, C. (1987). As Estruturas Elementares do Parentesco. Rio de Janeiro: Vozes.
  • Platão. (2012). O Banquete. Lisboa: Calouste Gulbenkian.
  • Singer, I. (2009). The Nature of Love. Chicago: University of Chicago Press.
  • Skinner, B. F. (1971). Beyond Freedom and Dignity. New York: Knopf.
  • Vernant, J.-P. (1990). O Universo, os Deuses, os Homens: Mitologia Grega. São Paulo: Companhia das Letras.




23 de março de 2026


 

NEUROBIOLOGIA E PSICOLOGIA: UMA ANÁLISE INTEGRATIVA DOS NEUROTRANSMISSORES NA EXPERIÊNCIA HUMANA

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico

 

 

RESUMO

 

O presente artigo tem como objetivo discutir a relação entre neurobiologia e psicologia a partir da atuação dos neurotransmissores serotonina, noradrenalina e dopamina, destacando sua influência na regulação emocional, comportamental e cognitiva. A proposta fundamenta-se em uma perspectiva integrativa, compreendendo o ser humano como uma unidade biopsicológica. Além disso, o estudo articula esses conhecimentos com a Abordagem Centrada na Pessoa, enfatizando a importância da experiência subjetiva na construção do sentido psicológico. Conclui-se que a compreensão da saúde mental exige uma visão que integre processos biológicos e vivenciais.

 

Palavras-chave: Neurotransmissores. Neurobiologia. Psicologia. Saúde mental. Experiência subjetiva.

 

INTRODUÇÃO

A compreensão do comportamento humano tem sido historicamente marcada por diferentes abordagens teóricas que, por vezes, dissociaram mente e corpo. No entanto, avanços nas neurociências têm demonstrado que processos biológicos e experiências psicológicas estão profundamente interligados.

 

Nesse contexto, os neurotransmissores desempenham papel fundamental na mediação entre atividade cerebral e vivência subjetiva. Substâncias como serotonina, noradrenalina e dopamina não apenas regulam funções fisiológicas, mas também influenciam diretamente emoções, pensamentos e comportamentos.

Assim, este estudo propõe refletir sobre a integração entre neurobiologia e psicologia, destacando a importância de uma abordagem que considere o ser humano em sua totalidade.

 

NEUROTRANSMISSORES E EXPERIÊNCIA PSICOLÓGICA

Os neurotransmissores são substâncias químicas responsáveis pela transmissão de impulsos entre neurônios. Sua atuação está diretamente relacionada à regulação de funções cognitivas, emocionais e comportamentais.

Dessa forma, compreende-se que o funcionamento biológico não ocorre de maneira isolada, mas se expressa na forma como o indivíduo percebe, sente e interage com o mundo.

 

SEROTONINA E REGULAÇÃO EMOCIONAL

A serotonina está associada à regulação do humor, do sono, do apetite e do bem-estar geral. Níveis reduzidos desse neurotransmissor estão frequentemente relacionados a quadros de tristeza, irritabilidade e ansiedade, enquanto níveis equilibrados favorecem estabilidade emocional.

No campo psicológico, a serotonina desempenha papel relevante na regulação das emoções, sendo frequentemente alvo de intervenções farmacológicas em transtornos depressivos. Sua atuação pode ser compreendida como um elemento que contribui para a experiência de equilíbrio interno do indivíduo.

 

NORADRENALINA E RESPOSTA AO ESTRESSE

A noradrenalina está diretamente envolvida nos mecanismos de atenção, foco e resposta ao estresse. Baixos níveis podem resultar em desmotivação e redução da energia, enquanto níveis elevados estão associados a estados de ansiedade e hiperalerta.

Do ponto de vista psicológico, esse neurotransmissor relaciona-se à forma como o indivíduo responde às demandas do ambiente, influenciando reações como luta, fuga e estado de prontidão. Trata-se, portanto, de um sistema fundamental para a adaptação frente aos desafios da realidade.

 

DOPAMINA E MOTIVAÇÃO

A dopamina está ligada aos sistemas de recompensa, prazer e motivação. Sua redução pode levar à apatia e à anedonia, enquanto níveis elevados podem favorecer comportamentos impulsivos e busca excessiva por estímulos prazerosos.

Na psicologia, a dopamina está associada ao direcionamento do comportamento, influenciando o desejo, o propósito e a busca por objetivos. Sua atuação evidencia a relação entre processos neurobiológicos e a construção de sentido na vida do indivíduo.

 

INTEGRAÇÃO BIOPSICOLÓGICA

Os sistemas de serotonina, noradrenalina e dopamina não atuam de forma isolada, mas compõem uma rede integrada que sustenta funções essenciais como emoções, comportamentos, cognições e relações interpessoais.

Essa interdependência reforça a ideia de que não há uma separação rígida entre mente e cérebro. Na prática clínica, essa compreensão contribui para abordagens mais amplas, que consideram tanto aspectos biológicos quanto subjetivos do indivíduo.

 

CONTRIBUIÇÕES DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

A Abordagem Centrada na Pessoa propõe uma compreensão do ser humano baseada na experiência subjetiva e na tendência atualizante. Embora reconheça a importância dos aspectos biológicos, essa perspectiva enfatiza que o foco do processo terapêutico deve estar na forma como o indivíduo vivencia e simboliza suas experiências.

Nesse sentido, mais do que intervir apenas em processos neuroquímicos, torna-se fundamental compreender o significado que o sujeito atribui às suas emoções e vivências, favorecendo a reconexão com o seu eu real.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise dos neurotransmissores serotonina, noradrenalina e dopamina evidencia que processos biológicos e psicológicos estão profundamente interligados. Essas substâncias não se limitam a funções químicas, mas constituem caminhos pelos quais o corpo se expressa em emoções, pensamentos e comportamentos.

Dessa forma, compreender a saúde mental implica reconhecer a integração entre cérebro e experiência humana. Uma abordagem que considere essa totalidade possibilita intervenções mais eficazes e humanizadas no cuidado psicológico.

 

REFERÊNCIAS

 

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

 

FUENTES, Daniel et al. Neuropsicologia: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

 

GRAEFF, Frederico Guilherme; GUIMARÃES, Francisco Silveira. Fundamentos de psicofarmacologia. São Paulo: Atheneu, 2000.

 

KANDEL, Eric R. et al. Princípios de neurociência. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.

 

LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? Conceitos fundamentais de neurociência. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2010.

 

MACHADO, Angelo B. M.; HAERTEL, Lúcia Machado. Neuroanatomia funcional. 3. ed. São Paulo: Atheneu, 2014.


11 de março de 2026

 


Teatro da Vida: Olhar o Simples, Descobrir a Grandeza

 

Em meio ao frenesi do cotidiano, entre compromissos e cobranças, poucas vezes nos permitimos um instante de pausa. Mas o verdadeiro sentido da existência, acredito, se esconde nos detalhes mais simples, naquilo que só enxerga quem escolhe viver, e não apenas sobreviver. É essa filosofia que chamo de Teatro da Vida, uma celebração do ordinário que, no fundo, é absolutamente extraordinário.

 

Já reparou como um pássaro pairando no céu, uma flor desabrochando, um pôr do sol dourando o horizonte ou o voo frenético de um beija-flor podem resgatar sua fé na beleza do mundo? E quando observamos uma criança brincando, seres humanos compartilhando bondade genuína, pequenas cenas que surgem inesperadamente como verdadeiros presentes no palco da vida? São sinais, convites silenciosos para olharmos mais fundo.

 

Neste teatro, não há espaço para o estresse desmedido, para a pressa vazia, para a ganância que corrói. Não há capitalismo ou competição, apenas um convite singelo a observar, contemplar e ser. A riqueza mais autêntica não se mede em posses, mas na profundidade com que percebemos o que temos, em vez do que nos falta.

 

Permita-se, por um instante, ver o mundo com novas lentes. Reconheça as pequenas alegrias do dia, agradeça por elas e sinta o poder renovador do simples. Aqui reside o caminho para sonhar mais alto, acreditar em si mesmo e cultivar o próprio jardim interior. Amor, empatia, autoaceitação, congruência, virtudes que florescem quando damos espaço ao silêncio e à sensibilidade.

 

Ser protagonista no Teatro da Vida é assumir as rédeas do próprio crescimento. Evoluir um pouco mais a cada dia, não para se tornar perfeito, mas para ser mais genuíno, mais inteiro, mais humano. Ao valorizar as nuances e explorar a subjetividade, encontramos força para sermos melhores para nós e para o outro.

 

Que este olhar inspirador o acompanhe. Que você permita à sua existência ser não uma corrida sem fim, mas um espetáculo repleto de significado, autenticidade e beleza. Porque, no final, é o simples que transforma tudo. Viva, sinta, perceba, seja. O Teatro da Vida espera por você e o papel principal é seu.

 

 

Acimarley Freitas

1 de março de 2026

 


O EU ATUALIZANTE NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: FUNDAMENTOS TEÓRICOS E INTERFACES COM A ESCUTA NA PRODUÇÃO BRASILEIRA

 

 

A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl Rogers, fundamenta-se na concepção de que o ser humano possui uma tendência inata ao crescimento, à autonomia e à realização de suas potencialidades. Tal princípio, denominado tendência atualizante, constitui o núcleo motivacional da teoria rogeriana e sustenta a compreensão do que pode ser denominado eu atualizante, expressão que designa o movimento contínuo de desenvolvimento do self em direção à maior congruência e integração experiencial.

Na perspectiva rogeriana, o eu não é uma entidade fixa, mas um processo dinâmico de organização da experiência. O desenvolvimento do eu atualizante ocorre em contextos relacionais que favoreçam condições facilitadoras, especialmente empatia, consideração positiva incondicional e congruência.

No Brasil, a consolidação da ACP foi significativamente ampliada por autores como Mauro Amatuzzi, Virginia Moreira e Adriano Holanda, que aprofundaram a compreensão fenomenológica da experiência e da escuta clínica. Além disso, pesquisadores brasileiros que trabalham o conceito de escuta psicológica têm contribuído para a articulação entre teoria e prática clínica, reconhecendo a escuta como elemento estruturante do processo de atualização do eu.

Dessa forma, este estudo propõe analisar o conceito de eu atualizante na ACP, articulando-o às contribuições da produção científica brasileira acerca da escuta psicológica.

 

Analisar o conceito de eu atualizante na Abordagem Centrada na Pessoa, destacando suas implicações clínicas e sua relação com o conceito de escuta na produção teórica brasileira.

Descrever a tendência atualizante e sua relação com a constituição do self na teoria rogeriana; Examinar as condições facilitadoras do desenvolvimento do eu atualizante; Discutir as contribuições de autores brasileiros sobre a escuta como elemento promotor da atualização do eu.

 

O aprofundamento do conceito de eu atualizante apresenta relevância teórica e prática, pois permite compreender os fundamentos da mudança terapêutica na ACP. Em um contexto clínico marcado por demandas complexas e crescente sofrimento psíquico, torna-se imprescindível resgatar fundamentos que sustentem intervenções éticas e centradas na experiência do cliente.

No cenário brasileiro, a ampliação da escuta clínica como prática fundamentada em bases fenomenológicas e humanistas reforça a necessidade de integrar o conceito de atualização do eu às especificidades culturais e sociais do país. Assim, este estudo justifica-se pela contribuição à formação acadêmica e à qualificação da prática clínica em Psicologia.

 

Trata-se de pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório-descritivo. Foram analisadas obras clássicas de Carl Rogers, bem como produções de autores brasileiros reconhecidos na Psicologia Humanista e na discussão sobre escuta clínica.

As referências foram selecionadas com base em relevância acadêmica, circulação científica e consonância com a temática proposta, observando-se as diretrizes da ABNT NBR 6023:2018 para apresentação das referências e o sistema autor-data conforme ABNT NBR 10520:2023.

 

Tendência atualizante e constituição do eu

 

Segundo Carl Rogers (1951/1992), todo organismo possui uma tendência inerente à atualização, definida como impulso direcional para desenvolver capacidades e manter ou aprimorar o organismo. Essa tendência constitui a base do funcionamento psicológico saudável.

O eu, nesse contexto, emerge como uma configuração organizada de percepções acerca de si mesmo. Quando a experiência vivida é simbolizada de forma adequada à consciência, ocorre maior congruência entre experiência e autoconceito. O eu atualizante representa, portanto, o processo no qual o indivíduo se permite integrar experiências antes negadas ou distorcidas, ampliando sua autenticidade.

A incongruência surge quando experiências ameaçadoras ao autoconceito são negadas ou distorcidas, gerando ansiedade e desorganização interna. A função do contexto terapêutico consiste em oferecer condições facilitadoras para que o indivíduo possa reorganizar seu campo experiencial.

 

Escuta e atualização do eu na produção brasileira

 

No Brasil, Mauro Amatuzzi destaca que a escuta autêntica possibilita ao sujeito reconhecer sentidos implícitos em sua vivência, favorecendo o movimento de atualização. Para o autor, a escuta não é mera técnica, mas atitude fenomenológica de abertura à experiência do outro.

Virginia Moreira amplia essa compreensão ao integrar fundamentos fenomenológicos existenciais à ACP, ressaltando que o eu se constitui na relação e na historicidade do sujeito.

Adriano Holanda enfatiza a importância da escuta clínica como espaço intersubjetivo de validação da experiência, no qual o cliente pode reorganizar significados e promover crescimento psicológico.

Assim, a literatura brasileira converge ao reconhecer que a escuta empática e não julgadora constitui condição essencial para o florescimento do eu atualizante.

 

A análise teórica evidencia que o eu atualizante não deve ser compreendido como estado idealizado de perfeição, mas como processo contínuo de integração experiencial. A atualização do eu ocorre quando o indivíduo encontra ambientes relacionais que favoreçam autenticidade e aceitação.

As contribuições brasileiras ampliam a teoria rogeriana ao enfatizar dimensões culturais e contextuais da escuta, reconhecendo que a experiência humana é atravessada por fatores históricos e sociais. A escuta clínica, nesse sentido, configura-se como prática ética e política, ao legitimar a subjetividade do cliente.

Observa-se que o fortalecimento do eu atualizante depende menos de intervenções diretivas e mais da qualidade da relação terapêutica, corroborando a hipótese central da ACP acerca das condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica.

 

Conclui-se que o conceito de eu atualizante constitui elemento fundamental da Abordagem Centrada na Pessoa, representando o movimento intrínseco de desenvolvimento e integração do self.

A produção teórica brasileira reforça a centralidade da escuta como condição facilitadora desse processo, ampliando a compreensão da ACP no contexto sociocultural nacional.

Desse modo, reafirma-se que a prática clínica fundamentada na empatia, congruência e consideração positiva incondicional favorece a emergência de um eu mais integrado, autêntico e aberto à experiência.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 1989.

 

HOLANDA, Adriano Furtado. Fenomenologia e psicologia: diálogos e possibilidades. Curitiba: Juruá, 2014.

 

MOREIRA, Virginia. Psicopatologia crítica. São Paulo: Escuta, 2012.

 

ROGERS, Carl R. Terapia centrada no cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

 

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

 

ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

(Referências organizadas conforme ABNT NBR 6023:2018.)

 

 


O SELF SEGUNDO A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS E INTERFACES COM O CONCEITO DE ESCUTA NA PSICOLOGIA BRASILEIRA

 

A compreensão do conceito de self ocupa posição central na teoria da personalidade desenvolvida por Carl Rogers, fundador da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Para o autor, o self constitui-se como uma organização perceptual fluida e dinâmica, formada a partir das experiências vividas pelo organismo, especialmente aquelas simbolizadas na consciência. Essa organização estrutura a maneira como o indivíduo percebe a si mesmo e se relaciona com o mundo, influenciando diretamente seus processos de ajustamento psicológico.

No contexto contemporâneo da Psicologia brasileira, o estudo do self, articulado ao conceito de escuta, ganha relevância diante das demandas clínicas que exigem intervenções pautadas na ética, na empatia e na compreensão fenomenológica da experiência subjetiva. Autores brasileiros como Rogério Paes de Barros, Mauro Amatuzzi e José Célio Freire têm contribuído significativamente para a consolidação da escuta como instrumento técnico e atitude fundamental no exercício clínico, dialogando com os pressupostos rogerianos.

Dessa forma, investigar o conceito de self segundo a ACP e suas interfaces com a prática da escuta psicológica no cenário brasileiro configura-se como relevante aporte teórico e prático para a formação e atuação do psicólogo clínico.

Analisar o conceito de self na Abordagem Centrada na Pessoa, articulando-o com as contribuições de teóricos brasileiros acerca do conceito de escuta no contexto da prática psicológica.

Descrever a concepção de self segundo a teoria de Carl Rogers; Identificar a relação entre self, experiência e tendência atualizante na ACP;  Discutir as contribuições de autores brasileiros para a compreensão da escuta como elemento estruturante do desenvolvimento do self.

 

O estudo do self na perspectiva rogeriana apresenta relevância científica e social, uma vez que fundamenta práticas clínicas centradas na valorização da subjetividade e na promoção da autonomia do indivíduo. Em um cenário marcado por crescente sofrimento psíquico, torna-se imprescindível compreender como a escuta qualificada pode favorecer processos de reorganização do self e ampliação da consciência experiencial.

No Brasil, a consolidação da Psicologia Humanista e da ACP tem sido fortalecida por produções acadêmicas que reafirmam a centralidade da escuta empática como condição facilitadora de crescimento pessoal. Assim, esta investigação justifica-se pela necessidade de integrar fundamentos teóricos clássicos com contribuições contemporâneas da produção científica nacional.

 

O presente estudo caracteriza-se como pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e natureza exploratória. Foram analisadas obras clássicas de Carl Rogers, bem como produções científicas de autores brasileiros reconhecidos na área da Psicologia Humanista e da prática da escuta clínica.

A seleção das fontes considerou publicações indexadas, livros acadêmicos e artigos científicos que abordam o conceito de self e a escuta psicológica, priorizando materiais alinhados às normas vigentes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT NBR 6023:2018).

 

O conceito de self na Abordagem Centrada na Pessoa

 

Para Carl Rogers (1951/1992), o self refere-se a uma configuração organizada de percepções que o indivíduo tem de si mesmo, incluindo características, valores e relações. Trata-se de uma estrutura fenomenológica que emerge da interação entre o organismo e o ambiente.

O autor distingue entre o self real (experiencial) e o self ideal, sendo que a incongruência entre essas dimensões pode gerar sofrimento psicológico. A tendência atualizante, conceito central da ACP, representa a força motivacional inerente ao organismo humano para desenvolver suas potencialidades. Quando o indivíduo encontra um ambiente facilitador  caracterizado por empatia, consideração positiva incondicional e congruência ocorre maior integração do self.

 

A escuta como condição facilitadora do desenvolvimento do self

 

No contexto brasileiro, Mauro Amatuzzi enfatiza que a escuta fenomenológica possibilita ao sujeito reconhecer e simbolizar sua experiência, favorecendo a ampliação da consciência e a reorganização do self.

De modo semelhante, José Célio Freire destaca que a escuta clínica, quando pautada na empatia e na suspensão de julgamentos, cria um espaço intersubjetivo que legitima a experiência do cliente, promovendo crescimento psicológico.

Essas contribuições dialogam diretamente com a proposição rogeriana de que a mudança terapêutica ocorre quando o indivíduo se sente profundamente compreendido em sua experiência interna.

 

A análise do conceito de self na ACP evidencia que sua constituição não ocorre de forma isolada, mas em permanente relação com o outro. A escuta, nesse contexto, não se reduz a uma técnica, mas configura-se como atitude ética e epistemológica.

Os autores brasileiros revisados ampliam a compreensão rogeriana ao enfatizar a dimensão cultural e relacional da escuta no cenário nacional, reconhecendo que o desenvolvimento do self está imerso em contextos históricos e sociais específicos.

Observa-se que a incongruência, entendida como discrepância entre experiência e autoconceito, pode ser atenuada por meio de uma escuta que favoreça a simbolização adequada das vivências. Assim, a prática clínica fundamentada na ACP reafirma a centralidade da relação terapêutica como espaço privilegiado de transformação.

 

Conclui-se que o conceito de self, segundo Carl Rogers, constitui elemento estruturante da Abordagem Centrada na Pessoa, estando intrinsecamente relacionado à qualidade das relações interpessoais vivenciadas pelo indivíduo.

As contribuições de teóricos brasileiros reforçam a importância da escuta como condição facilitadora do crescimento psicológico, ampliando o entendimento da ACP no contexto nacional.

Dessa forma, o estudo reafirma que a prática clínica orientada pela escuta empática e pela consideração positiva incondicional favorece a integração do self, promovendo maior autenticidade e congruência existencial.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 1989.

 

FREIRE, José Célio. A escuta clínica e a ética do cuidado. Fortaleza: Edições UFC, 2002.

 

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

 

ROGERS, Carl R. Terapia centrada no cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

 

ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

(Organizado conforme ABNT NBR 6023:2018.)