Psicologa Organizacional

18 de março de 2017

A Linguagem do corpo e a Comunicação nas Organizações


 
 
 
 
 
A Linguagem do corpo e a Comunicação nas Organizações
 
 
 
 
 
 
Introdução
 
A fala é só mais uma das formas de expressão do humano, porque há muitos outros meios de manifestação além da palavra. No Século XX, pesquisadores como Charcot, Freud e, posteriormente, Reich começaram a valorizar o não dito. Se é não dito, como é possível acessá-lo? Atentando-se ao conteúdo onírico dos sonhos, aos gestos, às expressões faciais, às posturas corporais entre outras formas.
Charcot (1892, apud FREUD, 1973), ao examinar suas pacientes despidas, pretendia verificar a relação da patologia com a anatomia. Embora não encontrasse o que procurava, sua investigação levou-o a perceber que o corpo de suas pacientes expressava sintomas psíquicos.
 
Freud (1996), por sua vez, foi o primeiro a explorar, em 1888, o potencial terapêutico da linguagem corporal. Em um de seus comentários sobre o caso Dora,4 diz: “quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir pode convencer-se de que nenhum mortal pode guardar um segredo. Se seus hábitos permanecem silenciosos ele conversa com a ponta dos dedos; a revelação transpira dele por todos os poros (FREUD, 1996, p. 72)”.
 
É com Reich (2009) que a linguagem corporal ganha força e passa a se constituir em uma importante vertente da psicoterapia. Ele colocou como elemento central de sua análise do caráter a observação dos aspectos não verbais, como o tom de voz, a movimentação do paciente, as posturas adotadas por eles, a expressão do olhar e a mímica corporal.
 
A leitura corporal é o nome que se cunhou no âmbito da psicoterapia para designar o campo de estudos e práticas que tratam da utilização de outros elementos além do que é expresso pelo conteúdo das palavras dos pacientes.
 
O esforço, neste artigo, é mostrar a importância e as potencialidades da linguagem não verbal no processo de comunicação, ou seja, na prática das relações entre os indivíduos no ambiente de trabalho. No âmbito das organizações, que contribuição poderia advir da leitura da linguagem corporal – linguagem não verbal – para o desenvolvimento das relações interpessoais e, como consequência, para a eficácia do trabalho?
 
A cada dia percebe-se mais o valor dado pelas empresas àqueles indivíduos que têm maior capacidade de relacionamento interpessoal. É comum nas entrevistas de seleção a utilização de dinâmicas e técnicas que envolvam a interação entre os indivíduos. Nessas entrevistas, observa-se que o mais importante não é o que se fala, mas como se fala, ou seja, as expressões não verbais.
 
Para alcançar êxito em seu propósito, o artigo foi estruturado tendo em vista a importância da linguagem não verbal na comunicação interna das organizações. Ao se fazer isto, o olhar da Psicologia adquiriu relevância no entendimento das dificuldades e vantagens dessa modalidade de linguagem. Por fim, são apresentados alguns aspectos acerca do uso da linguagem corporal nas relações internas das organizações.
 
Não se ambicionou neste artigo captar e mostrar todo o universo da comunicação não verbal nas relações, em especial, de trabalho, mas apenas projetar alguns de seus ângulos e algumas de suas facetas, de maneira a tangenciar as necessidades imediatas daqueles que se preocupam com a temática em questão – a linguagem não verbal no interior das organizações.
 
 
A linguagem Não Verbal e Sua Importância na Comunicação
 
 
A linguagem em qualquer uma de suas modalidades é fator essencial nas relações interpessoais e grupais. É a linguagem que viabiliza a transmissão e a recepção de mensagens. No entanto, quando se fala em linguagem, normalmente pensa-se na linguagem verbal, ou seja, nas palavras, sejam elas escritas ou faladas. Comumente, se esquece que há também outra forma de linguagem presente em nossas relações com o outro e com o mundo – a linguagem não verbal, que pode estar expressa nos sons, nos gestos, nas expressões faciais, na motricidade corpórea, na arte, nos símbolos com significação conotativa, entre outras situações.
 
O desenvolvimento de altas tecnologias midiáticas tem facilitado a emissão e recepção de mensagens; no entanto, o contato pessoal tem ficado em segundo plano. Internet, intranet, portais corporativos são instrumentos importantes na comunicação entre as pessoas, mas não suprem a necessidade de encontros presenciais. Ao contrário, ampliam essa necessidade (Wolton, 2010, p. 34).
 
A linguagem não verbal pode ser reveladora das relações de comunicação entre os indivíduos. O corpo fala, expõe “verdades”, reforça ideias, favorece ou dificulta o entendimento; enfim, dá ênfase à comunicação. Assim, a linguagem muitas vezes se constitui como instrumento de poder/controle.
 
O cinema mudo é uma forte demonstração da importância da linguagem corporal. Quem não se lembra de Tempos Modernos, de Carlitos? As relações de poder e controle são explicitadas em cada cena, a insatisfação com o trabalho, a rotina, a automação do sujeito.
As organizações são constituídas de pessoas, e cada vez mais sua efetividade é atravessada pelas relações fortalecidas entre os indivíduos. Assim, a comunicação não verbal pode constituir-se em uma das formas para a construção de relacionamentos mais saudáveis e coesos. Somos de tal maneira marcados por essa linguagem que até hoje a utilizamos em nossas relações pessoais e de trabalho. Poder-se-ia, então, perguntar o que leva à valorização da comunicação verbal em detrimento da gestual?
 
Pode-se arriscar a atribuir essa dicotomia entre linguagem verbal e gestual ao pensamento cartesiano, que separa corpo e alma – res cogitans / res extensa. Na atualidade, parece ser importante resgatar a linguagem gestual porque assim podemos retomar o homem como um ser indivisível, uma totalidade – corpo e alma como parte da mesma realidade.
 
Desta forma, a linguagem não verbal assume papel importante na eficaz relação entre as pessoas. Inclusive, das boas relações entre o público interno de uma organização depende o grau de seu “sucesso” de mercado. O aprimoramento da comunicação interna tem estreita relação com o conhecimento, a compreensão e o cuidado com essa forma de linguagem um pouco esquecida.
 
 
A Comunicação e a Linguagem Corporal
 
Mesmo com o desenvolvimento de todo o seu aparato biológico, o homem mantém alguns gestos que o caracterizam como ser humano, o que ele não deixou de ser. Prova disto é a existência de expressões universais, como a manifestação da tristeza, da alegria, da felicidade, da raiva e do medo através de seus gestos (HOCKENBURY; HOCKENBURY, 2003). Dessa forma, a todo instante o “corpo fala” de forma consciente e inconsciente, e isto tem passado despercebido nos relacionamentos internos das organizações, gerando muitas vezes conflitos.
 
Segundo Weil e Tompakow (1982), pode-se comparar características de animais, que eram símbolos para culturas antigas, a características posturais e gestuais humanas que trazem significados emocionais e psicológicos do homem como sujeito. Esses autores, a partir de suas pesquisas, delimitaram três instâncias representadas no corpo: a vida vegetativa – sono, fome, sexo – localizada no abdômen; a vida emocional, localizada no tórax, e a vida intelectual, localizada na cabeça. Seus estudos mostram que a projeção excessiva ou retração dessas regiões, bem como o posicionamento equilibrado, expressa como o sujeito se sente em determinadas circunstâncias e pode assinalar o modo de ser desse sujeito. Para esses estudiosos, o individuo que mantém o tórax em projeção anterior exacerbada, possui um ego inflamado, ou seja, tende ao egocentrismo.
 
Os autores destacam a necessidade de se observar o olhar, o sorriso e o posicionamento dos membros, das mãos e dos pés, porque essas posturas e expressões corporais estão carregadas de significado. Pode-se depreender daí que essas formas de expressão corporal podem ajudar na realização de uma leitura da comunicação intrapessoal, interpessoal e intergrupal. Os pesquisadores constataram que os gestos ou as posições vistos isoladamente não necessariamente possuem uma significação clara e padronizada. Faz-se necessário avaliar a harmonia dos pequenos gestos e movimentos: dos lábios durante um sorriso; das expressões da região ocular; a direção para onde apontam joelhos; a forma como pés e mãos se posicionam, se estão flexionados ou em movimento, e também a inclinação do tronco.
 
Para o entendimento das relações entre as pessoas, deve-se tentar analisar o que a linguagem corporal está dizendo, considerando-se que cada indivíduo é um ser único diante de situações novas que se apresentam. Isso, de certa forma, ficou um pouco esquecido, porque o uso das palavras fez que a atenção fosse focada na linguagem verbal, ficando despercebido muito do que o corpo diz.
 
Diante dessas ponderações, vê-se que a leitura da linguagem corporal traz informações de como o individuo interage frente aos estímulos oriundos do meio em que se encontra, levando-se em conta que os estímulos partem da situação vivenciada pelas pessoas que estão em interação, e que cada sujeito os interpreta de maneira única.
 
No ambiente de trabalho, além das singularidades pessoais, há situações conflituosas, tensas, em que interesses pessoais podem gerar ansiedade, descontentamento, receio, enfim, um intricado conjunto de fatores difíceis de se identificar somente por meio da palavra. Em uma reunião, em que profissionais dos mais diversos níveis hierárquicos discutem problemáticas comuns, porém conflituosas, é possível identificar, através da linguagem corporal, quem verdadeiramente está aborrecido, contrariado, satisfeito, na defesa ou no ataque.
 
Em uma reunião agitada, um participante que tem o ritmo da respiração aumentado encontra-se tenso e fortemente emocionado, ao passo que um participante que suspira frequentemente, encontra-se ansioso e angustiado. Os olhos brilhantes e elevados vão denotar alegria e satisfação, enquanto que olhos opacos e baixos denotam tristeza e insatisfação; até mesmo, a posição das sobrancelhas se abaixadas ou levantadas, demonstram respectivamente, concentração e surpresa.
 
Através das manifestações corporais também se pode perceber se há interesse em relação a algum assunto ou pessoa. Neste caso, vê-se o corpo inclinar-se e o olhar direcionar-se para o objeto. Nos apertos de mão, tão comuns em nossa cultura, é possível ler a segurança ou a insegurança do individuo. O aperto de mão firme demonstra o quanto a pessoa está segura, sem receios. Nas mãos espalmadas para cima há indicação de abertura e aceitação. Esses são alguns exemplos dentre as infinitas possibilidades de leitura dos significados da linguagem do corpo.
 
A prática da leitura da linguagem corporal nas relações interpessoais pode facilitar o entendimento de mensagens transmitidas, pois, através dela, é possível vislumbrarem-se aspectos inconscientes, embutidos e não verbalizados.
 
 
A Linguagem Corporal e a Psicologia
 
A Psicologia, em seu início como disciplina acadêmica, deu importância capital à linguagem corporal. A partir dos trabalhos de Charcot, Freud, em sua obra Histeria, de 1888, descreveu inúmeros sintomas físicos de pacientes neuróticos. Segundo Freud (1996), a neurose caracteriza-se pela apresentação de sintomas físicos e alterações psíquicas, no entanto, sem qualquer alteração orgânica que justifique o aparecimento desses sintomas. Há, ai, uma relação psíquica que leva à formação desses sintomas. E mais, o autor observou, nessa relação, uma ligação entre a neurose e as frustrações sexuais. Alguns dos sintomas físicos descritos são: anestesia da pele, de músculos, nervos, dos órgãos dos sentidos; paralisias, afasias, contraturas musculares, distúrbios de visão e outros sentidos; os distúrbios psíquicos manifestam-se na forma de alterações na “associação de idéias, [...] inibição da atividade da vontade, [...] exagero e repressão dos sentimentos” (FREUD, 1996, p. 85).
 
Reich (2009), discípulo de Freud, em sua obra A Analise do Caráter, traz uma detalhada relação entre o comportamento, as características psíquicas, e os padrões posturais do individuo. Ele acredita que o organismo humano é perpassado por um tipo de energia psicofísica, embora seu mestre defenda a existência dessa energia apenas no nível psíquico. Segundo Reich (apud REIS; MAGALHÃES; GONÇALVES, 1984) essa energia bem direcionada impediria a formação de sintomas neuróticos, evitando a formação da chamada couraça muscular do caráter.
 
Caráter, em Reich, tem sentido objetivo e denota como a pessoa se apresenta frente à vida através de uma estrutura de comportamento recorrente e não percebida por ela mesma. O autor classificou os tipos de caracteres em dois, o caráter genital e o caráter neurótico, e subdividiu o caráter neurótico em alguns tipos.
 
Cruz (1997) nos traz uma diferenciação entre o modo de ser dos dois tipos de caráter no ambiente de trabalho. O individuo com carácter genital tem prazer em exercer sua atividade, centrando-se, sem se preocupar com as atividades alheias, enquanto que o carácter neurótico não deseja muitas responsabilidades, é impaciente e almeja ser chefe rapidamente.
 
 
Alguns Subtipos e Características do Caráter Neurótico
 
O caráter histérico, em mulheres, explicita a sensualidade no modo de falar, olhar e andar; nos homens, observa-se, além dessa sensualidade, também um toque feminino no comportamento e na maneira de tratar. Esse tipo é inconstante em seu posicionamento e muda facilmente de opinião. Já o individuo de carácter compulsivo apresenta um bloqueio afetivo, avareza, autocontrole, preocupação com a ordem e rigidez muscular crônica, sobretudo na região pélvica, na face e no ombro; sua expressão facial é estática, similar a uma “máscara”. O caráter fálico-narcisista apresenta segurança, vigor, mas com agressividade, certa arrogância e é dominador, provocador, demonstrando frieza e reserva; fisicamente é do tipo atlético, atraente e apresenta certa adaptabilidade, o que lhe possibilita o alcance de cargos de comando (REIS, MAGALHÃES e GONÇALVES, 1984).
 
A partir da analise e das considerações de Reich (2009), pode-se perceber o quanto é vasta a questão do uso da linguagem não verbal e seus possíveis desdobramentos. Esse conhecimento, em especial, pelos psicólogos alocados nos setores de Recursos Humanos, pode ajudar no entendimento das dificuldades de relacionamento interno nas organizações. Inclusive, parece ser importante o desenvolvimento de políticas de desenvolvimento humano a fim de que essas intervenções facilitem e ampliem a compreensão entre as pessoas.
Portanto, em Reich (2009), o elemento central da sua teoria é a observação da linguagem não verbal. Segundo esse autor, deve-se estar atento aos gestos, ao tom da voz, às movimentações corporais, às expressões dos olhos e às alterações na face quando a pessoa fala. Isso não significa que a linguagem verbal deixe de ocupar lugar central nas manifestações humanas, mas que todas as expressões gestuais são determinantes na compreensão da fala a que estão associadas.
 
Assim, entre os fatores a serem observados e avaliados durante um processo de recrutamento e seleção é a expressão não verbal. Durante esse processo, deve-se observar as manifestações não verbais, com o objetivo de avaliar a congruência entre estas e a verbalização. Ocampo e Arzeno (1981) enfatizam a importância de se fazer a leitura do não verbal, para se acessar o conteúdo latente no individuo. Apesar de o processo de recrutamento e seleção ser diferenciado em vários aspectos nos mais diversos tipos de organizações, é possível asseverar que as empresas poderiam tirar melhor proveito e selecionar mais acertadamente seus candidatos, se se utilizassem dos recursos que a Psicologia lhes oferece.
 
São muitos os autores que abordam a temática da linguagem não verbal na Psicologia. Apesar de darem ênfase à Psicodinâmica com objetivos psicoterapêuticos, o conhecimento que eles trazem pode ser utilizado pelas organizações como instrumento útil para melhorar as relações interpessoais.
 
Nas organizações, como mostra Torquato (1992), os colaboradores apresentam diversas personalidades e estilos, não importando o cargo e a atividade que ocupam. Em qualquer situação, ocorrem mudanças comportamentais inesperadas. Por vezes, veem-se chefes coléricos e inseguros, resistentes, assim como colaboradores instáveis, que não se posicionam e mudam de comportamento em diferentes situações. Há em qualquer nível e função aqueles centralizadores por excelência, ou passivos em demasia e muitos outros comportamentos.
 
Tendo em vista as observações aqui efetuadas, nota-se que nas relações de trabalho surgem dificuldades que são percebidas nas peculiaridades do comportamento de cada individuo. As peculiaridades, se assim se pode chamar os comportamentos inadequados às situações, não deixam, por vezes, de impactar o outro e, consequentemente, o grupo. A comunicação não é restrita aos movimentos internos de divulgação de informações, organizados pelos profissionais da área de comunicação ou pelos colaboradores das mais diversas áreas de formação. Ela é inerente ao individuo em suas relações, quer sejam de trabalho ou não. E a linguagem não verbal é uma das muitas formas de expressão das diferenças.
 
Pode-se, então, dizer que a leitura da linguagem corporal constitui um facilitador na compreensão do outro e das mensagens que inconscientemente ele transmite. No entanto, os diversos meios de comunicação virtuais, que agilizam e ampliam a capacidade de transmissão das mensagens, muitas vezes, são usados como únicos meios de comunicação. Ainda, felizmente, a comunicação entre os indivíduos também se dá através da palavra e dos gestos. Assim, as organizações podem ser despertadas por ações que visem à integração entre os colaboradores, que promovam o contato humano e possibilitem a sensibilização necessária ao exercício da leitura da linguagem corporal. Para tal, pode-se utilizar, por exemplo, das práticas clínicas de terapias corporais, de maneira adaptada ao meio organizacional, ou simplesmente promover atividades que promovam o contato humano, para levar aos colaboradores informações a respeito do uso da linguagem não verbal.
 
Gaiarsa (1982), autor brasileiro neoreichiano, destaca que o inconsciente não é invisível e está exposto o tempo todo através da linguagem não verbal. O autor enfatiza que é possível conhecê-lo sem que o indivíduo faça uso da palavra. Segundo Gaiarsa (1982), é necessário exercitar “o ver” o outro através da observação de seus gestos, de seu modo de falar, de sua respiração, de sua postura corporal, de seu olhar, em um esforço interpretativo sobre o observado. O exercício de “ver” não se restringe apenas ao ato de decorar padrões e teorias sobre a linguagem não verbal, mas também abrange o exercício prático do contato humano. "Os olhos conversam tanto quanto as línguas que utilizamos, com a vantagem de que o dialeto ocular, embora não precise de dicionário, é entendido no mundo todo" (Emerson apud REGO; ALBERTINI, 2010, p. 108).
 
O que se vê é tão importante quanto o que se ouve, porque os gestos despertam respostas imediatas dos interlocutores, pois as expressões e os movimentos dos outros exercem grande influencia em nossa vida. Se houvesse o hábito de observar as pessoas enquanto falam e se, enquanto falam, o ouvinte prestasse atenção também no que vê, os diálogos seriam mais interativos (GAIARSA, 1984).
 
Segundo Gaiarsa (1982), quando ocorre a contenção de uma emoção, seja raiva, medo ou amor, ou ainda alguma frustração, o sujeito contrai de maneira ampla os músculos, o que resulta num rebaixamento das sobrancelhas e dos cantos da boca, fechamento da laringe e manutenção constante da tensão. Para tal, o sujeito detém sua    atenção nisso, distraindo-se. A maneira de movimentar-se é contida e reduzida, assim como a respiração. Assim, no ambiente de trabalho, é possível, através do exercício constante de atenção em nosso interlocutor, identificar os pontos fortes e frágeis da relação de comunicação. Esse processo nada mais é do que troca e intercâmbio de ideias, informações, afetos, dentre outros.

 

Conforme Gaiarsa (1982), Reich considera que o exercício de “ver”, a atenção e o interesse no outro é essencial e deve-se avaliar tanto as informações verbais quanto as não verbais. Para Reich, segundo Boadella (1985), a expressão corporal de uma pessoa corresponde a sua atitude mental. Por isso, inter-relacionar expressão corporal e atitude mental se torna importante na comunicação humana.

 Considerações Finais

 

Através das expressões corporais, entra-se em contato com o mundo, na vida cotidiana e, sobretudo, nas relações de trabalho, quando, muitas vezes, se estabelecem diálogos com indivíduos ou com grupos. Se não se sabe usar corretamente a postura como recurso de comunicação, pode-se transmitir o que não se deseja e, ao mesmo tempo, captar reações diferentes das que se gostaria de receber.

 

Ao se dirigir a alguém, pode-se reforçar a comunicação usando-se a postura e os gestos adequados ao conteúdo da mensagem objeto do dialogo que se pretende estabelecer. Ficar com ombros encolhidos, lábios apertados, olhando para outras direções ou mesmo batendo na mesa com os dedos são atitudes que podem denotar falta de interesse. Ao contrário, quando se olha nos olhos do interlocutor e apertar-lhe a mão, demonstra-se, com esses gestos, real interesse.

 

Desta forma, é possível afirmar que gestores e colaboradores não podem se esquivar da importância da linguagem corporal e de seus efeitos sobre as pessoas com as quais se entra em contato. A linguagem do corpo revela muito do que pensamos, do que sentimos, do que idealizamos e de nossas expectativas. Portanto, o corpo é, antes de tudo, um centro de informações. Segundo Gaiarsa (1984, p. 9) “aquilo que de mim eu menos conheço é o meu principal veículo de comunicação”. O autor enfatiza que um “observador atento consegue ver no outro quase tudo aquilo que o outro está escondendo – conscientemente ou não. Assim tudo aquilo que não é dito pela palavra pode ser encontrado no tom de voz, na expressão do rosto, na forma do gesto ou na atitude do indivíduo” (Gaiarsa, 1984, p. 9).

 Portanto, o conhecimento acerca da linguagem do corpo é fundamental na vida profissional. As organizações necessitam valorizar a aplicação dos conhecimentos oriundos dos estudos da comunicação não verbal, o que certamente, se constituirá em um diferencial que pode favorecê-las no enriquecimento das relações interpessoais e trazer, consequentemente, benefícios nas relações entre os indivíduos. Dessa maneira, o conhecimento da linguagem corporal é mais uma abordagem que deve ser explorada para favorecer a qualidade dos serviços e das relações.

 


 

 

 

 

4 de março de 2017

Repercussão da Traição na Vida da Mulher


Repercussão da Traição na Vida da Mulher


O presente estudo tem como tema: a repercussão da traição na vida da mulher. Trata-se de um trabalho que busca compreender como essas mulheres lidam com a traição de seus companheiros ou maridos, uma vez que, ela traz diversas consequências psicológicas e sociais. Neste sentido, salienta-se que o desenvolvimento do projeto de pesquisa teve proposta, como problematização, a seguinte questão: Qual a repercussão da traição na vida de mulheres que possuíam relacionamento amoroso?

Ressalta-se, que a definição pelo tema tem como objetivo geral verificar a repercussão da traição na vida de mulheres que possuíam relacionamento amoroso e como objetivos específicos, identificar os sentimentos vivenciados pelas mulheres após a separação; verificar os motivos apresentados às mulheres para a traição; também, analisar as decisões tomadas pelas mulheres para a vida a partir da ocorrência da traição e avaliar a recorrência da traição nos relacionamentos amorosos das mulheres.

Justifica-se a escolha do tema, pelo fato de muitas mulheres terem vivenciado situações que envolvam traição. Pasini (2010, p.11) ressalta que: “Para muitos, a traição começa como um modo de evasão da vida cotidiana, da areia movediça dos hábitos e das frustrações de cada dia”. Essas situações deixam marcas na vida das mulheres, pois se trata de traições vindas de seus parceiros, que resultam em sentimentos e emoções diferenciadas. Ainda conforme Pasini (2010, p.8) “Uma coisa é certa. As mulheres de hoje, são mais fortes e seguras, mais afirmativas até no amor, mesmo quando são traídas”. Atualmente inúmeros casais, por um motivo ou outro, se separam depois de um tempo de convivência, muitas  vezes, alguns casais continuam a viverem juntos, já outros não suportam o peso da traição e se separam.

2. Fundamentação Teórica


Nesta etapa apresenta-se uma breve revisão da literatura, que consta, os dados, as ideias e os entendimentos de autores sobre o nosso tema, trazendo informações literárias e também, em alguns trechos, o nosso entendimento à respeito do que a literatura especializada expõe.

2.1. A Representação da Mulher no Casamento


Desde a antiguidade as mulheres desempenham papéis diferenciados dentro do ciclo familiar, destacando-se na prestação de serviços para garantir o bem estar de sua família, baseados na bondade, fraternidade e respeito, deixando suas necessidades e vontades pessoais de lado.

Conforme Del Priore; Bassanezi (2006 p. 237) “A distribuição de papéis [...] revela a crescente santificação da mulher como mãe, através do sofrimento, enquanto todos os deveres do pai apontam na direção de ganhar dinheiro para o sustento da família”.

Percebe-se que, desde a antiguidade a mulher é criada para ser esposa e mãe. Sendo assim, esses papéis exigem dela esforços físicos e psíquicos consideravelmente maiores e isso acaba sendo desgastante. No entanto, é possível compreender porque em vários momentos a mulher pensa mais nos outros e menos em si, pois está preocupada em desempenhar suas funções da melhor maneira possível.

Ainda, Del Priore; Bassanezi (2006, p. 237) relatam que “pode-se sentir, por parte da mulher o cultivo da domesticidade e dos deveres de ser esposa. Toda a fragilidade e, ao mesmo tempo, fortaleza de mãe é sublinhada”. A mulher por muito tempo foi submetida ao papel de boa esposa e ótima mãe, a sociedade exigia dela estar desempenhando as funções que estivessem dentro dos padrões culturais da época. Atualmente, muitas coisas mudaram: a mais visível é que as mulheres conquistaram mais poder de decisão e, finalmente, o direito de desejar. (PASINI, 2010).

Para complementar Alves (2000, p. 237):

[...] Isto significa existir um descontentamento com o passado, uma análise depreciativa de como as mulheres eram criadas, sua submissão, dos limites estreitos impostos ao seu movimento dentro dos grupos sociais e às possibilidades de escolha profissional. A mulher que, agora, mantém atividades fora do lar, mas ainda é a responsável pelo bom andamento da casa, dos filhos e do bem-estar do marido. É como se um caldeirão estivesse no fogo, pronto para entrar em ebulição a qualquer momento [...].

Mesmo com as transformações que vêm acontecendo há décadas, o papel da mulher na família ainda baseia-se em cuidar dos outros, esse cuidar exige dela uma energia física e psíquica, trazendo ao mesmo tempo, um cansaço físico e emocional, consequentemente, torna-se necessário um olhar diferenciado para essas mulheres que deixam muitas vezes, de cuidar de si para cuidar dos outros, afinal, amor próprio é fundamental para uma boa saúde mental.

2.2. Relacionamentos Afetivo-Conjugais


O casamento, na versão hiper-romântica, aquela do ‘felizes para sempre’, é uma instituição mutante, pelo simples fato de que o ser humano é um ‘eterno incompleto’ e faz parte de um universo em constante transformação. Neste sentido, a satisfação conjugal total não existe, sempre haverá alguma questão particular que, de certa forma, faz parte de uma utopia criada pelo nosso psiquismo. Os tempos mudaram e, por isso, o casamento também mudou. (MATARAZZO, 2004, p. 29).

Segundo Matarazzo (2004, p. 30) “Aqueles que tentam preservar os relacionamentos buscam uma conciliação entre o desejo de liberdade e o fantasma da traição. Querem substituir um contrato sufocante por um mais flexível isso contribui para o estabelecimento de uniões passageiras [...]”.  Ainda destaca o mesmo autor (2004, p. 70) que:

Para muitos essa é, de fato, a verdade atual das relações entre os sexos. Mais cedo  ou mais tarde, as desilusões, as feridas emocionais, tendem a estabelecer os limites. Não importa o quão bem sucedido seja o ato de enganar, as relações fortuitas costumam ser perigosas e exigem um estado de alerta permanente.

Sabe-se que, em muitos casos os relacionamentos podem ser considerados uma farsa, pois em diferentes momentos a pessoa que trai, acaba por demonstrar sua traição de diferentes maneiras, mesmo que inconscientemente. Já a pessoa que está sendo traída, receberá essas informações, mas as reações perante esse fato serão expressas de diversas formas, muitos mesmo sabendo que estão sendo traídas (os) ou que traem não fazem nada a respeito, negando assim o conflito com seu parceiro.

Os relacionamentos íntimos tem centralidade na vida adulta e a qualidade dos mesmos tem implicações não só na saúde mental, mas também na saúde física, psicológica e na vida profissional de homens e mulheres, ou seja, os relacionamentos afetivo-conjugais influenciam em nossa qualidade de vida (NORGREN et al. 2008).

Norgren et al. (2004, p.2) ainda ressalta que:

Satisfação conjugal é, sem dúvida, um conceito subjetivo, implicando em ter as próprias necessidades e desejos satisfeitos, assim como corresponder, em maior ou menor escala, ao que o outro espera, definindo um dar e receber recíproco e espontâneo. Relaciona-se com sensações e sentimentos de bem-estar, contentamento, companheirismo, afeição e segurança, fatores que propiciam intimidade no relacionamento, decorrendo da congruência entre as expectativas e aspirações que os cônjuges têm em comparação à realidade vivenciada no casamento.

Para o bom andamento da relação, é importante que o casal consiga satisfazer suas necessidades, físicas e emocionais, dentre elas o sexo, ou seja, quando o casal encontra-se em crise por algum motivo estes acabam apresentando dificuldades em se relacionar. Em muitas situações são as crises que fazem com que o casal se distancie, buscando a satisfação pessoal e sexual fora do relacionamento, configurando assim, uma traição ou infidelidade por parte de um dos parceiros.

2.3. Traição


A discussão acerca da traição nos relacionamentos é um tema que suscita diferentes opiniões da população no geral. No campo da produção de conhecimento, alguns autores escrevem sobre o tema, a fim de contribuir para a elucidação de diferentes questões referentes há infidelidade e traição.

A traição significa a renúncia ao conforto das seguranças do cotidiano, aos “braços maternos simbólicos”, que reencontramos, no parceiro e em outras pessoas importantes da nossa vida (PASINI, 2010, p. 32).

Ainda destaca Pasini (2010 p. 32) que “a traição situa-se na sombra que cada um de nós leva consigo, ou seja, naquele lugar da alma, onde conservamos as nossas partes íntimas e secretas, e onde está oculta uma grande quantidade de energia”. Portanto conforme Maldonado (2007, p. 153):

A traição nem sempre acontece porque o relacionamento está insatisfatório: há pessoas que, para fortalecer sua autoestima, precisam sempre espalhar o spray da sedução; há também os que traem para não se sentir aprisionados num único relacionamento, querem a porta de saída sempre aberta para outras possibilidades.

Assim, a infidelidade torna-se a consequência natural de uma personalidade em construção (PASINI, 2010, p. 32). No entanto, a traição ainda é vista como um tabu na sociedade, muitos casais passam por situações de infidelidade, mas não tomam atitude, pois o fato de terem que se enfrentar, poderá gerar conflitos e implicar no término de seus relacionamentos amorosos e isso faz com que seus sentimentos se tornem negativos e se não forem adequadamente trabalhados trarão consequências na vida pessoal e social do indivíduo.

Segundo Matarazzo (2004, p.67) “Há autores que veem a fidelidade absoluta como uma utopia e, segundo eles, todos nós, de tempos em tempos, manifestamos o desejo de trair. Quem acredita ser totalmente fiel, tanto em suas fantasias quanto em seus desejos, em geral está se auto – enganando”.  Ainda conforme Matarazzo (2004, p. 63):

As infidelidades são sucessiva neste mundo confuso de desordens amorosas, O contraponto disso são aqueles que trocam a quantidade de envolvimentos pela qualidade, procuram colocar uma certa ordem e aceitam uma única união, só que essa tem que ser “perfeita”.

Nos relacionamentos a traição não é algo desejado pelo casal, mas que muitas vezes acontece, esse fato pode gerar consequências ou até fortalecer a relação. Tudo isso depende de como é vista (representação) a traição na vida dessas pessoas, pois em alguns casos ela pode fazer com que o casal se separe, sendo que um ou até os dois não aceitem ser traídos pelo seu parceiro (a). Já em outra situação este mesmo ato pode gerar algo positivo, pois de alguma maneira servirá como base para um recomeço do relacionamento.

A traição pode ser algo bom como pode ser algo ruim, depende de como está esta pessoa no momento em que ela ocorre. Sua autoestima vai influenciar na sua decisão, como também vai delimitar suas atitudes perante esta situação.

2.4. A Psicologia no Contexto da Traição


Destaca Blow; Hartnett et al. ( 2005 apud VIEGAS; MOREIRA, 2013, p.2 ) que: “A investigação e a prática clínica têm mostrado que a infidelidade é uma das experiências mais difíceis, complexas e exigentes para os casais, e constitui uma das razões mais apontadas para a procura de terapia de casal e para o divórcio”.

É importante estudar o que leva as pessoas a considerar um comportamento como sendo ou não infidelidade, e esta como mais ou menos grave. (PASINI, 2010). Uma pessoa que tem o histórico de autoestima baixa, complexos de inferioridade, vai agir de maneira diferente do que outra que está com sua autoestima elevada. Pode-se levar em conta que existem vários atos que podem ser considerados como traição, dependendo do contexto que cada pessoa foi criada e o que ela considera como certo ou errado.

Neste sentido, menciona Schade; Sandberg (2012 apud VIEGAS; MOREIRA, 2013, p.2) que:

A partilha de intimidade sexual e/ou emocional com um terceiro elemento é sentida como uma quebra do compromisso e da confiança entre os parceiros. A conjugação entre investimento amoroso e julgamentos de traição abala a estabilidade e a segurança que estão na base do compromisso.

Torna-se importante ressaltar que, as pessoas têm percepções diferentes a respeito da traição ou da infidelidade, isso depende de como as mesmas tiveram suas experiências pessoais, de como foram suas vivências em grupo ou individual, portanto, todos temos diferentes opiniões, vivemos em contextos diferentes e consequentemente nossas ideologias e nossas maneiras de agir e de pensar são diferentes, nesse contexto deve-se levar em conta o porquê da dificuldade ou facilidade de determinada pessoa lidar com a traição.

3. Metodologia


De acordo com as características e objetivos acerca do tema de pesquisa escolhido, optou-se pelo método de pesquisa qualitativa, pois este é o mais apropriado aos objetivos no presente estudo. Conforme Bardin (2000, p. 21) análise qualitativa é a presença ou a ausência de uma dada característica de conteúdo ou de um conjunto de características num determinado fragmento de mensagem que é tomado em consideração.

A amostra constituiu-se por quatro mulheres na faixa etária entre vinte e cinquenta anos de idade. Como critério de escolha das participantes foi considerado a acessibilidade e conveniência, sendo que, essas mulheres já tenham passado por situações de traição em relacionamentos que tenham durado no mínimo um ano.

Para a coleta de dados: utilizou-se como instrumento o gravador e o questionário, como a técnica a entrevista semiestruturada. Segundo Bardin (2011, p. 93): “Entrevistas semi diretivas (também chamadas com plano, com guia, com esquema, focalizadas, semiestruturadas) mais curtas e mais fáceis: seja qual for o caso, devem ser registradas e integralmente transcritas”. Desta maneira, foi organizada a partir de um roteiro previamente elaborado, a qual estava composta de questões relacionadas aos objetivos da pesquisa e alguns dados pessoais dos participantes. As entrevistas foram realizadas com cada participante separadamente, a fim de possibilitar aos indivíduos uma maior liberdade para expressarem seus sentimentos, emoções e relatos espontâneos da sua experiência. A aplicação das entrevistas aconteceu nos meses de julho/agosto de 2014.

Ao entrar em contato (por telefone) com as participantes foi explicado para as mesmas o objetivo da pesquisa, do que se tratava e para qual fim seria utilizada. Após, os esclarecimentos, (pessoalmente) foi apresentado o Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), onde consta a autorização e assinatura, explicitando que a participação delas foi sigilosa e voluntária, sem custos financeiros para as entrevistadas.

As entrevistas foram gravadas, posteriormente transcritas e por questões éticas utilizou-se nomes fictícios para garantir os seus direitos. A partir das entrevistas realizadas foi analisado o material obtido de acordo com a Análise de Conteúdo. Segundo Bardin (2000, p. 42):

Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção, recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.

Diante do exposto, foram abordados os temas predominantes nas falas das participantes e analisadas com base nos conteúdos evocados por cada participante.

4. Apresentação e Análise dos Dados


Neste item será apresentada a discussão dos resultados. Inicialmente, será abordado o perfil das quatro participantes, para que assim possibilite um melhor entendimento do contexto pessoal da vida de cada uma delas. Lembrando que, utilizamos de nomes fictícios para não comprometer a identidade das entrevistadas.

a.  BÁRBARA tem 48 (quarenta e oito) anos de idade, no momento está em uma união estável, cursou até a oitava série do ensino fundamental, atualmente trabalha como vendedora, embora já esteja aposentada. Sendo que, Bárbara reside com sua filha e seu atual parceiro no município de Guaraciaba-SC.

b. BEATRIZ tem 46 (quarenta e seis) anos de idade, no momento está divorciada, ela cursou até a quarta série do ensino fundamental, trabalha como empregada doméstica em diversas residências. Beatriz reside atualmente no município de Guaraciaba-SC, possui três filhos, uma mulher e dois homens, porém reside com seus dois filhos homens.

c.  BIANCA tem 24 (vinte e quatro) anos de idade, trabalha como vendedora, está cursando ciências contábeis. Atualmente reside em Guaraciaba – SC, mora com sua mãe e seu irmão. Bianca está em um relacionamento sério com um novo parceiro há mais de 1 (um) ano.

d. BRUNA Tem 23 (vinte e três) anos de idade, atualmente reside em Anchieta-SC, onde mora com seu atual parceiro (marido). Bruna tem um filho de 2 (dois) anos e está grávida de um menino. Possui nível superior completo em assistência social, porém, atualmente trabalha em sua própria empresa no munícipio.

A partir da análise realizada do perfil das entrevistadas, percebeu-se que, haveria necessidade de apresentar e desenvolver os dados coletados em forma de categorias, para que assim, possibilitasse a discussão dos pontos mais importantes que foram identificados no decorrer da análise. A seguir apresentaremos as categorias abordadas: Relacionamento e convivência; Condicionantes de traição e Projeções para a vida a partir da traição;

4.1. Relacionamento e Convivência


Com relação à primeira categoria, pode-se observar que, nas relações amorosas,  podem ocorrer dificuldades nos relacionamentos e convivências com os parceiros, sendo que, muitas dessas dificuldades estão relacionadas com a atribuição de papéis que são culturalmente estabelecidos pela sociedade. Desta forma, Buckner (2013, p. 19) relata que: “O casamento era a escola da abnegação em tudo, devemos aprender a sofrer em silêncio”.

A seguir veremos algumas colocações da entrevistada a respeito deste assunto:

Nunca trair um ao outro, quem morrer primeiro o outro fica sozinho, não poderá casar mais. Mas não deu muito certo. Viver juntos até ser velhinhos (Beatriz).

Conforme o relato de Beatriz percebe-se que, ela acreditava que seu relacionamento/casamento deveria ser eterno, portanto ela não cogitava a hipótese de viver sozinha, o isso dificultou a vida pessoal dela. Embora ela não tenha relatado percebemos que prevalecem sentimentos de solidão e medo do desconhecido, pois foi algo surpreendente e inesperado, houve uma perda muito significativa para ela, pois sua expectativa de viver um “conto de fadas” terminou sem um final feliz.

Algumas mulheres escolhem seus parceiros e ficam com eles, se não para sempre, por um bom tempo. Essa decisão de trocar de parceiros não é uma decisão simples. Para Schnebly

(1994, p.13): “[...] ninguém gosta de sentir-se desamparado e dependente”, pois, o medo e a insegurança prevalecem em vários momentos na vida das mulheres [...].

[...] Tipo foi um relacionamento que começou bem, mas depois foi se acostumando de um jeito errado, desagradável, foi indo, foi indo (Bianca).

Os primeiros cinco anos foram bons, depois começou o ciúme, muito ciúme, maus tratos, ele não me respeitava mais, não tinha mais confiança, casamento sem sucesso, dai ficamos juntos até onde deu (Beatriz).

Estas participantes relataram que inicialmente os relacionamentos eram bons, mas com o passar do tempo se tornaram difíceis. Diferente de Bianca e Beatriz as participantes a seguir, relataram que viviam “bem” com seus parceiros, porém com o passar o tempo esse conceito foi se modificando dentro do relacionamento afetivo.

Segundo Viegas e Moreira (2013, p.2): Não existem dúvidas de que a ocorrência de julgamentos de infidelidade tem importantes consequências negativas nas relações de casal.

A gente vivia super bem, nunca brigava, ele era um homem alegre, a única coisa que ele não era responsável, o problema dele é que ele era “galinha”, mas em casa ele não era de brigar, ele era um homem bom para mim, mas ele queria ser livre, e tinha um coração muito bom (Bárbara)

Às vezes tranquilo, às vezes tumultuoso, às vezes bom, às vezes ruim, eu acho que como todo o relacionamento, tinha a parte boa e tinha a parte ruim, lógico que, logo antes da gente terminar o nosso relacionamento estava muito mais para ruim do que para bom (Bruna)

Outro dado que foi enfatizado por Bárbara e Bruna diz respeito, à uma relação onde tudo parecia ser “tranquilo”, porém, muitas vezes durante a entrevista, ambas relataram que seus parceiros não eram tão bons quanto elas diziam ser, ou seja, aparentemente há uma negação da verdadeira realidade dos casos, pois como disse Bruna, “o nosso relacionamento estava muito mais para ruim do que para bom”.

Segundo Ballone (2011, p.6):

O universo psíquico humano sempre recorreu ao autoengano para alívio dos grandes conflitos e complexos. Nessas situações de separação também se recorre ao autoengano, na maioria das vezes inconscientemente. Deve ser enfatizado, mais uma vez, que as pessoas deixadas e que se sentem “perplexas por terem sido pegas de surpresa”, na realidade talvez não tenham observado bem os indícios do que estava para acontecer, tal como uma espécie de negação de fatos que não se quer ver.

A seguir, a fala das participantes relata essa realidade.

Porque ele nunca parava em casa, dizia que iria caçar pescar, mas ia atrás das mulheres, não se importava com nós. Ele se preocupava só com ele, ele não ficava nenhum final de semana em casa, saia de sexta de noite e voltava na segunda-feira, dai a gente começava a discutir por causa disso e as amizades dele era só  “putaria” (Bárbara).

Traição, mentira, muita mentira, mentira ao extremo. Ele mentiu sobre tudo [...]. (Bruna).

Como percebe-se, nesse contexto as entrevistadas citaram a falta de confiança  existente nos relacionamentos, ou seja, não havia um círculo de confiança no relacionamento, sendo que, esses vínculos são essenciais para o bom andamento de uma relação. Podemos identificar nas falas das participantes, que mesmo apesar das discussões, traições, mentiras enfim, elas permaneceram com seus parceiros por mais algum tempo, ou seja, mesmo passando por dificuldades os casais continuaram juntos.

É interessante observar que Bianca relata as dificuldades de se expressar/dialogar com seu parceiro, ou seja, a importância de conversar, ser ouvida e compreendida por ele. No relato identificamos que ela se sentia prejudicada por não conseguir conversar civilizadamente com ele, consequentemente as dificuldades no relacionamento foram aumentando.

[...] Tipo assim, quando tu queria conversar alguma coisa com ele, tu não conseguia conversar, era só briga, eu puxava o assunto, ele me chamava de burra, boba, idiota, tu está inventando coisas, está com minhoca na cabeça, ele falava. Às vezes ele era bem ignorante sabe?[...] (Bianca).

As dificuldades são comuns nos primeiros anos de relacionamento, por tratar-se de uma relação que até então são de pessoas diferentes que não possuem uma ligação ainda estabelecida. Portanto, é importante que se estabeleça vínculos afetivos, boa convivência, respeito, aceitação das ideias do outro, para que assim, ambos estejam “abertos” para  conhecer e compartilhar das perspectivas do outro (AMARAL, 2010).

4.2. Condicionantes de Traição


Quando o casal decide manter um relacionamento, são necessárias algumas mudanças na vida das pessoas em individual para conjugal. Têm de se habituar a viver uma vida a dois, é preciso ser amigo, é preciso ser “esposa e marido”.

Neste aspecto, buscou-se conhecer um pouco mais do que condicionou a desestruturação do relacionamento, consequentemente levando à traição.

Motivo nenhum, ele dizia que era mentira. Ah que ele se envolveu com ela e tinha pena dela, que não conseguia sair fora. Ele era consciente do que fazia, mas mesmo assim não mudava (Bárbara).

Sempre dizia que queria se aparecer, fez bobeira e virou sério, não podia mais cair fora e tinha que pagar pelo erro, assim que ele falava, achou que eu nunca iria mandar ele embora de casa (Beatriz).

Entretanto, pode-se identificar que nos comentários citados anteriormente, os companheiros das participantes não justificaram sua traição, embora tenham falado sobre ela, relataram ter dificuldades em terminar com a amante.

A descoberta da infidelidade representa quase sempre uma séria crise relacional para o casal, ocorre à perda de uma perspectiva de futuro e a sensação de não controle, que tornam a recuperação da relação afetiva do casal muito incerta (VIEGAS; MOREIRA, 2013).

[...] eu acabei descobrindo pela minha ex sogra, num momento de desespero, ela soube que a gente tinha brigado, e me ligou chorando pedindo porque a gente tinha brigado? ai eu falei, porque ele não colaborava, daí ela falou assim: ah tu tem que ficar com ele, porque a menina de São Miguel não quer mais a criança, como que ele ia criar uma criança sozinho? ela me falou isso. Aí o meu mundo acabou (Bianca).

É interessante observar no discurso de Bianca, que embora seu namorado não tenha relatado, ele mantinha um relacionamento extraconjugal, do qual acabou engravidando a outra mulher. A forma pela qual Bianca descobriu esta relação foi através de sua sogra, deixando claro que, ela precisava se adaptar a essa nova vida e conviver com essa realidade.

Após essa descoberta, Bianca falou “Aí o meu mundo acabou”, isso lhe trouxe muita dor e sofrimento. Entretanto, percebemos que os sentimentos que permaneceram em Bianca, eram de medo, solidão, insegurança e raiva, pois essa estabilidade que ela acreditava ter acabou gerando diversos conflitos pessoais.

Meu Deus, na verdade quem me contou foi uma ex. cunhada e uma amiga minha, eu já desconfiava, elas viram ela no carro com ele e me contaram, na verdade todos sabiam só eu que não sabia. Ele era um homem bom, mas tinha esse defeito de não parar em casa. Ele correu atrás de mim, mas eu não quis mais. A gente casou  novos, sei lá (Bárbara).

Primeiro eu já desconfiava, a gente sente que está diferente, depois por meio de amigos, depois eu mesma descobri. (Beatriz).

Com relação aos relatos das entrevistadas, percebe-se que, a infidelidade de seus parceiros foi exposta para outras pessoas, tanto que estas pessoas contaram para elas. Embora ambas tenham relatado já estarem desconfiadas da traição, pois havia indícios de que algo estava acontecendo.

Fife; Weeks;  Gambescia (2008 apud VIEGAS; MOREIRA, 2013, p.2) complementa que:

Não existem dúvidas de que a ocorrência de julgamentos de infidelidade tem importantes consequências negativas nas relações de casal. [...] a partilha de intimidade sexual e/ou emocional com um terceiro elemento é sentida como uma quebra do compromisso e da confiança entre os parceiros.

Geralmente, relacionamentos conflituosos envolvem brigas e discussões, principalmente quando se fala na questão afetiva do casal, são diversos os problemas que surgem na relação e consequentemente eles trazem outros problemas, um deles, é quando as pessoas ignoram fatos que ocorrem, tentando negar algo que está prestes a “destruir” a rotina do casal, pois eles querem se proteger de algo que na verdade já não traz mais a tranquilidade e a segurança que trazia anteriormente.

Veem-se algumas mudanças que ocorreram na relação das participantes, após um tempo de convivência:

Que ele mudou bastante, me maltratava e tudo o que ele fazia acusava que era eu, sempre mentindo (Beatriz).

Só o fato dele não ficar em casa já chega! (Bárbara).

Quando um dos parceiros recorre à infidelidade, ele está retratando algo que de fato pode estar “faltando” na relação do casal, ou seja, quando existe uma relação conflituosa pode ocorrer essa desestruturação que leva a busca de uma satisfação fora do relacionamento. Neste mesmo contexto, é importante ressaltar que, existem mudanças perceptíveis no relacionamento e na convivência do casal, essas mudanças podem gerar discórdias e desconfianças.

A constatação da traição causa um grande sofrimento e desestrutura a pessoa, pois, de certa forma, perde-se o sentimento de “posse” da outra pessoa, que era sua garantia. Isso pode produzir desencanto, desilusão, desapontamento e decepção (BALLONE, 2011, p.2).

Eu acho que ninguém fica feliz né, eu me senti na época um trapo humano, eu me senti muito triste, fiquei muito magoada [...] (Bruna).

Era chato, eu sentia muita raiva dele, eu só queria que ele sumisse da minha frente (Bianca).

Ah, ah, ah Deus, me senti sem chão, muito triste, meu Deus, eu sei lá, quem me segurou foi minha filha, foi muito triste da forma que foi, ele ficava por ai ao público com ela e nós nem separados estávamos, sei que para mim meu mundo acabou (Bárbara).

Fiquei louca, muito magoada, deu Depressão, me internei, tentei me suicidar, vontade de matar, de sumir, bastante vergonha, me escondia de todos, não queria  ver ninguém, não sai de casa por um bom tempo (Beatriz).

As entrevistadas de uma forma geral registram que, os sentimentos que surgem são negativos, trazem desconforto, sofrimento e falta de confiança, que está interligada com a ausência e a falta de participação do parceiro na vida delas, assim, criando uma “barreira” no relacionamento dos dois. Como se pode perceber, foi difícil para elas aceitar a perda da “pessoa amada”, por exemplo, Beatriz relatou “tentei me suicidar, vontade de matar, de sumir”, esse sentimento de perda leva a uma vivência de um luto, que surge pela perda de uma pessoa ou um objeto amado, não necessariamente pela morte de algo ou alguém, pois, quanto mais apego a pessoa tem mais ela irá sofrer pela perda desse relacionamento.

Ressalta Beaumont (2011, p.61) que, “algumas vezes a rejeição e a traição ferem tão fundo que aparentemente a única forma de aliviar a dor é destruir a pessoa que nos traiu”.

Sentimento de tristeza, desprezo, sabe lá, nem sei. Pior que isso não tem. Eu pensava que se ele tivesse morrido não seria tão triste, ele aprontava na minha frente e eu não podia fazer nada (Bárbara).

Além de raiva... Tristeza, eu ficava deprimida, me achava um lixo sabe, me sentia isolada, sozinha e o pior de tudo que eu não tinha ninguém para contar (Bianca).

Pereira (2013, p. 21) comenta que “[...] a compulsão de destino, na qual as pessoas se colocam ativamente nas mesmas situações desprazerosas. Elas sentem-se vítimas de uma espécie de destino maligno. Vivem como se fossem condenadas a um castigo repetitivo [...]”. Como relatou Bárbara “ele aprontava na minha frente e eu não podia fazer nada”, ou seja, a participante se colocou como incapaz frente a esse acontecimento, quando na verdade ela poderia sim ter feito algo com relação á infidelidade.

Veem-se pelas afirmações das participantes com relação à repetição da infidelidade de seus parceiros.

Se fosse uma vez eu tinha perdoado, mas depois não deu mais. Perdoei três vezes depois não deu mais. Fomos até para a delegacia, ele não pode se aproximar de mim (Beatriz).

Boa pergunta. Não foi a única vez. Eu tenho certeza de duas e fora o que os outros falam. Pode ser que ele teve mais, mas eu não sabia (Bárbara).

Aquelas que eu sei, são quatro vezes ou cinco (Bianca).

Outro dado a ser enfatizado nos relatos das participantes, dizem respeito à suportabilidade de eventos ruins. Muitas vezes estes fatos ocorriam por determinado tempo na vida delas, esses eventos de infidelidade e de maus tratos físicos e psicológicos vinham ocorrendo há algum tempo. Neste sentido, compreende-se porque foi tão difícil a quebra desses vínculos com seus parceiros, pois essas mulheres estavam de certa forma, vivendo e revivendo situações que traziam prazer e desprazer. No entanto, as participantes depois de certo tempo conseguiram “abandonar” esse sofrimento, essa “repetição”, buscando novas perspectivas para suas vidas.

Contudo, apesar dos aspectos negativos, nem todas as influências para a vida dessas mulheres são ruins. É preciso passar pelo processo da dor e da perda, porque, é necessário que a pessoa conviva com esses momentos ruins, para que, ela consiga se recuperar, se esse processo não for vivido esse sofrimento vai prevalecer e reaparecer futuramente na vida  dessas mulheres, impossibilitando uma recuperação “saudável”.

4.3. Projeções para a Vida a Partir da Traição


Quando a pessoa tem sua autoestima elevada, será menos conflituosa a decisão de romper com seu parceiro. Mas, dependendo de como a pessoa se encontra psicologicamente, será mais difícil aceitar que tudo chegou ao fim e suas reações podem ser limitadas, pois suas perceptivas de futuro estão relacionadas com o fracasso e com a falta de confiança em si para superar qualquer evento. Para confirmar tal afirmação Ballone (2011, p.4) relata que: “O ego da pessoa com baixa autoestima pode ter necessidades do se afirmar ‘sobre o outro’ ou, igualmente ruim, pode estimular a pessoa a testar sua capacidade de sedução sobre outras pessoas [...]”.

A seguir algumas mudanças que ocorreram na vida das participantes após a descoberta de um evento de infidelidade:

Na última traição eu decidi largar dele, pensei assim, chega não quero isso para mim, e sai de casa fui morar com minhas amigas (Bianca).

Deixar dele não quis mais ele, não compensa não vale a pena você está com alguém que mente para você, que te trai, uma pessoa que é falsa. A partir disso eu passei a ser muito mais desconfiada. Eu tive muita, tenho ainda, muita dificuldade em confiar nas pessoas em algumas pessoas, eu sou muito desconfiada [...] (Bruna).

Ainda sobre a decisão da separação Buckner (2013, p. 28) relata que: “há casais que passam a vida inteira ameaçando ir embora e morrem sem se separar, de mãos dadas”. A decisão da separação vinda das participantes, foi um evento que veio se prolongando com o passar do tempo e dos acontecimentos, percebe-se que, nos relatos das mesmas ficou claro que além das traições conjugais, haviam outros problemas relacionados com afetividade, confiança e respeito.

Conforme Silva (2008, p.3):

Deve considerar que, por mais que pareça que o motivo de uma separação seja um evento único, dificilmente o será. Uma separação é resultado de uma sequência de acontecimentos que vêm desde a escolha do parceiro (e seus motivos), passando pelos mais diversos acontecimentos do dia-a-dia, podendo chegar a algum evento mais específico. Esses eventos ao longo do relacionamento vão desgastando aos poucos e tornam os parceiros menos afetuosos e mais propensos à violência.

Também, pode-se dizer que o casal sofre alterações em seu relacionamento, muitas são negativas e que vem ocorrendo com mais frequência com o passar do tempo, isso prejudica o relacionamento à dois, quando um dos cônjuges não está satisfeito com a relação, ele muitas vezes busca se auto satisfazer em outra relação. Assim sendo, os condicionantes de traição vão além de motivos internos, sofrem influências do ambiente em que vivem, ou seja, se há problemas de convivência ou problemas financeiros que afetam o casal, um dos parceiros poderá buscar “preencher” esse espaço que existe na relação com outra pessoa.

Não é tarefa fácil aceitar os motivos pelos quais as pessoas traem. Para isso visualiza- se algumas opiniões das entrevistadas a seguir:

Não sei. Talvez a pessoa esteja descontente, talvez seja uma forma de escape da pessoa, eu não sei o que se passa na cabeça da pessoa, tem pessoas que simplesmente precisam trair sem justificativa, simplesmente traem, vai saber por quê? Eu acho que é muito de pessoa para pessoa, cada pessoa tem uma visão e se faz porque pensa de algum jeito, não sei qual não entendo (Bruna).

(silêncio) Eu só sei que não tem explicação, se você está com a pessoa para que trair? Não é necessário sair com outra pessoa, para se auto satisfazer (Bianca).

Porque elas não têm sentimentos, acredito, eles agem pela razão e não pelo coração. Não tem sentimento de amor com a pessoa [...] (Bárbara).

Conforme o relato de Bruna, Bianca e Bárbara fica exposto á dificuldade em compreender os motivos da traição de seus parceiros. Embora elas tenham relatado que as pessoas podem trair para se auto satisfazer ou por estarem infelizes, ainda acreditam que depende da individualidade de cada um, “Eu acho que é muito de pessoa para pessoa, cada pessoa tem uma visão”. Já para Bárbara as pessoas traem por egoísmo e falta de sentimentos pelos outros.

Neste aspecto, Ballone (2011, p.4) comenta que “[...] surge uma necessidade em se convencer ser desejável. O comportamento para testar tais necessidades favorece a vulnerabilidade à traição”.

Eu acho que a separação é a coisa mais triste, a pessoa vai para o fundo do poço, desestrutura uma pessoa, deixa as marcas, coisa bem triste. Em primeiro lugar acaba, tanto emocionalmente, como financeiramente, ali você segue um plano do futuro, daí quando desmorona você não sabe o que fazer, ainda mais quando tem filhos, porque envolve eles (Bárbara).

A pior coisa que uma mulher pode sentir é muito difícil (Beatriz).

Como se pode perceber, a pessoa traída ou “substituída” se mobiliza pela frustração da perda, da mentira, pela deslealdade do parceiro e, também, pelo constrangimento familiar e social. Os sentimentos que a infidelidade mais desperta nas pessoas traídas, são de mágoa, contrariedade, raiva, arrependimento, ânsia de vingança ou revanche. É comum, nessas situações que os sentimentos se choquem um com o outro, havendo uma mistura de emoções e a pessoa experimenta diferentes sensações e frustrações (BALLONE, 2011 p.2).

(silêncio) A primeira vez que ele me traiu, tipo eu nunca contei isso para ninguém, porque eu sei que é errado, mas... A primeira vez eu dei o troco, eu trai ele também, e me arrependo disso, só que ele não sabe, e nunca desconfiou, porque apesar de ele sempre me chamar de burra, eu não fui nem um pouco burra (Bianca).

Não pode-se deixar de ressaltar que esta participante relatou já ter traído seu parceiro, mesmo considerando a traição um ato ruim e errado, ela decidiu trair para dar o “troco”, ou seja, decidiu trair porque foi traída. Essa decisão que partiu de Bianca retrata o desejo que ela tinha de se vingar, mas ao mesmo tempo é um reflexo do que ela queria provar para si mesma ser desejável, que ela também tinha a capacidade de trair, de ser desejada por outro ser que não seu parceiro, ou seja, ela mostrou para si mesma ser capaz.

5. Considerações Finais


Esta pesquisa teve como propósito compreender a dinâmica que envolve temas sobre as vivências humanas, bem como os relacionamentos, a traição na vida das mulheres, as relações afetivas envolvidas, também os sentimentos presentes no momento da descoberta da traição, e as diversas consequências para a vida. A pesquisa realizada junto às mulheres demonstra que, a traição causa um grande impacto na vida das pessoas, sendo que, existem sentimentos negativos como, raiva, desprezo, solidão, medo, insegurança entre outros. Desta forma, quando o vínculo afetivo entre o casal se quebra por algum motivo, acarreta sequelas na relação e na vida pessoal de cada um.

O presente estudo possibilitou compreender o porquê da recorrência de eventos de infidelidade na vida dessas mulheres. Como foi verificado há a presença da compulsão em aceitar eventos negativos, isso está relacionado com o perfil particular de cada uma, com os aspectos culturais, ambientais, econômicos e a maneira como foram criadas.

As participantes demonstraram que apesar de todas as dificuldades enfrentadas durante o período de traição, elas conseguiram terminar os seus relacionamentos, e assim consequentemente romperam uma relação que já vinha se deteriorando com o tempo.

Além disso, as entrevistadas vivenciaram as traições de maneiras distintas, inclusive as decisões que tomaram a partir desse evento foram diferenciadas, para algumas a decisão da quebra do vinculo foi imediata, já para outras a decisão envolvia filhos e situações socioeconômica, isso levou elas a tolerar a infidelidade e a convivência com o parceiro por  um período maior.

Atualmente, elas conseguem falar e relembrar o acontecido, como um evento do passado que trouxe novas perspectivas para a vida delas. Contudo, esse acontecimento ainda traz a tona sentimentos que precisam ser trabalhados para que haja uma “superação” e “aceitação” da perda que se ocorreu. Percebe-se que uma das participantes ainda está bem “fragilizada”, inclusive ela recorreu á tentativa de suicídio após descobrir que seu parceiro estava lhe traindo.

No entanto pensa-se que este estudo poderia ser estendido a uma população ainda maior, realizar este trabalho com ambos os sexos, possibilitaria, uma compreensão maior referente à traição em aspectos diferentes de cada gênero, para que assim se verifique os motivos que cada um utiliza para justificar sua traição.

Porém, não se pode deixar de ressaltar, que as traições trazem consequências negativas para as relações, mas em alguns casos elas podem ser encaradas como um evento positivo,

desde que o casal se possibilite compreender a dinâmica da relação conjugal/afetiva, levando a infidelidade como uma barreira a ser quebrada, com o objetivo de superar esse evento traumático, trazendo a tona sentimentos que estavam “adormecidos” na relação.

Conclui-se que, a vida dessas pessoas é repleta de sentimentos negativos, mas com a busca de um tratamento psicológico que, engloba também, a resiliência de cada indivíduo, poderá haver um alívio das tensões, medos e angústias relacionadas à infidelidade, principalmente no que se refere às participantes que relataram serem “injustas” com seus atuais parceiros em decorrência da traição que sofreram nos relacionamentos anteriores.

“O homem pode amar o seu semelhante até o ponto de morrer por ele; mas não o ama tanto que trabalhe em seu favor” (Pierre Proudhon).