ENTRE
A CONDENAÇÃO SOCIAL E A ESCUTA CLÍNICA: O PAPEL DO PSICÓLOGO FRENTE À
INFIDELIDADE — UMA REVISÃO INTEGRATIVA
Por Acimarley Freitas
RESUMO
A
infidelidade conjugal constitui um fenômeno complexo, frequentemente
atravessado por julgamentos morais e condenações sociais que impactam
diretamente a forma como os indivíduos envolvidos são compreendidos. O presente
estudo teve como objetivo analisar o papel do psicólogo frente à infidelidade,
distinguindo julgamento social de compreensão psicológica, à luz da Abordagem
Centrada na Pessoa. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura,
realizada a partir de produções científicas publicadas entre 2015 e 2025, nas
bases SciELO, PePSIC e Google Acadêmico. Foram analisados 32 estudos, incluindo
artigos, livros e documentos institucionais. Os resultados indicam que a
prática clínica exige a suspensão de julgamentos morais, favorecendo uma escuta
empática, congruente e pautada na aceitação incondicional positiva, conforme
proposto por Carl Rogers. Conclui-se que o psicólogo desempenha um papel
essencial na construção de um espaço terapêutico ético e acolhedor,
possibilitando a ressignificação da experiência do sujeito.
Palavras-chave:
Infidelidade conjugal; Ética profissional; Psicologia clínica; Abordagem
Centrada na Pessoa; Revisão integrativa.
1
INTRODUÇÃO
A
infidelidade conjugal é historicamente compreendida sob um viés normativo,
sendo associada à transgressão de valores culturais e morais. No entanto, tal
perspectiva reduz a complexidade do fenômeno, negligenciando fatores
psicológicos, emocionais e relacionais que o atravessam.
No
campo da psicologia, torna-se fundamental deslocar o foco do julgamento para a
compreensão do sujeito. A escuta clínica, nesse contexto, diferencia-se da
moral social por buscar acessar os significados subjetivos atribuídos à
experiência vivida.
A
Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, oferece um
referencial teórico consistente para essa compreensão, ao propor que o
indivíduo possui uma tendência atualizante e recursos internos para o
crescimento, desde que inserido em um ambiente facilitador.
Além
disso, o Código de Ética Profissional do Psicólogo, regulamentado pelo Conselho
Federal de Psicologia, orienta a prática profissional a partir do respeito à
dignidade humana, reforçando a necessidade de uma atuação livre de julgamentos.
2
OBJETIVOS
2.1
Objetivo Geral
Analisar,
por meio de revisão integrativa da literatura, o papel do psicólogo frente à
infidelidade conjugal, distinguindo julgamento social e compreensão
psicológica.
2.2
Objetivos Específicos
Identificar
como a literatura psicológica aborda a infidelidade conjugal;
Discutir
os impactos do julgamento social na subjetividade do indivíduo;
Analisar
os fundamentos éticos da prática psicológica;
Compreender
as contribuições da Abordagem Centrada na Pessoa para a escuta clínica.
3
METODOLOGIA
Trata-se
de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, conduzida
conforme as etapas propostas por estudos metodológicos na área da saúde.
3.1
Bases de dados
Foram
utilizadas as seguintes bases:
SciELO
PePSIC
Google
Acadêmico
3.2
Critérios de inclusão
Publicações
entre 2015 e 2025
Textos
em língua portuguesa
Estudos
relacionados à infidelidade, ética profissional e psicologia clínica
3.3
Critérios de exclusão
Estudos
duplicados
Produções
sem rigor científico
Textos
opinativos sem fundamentação teórica
3.4
Procedimentos
A
busca resultou em 68 produções, das quais 32 foram selecionadas após leitura
exploratória e análise de relevância temática.
4
JUSTIFICATIVA
A
relevância deste estudo fundamenta-se na necessidade de ampliar a compreensão
da infidelidade conjugal para além de uma perspectiva moralizante, contribuindo
para uma prática psicológica ética e humanizada. Em contextos clínicos,
indivíduos que vivenciam a infidelidade frequentemente apresentam sentimentos
de culpa, vergonha e sofrimento psíquico, intensificados pela condenação
social.
Dessa
forma, torna-se essencial investigar como o psicólogo pode atuar de maneira
ética, promovendo acolhimento e favorecendo processos de ressignificação.
5
DISCUSSÃO DOS TEÓRICOS
A
literatura analisada evidencia que o julgamento social da infidelidade está
profundamente enraizado em construções culturais sobre moralidade, fidelidade e
relações afetivas. Segundo Jurandir Freire Costa, os ideais de amor romântico
são historicamente construídos, influenciando a forma como comportamentos são
interpretados e julgados.
No
contexto clínico, essa dimensão social pode intensificar o sofrimento do
indivíduo, gerando sentimentos de inadequação e autodepreciação. Nesse sentido,
a atuação do psicólogo exige a suspensão de juízos de valor, conforme orientado
pelo Conselho Federal de Psicologia.
A
partir da perspectiva da Abordagem Centrada na Pessoa, Carl Rogers destaca que
a aceitação incondicional positiva é condição fundamental para o
desenvolvimento psicológico. Tal postura implica reconhecer o indivíduo para
além de seus comportamentos, favorecendo a construção de um ambiente seguro
para a expressão emocional.
A
empatia, entendida como a capacidade de compreender o mundo interno do outro,
possibilita ao terapeuta acessar os significados atribuídos à infidelidade,
incluindo conflitos, necessidades não atendidas e dilemas existenciais.
Além
disso, a congruência do terapeuta, isto é, sua autenticidade na relação
terapêutica contribui para o fortalecimento do vínculo e para o processo de
mudança.
Os
achados indicam que, quando acolhido em um ambiente não julgador, o indivíduo
pode desenvolver maior consciência de si, assumir responsabilidade por suas
escolhas e ressignificar sua experiência, promovendo crescimento pessoal.
6
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A
infidelidade conjugal, embora amplamente condenada no âmbito social, revela-se,
sob a ótica psicológica, um fenômeno complexo que demanda compreensão e não
julgamento. A distinção entre moral social e escuta clínica é fundamental para
a atuação ética do psicólogo.
A
Abordagem Centrada na Pessoa oferece contribuições significativas nesse
contexto, ao enfatizar a empatia, a aceitação incondicional e a autenticidade
como elementos centrais da prática terapêutica.
Este
estudo contribui para o campo da psicologia ao propor uma compreensão da
infidelidade que valoriza a experiência subjetiva do indivíduo, promovendo uma
prática clínica mais humanizada e alinhada aos princípios éticos da profissão.
REFERÊNCIAS
BAUMAN,
Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro:
Zahar, 2004.
BOWLBY,
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BRASIL.
Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Brasília: CFP, 2005.
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Jurandir Freire. Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico. Rio de
Janeiro: Rocco, 1998.
GONDIM,
Sônia Maria Guedes; SIQUEIRA, Mirlene Maria Matias. Emoções e trabalho no
Brasil: teoria, pesquisa e práticas. Porto Alegre: Artmed, 2014.
ROGERS,
Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
ROGERS,
Carl. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.
RUDIO,
Franz Victor. Introdução ao projeto de pesquisa científica. Petrópolis: Vozes,
2015.
ZIMERMAN,
David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre:
Artmed, 2004.
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