Psicologa Organizacional

4 de março de 2017

Repercussão da Traição na Vida da Mulher


Repercussão da Traição na Vida da Mulher


O presente estudo tem como tema: a repercussão da traição na vida da mulher. Trata-se de um trabalho que busca compreender como essas mulheres lidam com a traição de seus companheiros ou maridos, uma vez que, ela traz diversas consequências psicológicas e sociais. Neste sentido, salienta-se que o desenvolvimento do projeto de pesquisa teve proposta, como problematização, a seguinte questão: Qual a repercussão da traição na vida de mulheres que possuíam relacionamento amoroso?

Ressalta-se, que a definição pelo tema tem como objetivo geral verificar a repercussão da traição na vida de mulheres que possuíam relacionamento amoroso e como objetivos específicos, identificar os sentimentos vivenciados pelas mulheres após a separação; verificar os motivos apresentados às mulheres para a traição; também, analisar as decisões tomadas pelas mulheres para a vida a partir da ocorrência da traição e avaliar a recorrência da traição nos relacionamentos amorosos das mulheres.

Justifica-se a escolha do tema, pelo fato de muitas mulheres terem vivenciado situações que envolvam traição. Pasini (2010, p.11) ressalta que: “Para muitos, a traição começa como um modo de evasão da vida cotidiana, da areia movediça dos hábitos e das frustrações de cada dia”. Essas situações deixam marcas na vida das mulheres, pois se trata de traições vindas de seus parceiros, que resultam em sentimentos e emoções diferenciadas. Ainda conforme Pasini (2010, p.8) “Uma coisa é certa. As mulheres de hoje, são mais fortes e seguras, mais afirmativas até no amor, mesmo quando são traídas”. Atualmente inúmeros casais, por um motivo ou outro, se separam depois de um tempo de convivência, muitas  vezes, alguns casais continuam a viverem juntos, já outros não suportam o peso da traição e se separam.

2. Fundamentação Teórica


Nesta etapa apresenta-se uma breve revisão da literatura, que consta, os dados, as ideias e os entendimentos de autores sobre o nosso tema, trazendo informações literárias e também, em alguns trechos, o nosso entendimento à respeito do que a literatura especializada expõe.

2.1. A Representação da Mulher no Casamento


Desde a antiguidade as mulheres desempenham papéis diferenciados dentro do ciclo familiar, destacando-se na prestação de serviços para garantir o bem estar de sua família, baseados na bondade, fraternidade e respeito, deixando suas necessidades e vontades pessoais de lado.

Conforme Del Priore; Bassanezi (2006 p. 237) “A distribuição de papéis [...] revela a crescente santificação da mulher como mãe, através do sofrimento, enquanto todos os deveres do pai apontam na direção de ganhar dinheiro para o sustento da família”.

Percebe-se que, desde a antiguidade a mulher é criada para ser esposa e mãe. Sendo assim, esses papéis exigem dela esforços físicos e psíquicos consideravelmente maiores e isso acaba sendo desgastante. No entanto, é possível compreender porque em vários momentos a mulher pensa mais nos outros e menos em si, pois está preocupada em desempenhar suas funções da melhor maneira possível.

Ainda, Del Priore; Bassanezi (2006, p. 237) relatam que “pode-se sentir, por parte da mulher o cultivo da domesticidade e dos deveres de ser esposa. Toda a fragilidade e, ao mesmo tempo, fortaleza de mãe é sublinhada”. A mulher por muito tempo foi submetida ao papel de boa esposa e ótima mãe, a sociedade exigia dela estar desempenhando as funções que estivessem dentro dos padrões culturais da época. Atualmente, muitas coisas mudaram: a mais visível é que as mulheres conquistaram mais poder de decisão e, finalmente, o direito de desejar. (PASINI, 2010).

Para complementar Alves (2000, p. 237):

[...] Isto significa existir um descontentamento com o passado, uma análise depreciativa de como as mulheres eram criadas, sua submissão, dos limites estreitos impostos ao seu movimento dentro dos grupos sociais e às possibilidades de escolha profissional. A mulher que, agora, mantém atividades fora do lar, mas ainda é a responsável pelo bom andamento da casa, dos filhos e do bem-estar do marido. É como se um caldeirão estivesse no fogo, pronto para entrar em ebulição a qualquer momento [...].

Mesmo com as transformações que vêm acontecendo há décadas, o papel da mulher na família ainda baseia-se em cuidar dos outros, esse cuidar exige dela uma energia física e psíquica, trazendo ao mesmo tempo, um cansaço físico e emocional, consequentemente, torna-se necessário um olhar diferenciado para essas mulheres que deixam muitas vezes, de cuidar de si para cuidar dos outros, afinal, amor próprio é fundamental para uma boa saúde mental.

2.2. Relacionamentos Afetivo-Conjugais


O casamento, na versão hiper-romântica, aquela do ‘felizes para sempre’, é uma instituição mutante, pelo simples fato de que o ser humano é um ‘eterno incompleto’ e faz parte de um universo em constante transformação. Neste sentido, a satisfação conjugal total não existe, sempre haverá alguma questão particular que, de certa forma, faz parte de uma utopia criada pelo nosso psiquismo. Os tempos mudaram e, por isso, o casamento também mudou. (MATARAZZO, 2004, p. 29).

Segundo Matarazzo (2004, p. 30) “Aqueles que tentam preservar os relacionamentos buscam uma conciliação entre o desejo de liberdade e o fantasma da traição. Querem substituir um contrato sufocante por um mais flexível isso contribui para o estabelecimento de uniões passageiras [...]”.  Ainda destaca o mesmo autor (2004, p. 70) que:

Para muitos essa é, de fato, a verdade atual das relações entre os sexos. Mais cedo  ou mais tarde, as desilusões, as feridas emocionais, tendem a estabelecer os limites. Não importa o quão bem sucedido seja o ato de enganar, as relações fortuitas costumam ser perigosas e exigem um estado de alerta permanente.

Sabe-se que, em muitos casos os relacionamentos podem ser considerados uma farsa, pois em diferentes momentos a pessoa que trai, acaba por demonstrar sua traição de diferentes maneiras, mesmo que inconscientemente. Já a pessoa que está sendo traída, receberá essas informações, mas as reações perante esse fato serão expressas de diversas formas, muitos mesmo sabendo que estão sendo traídas (os) ou que traem não fazem nada a respeito, negando assim o conflito com seu parceiro.

Os relacionamentos íntimos tem centralidade na vida adulta e a qualidade dos mesmos tem implicações não só na saúde mental, mas também na saúde física, psicológica e na vida profissional de homens e mulheres, ou seja, os relacionamentos afetivo-conjugais influenciam em nossa qualidade de vida (NORGREN et al. 2008).

Norgren et al. (2004, p.2) ainda ressalta que:

Satisfação conjugal é, sem dúvida, um conceito subjetivo, implicando em ter as próprias necessidades e desejos satisfeitos, assim como corresponder, em maior ou menor escala, ao que o outro espera, definindo um dar e receber recíproco e espontâneo. Relaciona-se com sensações e sentimentos de bem-estar, contentamento, companheirismo, afeição e segurança, fatores que propiciam intimidade no relacionamento, decorrendo da congruência entre as expectativas e aspirações que os cônjuges têm em comparação à realidade vivenciada no casamento.

Para o bom andamento da relação, é importante que o casal consiga satisfazer suas necessidades, físicas e emocionais, dentre elas o sexo, ou seja, quando o casal encontra-se em crise por algum motivo estes acabam apresentando dificuldades em se relacionar. Em muitas situações são as crises que fazem com que o casal se distancie, buscando a satisfação pessoal e sexual fora do relacionamento, configurando assim, uma traição ou infidelidade por parte de um dos parceiros.

2.3. Traição


A discussão acerca da traição nos relacionamentos é um tema que suscita diferentes opiniões da população no geral. No campo da produção de conhecimento, alguns autores escrevem sobre o tema, a fim de contribuir para a elucidação de diferentes questões referentes há infidelidade e traição.

A traição significa a renúncia ao conforto das seguranças do cotidiano, aos “braços maternos simbólicos”, que reencontramos, no parceiro e em outras pessoas importantes da nossa vida (PASINI, 2010, p. 32).

Ainda destaca Pasini (2010 p. 32) que “a traição situa-se na sombra que cada um de nós leva consigo, ou seja, naquele lugar da alma, onde conservamos as nossas partes íntimas e secretas, e onde está oculta uma grande quantidade de energia”. Portanto conforme Maldonado (2007, p. 153):

A traição nem sempre acontece porque o relacionamento está insatisfatório: há pessoas que, para fortalecer sua autoestima, precisam sempre espalhar o spray da sedução; há também os que traem para não se sentir aprisionados num único relacionamento, querem a porta de saída sempre aberta para outras possibilidades.

Assim, a infidelidade torna-se a consequência natural de uma personalidade em construção (PASINI, 2010, p. 32). No entanto, a traição ainda é vista como um tabu na sociedade, muitos casais passam por situações de infidelidade, mas não tomam atitude, pois o fato de terem que se enfrentar, poderá gerar conflitos e implicar no término de seus relacionamentos amorosos e isso faz com que seus sentimentos se tornem negativos e se não forem adequadamente trabalhados trarão consequências na vida pessoal e social do indivíduo.

Segundo Matarazzo (2004, p.67) “Há autores que veem a fidelidade absoluta como uma utopia e, segundo eles, todos nós, de tempos em tempos, manifestamos o desejo de trair. Quem acredita ser totalmente fiel, tanto em suas fantasias quanto em seus desejos, em geral está se auto – enganando”.  Ainda conforme Matarazzo (2004, p. 63):

As infidelidades são sucessiva neste mundo confuso de desordens amorosas, O contraponto disso são aqueles que trocam a quantidade de envolvimentos pela qualidade, procuram colocar uma certa ordem e aceitam uma única união, só que essa tem que ser “perfeita”.

Nos relacionamentos a traição não é algo desejado pelo casal, mas que muitas vezes acontece, esse fato pode gerar consequências ou até fortalecer a relação. Tudo isso depende de como é vista (representação) a traição na vida dessas pessoas, pois em alguns casos ela pode fazer com que o casal se separe, sendo que um ou até os dois não aceitem ser traídos pelo seu parceiro (a). Já em outra situação este mesmo ato pode gerar algo positivo, pois de alguma maneira servirá como base para um recomeço do relacionamento.

A traição pode ser algo bom como pode ser algo ruim, depende de como está esta pessoa no momento em que ela ocorre. Sua autoestima vai influenciar na sua decisão, como também vai delimitar suas atitudes perante esta situação.

2.4. A Psicologia no Contexto da Traição


Destaca Blow; Hartnett et al. ( 2005 apud VIEGAS; MOREIRA, 2013, p.2 ) que: “A investigação e a prática clínica têm mostrado que a infidelidade é uma das experiências mais difíceis, complexas e exigentes para os casais, e constitui uma das razões mais apontadas para a procura de terapia de casal e para o divórcio”.

É importante estudar o que leva as pessoas a considerar um comportamento como sendo ou não infidelidade, e esta como mais ou menos grave. (PASINI, 2010). Uma pessoa que tem o histórico de autoestima baixa, complexos de inferioridade, vai agir de maneira diferente do que outra que está com sua autoestima elevada. Pode-se levar em conta que existem vários atos que podem ser considerados como traição, dependendo do contexto que cada pessoa foi criada e o que ela considera como certo ou errado.

Neste sentido, menciona Schade; Sandberg (2012 apud VIEGAS; MOREIRA, 2013, p.2) que:

A partilha de intimidade sexual e/ou emocional com um terceiro elemento é sentida como uma quebra do compromisso e da confiança entre os parceiros. A conjugação entre investimento amoroso e julgamentos de traição abala a estabilidade e a segurança que estão na base do compromisso.

Torna-se importante ressaltar que, as pessoas têm percepções diferentes a respeito da traição ou da infidelidade, isso depende de como as mesmas tiveram suas experiências pessoais, de como foram suas vivências em grupo ou individual, portanto, todos temos diferentes opiniões, vivemos em contextos diferentes e consequentemente nossas ideologias e nossas maneiras de agir e de pensar são diferentes, nesse contexto deve-se levar em conta o porquê da dificuldade ou facilidade de determinada pessoa lidar com a traição.

3. Metodologia


De acordo com as características e objetivos acerca do tema de pesquisa escolhido, optou-se pelo método de pesquisa qualitativa, pois este é o mais apropriado aos objetivos no presente estudo. Conforme Bardin (2000, p. 21) análise qualitativa é a presença ou a ausência de uma dada característica de conteúdo ou de um conjunto de características num determinado fragmento de mensagem que é tomado em consideração.

A amostra constituiu-se por quatro mulheres na faixa etária entre vinte e cinquenta anos de idade. Como critério de escolha das participantes foi considerado a acessibilidade e conveniência, sendo que, essas mulheres já tenham passado por situações de traição em relacionamentos que tenham durado no mínimo um ano.

Para a coleta de dados: utilizou-se como instrumento o gravador e o questionário, como a técnica a entrevista semiestruturada. Segundo Bardin (2011, p. 93): “Entrevistas semi diretivas (também chamadas com plano, com guia, com esquema, focalizadas, semiestruturadas) mais curtas e mais fáceis: seja qual for o caso, devem ser registradas e integralmente transcritas”. Desta maneira, foi organizada a partir de um roteiro previamente elaborado, a qual estava composta de questões relacionadas aos objetivos da pesquisa e alguns dados pessoais dos participantes. As entrevistas foram realizadas com cada participante separadamente, a fim de possibilitar aos indivíduos uma maior liberdade para expressarem seus sentimentos, emoções e relatos espontâneos da sua experiência. A aplicação das entrevistas aconteceu nos meses de julho/agosto de 2014.

Ao entrar em contato (por telefone) com as participantes foi explicado para as mesmas o objetivo da pesquisa, do que se tratava e para qual fim seria utilizada. Após, os esclarecimentos, (pessoalmente) foi apresentado o Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), onde consta a autorização e assinatura, explicitando que a participação delas foi sigilosa e voluntária, sem custos financeiros para as entrevistadas.

As entrevistas foram gravadas, posteriormente transcritas e por questões éticas utilizou-se nomes fictícios para garantir os seus direitos. A partir das entrevistas realizadas foi analisado o material obtido de acordo com a Análise de Conteúdo. Segundo Bardin (2000, p. 42):

Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção, recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.

Diante do exposto, foram abordados os temas predominantes nas falas das participantes e analisadas com base nos conteúdos evocados por cada participante.

4. Apresentação e Análise dos Dados


Neste item será apresentada a discussão dos resultados. Inicialmente, será abordado o perfil das quatro participantes, para que assim possibilite um melhor entendimento do contexto pessoal da vida de cada uma delas. Lembrando que, utilizamos de nomes fictícios para não comprometer a identidade das entrevistadas.

a.  BÁRBARA tem 48 (quarenta e oito) anos de idade, no momento está em uma união estável, cursou até a oitava série do ensino fundamental, atualmente trabalha como vendedora, embora já esteja aposentada. Sendo que, Bárbara reside com sua filha e seu atual parceiro no município de Guaraciaba-SC.

b. BEATRIZ tem 46 (quarenta e seis) anos de idade, no momento está divorciada, ela cursou até a quarta série do ensino fundamental, trabalha como empregada doméstica em diversas residências. Beatriz reside atualmente no município de Guaraciaba-SC, possui três filhos, uma mulher e dois homens, porém reside com seus dois filhos homens.

c.  BIANCA tem 24 (vinte e quatro) anos de idade, trabalha como vendedora, está cursando ciências contábeis. Atualmente reside em Guaraciaba – SC, mora com sua mãe e seu irmão. Bianca está em um relacionamento sério com um novo parceiro há mais de 1 (um) ano.

d. BRUNA Tem 23 (vinte e três) anos de idade, atualmente reside em Anchieta-SC, onde mora com seu atual parceiro (marido). Bruna tem um filho de 2 (dois) anos e está grávida de um menino. Possui nível superior completo em assistência social, porém, atualmente trabalha em sua própria empresa no munícipio.

A partir da análise realizada do perfil das entrevistadas, percebeu-se que, haveria necessidade de apresentar e desenvolver os dados coletados em forma de categorias, para que assim, possibilitasse a discussão dos pontos mais importantes que foram identificados no decorrer da análise. A seguir apresentaremos as categorias abordadas: Relacionamento e convivência; Condicionantes de traição e Projeções para a vida a partir da traição;

4.1. Relacionamento e Convivência


Com relação à primeira categoria, pode-se observar que, nas relações amorosas,  podem ocorrer dificuldades nos relacionamentos e convivências com os parceiros, sendo que, muitas dessas dificuldades estão relacionadas com a atribuição de papéis que são culturalmente estabelecidos pela sociedade. Desta forma, Buckner (2013, p. 19) relata que: “O casamento era a escola da abnegação em tudo, devemos aprender a sofrer em silêncio”.

A seguir veremos algumas colocações da entrevistada a respeito deste assunto:

Nunca trair um ao outro, quem morrer primeiro o outro fica sozinho, não poderá casar mais. Mas não deu muito certo. Viver juntos até ser velhinhos (Beatriz).

Conforme o relato de Beatriz percebe-se que, ela acreditava que seu relacionamento/casamento deveria ser eterno, portanto ela não cogitava a hipótese de viver sozinha, o isso dificultou a vida pessoal dela. Embora ela não tenha relatado percebemos que prevalecem sentimentos de solidão e medo do desconhecido, pois foi algo surpreendente e inesperado, houve uma perda muito significativa para ela, pois sua expectativa de viver um “conto de fadas” terminou sem um final feliz.

Algumas mulheres escolhem seus parceiros e ficam com eles, se não para sempre, por um bom tempo. Essa decisão de trocar de parceiros não é uma decisão simples. Para Schnebly

(1994, p.13): “[...] ninguém gosta de sentir-se desamparado e dependente”, pois, o medo e a insegurança prevalecem em vários momentos na vida das mulheres [...].

[...] Tipo foi um relacionamento que começou bem, mas depois foi se acostumando de um jeito errado, desagradável, foi indo, foi indo (Bianca).

Os primeiros cinco anos foram bons, depois começou o ciúme, muito ciúme, maus tratos, ele não me respeitava mais, não tinha mais confiança, casamento sem sucesso, dai ficamos juntos até onde deu (Beatriz).

Estas participantes relataram que inicialmente os relacionamentos eram bons, mas com o passar do tempo se tornaram difíceis. Diferente de Bianca e Beatriz as participantes a seguir, relataram que viviam “bem” com seus parceiros, porém com o passar o tempo esse conceito foi se modificando dentro do relacionamento afetivo.

Segundo Viegas e Moreira (2013, p.2): Não existem dúvidas de que a ocorrência de julgamentos de infidelidade tem importantes consequências negativas nas relações de casal.

A gente vivia super bem, nunca brigava, ele era um homem alegre, a única coisa que ele não era responsável, o problema dele é que ele era “galinha”, mas em casa ele não era de brigar, ele era um homem bom para mim, mas ele queria ser livre, e tinha um coração muito bom (Bárbara)

Às vezes tranquilo, às vezes tumultuoso, às vezes bom, às vezes ruim, eu acho que como todo o relacionamento, tinha a parte boa e tinha a parte ruim, lógico que, logo antes da gente terminar o nosso relacionamento estava muito mais para ruim do que para bom (Bruna)

Outro dado que foi enfatizado por Bárbara e Bruna diz respeito, à uma relação onde tudo parecia ser “tranquilo”, porém, muitas vezes durante a entrevista, ambas relataram que seus parceiros não eram tão bons quanto elas diziam ser, ou seja, aparentemente há uma negação da verdadeira realidade dos casos, pois como disse Bruna, “o nosso relacionamento estava muito mais para ruim do que para bom”.

Segundo Ballone (2011, p.6):

O universo psíquico humano sempre recorreu ao autoengano para alívio dos grandes conflitos e complexos. Nessas situações de separação também se recorre ao autoengano, na maioria das vezes inconscientemente. Deve ser enfatizado, mais uma vez, que as pessoas deixadas e que se sentem “perplexas por terem sido pegas de surpresa”, na realidade talvez não tenham observado bem os indícios do que estava para acontecer, tal como uma espécie de negação de fatos que não se quer ver.

A seguir, a fala das participantes relata essa realidade.

Porque ele nunca parava em casa, dizia que iria caçar pescar, mas ia atrás das mulheres, não se importava com nós. Ele se preocupava só com ele, ele não ficava nenhum final de semana em casa, saia de sexta de noite e voltava na segunda-feira, dai a gente começava a discutir por causa disso e as amizades dele era só  “putaria” (Bárbara).

Traição, mentira, muita mentira, mentira ao extremo. Ele mentiu sobre tudo [...]. (Bruna).

Como percebe-se, nesse contexto as entrevistadas citaram a falta de confiança  existente nos relacionamentos, ou seja, não havia um círculo de confiança no relacionamento, sendo que, esses vínculos são essenciais para o bom andamento de uma relação. Podemos identificar nas falas das participantes, que mesmo apesar das discussões, traições, mentiras enfim, elas permaneceram com seus parceiros por mais algum tempo, ou seja, mesmo passando por dificuldades os casais continuaram juntos.

É interessante observar que Bianca relata as dificuldades de se expressar/dialogar com seu parceiro, ou seja, a importância de conversar, ser ouvida e compreendida por ele. No relato identificamos que ela se sentia prejudicada por não conseguir conversar civilizadamente com ele, consequentemente as dificuldades no relacionamento foram aumentando.

[...] Tipo assim, quando tu queria conversar alguma coisa com ele, tu não conseguia conversar, era só briga, eu puxava o assunto, ele me chamava de burra, boba, idiota, tu está inventando coisas, está com minhoca na cabeça, ele falava. Às vezes ele era bem ignorante sabe?[...] (Bianca).

As dificuldades são comuns nos primeiros anos de relacionamento, por tratar-se de uma relação que até então são de pessoas diferentes que não possuem uma ligação ainda estabelecida. Portanto, é importante que se estabeleça vínculos afetivos, boa convivência, respeito, aceitação das ideias do outro, para que assim, ambos estejam “abertos” para  conhecer e compartilhar das perspectivas do outro (AMARAL, 2010).

4.2. Condicionantes de Traição


Quando o casal decide manter um relacionamento, são necessárias algumas mudanças na vida das pessoas em individual para conjugal. Têm de se habituar a viver uma vida a dois, é preciso ser amigo, é preciso ser “esposa e marido”.

Neste aspecto, buscou-se conhecer um pouco mais do que condicionou a desestruturação do relacionamento, consequentemente levando à traição.

Motivo nenhum, ele dizia que era mentira. Ah que ele se envolveu com ela e tinha pena dela, que não conseguia sair fora. Ele era consciente do que fazia, mas mesmo assim não mudava (Bárbara).

Sempre dizia que queria se aparecer, fez bobeira e virou sério, não podia mais cair fora e tinha que pagar pelo erro, assim que ele falava, achou que eu nunca iria mandar ele embora de casa (Beatriz).

Entretanto, pode-se identificar que nos comentários citados anteriormente, os companheiros das participantes não justificaram sua traição, embora tenham falado sobre ela, relataram ter dificuldades em terminar com a amante.

A descoberta da infidelidade representa quase sempre uma séria crise relacional para o casal, ocorre à perda de uma perspectiva de futuro e a sensação de não controle, que tornam a recuperação da relação afetiva do casal muito incerta (VIEGAS; MOREIRA, 2013).

[...] eu acabei descobrindo pela minha ex sogra, num momento de desespero, ela soube que a gente tinha brigado, e me ligou chorando pedindo porque a gente tinha brigado? ai eu falei, porque ele não colaborava, daí ela falou assim: ah tu tem que ficar com ele, porque a menina de São Miguel não quer mais a criança, como que ele ia criar uma criança sozinho? ela me falou isso. Aí o meu mundo acabou (Bianca).

É interessante observar no discurso de Bianca, que embora seu namorado não tenha relatado, ele mantinha um relacionamento extraconjugal, do qual acabou engravidando a outra mulher. A forma pela qual Bianca descobriu esta relação foi através de sua sogra, deixando claro que, ela precisava se adaptar a essa nova vida e conviver com essa realidade.

Após essa descoberta, Bianca falou “Aí o meu mundo acabou”, isso lhe trouxe muita dor e sofrimento. Entretanto, percebemos que os sentimentos que permaneceram em Bianca, eram de medo, solidão, insegurança e raiva, pois essa estabilidade que ela acreditava ter acabou gerando diversos conflitos pessoais.

Meu Deus, na verdade quem me contou foi uma ex. cunhada e uma amiga minha, eu já desconfiava, elas viram ela no carro com ele e me contaram, na verdade todos sabiam só eu que não sabia. Ele era um homem bom, mas tinha esse defeito de não parar em casa. Ele correu atrás de mim, mas eu não quis mais. A gente casou  novos, sei lá (Bárbara).

Primeiro eu já desconfiava, a gente sente que está diferente, depois por meio de amigos, depois eu mesma descobri. (Beatriz).

Com relação aos relatos das entrevistadas, percebe-se que, a infidelidade de seus parceiros foi exposta para outras pessoas, tanto que estas pessoas contaram para elas. Embora ambas tenham relatado já estarem desconfiadas da traição, pois havia indícios de que algo estava acontecendo.

Fife; Weeks;  Gambescia (2008 apud VIEGAS; MOREIRA, 2013, p.2) complementa que:

Não existem dúvidas de que a ocorrência de julgamentos de infidelidade tem importantes consequências negativas nas relações de casal. [...] a partilha de intimidade sexual e/ou emocional com um terceiro elemento é sentida como uma quebra do compromisso e da confiança entre os parceiros.

Geralmente, relacionamentos conflituosos envolvem brigas e discussões, principalmente quando se fala na questão afetiva do casal, são diversos os problemas que surgem na relação e consequentemente eles trazem outros problemas, um deles, é quando as pessoas ignoram fatos que ocorrem, tentando negar algo que está prestes a “destruir” a rotina do casal, pois eles querem se proteger de algo que na verdade já não traz mais a tranquilidade e a segurança que trazia anteriormente.

Veem-se algumas mudanças que ocorreram na relação das participantes, após um tempo de convivência:

Que ele mudou bastante, me maltratava e tudo o que ele fazia acusava que era eu, sempre mentindo (Beatriz).

Só o fato dele não ficar em casa já chega! (Bárbara).

Quando um dos parceiros recorre à infidelidade, ele está retratando algo que de fato pode estar “faltando” na relação do casal, ou seja, quando existe uma relação conflituosa pode ocorrer essa desestruturação que leva a busca de uma satisfação fora do relacionamento. Neste mesmo contexto, é importante ressaltar que, existem mudanças perceptíveis no relacionamento e na convivência do casal, essas mudanças podem gerar discórdias e desconfianças.

A constatação da traição causa um grande sofrimento e desestrutura a pessoa, pois, de certa forma, perde-se o sentimento de “posse” da outra pessoa, que era sua garantia. Isso pode produzir desencanto, desilusão, desapontamento e decepção (BALLONE, 2011, p.2).

Eu acho que ninguém fica feliz né, eu me senti na época um trapo humano, eu me senti muito triste, fiquei muito magoada [...] (Bruna).

Era chato, eu sentia muita raiva dele, eu só queria que ele sumisse da minha frente (Bianca).

Ah, ah, ah Deus, me senti sem chão, muito triste, meu Deus, eu sei lá, quem me segurou foi minha filha, foi muito triste da forma que foi, ele ficava por ai ao público com ela e nós nem separados estávamos, sei que para mim meu mundo acabou (Bárbara).

Fiquei louca, muito magoada, deu Depressão, me internei, tentei me suicidar, vontade de matar, de sumir, bastante vergonha, me escondia de todos, não queria  ver ninguém, não sai de casa por um bom tempo (Beatriz).

As entrevistadas de uma forma geral registram que, os sentimentos que surgem são negativos, trazem desconforto, sofrimento e falta de confiança, que está interligada com a ausência e a falta de participação do parceiro na vida delas, assim, criando uma “barreira” no relacionamento dos dois. Como se pode perceber, foi difícil para elas aceitar a perda da “pessoa amada”, por exemplo, Beatriz relatou “tentei me suicidar, vontade de matar, de sumir”, esse sentimento de perda leva a uma vivência de um luto, que surge pela perda de uma pessoa ou um objeto amado, não necessariamente pela morte de algo ou alguém, pois, quanto mais apego a pessoa tem mais ela irá sofrer pela perda desse relacionamento.

Ressalta Beaumont (2011, p.61) que, “algumas vezes a rejeição e a traição ferem tão fundo que aparentemente a única forma de aliviar a dor é destruir a pessoa que nos traiu”.

Sentimento de tristeza, desprezo, sabe lá, nem sei. Pior que isso não tem. Eu pensava que se ele tivesse morrido não seria tão triste, ele aprontava na minha frente e eu não podia fazer nada (Bárbara).

Além de raiva... Tristeza, eu ficava deprimida, me achava um lixo sabe, me sentia isolada, sozinha e o pior de tudo que eu não tinha ninguém para contar (Bianca).

Pereira (2013, p. 21) comenta que “[...] a compulsão de destino, na qual as pessoas se colocam ativamente nas mesmas situações desprazerosas. Elas sentem-se vítimas de uma espécie de destino maligno. Vivem como se fossem condenadas a um castigo repetitivo [...]”. Como relatou Bárbara “ele aprontava na minha frente e eu não podia fazer nada”, ou seja, a participante se colocou como incapaz frente a esse acontecimento, quando na verdade ela poderia sim ter feito algo com relação á infidelidade.

Veem-se pelas afirmações das participantes com relação à repetição da infidelidade de seus parceiros.

Se fosse uma vez eu tinha perdoado, mas depois não deu mais. Perdoei três vezes depois não deu mais. Fomos até para a delegacia, ele não pode se aproximar de mim (Beatriz).

Boa pergunta. Não foi a única vez. Eu tenho certeza de duas e fora o que os outros falam. Pode ser que ele teve mais, mas eu não sabia (Bárbara).

Aquelas que eu sei, são quatro vezes ou cinco (Bianca).

Outro dado a ser enfatizado nos relatos das participantes, dizem respeito à suportabilidade de eventos ruins. Muitas vezes estes fatos ocorriam por determinado tempo na vida delas, esses eventos de infidelidade e de maus tratos físicos e psicológicos vinham ocorrendo há algum tempo. Neste sentido, compreende-se porque foi tão difícil a quebra desses vínculos com seus parceiros, pois essas mulheres estavam de certa forma, vivendo e revivendo situações que traziam prazer e desprazer. No entanto, as participantes depois de certo tempo conseguiram “abandonar” esse sofrimento, essa “repetição”, buscando novas perspectivas para suas vidas.

Contudo, apesar dos aspectos negativos, nem todas as influências para a vida dessas mulheres são ruins. É preciso passar pelo processo da dor e da perda, porque, é necessário que a pessoa conviva com esses momentos ruins, para que, ela consiga se recuperar, se esse processo não for vivido esse sofrimento vai prevalecer e reaparecer futuramente na vida  dessas mulheres, impossibilitando uma recuperação “saudável”.

4.3. Projeções para a Vida a Partir da Traição


Quando a pessoa tem sua autoestima elevada, será menos conflituosa a decisão de romper com seu parceiro. Mas, dependendo de como a pessoa se encontra psicologicamente, será mais difícil aceitar que tudo chegou ao fim e suas reações podem ser limitadas, pois suas perceptivas de futuro estão relacionadas com o fracasso e com a falta de confiança em si para superar qualquer evento. Para confirmar tal afirmação Ballone (2011, p.4) relata que: “O ego da pessoa com baixa autoestima pode ter necessidades do se afirmar ‘sobre o outro’ ou, igualmente ruim, pode estimular a pessoa a testar sua capacidade de sedução sobre outras pessoas [...]”.

A seguir algumas mudanças que ocorreram na vida das participantes após a descoberta de um evento de infidelidade:

Na última traição eu decidi largar dele, pensei assim, chega não quero isso para mim, e sai de casa fui morar com minhas amigas (Bianca).

Deixar dele não quis mais ele, não compensa não vale a pena você está com alguém que mente para você, que te trai, uma pessoa que é falsa. A partir disso eu passei a ser muito mais desconfiada. Eu tive muita, tenho ainda, muita dificuldade em confiar nas pessoas em algumas pessoas, eu sou muito desconfiada [...] (Bruna).

Ainda sobre a decisão da separação Buckner (2013, p. 28) relata que: “há casais que passam a vida inteira ameaçando ir embora e morrem sem se separar, de mãos dadas”. A decisão da separação vinda das participantes, foi um evento que veio se prolongando com o passar do tempo e dos acontecimentos, percebe-se que, nos relatos das mesmas ficou claro que além das traições conjugais, haviam outros problemas relacionados com afetividade, confiança e respeito.

Conforme Silva (2008, p.3):

Deve considerar que, por mais que pareça que o motivo de uma separação seja um evento único, dificilmente o será. Uma separação é resultado de uma sequência de acontecimentos que vêm desde a escolha do parceiro (e seus motivos), passando pelos mais diversos acontecimentos do dia-a-dia, podendo chegar a algum evento mais específico. Esses eventos ao longo do relacionamento vão desgastando aos poucos e tornam os parceiros menos afetuosos e mais propensos à violência.

Também, pode-se dizer que o casal sofre alterações em seu relacionamento, muitas são negativas e que vem ocorrendo com mais frequência com o passar do tempo, isso prejudica o relacionamento à dois, quando um dos cônjuges não está satisfeito com a relação, ele muitas vezes busca se auto satisfazer em outra relação. Assim sendo, os condicionantes de traição vão além de motivos internos, sofrem influências do ambiente em que vivem, ou seja, se há problemas de convivência ou problemas financeiros que afetam o casal, um dos parceiros poderá buscar “preencher” esse espaço que existe na relação com outra pessoa.

Não é tarefa fácil aceitar os motivos pelos quais as pessoas traem. Para isso visualiza- se algumas opiniões das entrevistadas a seguir:

Não sei. Talvez a pessoa esteja descontente, talvez seja uma forma de escape da pessoa, eu não sei o que se passa na cabeça da pessoa, tem pessoas que simplesmente precisam trair sem justificativa, simplesmente traem, vai saber por quê? Eu acho que é muito de pessoa para pessoa, cada pessoa tem uma visão e se faz porque pensa de algum jeito, não sei qual não entendo (Bruna).

(silêncio) Eu só sei que não tem explicação, se você está com a pessoa para que trair? Não é necessário sair com outra pessoa, para se auto satisfazer (Bianca).

Porque elas não têm sentimentos, acredito, eles agem pela razão e não pelo coração. Não tem sentimento de amor com a pessoa [...] (Bárbara).

Conforme o relato de Bruna, Bianca e Bárbara fica exposto á dificuldade em compreender os motivos da traição de seus parceiros. Embora elas tenham relatado que as pessoas podem trair para se auto satisfazer ou por estarem infelizes, ainda acreditam que depende da individualidade de cada um, “Eu acho que é muito de pessoa para pessoa, cada pessoa tem uma visão”. Já para Bárbara as pessoas traem por egoísmo e falta de sentimentos pelos outros.

Neste aspecto, Ballone (2011, p.4) comenta que “[...] surge uma necessidade em se convencer ser desejável. O comportamento para testar tais necessidades favorece a vulnerabilidade à traição”.

Eu acho que a separação é a coisa mais triste, a pessoa vai para o fundo do poço, desestrutura uma pessoa, deixa as marcas, coisa bem triste. Em primeiro lugar acaba, tanto emocionalmente, como financeiramente, ali você segue um plano do futuro, daí quando desmorona você não sabe o que fazer, ainda mais quando tem filhos, porque envolve eles (Bárbara).

A pior coisa que uma mulher pode sentir é muito difícil (Beatriz).

Como se pode perceber, a pessoa traída ou “substituída” se mobiliza pela frustração da perda, da mentira, pela deslealdade do parceiro e, também, pelo constrangimento familiar e social. Os sentimentos que a infidelidade mais desperta nas pessoas traídas, são de mágoa, contrariedade, raiva, arrependimento, ânsia de vingança ou revanche. É comum, nessas situações que os sentimentos se choquem um com o outro, havendo uma mistura de emoções e a pessoa experimenta diferentes sensações e frustrações (BALLONE, 2011 p.2).

(silêncio) A primeira vez que ele me traiu, tipo eu nunca contei isso para ninguém, porque eu sei que é errado, mas... A primeira vez eu dei o troco, eu trai ele também, e me arrependo disso, só que ele não sabe, e nunca desconfiou, porque apesar de ele sempre me chamar de burra, eu não fui nem um pouco burra (Bianca).

Não pode-se deixar de ressaltar que esta participante relatou já ter traído seu parceiro, mesmo considerando a traição um ato ruim e errado, ela decidiu trair para dar o “troco”, ou seja, decidiu trair porque foi traída. Essa decisão que partiu de Bianca retrata o desejo que ela tinha de se vingar, mas ao mesmo tempo é um reflexo do que ela queria provar para si mesma ser desejável, que ela também tinha a capacidade de trair, de ser desejada por outro ser que não seu parceiro, ou seja, ela mostrou para si mesma ser capaz.

5. Considerações Finais


Esta pesquisa teve como propósito compreender a dinâmica que envolve temas sobre as vivências humanas, bem como os relacionamentos, a traição na vida das mulheres, as relações afetivas envolvidas, também os sentimentos presentes no momento da descoberta da traição, e as diversas consequências para a vida. A pesquisa realizada junto às mulheres demonstra que, a traição causa um grande impacto na vida das pessoas, sendo que, existem sentimentos negativos como, raiva, desprezo, solidão, medo, insegurança entre outros. Desta forma, quando o vínculo afetivo entre o casal se quebra por algum motivo, acarreta sequelas na relação e na vida pessoal de cada um.

O presente estudo possibilitou compreender o porquê da recorrência de eventos de infidelidade na vida dessas mulheres. Como foi verificado há a presença da compulsão em aceitar eventos negativos, isso está relacionado com o perfil particular de cada uma, com os aspectos culturais, ambientais, econômicos e a maneira como foram criadas.

As participantes demonstraram que apesar de todas as dificuldades enfrentadas durante o período de traição, elas conseguiram terminar os seus relacionamentos, e assim consequentemente romperam uma relação que já vinha se deteriorando com o tempo.

Além disso, as entrevistadas vivenciaram as traições de maneiras distintas, inclusive as decisões que tomaram a partir desse evento foram diferenciadas, para algumas a decisão da quebra do vinculo foi imediata, já para outras a decisão envolvia filhos e situações socioeconômica, isso levou elas a tolerar a infidelidade e a convivência com o parceiro por  um período maior.

Atualmente, elas conseguem falar e relembrar o acontecido, como um evento do passado que trouxe novas perspectivas para a vida delas. Contudo, esse acontecimento ainda traz a tona sentimentos que precisam ser trabalhados para que haja uma “superação” e “aceitação” da perda que se ocorreu. Percebe-se que uma das participantes ainda está bem “fragilizada”, inclusive ela recorreu á tentativa de suicídio após descobrir que seu parceiro estava lhe traindo.

No entanto pensa-se que este estudo poderia ser estendido a uma população ainda maior, realizar este trabalho com ambos os sexos, possibilitaria, uma compreensão maior referente à traição em aspectos diferentes de cada gênero, para que assim se verifique os motivos que cada um utiliza para justificar sua traição.

Porém, não se pode deixar de ressaltar, que as traições trazem consequências negativas para as relações, mas em alguns casos elas podem ser encaradas como um evento positivo,

desde que o casal se possibilite compreender a dinâmica da relação conjugal/afetiva, levando a infidelidade como uma barreira a ser quebrada, com o objetivo de superar esse evento traumático, trazendo a tona sentimentos que estavam “adormecidos” na relação.

Conclui-se que, a vida dessas pessoas é repleta de sentimentos negativos, mas com a busca de um tratamento psicológico que, engloba também, a resiliência de cada indivíduo, poderá haver um alívio das tensões, medos e angústias relacionadas à infidelidade, principalmente no que se refere às participantes que relataram serem “injustas” com seus atuais parceiros em decorrência da traição que sofreram nos relacionamentos anteriores.

“O homem pode amar o seu semelhante até o ponto de morrer por ele; mas não o ama tanto que trabalhe em seu favor” (Pierre Proudhon).

5 de fevereiro de 2017

PSICOLOGIA NÃO SE ESCREVE COM S: UM RESGATE À CIÊNCIA


 
 
 
PSICOLOGIA NÃO SE ESCREVE COM S: UM RESGATE À CIÊNCIA
PSICOLÓGICA
 
 
 
 
 
 
 
Definições para Psicologia não faltam e a análise desta tarefa costuma chegar a uma mesma lógica: Psicologia é a ciência do comportamento, mente e cérebro (GAZZANIGA, HEATHERTON, 2005). Esta definição enxuta guarda dois termos que fizeram com que houvesse a clara separação desta área com a Filosofia e que o objeto da Psicologia fosse escolhido. O primeiro termo, ciência, solicitou às pesquisas em Psicologia a utilização de métodos e técnicas de comum acordo científico, e está aí a importância que existe no estudo de disciplinas como métodos científicos, estatística e matemática para construção do conhecimento psicológico. O segundo, formado pela tríade comportamento, cérebro e mente, forma a estrutura sobre a qual essas pesquisas serão aplicadas. Esta definição será o critério de referência no decorrer do presente texto, que adota uma postura monista sobre o mérito.
Naturalmente, o impacto gerado por uma disciplina cuja missão é o estudo do comportamento (humano), além de atravessar diversos outros campos de conhecimento, serve para costurar relacionamentos até então bastante distantes. Como exemplo desta relação de atravessamento, a administração pôde se beneficiar das descobertas que a Psicologia traçou sobre a motivação humana para assegurar melhor conceitos como qualidade de vida no trabalho e benefícios por desempenho (ROONEY, HIGGINS, SHAH, 1995); a economia foi extremamente ajudada pelas descobertas sobre como o pensamento humano ocorre, quais são os critérios normalmente utilizados para tomada de decisão e como o julgamento costuma sofrer interferência de vieses cognitivos (LEA, TARPY, WEBLEY, 1987); o marketing viu nas leis da Gestalt, promulgadas por Wertheimer Köhler e Koffka principalmente, um repertório quase infinito para melhorar estratégias de divulgação e propaganda (CLEMENTE, 2002), entre outros.
Avançando nesta análise, se algumas disciplinas se beneficiaram pelos conhecimentos produzidos pelos psicólogos, a própria Psicologia foi dando o nutriente para alinhavar campos cuja estrutura não se coadunava de forma correlata. Dois exemplos podem ser expressos na área da educação: apesar do pouco contato desta disciplina com a biologia, os estudos da Psicologia e da psicobiologia geraram estratégias de ensino às crianças. Hoje, há evidências de que é mais produtivo ensinar matemática após uma sessão de música, já que o cérebro identifica os elementos musicais como ritmo, tempo e melodia de forma análoga à espacialidade, sequência e correspondência (GEIST, GEIST, KUZNIK, 2012). Em outra direção, a psicometria moderna, ao unir modelos de regressão estatística na confecção de testes psicológicos, permitiu construir um formato totalmente inovador de avaliação acadêmica para o vestibular, que é o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM (INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA, 2011).
Em torno desta situação, sabe-se que, de forma geral, uma ciência contribui para aquisição de novos conhecimentos em outras áreas, mas que também é responsiva às novas informações advindas de campos diferentes. Assim, se anteriormente se expressou a contribuição dada pelos cientistas psicólogos em outros campos, a própria Psicologia é tributária de conhecimentos congêneres, como é o caso da teoria da evolução e da etologia (ATKINSON et al., 2002; GAZZANIGA, HEATHERTON, 2005).
Porém, se a aplicação de alguns conhecimentos obtidos pela ciência psicológica parece revelar o sucesso desta disciplina e que também existe uma reciprocidade informacional, nem tudo é tão exitoso como se espera. O meio interno da Psicologia funciona aos moldes de uma torre de babel desde a data que marca a consolidação da Psicologia como Ciência, oficialmente chancelada no ano de 1879 (LAGACHE, 1949). Em outras palavras, não obstante o marco histórico daquilo que se chama de “ciência psicológica”, mais de 100 anos se passaram e os debatedores do tema ainda não parecem terem chegado a um acordo nem sobre o objeto de estudo desta ciência, tampouco sobre o método pertinente para seu estudo (ILARDI, FELDMAN, 2001). Apesar de grande reconhecimento que o objeto da Psicologia é o comportamento (CABRAL, NICK, 2006), conforme aqui igualmente entendido, diversas correntes e escolas de pensamento apresentam definições variadas para este objeto. Além disso, a definição que se oferece de ciência também parece plástica, sendo possível encontrar autores que defendem que determinada linha de pesquisa ou de influência em Psicologia é calcada na ciência, enquanto outros não concordam em nada com isso (BEREITER, 1994). Um exemplo desta situação está no caso específico da psicanálise, uma das áreas de maior influência na Psicologia: uns dirão que a psicanálise é uma ciência e outros dirão que é pseudociência (CONN, 1980). Ainda gravita nesta situação a aplicação polivalente acadêmica, onde haverá disciplinas que para alguns autores devem ser incluídas como Psicologia e outros autores dirão que não devem constar desta inclusão. Novamente, o caso da psicanálise pode ser utilizado aqui: se alguns autores defenderão a distinção entre psicanálise e Psicologia, enquanto outros dirão que na verdade ela é a real Psicologia (FINE, 1986).
              Parece que se chegou a um ponto onde a Psicologia só consegue ser definida por situação operacional ou, pior ainda, por critério tautológico. Em outras palavras, tal como o gato de Schrödinger, pode-se operacionalmente definir Psicologia como (qualquer) área que estude de uma forma (que se diga) científica o (que esta forma entenda por) comportamento humano, ou que: Psicologia é simplesmente tudo aquilo que não é Psicologia. Certamente, mesmo que se reconheça que esta situação é insana, ela não é insensata e as fontes de resolução deste fenômeno se encontram em colisão. O aprofundamento desta situação em áreas da Psicologia mostra uma catástrofe ainda maior, como é visto em Pasquali (2007), que, ao citar os tipos de validades que um instrumento possui, literalmente solicita que “você está convidado a acrescentar outros tipos de validade, se quiser utilizar sua criatividade ou sobrar espaço!” (p. 100), pois também acredita que nesta área o rumo foi perdido.
 
Neste trabalho, visa-se responder a uma pergunta muito clara, que é feita nos seguintes moldes: se existem tantas considerações díspares tanto sobre o conceito de ciência psicológica, como a relacionada à definição do comportamento humano, qual é a que deve ser utilizada? Em outras palavras, em um mundo praticamente ilimitado de possibilidades argumentativas sobre o mesmo fenômeno, qual se mostra a com maior arcabouço de evidências científicas? Certamente, a motivação deste trabalho não é problematizar a área, outrossim, auxiliar a resolver este impasse.
 
Aqui, apresentar-se-á quatro possíveis estratégias para resolver esta situação, mas se posicionará em uma. As estratégias descritas serão: 1. a acadêmica, 2. a bibliográfica (os livros e artigos), 3. o mercado e 4. a Neuropsicologia. Como será observado, a todo tempo, o critério de narrativa será em associação às práticas baseadas em evidências e pela utilização de técnicas lógicas descritas no balooney kit, de Carl Sagan. Deixa-se claro que o método de pesquisa é o analítico-conceitual, uma proposta de análise qualitativa.
Frisa-se que a eleição de vernáculos na escrita deste trabalho é proposital e feita visando à parcimônia explicativa e que a exploração do campo é referenciada bibliograficamente aos moldes de um ensaio. Os temas colaterais surgidos no processo de elaboração ideacional serão discorridos em momento posterior.
 
A academia
 
As faculdades de Psicologia estão circunscritas em algumas esferas jurídico-administrativas. As peças legislativas do Ministério da Educação (MEC) devem ser respeitadas; existe a autonomia institucional para decidir sobre ênfase acadêmica, critério de avaliação de alunos, entre outras e, finalmente, o curso deve ser reconhecido pelo MEC e se manter dentro dos critérios do Exame Nacional do Ensino Médio, ENADE, para celebrar sua continuidade.
Frente às peças legislativas, em 2007, o Ministério da Educação expediu a Resolução no. 2, que norteia sobre carga horária mínima e procedimentos relativos à integralização educação dos cursos de graduação, bacharelados, na modalidade presencial (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2007). Acredita-se serem importantes dois pontos deste documento, que são: 1. o parágrafo único do Art. 1º e 2. o anexo, onde o curso de Psicologia tem sua carga horária mínima decidida.
 
Enquanto o parágrafo único decide que apenas 20% da carga horária pode ser preenchida por estágio e atividades complementares nos cursos presenciais, o anexo dispõe que um aluno de Psicologia deve ter 4.000 horas de aulas. Esta determinação é a mesma para o curso de odontologia e ambos só estão abaixo da faculdade de medicina, que pede 7.200 horas mínimas para sua conclusão.
 
No quadro legislativo do Ministério da Educação, também há a resolução no. 5 de 2011, que institui as diretrizes curriculares nacionais para os cursos de graduação em Psicologia, estabelecendo normas para o projeto pedagógico complementar para a formação de Professores de Psicologia (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2011), assinada pelo psicólogo Dr. Paulo Speller, psicólogo formado pela Universidad Veracruzana, no México.
 
Esta peça legislativa expõe os princípios e os fundamentos para o curso e, entre elas, cita-se que, nas palavras do autor, “a formação de um psicólogo deva ser comprometida com a construção e desenvolvimento do conhecimento científico em Psicologia” (Art. 3º) e com a formação de um profissional que tenha competência “de avaliar, sistematizar e decidir as condutas mais adequadas, baseadas em evidências científicas” (Art. 4º), apoiada na habilidade “de utilizar os recursos da matemática, da estatística e da informática para a análise e apresentação de dados e para a preparação das atividades profissionais” (Art. 9º). Evidentemente, há outras diretrizes descritas na Resolução e a avaliação da mesma deve ser fundamental a todo leitor deste trabalho para que não haja o viés publicitário (REIDER, 2013).
Ainda na esfera legislativa, os cursos de Psicologia são frequentemente avaliados pelo ENADE, que é regido pela Portaria Normativa nº 40 de 2007 e tem as normas para o que é esperado ao alunado na Portaria Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) nº 243. Esta última peça legal diz que o estudante será avaliado para que se possa medir se ele consegue “I - avaliar, sistematizar e decidir as condutas profissionais, com base em evidências científicas”, bem como se consegue “V - utilizar os recursos da matemática, da estatística e da informática para a análise e apresentação de dados e para a preparação das atividades profissionais”.
Finalmente, uma vez que é impossível descrever e analisar os projetos pedagógicos, optou-se por buscar, dentre sete universidades que dispõem do curso de Psicologia e que foram submetidas ao ENADE em 2012, matérias cuja natureza se endereçam ou aproximam ao pedido legislativo. As faculdades consultadas foram: Centro universitário Celso Lisboa, Centro Universitário Hermínio da Silveira (IBMR), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Estácio de Sá, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Veiga de Almeida. Ressalva-se que a Universidade Gama Filho foi descredenciada em 2014 pelo SERES nº. 2 e por isso não foi incluída na lista. Além disso, não foi possível localizar a grade curricular da UVA. Acredita-se que essa inconsistência foi ocasionada por problemas externos às faculdades.
Especificamente na UERJ, não há matéria intitulada “Estatística”. Porém, há a disciplina de nome “Pesquisa quantitativa em Psicologia”, cuja emenda é exatamente esta: “Demonstrar a importância da pesquisa quantitativa nas diferentes etapas para a pesquisa em Psicologia” e não há indicativo de livro texto ou algo similar (UERJ, 2016). Já na UFRJ, disciplinas de natureza quantitativa contemplam mais períodos e são apresentadas como técnicas de Medidas em Psicologia. Psicometria é obrigatória apenas na Celso Lisboa.
 
As disciplinas biológicas estão descritas separadamente na UFRJ, enquanto as outras Instituições de Ensino Superior (IES), as listam como tópicos de Neurociência. Novamente, na UERJ foi possível constatar duas disciplinas de ênfase biológica, Neuroanatomia e Fisiologia, lecionadas no terceiro e no quarto período respectivamente.
Disciplinas cuja estrutura se aproxima ao pensamento científico são nominalmente difíceis de encontrar, mas há correlatos em todas. Psicofarmacologia faz parte da grade obrigatória no Centro universitário Celso Lisboa e no IBMR.
 
Em outro sentido, algumas disciplinas oferecidas obrigatoriamente parecem se distanciar do que é solicitado legislativamente, como o caso de “Sociedade contemporânea e subjetividade” (UERJ), “Metapsicologia Freudiana” (PUC-Rio), “Desafios Contemporâneos” (IBMR), “General English” (Centro Universitário Celso Lisboa) e “Políticas públicas” (UERJ). Ainda, as instituições solicitam que parte da carga horária seja formada em disciplinas não-obrigatórias e, entre elas, é possível identificar “Saúde Vocal do Professor”, “Utopia e modernidade” e “Escola pública imaginária”, todas da UERJ.
Resgatando a motivação deste trabalho, as IES contribuem para a formação plural do alunado. Em palavras diferentes, elas contribuem para a torre de babel descrita anteriormente. Vê-se que o comportamento é estudado por linguagens muito distanciadas, como é o caso da metafísica freudiana e da Psicologia cognitiva e comportamental. Certamente, ambas as disciplinas apresentam suas justificativas históricas, mas as evidências a favor da cientificidade da psicanálise são menores do que as da Psicologia comportamental (POULSEN et al., 2014), o que suscita outra questão que, propositadamente não será contemplada aqui, que é: estaria o psicólogo preparado para tratar casos em saúde mental a partir de uma formação tão híbrida como esta?
 
Desta forma, acredita-se que é improvável que se consiga capacitar alunos à ciência psicológica com uma carga horária ínfima de disciplinas que são necessárias à elaboração de evidências, como epistemologia, técnicas de pesquisa, estatística e psicometria. Se, por outro lado, o cabo de força tender mais à esfera profissional do que ao desenvolvimento de novos cientistas, pode-se argumentar que todas as instituições pesquisadas arquitetaram matérias voltadas ao estágio profissional, o que novamente geraria a indagação feita anteriormente.
Finalmente, tudo aponta para que a academia sirva muito bem para a pluralidade, mas não consegue se posicionar robustamente diante da lógica que a ciência psicológica estuda o comportamento humano, uma vez que a ciência é definida de uma forma às 8:00 da manhã e de outra totalmente diferente às 3:00 da tarde. Pesa, ainda, sobre esta situação a deselegância acadêmica que gravita entre os docentes que evitam a crítica aos colegas sempre que possível. Desta forma, quem está certo se ninguém está errado?
 
A bibliografia
 
Magistralmente, ninguém irá se opor ao conteúdo de livros e artigos em periódicos científicos. Cada qual com sua particularidade, ambas as fontes apresentam características que a tornam válidas em relação à consulta acadêmica. Em Psicologia, os livro-texto são frequentemente introduzidos aos acadêmicos no primeiro ano de curso e são eleitos pelos docentes visando à exposição da maior parte do conteúdo que o aluno irá ver durante a graduação.
Como exemplo de livros de autores internacionais, há os de Michael Gazzaniga, Rita Atkinson, David Myers e Linda Davidoff. Também há os livros introdutórios à Psicologia escritos por autores brasileiros, como os de Ana Bock, Odair Furtado e Maria de Lourdes Trassi Texeira e o livro de Luiz Cláudio Figueiredo e Pedro Luiz Ribeiro Santi.
Independente do estilo de escrita e repertório de conteúdo que cada obra apresenta, seria um engano acreditar que a questão traçada neste artigo estaria encerrada e que além da definição precisa, o objeto e os métodos seriam igualmente representados. Na verdade, o que ocorre nos livros é justamente a fotografia mais clara desta torre de babel (e provavelmente, uma das variáveis causais dela). Mesmo que, conforme dito logo ao início, haja consenso de que a Psicologia se dirige ao estudo do comportamento, essa posição se distancia entre os autores.
 
Por exemplo, se a Psicologia é definida como “o estudo científico do comportamento e dos processos mentais” (ATKINSON et al., 2002, p. 25) ou como o “estudo da mente, do cérebro e do comportamento” (GAZZANIGA, HEATHERTON, 2005, p. 40). Figueiredo (1998) prefere “por enquanto, não estabelecer nenhuma conclusão” (p. 17) e Bock, Furtado e Teixeira (2001) não definem o termo, mas citam que a “mente é como o pára-quedas: melhor aberto” (p. 26).
À luz dos antigos jogos de tabuleiro, o autor deste trabalho defende que esta contestação nos faz voltar algumas casas e concluir que Psicologia é tudo aquilo que não é Psicologia ou imaginar a colisão (ou o monólogo a dois), que seria o diálogo entre um psicólogo brasileiro e outro americano.
Não sem razão, poderia se argumentar que os livros não acompanham a evolução do campo de pesquisa por razões óbvias. Desta forma, uma saída em busca da resolução desta panacéia seria a constante atualização acadêmica via leitura de artigos de periódicos científicos. Essa é uma saída com raras chances de sobrevida, uma vez que aguardar que uma pessoa dispenda todo seu tempo em atualização acadêmica assemelha-se ao chamado “evento impossível” em matemática. Pesa sobre esta condição a reflexão: se 38% dos estudantes de nível superior não são plenamente alfabetizados (INAF, 2011), quantos terão alguma habilidade, ou até mesmo uma simples desenvoltura, em ler artigos em língua outra que o Português? Um otimismo frente ao número só é possível quando comparativo com outros, principalmente ao que evidencia que apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar podem ser consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números (INAF, 2015).
 
Ainda neste sentido, infere-se que se as referências de livro-texto apresentam também essa querela, com alguma probabilidade, a atualização acadêmica via artigos poderia justamente servir para prejudicar ainda mais o que se espera de um cientista calcado em evidências. Certamente, existem ressalvas claras e sensatas, mas não se vê como metrificar quais são os periódicos (brasileiros) isentos desta miscelânea sem fugir do escopo deste artigo e também ponderar sobre os critérios de classificação já realizados atualmente pela CAPES. Não longe do assunto, ainda há a questão dos chamados “periódicos predatórios”, que não pautam na qualidade do texto a sua avaliação, mas no valor pago pelos autores (BERGER, CIRASELLA, 2015).
 
Novamente, as definições de “comportamento” e “ciência” não foram resolvidas pela saída bibliográfica. Na verdade, salvo ressalvas, esta saída se mostra como ainda mais perigosa para a Psicologia e para o psicólogo, já que nem sempre existem revisões às cegas e o conteúdo destes jornais são apelos autoritários (porém, pagos) à crença em suas afirmativas, como expõe Berger e Cirasella (2015).
 
O mercado
 
Defende-se aqui que falar de mercado pode ser mentalmente visualizado como convidar alguém a visitar dois locais diferentes: uma feira popular e uma biblioteca. Se a feira popular mostra o que se entende por mercado em ação, a biblioteca elenca os teóricos que se colocam para explicar esta dinâmica. Alerta-se que quaisquer possibilidades de falar sobre os preceitos da economia neste trabalho serão encerradas precocemente pela seleção conveniente de alguns autores que serão privilegiados em face da motivação deste trabalho.
Em outras palavras, o recorte econômico que é feito neste artigo serve para se correlacionar à narrativa, mas não para servir como local privilegiado de estudo. Afinal, o presente artigo visa à pergunta: se existem tantas considerações díspares tanto sobre o conceito de ciência psicológica, como a relacionadas à definição do comportamento humano, qual é a que deva ser utilizada?
 
Posto isto, sabe-se que tanto na feira popular, como na biblioteca, seja para comprar uma fruta, seja para adquirir um livro, sem dinheiro isso não é possível. Nada é de graça e isto  foi fielmente representado por Milton Friedman em sua célebre frase “não existe almoço grátis” (FRIEDMAN, 1975). Poderia se complementar esta lógica arguindo que até o desperdício de comida é pago e que, na maioria dos mercados, os consumidores conhecem o preço dos produtos e serviços e tentam alcançar a maior qualidade pelo menor custo, despertando assim uma disputa entre os agentes econômicos e fazendo a maquinária do custo de oportunidade funcionar (RICE, RICE, WEDIG, 2015).
A Psicologia e os serviços psicológicos são produtos de consumo enquadrados na categoria de serviços. Saúde não é mercadoria, mas é um ótimo negócio! O adoecimento (ou mesmo o receio de adoecer) é uma indústria milionária que pode ser descrita em números americanos formados por siglas confusas relacionadas à escolha do plano de saúde. Por exemplo: o HMO é o plano mais básico e significa health maintence organization e dá direito apenas a um médico clínico geral; mas se o cliente quiser algo além, pode optar pelo PPO, que irá permitir consultas com especialistas da rede coberta pelo plano (chamado de in network). Se o consumidor preferir algo independente de regulamentação governamental, ainda há as opções do HealthCare.org, por exemplo. No fim das contas, a saúde movimenta aproximadamente 3 trilhões de dólares por ano, mesmo em anos de pouco crescimento econômico (MARTIN et al., 2012)
 
Os serviços em Psicologia não funcionam no vácuo econômico. Eles se dão nesta engenharia mercadológica que auxilia na precificação, na elaboração dos custos e na aferição das receitas, que são pilares administrativos e econômicos básicos (FRANK, BERNANKE, 2009). Apesar de não haver ninguém que discorde que a graduação de Psicologia oferece pouquíssimo conteúdo voltado à gestão, acredita-se, aqui, que a vida profissional do psicólogo comece exatamente no momento em que ele pensa como atrair clientes ao seu serviço. Mesmo que este hiato entre academia e mercado ocorra, o cotidiano pedirá que algumas competências administrativas e econômicas sejam desenvolvidas.
Retornando ao conceito econômico que apregoa que o consumidor irá maximizar a qualidade tentando reduzir o preço, ou o psicólogo equaliza o valor de seu serviço ou terá uma sobrevida ameaçada pela concorrência. Desta forma, mesmo que sem nomear perfeitamente, a lei da demanda e da oferta e as lógicas de elasticidade de preço que precisam de um ingrediente-chave para funcionar: concorrência. Assim, fica claro que o mercado deva ser sempre considerado também como uma fonte de consulta bastante eficiente para qualquer  disciplina acadêmica: se algo está no mercado e resiste ao tempo e aos concorrentes, uma das variáveis causais desta permanência é a eficácia do produto.
A lista de concorrentes não precisa ser longa para que se perceba os diferentes posicionamentos que os psicólogos tendem a fazer nesta disputa. De um lado, há os concorrentes de mesmo nível, que são outros psicólogos oferecendo seus serviços; de outro lado, há os concorrentes externos, que são os não-psicólogos oferecendo serviços que atuam exatamente no mesmo objeto. Ainda há nesta esfera os concorrentes que não ofertam serviços, mas sim produtos, como as caixas orgônicas e os aparelhos de reprogramação de pensamento. É importante frisar que não raro será possível vislumbrar que os serviços oferecidos pelos psicólogos e os oferecidos pelos outros concorrentes não funcionam sob categorias estanques, mas sim sob uma curva de gradação: o coach e o psicólogo cognitivo-comportamental, por exemplo, poderão ter estratégias extremamente parecidas para resolver uma situação psicológica, mesmo que a nomeiem por titulações radicalmente diferentes. Ainda nesta situação, os produtos também podem ser combinados aos serviços, como no caso do psicólogo que faz atendimento clínico, mas também se utiliza de uma caixa orgônica quando julga necessário.
Apesar do mercado não ter compromisso com a ciência, sabe-se que a ciência se tornou um valor nas sociedades contemporâneas (GIBBONS et al., 1994, p. 133) e desempenha um papel importante nas interações do mercado: de um lado há os cientistas criando e adequando descobertas – meio que sem saber se elas têm valor comercial, e de outro há os agentes comerciais que têm interesse no desenvolvimento de produtos lucrativos, mas que não estão bem inteirados do que os cientistas têm feito (HELLMANN, 2007).
 
A Psicologia funciona dentro desta estrutura e também disponibiliza seus produtos aos consumidores. Porém, não é conhecida uma metodologia específica que auxilie ou norteie a busca de produtos que são desenvolvidos sob égide da Psicologia. Desta forma, constata-se que o mercado tem alto viés de confirmação associado a um leque quase infinito de produtos, já que pode apresentar diferentes soluções que não possuem interesse em responder à pergunta: “o que é ciência” ou “o que é comportamento”, mas justamente ir para o lado oposto, complicando ainda mais esta dinâmica.
 
No entanto, é justamente nesta quantidade quase ilimitada de possibilidades que começa a se ver uma saída possível quando se percebe a ascensão e rápida expansão de projetos como o lumosity e o cogmed, que movimentam cifras milionárias e visam o treinamento do cérebro. Não obstante a ainda falta de evidências robustas sobre a efetividade destas atividades de treinamento cognitivo (OWEN et al., 2010; UNSWORTH et al., 2015), a alavanca desses projetos não está na Psicologia no geral, mas especificamente no cérebro, que é o órgão eleito pelos programas.
Novamente, o mercado não aponta a solução para a polissemia, mas sim a eleva ao quadrado, com algum risco de tornar a Psicologia em apenas folk psychology. No entanto, vê-se com desvelo o crescimento que ocorre nas tecnologias voltadas ao aprimoramento do cérebro.
 
A Neuropsicologia
 
A década de 1950 deflagrou uma espécie de anos dourados à Psicologia. George Miller, Noam Chomsky, Alan Newell, Herbert Simon e Ulric Neisser, entre outros, “enterraram” o Behaviorismo que reinava nos Estados Unidos com novas explicações sobre a inteligência, linguagem, memória e percepção humana. Em suma, é nesta época que a Psicologia resgata a ponte com a Europa, revisita as teorias e descobertas dos gestaltistas e abre uma espécie de porta às outras áreas, como a ciência computacional, a linguística, para semear o que hoje chamamos de neurociência (MILLER, 2003).
 
Aqui, considera-se que a aproximação com outras ciências resultou em um avanço para a Psicologia. Desta vez, o acúmulo de possíveis descrições e explicações oferecidas aos objetos da ciência psicológica eram naturalmente discutidos por profissionais com diferentes formas de pensar e desenvolver teoria, mas que endereçavam o cérebro como local que representa e interpreta as informações do ambiente para nele testar suas hipóteses de pesquisa. Outros 4 eixos nortearam a Psicologia cognitiva: 1. Eventos mentais têm correspondência ponto a ponto com eventos cerebrais, 2. Todos os eventos mentais ocorrem como resultado do processamento neural, 3. Os comportamentos não voluntários também ocorrem como resultado do processamento neural e 4. Os genes são determinantes importantes do padrão de interconexão entre neurônios e cérebro, bem como aos detalhes de seu funcionamento (ILARDI; FELDMAN, 2001)
 
Passo a passo, esses autores foram endereçando suas descobertas à área cognitiva, que foi sendo consolidada como uma ciência específica, a ciência cognitiva (GALOTTI, 2015, p. 11) e em um caminho que foi subsidiando a Neuropsicologia. Desta forma, enquanto a Psicologia cognitiva se ocupava das relações entre funções cerebrais e cognições, a  Neuropsicologia especificamente via como as lesões cerebrais se associavam às cognições. Ambas as áreas apresentam sobreposições, o que é esperado, uma vez que seu objeto de comportamento é similar: o cérebro (GROOME, 2014, p. 12-15).
 
O que a Neuropsicologia evidencia é a resposta mais precisa para a definição de comportamento humano e de ciência. Para estudar o comportamento humano, deve-se estudar o cérebro e a ciência funciona a partir do paradigma moderno, com testagem de hipóteses a partir de ferramentas estatísticas.
 
Considerações finais
 
Finalmente, defendeu-se aqui um posicionamento à definição de Psicologia, bem como o critério para excluir desta disciplina aquilo que não é compatível. Argumenta-se que a Psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e que qualquer teoria que não tenha acumulado tanto evidências para sua sustentação, como critérios que permitam pesquisas de replicação, devam ser endereçadas à Psicologia como parte de sua história ou como leque de influências. As disciplinas que se dizem Psicologia, mas que não utilizam como método de pesquisa o estatístico, neste artigo, são vistas como Filosofia. Não perdem seu valor, mas não podem ser vistas como científicas.
Evidentemente, sabe-se que a ciência se apresenta dinamicamente e suas descobertas são derivadas do passar do tempo, do aprimoramento instrumental, de paradigmas de medida e da sofisticação teórica, entre outras. Tendo em vista isto, a saída oferecida para as possíveis situações onde haja lacunas explicativas reside em definir a ciência não apenas em seus resultados, mas sim na forma de pensar orientado por dois pilares fundamentais: ceticismo e lógica estatística.
Neste sentido, acredita-se que o que se entenda por Psicologia é, na verdade, Neuropsicologia, uma vez que esta resolveu os problemas expostos previamente relacionados à pluralidade de definições, teorias e autores dispersos sobre a definição da Psicologia. Em outras palavras, a Psicologia não funciona no vácuo. Desta maneira, quando o presente artigo adota que Psicologia é Neuropsicologia, ele visa desfazer qualquer polissemia em relação às práticas que são feitas como se fossem Psicologia, mas que não fornecem evidências de seu funcionamento.
 
Na ponta da lança, um psicólogo é, de fato, um neuropsicólogo, cuja definição de Psicologia recai muito mais em como a variável cérebro irá atuar criando a mente e se  comportando, do que como essas estruturas geram o cérebro. Em noção de causalidade, um Neuropsicólogo não inverte causa e efeito.
 
 

11 de janeiro de 2017

Fé dom de Deus


 
 
Fé dom de Deus

 

 “ nunca se pode agradar a Deus sem fé, sem confiar nEle. Qualquer um que queira ir a Deus deve crer que existe um Deus, e que Ele recompensará aqueles que sinceramente o procuram.” Hb 11.6

 

O QUE É A FÉ ?

É a convicção segura de que alguma coisa que nós queremos vai acontecer.

É a certeza de que o que nós esperamos está nos aguardando, ainda que o não possamos ver adiante de nós.

É dom de Deus: dádiva, presente.

 

FÉ É CRER NO IMPOSSIVÉL, E JAMAIS ESMORECER.

 

I – Não olhe para a sua situação

1- Moises na caminhada do deserto:

- Não desistiu    - esperou no Senhor.

2- Prossiga para o alvo

- Lute pelos seus objetivos.

 

II – Eu sou o teu Deus.

1 – vejamos Isaias 41.10. “não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça”.

2 – Deus não muda: Hb. 13.8 “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente”.

 

III – Eu sou o Deus da história.

1- Deus criador do universo, do homem...

2- Vejamos grandes homens que foram usados por Ele.

- Abraão, - Moisés, - Davi, - Paulo.

3- A redenção da humanidade em Jesus Cristo.

- salvação, - libertação, - Senhorio.

 

IV – Não conheço derrota.

1- Quando o povo de Deus na história bíblica perdia uma batalha é porque havia DESOBEDIENCIA.

2- Deus nunca perde. Em Jesus somos mais que vencedores.

 

Conc.

A fé significa o abandono de toda confiança nos próprios recursos.

Fé é se lançar sem reservas nas mãos misericordiosas de Deus.

Fé implica em completa dependência de Deus e plena obediência ao Senhor.

Tome posse do seu milagre pela fé.