Psicologa Organizacional

28 de abril de 2016

Autoconhecimento



Autoconhecimento

Você se conhece?
Sabe por que se comporta da maneira como o faz?
Sabe o que deseja mudar na sua vida?
Sabe como mudar?

 

Desde a antiguidade, as pessoas se intrigam com o quanto conhecem da motivação do seu próprio comportamento, dos seus desejos e sonhos. A famosa exortação de Sócrates: “conhece-te a ti mesmo” traduz uma das mais antigas preocupações do homem, isto é, quanto às causas do seu próprio comportamento e do comportamento de outras pessoas. Pensadores, filósofos e pesquisadores a muito debatem o tema do que um indivíduo pode conhecer a respeito do seu próprio comportamento, ou seja, como produzir autoconhecimento e porque esse conhecimento seria relevante para as pessoas.

A Psicologia é uma área do conhecimento que busca encontrar a resposta para essa questão por meio do método científico. Ao longo dos anos, a observação sistemática do comportamento dos indivíduos tem demonstrado que as pessoas conhecem pouco a respeito do seu próprio comportamento. As pessoas acreditam que pelo fato de ter acesso privativo aos seus próprios pensamentos e sentimentos, também possuiriam um conhecimento profundo dos porquês do seu comportamento. Contudo, esse tipo de conclusão tem recebido pouco suporte dos dados obtidos no laboratório experimental, na clínica psicológica e nas observações cotidianas. Freud foi um dos primeiros pensadores a apontar o quanto da motivação humana permanece obscura à própria pessoa e sugeriu que tornar consciente essas motivações seria um passo importante para o estabelecimento de uma vida saudável.

Existem diferentes tipos de autoconhecimento. Segundo Skinner (2004/1974) uma pessoa pode saber que “está fazendo alguma coisa”, “que tende a fazer alguma coisa”, “que fez alguma coisa” ou “o porquê de ter feito alguma coisa”. Perceber o seu próprio comportamento pode ser muito útil ao tentar mudar esse mesmo comportamento. Quantas pessoas não entendem porque não conseguem: parar de beber ou usar outro tipo de droga, parar de brigar com o conjugue, estabelecer um relacionamento aprofundado com seus filhos, pais e amigos ou ter um emprego bem sucedido?

A Psicologia tem mostrado que o quanto uma pessoa conhece a respeito de si mesma é, em grande medida, fruto da interação com as demais pessoas. Descobrimos que somos bonitos ou feios, simpáticos ou tímidos, inteligentes, brilhantes ou não, pelo que as demais pessoas dizem a respeito do nosso comportamento. É nesse reconhecimento pelo outro, é no questionar e pelo olhar do outro que começamos a nos conhecer. Reflita, grande parte do que você acredita ser suas qualidades e aptidões não é fruto do que durante a sua vida as pessoas reconheceram em você? E de forma semelhante, grande parte do sofrimento humano também provém daquilo que não é reconhecido pelos demais: do que ignoramos a nosso próprio respeito ou do que não queremos reconhecer.

Autoconhecimento para mudar

A Psicologia tem também mostrado a relevância do autoconhecimento para a produção de mudanças desejadas no comportamento. Quando nos defrontamos com uma situação que não nos satisfaz, percebemos que é preciso mudar. Uma pessoa pode saber que seu casamento não está bem, que está infeliz no trabalho, que não sabe lidar com o comportamento dos filhos, que tem ataques de pânico, ansiedade ou outros medos. Muitas vezes a situação de sofrimento é clara, mas o que mudar, como mudar e em que sentido mudar, não o é.

Diante desse quadro, a psicoterapia é de grande relevância, uma vez que o psicólogo é um profissional especialmente treinado para identificar às causas do comportamento dos indivíduos. Por conseguinte, a terapia é um contexto privilegiado para o desenvolvimento do autoconhecimento, principalmente do tipo de autoconhecimento relevante para a produção das mudanças desejadas por uma pessoa, ou seja, um conhecimento do porque nós comportamos da maneira como o fazemos.

Afinal, por que precisamos nos conhecer para mudar? Porque mudar em qualquer direção não é eficiente, uma vez que na maioria das vezes não vai trazer resultados positivos em termos de qualidade de vida. Um indivíduo pode perceber que seu casamento não está trazendo mais satisfação e pode tentar mudar essa situação de inúmeras maneiras: arranjando um(a) amante, se afastando do cônjuge, bebendo, se separando, brigando, permanecendo deprimido ou efetivamente buscando o que não o satisfaz e em que medida seria possível mudar. Logo, se conhecer é um dos primeiros passos para uma mudança bem sucedida. Uma vez que nem sempre descobrir essas motivações e em que sentido mudar é fácil, a ajuda do psicólogo pode se tornar fundamental, especialmente porque a psicologia tem desenvolvido técnicas para aumentar o autoconhecimento e, após a identificação adequada do problema, de produção de mudanças efetivas.

A Psicoterapia Comportamental é uma abordagem que possui uma ampla base de conhecimento científico para os tratamentos que implementa. Nessa abordagem, o terapeuta busca estabelecer junto com o cliente objetivos de mudança. Para tanto, o terapeuta vai ajudar o cliente a reconhecer o problema, saber o que o causa e estabelecer uma meta de mudança. Ou seja, o trabalho de terapia envolve, em um primeiro momento, o desenvolvimento do autoconhecimento necessário para produzir a mudança desejada pelo cliente. Após o estabelecimento desse conhecimento, o terapeuta fornecerá a ajuda necessária para o cliente implementar a mudança.

Por esse motivo na terapia comportamental, as técnicas de auto-observação são fundamentais. Os terapeutas utilizam-se de registros, treinos de observação, escalas, questionários e a própria situação terapêutica como uma forma de aumentar o autoconhecimento e de implementação de mudanças. Esses registros são ainda fundamentais para avaliar a efetividade da terapia e dos tratamentos implementados. Eles são também uma forma do cliente aprender a manejar seu próprio comportamento, aprendendo a observar a si mesmo e como as condições em que ele vive o afetam.

 


Referência Bibliográfica


Skinner, B. F. (2004). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix (Trabalho original publicado em 1974).

 

Fonte:

16 de abril de 2016

Saúde Mental e Psicopatologias Relacionadas ao Ambiente de Trabalho


 
 
Saúde Mental e Psicopatologias Relacionadas ao Ambiente de Trabalho

 

A psicopatologia é um campo de conhecimento que se refere ao adoecimento psíquico do ser humano, o que se denomina historicamente doença ou transtorno mental. Diante das situações de trabalho no sistema prisional, esta pesquisa tem como objetivo identificar a existência (ou desencadeamento) de possíveis psicopatologias provenientes da profissão e das condições de trabalho do agente penitenciário (DALGALARRONDO, 2008). 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como a ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, psíquico e social. Do ponto de vista da saúde mental, o espaço de trabalho deve abarcar condições psicológicas e sociológicas benéficas que atuem de forma positiva no comportamento das pessoas (BERLIN E FLECK, 2005).

Para alguns teóricos, o trabalho é o fundamento da vida humana e da sociedade e constitui um espaço importante de relações interpessoais, fonte de realização pessoal, bem como desenvolvimento de habilidades. É um espaço privilegiado de socialização e de definição de identidades; portanto, a maneira de adoecer de um indivíduo provavelmente está diretamente ligada à maneira de viver deste dentro e fora do ambiente de trabalho (SILVA, 2010). 

Dentre as psicopatologias relacionadas ao trabalho destacam-se como principais os transtornos de stresse, síndrome de Burnout, síndrome do pânico. No campo laboral, o stress é um dos principais desencadeadores de sofrimento. O transtorno de stress pós-traumático e o transtorno de stress agudo vão se caracterizar pela presença de um estressor externo, como a exposição ou vivência de episódio traumático. A síndrome de Burnout caracteriza-se pelo esgotamento físico e emocional, insatisfação pessoal, passando a pessoa a apresentar comportamento agressivo e irritadiço (PEREIRA, 2010).

A síndrome do pânico, por sua vez, é um transtorno de ansiedade e diferencia-se das demais condições mentais pelos ataques inesperados e recorrentes, com crises acompanhadas de alguns sintomas específicos como medo, desconforto no peito, despersonalização, sensação de falta de ar, entre outros (MENEZES, 2004). 

Na visão dejouriana, o trabalho contém vários elementos que influenciam a concepção que o trabalhador tem de sua própria representação, que pode ser a razão para o sofrimento, e este, por sua vez, é capaz de desestabilizar a identidade, conduzindo para problemas psíquicos.

É comum que esses profissionais apresentem alto grau de stress e seus reflexos negativos físicos e psíquicos entre outros problemas, em função do dano psicológico e da mudança de convívio.  Apesar de estar associado a sensações de desconforto, o stress pode ter consequências negativas (ansiedade destrutiva, medo, tristeza e raiva.) ou positivas (equilíbrio, alegria, podendo haver momentos de ansiedade discreta, criativa) para o indivíduo, por isso é importante que cada sujeito encontre seu nível suportável de stress (SILVA, 2010).

Sendo assim, o tema deste trabalho justifica-se pela necessidade de estudos na área, já que esta profissão realiza um importante serviço público de alto risco, devido às pressões sofridas dentro e fora do ambiente de trabalho, como por exemplo, lidar diretamente com os apenados, além da superlotação carcerária, precárias condições de trabalho e risco de morte durante as rebeliões, dentre outros agentes estressores.

2. Desenvolvimento


Com base na teoria Dejouriana (2004), entende-se que o sofrimento patogênico do indivíduo surge quando a organização do trabalho entra em conflito com os desejos do sujeito, ou seja, com o funcionamento psíquico deste. A partir daí, são criadas as estratégias defensivas do homem, em relação ao ambiente, para se proteger. 

Dentre as estratégias defensivas utilizadas pelo indivíduo, destaca-se a ocultação da doença. O profissional procura encobrir seus sentimentos e angústias para que não pareça fragilizado, sobretudo diante da família e amigos. Das atitudes defensivas, salientam-se duas características existentes no comportamento do sujeito; a primeira diz respeito ao silêncio do corpo, como por exemplo, sua sexualidade; e a segunda diz respeito à relação existente entre doença e trabalho, ou seja, a vergonha de parar de trabalhar, principalmente se for do sexo masculino, que provavelmente sofrerá maior preconceito da sociedade (DEJOURS, 2012).

Dejours (2004) discute um novo conceito de saúde e considera três elementos fundamentais para a saúde do trabalhador. Sendo a fisiologia, ou seja, o funcionamento do corpo (análise do funcionamento do organismo, as regras que asseguram seu equilíbrio e sua sobrevivência), a psicossomática (relações que existem entre o que se passa na cabeça das pessoas e o funcionamento de seus corpos) e por fim, a psicopatologia do trabalho (adoecimento psíquico do ser humano, o que se denomina historicamente doença ou transtorno mental).

Sendo assim, a angústia frente aos problemas transforma-se em fuga, fazendo com que o trabalhador se distancie da coletividade social e siga em direção à decadência, como alcoolismo, violência e, consequentemente, o desprezo das pessoas e a depressão. Enfim, procuram saídas que podem levar ao risco de morte (DEJOURS, 2012).

Este profissional constitui-se como principal disciplinador no processo de ressocialização do detento através do contato direto e rotineiro com o mesmo. Deste modo, lhes são exigidas não só habilidades indispensáveis para o cumprimento de sua função, como também bom relacionamento dentro e fora do ambiente de trabalho, valores morais e éticos, além de uma estrutura psíquica muito consistente. Portanto, tendo o contato direto com os internos e sendo visto por estes como responsáveis pela custódia, estes profissionais estão expostos às situações geradoras de estresse, como por exemplo, intimidações, ameaças e agressões verbais.

Como o trabalho da unidade prisional é de 24 horas diárias, ou seja, é continuo, os funcionários estão sujeitos a horários atípicos de trabalho podendo sofrer as implicações como a redução das funções cognitivas, por causa da privação parcial ou total do sono. O trabalho noturno também é causador de transtornos fisiológicos relacionado com distúrbio do sono, que se somam a problemas de ordem social e afetiva, como as dificuldades enfrentadas na convivência em família, bem como nos círculos de amizade que ficam prejudicados em decorrência das atividades profissionais. Além destes problemas os agentes penitenciários sofrem o fenômeno da prisionização, pois se sabe que na prisão existem dois presos, o apenado e o funcionário, que em menor ou maior grau, adotam as transformações advindas do ambiente prisional, bem como suas dinâmicas.        

Para Dejours (2004), a necessidade e a insistência do ser humano em viver em um ambiente adverso é uma das principais consequências do sofrimento no trabalho. Por isso, identificar a raiz deste sofrimento e compreender a relação do trabalhador com este é de fundamental importância, pois para o autor, a primeira vítima do sistema não é o aparelho psíquico, mas sim, o corpo dócil e disciplinado, entregue às dificuldades inerentes à atividade laborativa. A partir dessa manipulação dos corpos e suas subjetividades e, por que não dizer, desses corpos subjetivos (Brito, 2012), o sofrimento é instalado.

Ao abordar a relação saúde mental-trabalho, devem-se considerar aspectos das condições de trabalho relacionados à organização e ao sofrimento mental, tais como o ambiente físico (temperatura, pressão, barulho), ambiente químico (poeira, fumaça, gases tóxicos), ambiente biológico (vírus, fungos, bactérias) e ainda as condições de higiene e segurança.

O Ministério da Saúde reconhece uma série de transtornos mentais, de personalidade e do comportamento relacionados ao trabalho, como por exemplo, delírio, transtornos cognitivos, estresse pós-traumático, neurose profissional, transtorno de vigília-sono, síndrome do esgotamento profissional (Burnout), síndrome do pânico, episódios depressivos e alcoolismo crônico. Porém, estudos sobre psicopatologia do trabalho mostram que o sofrimento no trabalho repercute não só na vida psíquica, ocorrendo assim uma desestruturação na saúde em todos os seus aspectos, como a doença mental e a doença somática (BRASIL, 2005).

“O sofrimento começa quando a relação homem-organização está bloqueada, quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais, psicoafetivas, de aprendizagem e de adaptação” (DEJOURS, 2012). Portanto, o adoecimento dos profissionais depende da estrutura psíquica e mental do sujeito e da capacidade deste para suportar as pressões do trabalho. Este sofrimento é agravado pela insatisfação, medo e sentimento de incapacidade e inutilidade. O adoecimento no trabalho deve ser avaliado no contexto em que acontece, bem como deve ser pensado no sujeito que sofre, pois o sofrimento psíquico é anônimo e suportado individualmente.

Nessa perspectiva, as principais consequências, segundo Veigas (2007), da carga mental e psíquica são: fadiga, diminuição da produtividade, falta de ânimo e de otimismo (depressão) e atitudes negativas que podem levar à dependência de álcool ou de outra droga.   O autor afirma que a privação do sono devido ao trabalho noturno produz diminuição da capacidade em tarefas com exigência de rapidez, precisão, memorização. O estresse, distúrbios gastrointestinais e cardiovasculares, aumento de peso, irritabilidade e insônia são também consequências do trabalho noturno (VEIGAS, 2007).

Os agentes penitenciários tornam-se ainda passíveis de outra marca decorrente de psicopatologias do trabalho tais como: nervosismo, insônia, paranóia, estresse, depressão, dependências químicas. Sendo assim, os trabalhadores estão de acordo com a concepção de saúde, pois para a OMS, saúde não é apenas a ausência de doença, mas uma condição de completo bem-estar em todos os aspectos da vida humana (SILVEIRA, 2009).

3. Conclusão


Em vista do que foi apresentado, conclui-se que a atividade laboral é de grande relevância para a vida do indivíduo, sendo este um importante mediador das relações interpessoais. Por esse motivo, este ambiente, no qual as pessoas passam grande parte do seu tempo, deve ser tão saudável quanto o ambiente familiar.

De acordo com os dados apresentados, as condições do ambiente de trabalho são o principal causador do adoecimento psíquico desses profissionais. No entanto, percebemos certa incongruência entre o que dizem esses dados e o que mostram outras pesquisas, inclusive apresentadas ao longo deste trabalho. Pôde-se analisar que o adoecer dos profissionais está diretamente ligado ao medo e à insegurança, à atenção à profissão por parte do estado, no que diz respeito à prevenção e tratamento da saúde destes trabalhadores.  

Diante da condição de desamparo da profissão pelo poder público, no que diz respeito à saúde do trabalhador, torna-se de grande relevância criar estratégias junto aos órgãos competentes para a promoção de políticas públicas, prevenção da saúde e apoio aos acometidos de alterações psíquicas e possíveis transtornos de saúde mental.

Sendo assim, o tratamento psicológico é de grande relevância e poderá intervir nos aspectos relacionados ao bem-estar e saúde mental dos trabalhadores do sistema penitenciário que convivem diretamente com o perigo e que muitas vezes são mal vistos pela sociedade, bem como, ajudá-los a lidar em seu cotidiano tanto no ambiente de trabalho como nas relações familiar e social.

Vale salientar que no cenário do sistema prisional os apenados têm mais direitos e exigências do que o próprio funcionário, tais como assistência social e psicológica, professor, entre outras, pois o governo não oferece políticas públicas para fazer valer o direito do trabalhador, uma vez que este não tem ao menos o amparo à saúde mental, sendo que para este tratamento deve-se pagar ainda muito caro e muitas vezes o próprio plano de saúde não inclui o atendimento psiquiátrico e psicológico.

Dentre as políticas públicas necessárias para o trabalhador, deve-se pensar também em cursos de reciclagem profissional, para os trabalhadores expostos a muitas e distintas realidades como os agentes penitenciários, pois a profissão exige muito de suas habilidades e do desempenho da função, além de concurso para reposição dos profissionais demitidos ou afastados por motivos de doença e outros problemas.

Sobre o Autor:


Daiana Souza Andrade - Pós-Graduanda em Gestão do SUAS – Sistema Único de Assistência Social. Psicóloga Clínica e Centro de Atenção Psicossocial – CAPS I.

20 de março de 2016

HETEROGENEIDADE DISCURSIVA E POLIFONIA


 
 
 
HETEROGENEIDADE DISCURSIVA E POLIFONIA

 

A heterogeneidade se refere à origem do sentido no discurso, a uma relação radical entre seu interior e seu exterior.

A heterogeneidade pode ser mostrada, isto é, isto é, apresentar pistas recuperáveis na superfície do discurso, e não mostrada, isto é, não apresentar estas pistas.

No discurso indireto, o locutor, colocando-se enquanto tradutor, usa de suas próprias palavras para remeter a uma outra fonte do sentido.

No discurso direto, o locutor, colocando-se como porta-voz, recorta as palavras do outro e cita-as.

As palavras aspeadas marcam a presença do outro, são atribuídas a um outro espaço enunciativo, cuja responsabilidade o locutor não quer assumir.

As glosas podem ser interpretação e comentário sobre o sentido de um texto e marcam a heterogeneidade, do interior do discurso.

O discurso indireto livre é uma modalidade de técnica narrativa, resultante da mistura dos discursos direto e indireto. Por meio dele, o narrador pode, não apenas reproduzir indiretamente falas dos personagens, mas também o que eles não falam, mas pensam, sonham, desejam etc.

A ironia consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos.

A pressuposição consiste em um processo de apresentar dois enunciadores, E1 e E2, o primeiro responsável pelo pressuposto, e o segundo, pelo posto.

A polifonia refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso do outro, de toda fala estar atravessada pela fala do outro.

8 de março de 2016

Cirurgia Bariátrica - Por que ter um laudo psicológico?


 

 

Cirurgia Bariátrica - Por que ter um laudo psicológico?


 

A cirurgia bariátrica (também chamada de gastroplastia ou ainda, redução de estômago) hoje em dia não é nenhuma novidade, e a maioria da população tem ao menos um conhecido que se submeteu a ela. Não vou enfocar aqui os critérios para esta cirurgia, nem os tipos de cirurgia existentes, mas sim os motivos pelos quais o candidato a uma intervenção como essa deve se submeter a uma avaliação psicológica, além de todos os - muitos - exames e testes que são solicitados.

 

Para título de informação geral, os critérios médicos (salvo exceções avaliadas caso a caso) são:

  • IMC superior a 40, ou a 35 caso haja comorbidades associadas (ou seja, doenças provocadas ou agravadas pelo excesso de peso, como diabetes, hipertensão e problemas articulares graves, entre outras); 
  • Histórico de pelo menos cinco anos de obesidade e múltiplas tentativas sem sucesso de se perder peso pelos meios convencionais, ou ainda,   perda de peso seguida de recuperação do peso perdido, inclusive engordando mais. 

Para uma cirurgia e recuperação bem sucedidas, é importante que, além do médico (muitas vezes há a participação de um endocrinologista no processo, além do cirurgião gástrico e outros que possam ser necessários ao caso), um fisioterapeuta, um nutricionista e um psicólogo componham a equipe. Sim, você leu certo, fisioterapeuta. O motivo é simples, mas muitas vezes negligenciado: uma das principais causas de óbito nesta cirurgia é por incapacidade cardiorrespiratória do paciente, avaliação realizada pelo fisioterapeuta. O nutricionista fará a prescrição dietária para antes e depois da cirurgia, assim como o acompanhamento da dieta, e o psicólogo apontará se o paciente possui condições emocionais para arcar com o processo e tudo o que ele acarreta.

 

Primeiramente, sei que pode parecer que a avaliação é cara e desnecessária, até porque a maioria das pessoas acredita que pode manejar qualquer coisa... até que algo que saia de seu controle aconteça. E essas coisas acontecem, e muito. É complicado de se pontuar quais são as indicações e as contraindicações psicológicas, pois cada caso deve ser avaliado por toda a equipe, que apontara se os benefícios compensarem os potenciais riscos. No entanto, a consequência 'menos grave' de não estar emocionalmente apto a cirurgia é recuperar o peso perdido na primeira etapa (afinal, é muito fácil e rápido emagrecer com a dieta líquida e pastosa). É uma questão de bom senso deixar de 'achismos' e buscar uma confirmação sobre seu estado emocional antes da cirurgia, pois ela ocasionará mudanças intensas na vida tanto do operado quanto de seus próximos.

 

Seria isso um exagero? Pense no seguinte exemplo: Um casal. A mulher sofre de obesidade mórbida, o homem é um tanto inseguro, porém essa característica nunca foi muito perceptível (afinal, uma mulher muito obesa dificilmente seria "cobiçada", poderia ser a consideração desse homem fictício). A mulher se submete à cirurgia, emagrece 50 kg, resgata sua autoestima e passa a se cuidar e se arrumar muito mais (pois agora as roupas lhe servem, e ela não tem mais receio de que que reparem nela, e ela não é mais alvo de gozações e piadas maldosas). Então, o homem passa a ter crises de ciúme, isso quando não chega a agredir fisicamente sua esposa. Resultado: o casal se separa, pois nenhum dos dois cogitou sobre como seriam as relações sociais deles após uma intervenção aparentemente de sucesso para redução de peso. Não houve problemas médicos, ela se adaptou à dieta, tudo funcionou, ela emagreceu. Mas nem ele e nem ela estavam preparados para este outro fator, o qual poderia ter sido trabalhado, evitando essa ruptura. Esse é um dos milhares de exemplos que podem ser dados, e um dos incontáveis problemas que podem decorrer indiretamente da gastroplastia. Todos os aspectos devem ser considerados, não apenas o sucesso clínico da redução de peso. E são estes os aspectos que vêm à tona em uma boa avaliação psicológica.

 

No entanto, atualmente vivenciamos dois problemas: não há um protocolo padrão para os cirurgiões gástricos seguirem e/ou exigirem, então acaba ficando a critério do médico aceitar ou se recusar a operar um paciente que não se submeteu à avaliação psicológica; e não há um protocolo padrão de avaliação psicológica pré-cirúrgica, e cada profissional desenvolve seu próprio método, assim como qualquer psicólogo pode fazê-lo, independente de estar qualificado ou não. Outro problema está em encontrar profissionais qualificados. E assim se forma uma cadeia de complicações, que acabam culminando na não realização da avaliação psicológica e a sujeição a riscos desnecessários.

 

Há aqueles casos em que a ideia de se buscar um psicólogo é aceita. Mas aí surgem dúvidas, tais com quanto tempo a avaliação leva e como ela é realizada. Primeiramente, o candidato deve estar ciente que a avaliação é sim um pouco demorada. Não conheci até hoje um profissional que se propusesse a emitir um laudo após uma única consulta, e honestamente desconfiaria de um que o fizesse. Normalmente são necessárias de quatro a dez sessões para se fundamentar o laudo, e dependendo do candidato, é necessário um período de psicoterapia anterior à cirurgia, e é possível que o profissional não recomende a intervenção cirúrgica. Alguns dos fatores que levam à contraindicação, que pode ser temporária, são:

 

  • Transtornos alimentares ligados à compulsão: pessoas que comem compulsivamente correm um grande risco de não conseguir seguir as dietas líquidas e pastosas do pós-operatório, o que pode inclusive levar um paciente à óbito. Tal transtorno deve estar muito bem controlado para que a pessoa possa passar por esta fase em segurança.

  • Ausência de outros fatores de gerem prazer: pessoas que tem poucos ou nenhum prazer na vida além da comida são fortes candidatos a recuperar o peso, sofrer de depressão, tentativas de suicídio e/ou adotares condutas disfuncionais substitutivas (tais como jogo patológico, compulsão por sexo, uso abusivo de álcool ou outras drogas, para citar algumas). É fato que comer é um prazer, e a pessoa que realiza gastroplastia reduz significantemente a quantidade e a qualidade dos alimentos ingeridos, às vezes de forma definitiva. É frequente que os pacientes sintam que alguns tipos de alimento 'não descem' como antes, causam vômitos e mal estar, logo, passam a ser evitados. Se não houver outras fontes significativas e funcionais de prazer na vida do indivíduo, a cirurgia deve ser adiada para após um período de terapia. Caso seja constatado que o paciente tem condições de resgatar atividades prazerosas após a perda de peso (ou ainda, se o paciente necessitar emagrecer urgentemente por questões médicas), é imprescindível que haja o acompanhamento do paciente após a cirurgia.

  • Concepções equivocadas sobre os efeitos da cirurgia: algumas pessoas creem que após seis meses terão um corpo perfeito e terão todos os problemas resolvidos, entre outras crenças fantasiosas. É preciso que o candidato à esta intervenção esteja ciente de que na grande maioria dos casos haverá flacidez, sobras de pele e redução drástica do tamanho dos seios nas mulheres, para citar alguns exemplos sobre como o tão sonhado 'corpo perfeito' dificilmente será alcançado apenas com a cirurgia; não há garantia alguma de que a pessoa conseguirá uma melhor colocação no mercado de trabalho ou encontrá um parceiro afetivo. Cada um desses aspectos depende de diversos fatores, e, deixando a hipocrisia de lado, sabemos que a aparência é um deles. Mas nenhum ganho será mantido sem os outros fatores que os sustentam, e isso abrange muito mais do que um corpo.

Neste texto o tema foi abordado de maneira ampla e superficial, com o objetivo de trazer a reflexão sobre a importância da atuação da equipe multidisciplinar no tratamento cirúrgico da obesidade. Obviamente muita coisa ficou de fora, mas terei muito prazer em aprofundar qualquer aspecto pertinente que for solicitado. Vale a pensa pensar a respeito.

 

2 de março de 2016

Ejaculação precoce


 
 
Ejaculação precoce: Superando a dificuldade pelo reaprendizado

 

 

 

 

A ejaculação precoce é uma disfunção sexual da resposta sexual masculina que ocorre na fase de orgasmo. Acomete principalmente indivíduos no início da vida sexual, embora também seja queixa de homens de outras faixas etárias que a desenvolvem em determinada situação ou com determinada parceira. O Diagnostic and statistical manual of mental disorders caracteriza a ejaculação precoce como o “início persistente ou recorrente de orgasmo e ejaculação com estimulação mínima antes, durante ou logo após a penetração e antes que o indivíduo deseje”.

 

A ejaculação precoce não está relacionada apenas ao tempo que o homem leva para ejacular, como se acreditava quando o diagnóstico era definido pelo tempo mínimo do intercurso. Chegou-se, por exemplo, a aceitar um tempo de 15 segundos. Hoje temos uma compreensão mais ampla de sexualidade e, além da ansiedade de desempenho, consideramos que outros aspectos intra e inter-pessoais estão intimamente relacionados com o processo ejaculatório.

 

Conforme o modelo trifásico da resposta sexual proposto por Kaplan, essa disfunção apresenta-se nas seguintes formas: ejaculação precoce primária – caso de homens que apresentam ejaculação precoce desde as primeiras tentativas de coito; ejaculação precoce secundária – caso de homens que apresentam ejaculação precoce após um período de funcionamento sexual eficaz; e  ejaculação precoce situacional – caso de homens que apresentam ejaculação precoce com determinada parceria ou situação.

 

A disfunção está relacionada a uma inibição adquirida por condicionamentos durante uma situação aversiva e desagradável associada a uma resposta sexual. Situações que dificultam o aprendizado da percepção das sensações que antecedem a ejaculação fazem parte do treino para a formação de ejaculadores precoces, como uma educação repressora e negativa em relação ao sexo; jogos sexuais em que a ejaculação rápida é vista como viril e valorizada, como no caso de competição de masturbação em grupo; medo de alguns homens de serem surpreendidos e punidos no ato masturbatório, seja pelos pais ou por estranhos; relação sexual realizada em local que não propicie a privacidade e o relaxamento estimulando a rapidez da relação, como no banco traseiro do carro, ou em um cômodo enquanto os pais estão em outro. Desta forma, os níveis específicos de privação sensorial originam-se do medo e apreensão diante de situações sexuais, da negação da identidade sexual pessoal, da rejeição da parceria ou da circunstância do encontro sexual, ou da ausência da consciência sexual decorrente do cansaço físico ou emocional. Deve-se também considerar a preocupação do homem de fazer sexo de um modo “certo”, ou de fazer com que a parceira atinja o prazer, forçando-se a fazer sexo sem a disponibilidade necessária. Prolongados períodos de abstinência sexual, disfunção sexual feminina, dificuldades gerais no relacionamento, comportamento de crítica ou rejeição, ressentimento não manifesto são outras formas de dificultar o controle ejaculatório e, deste modo, o prazer.

 

Embora cause sofrimento psicológico para o homem e sua parceria, gere ansiedade, medo do fracasso, evitação de contatos que envolvam intimidade e ser potencial causa da disfunção eretiva secundária de origem psicogênica, a ejaculação precoce é uma disfunção sexual das mais fáceis de serem  tratadas.