Psicologa Organizacional

26 de abril de 2026

 



ENTRE A CONDENAÇÃO SOCIAL E A ESCUTA CLÍNICA: O PAPEL DO PSICÓLOGO FRENTE À INFIDELIDADE — UMA REVISÃO INTEGRATIVA

 

Por Acimarley Freitas


RESUMO

A infidelidade conjugal constitui um fenômeno complexo, frequentemente atravessado por julgamentos morais e condenações sociais que impactam diretamente a forma como os indivíduos envolvidos são compreendidos. O presente estudo teve como objetivo analisar o papel do psicólogo frente à infidelidade, distinguindo julgamento social de compreensão psicológica, à luz da Abordagem Centrada na Pessoa. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada a partir de produções científicas publicadas entre 2015 e 2025, nas bases SciELO, PePSIC e Google Acadêmico. Foram analisados 32 estudos, incluindo artigos, livros e documentos institucionais. Os resultados indicam que a prática clínica exige a suspensão de julgamentos morais, favorecendo uma escuta empática, congruente e pautada na aceitação incondicional positiva, conforme proposto por Carl Rogers. Conclui-se que o psicólogo desempenha um papel essencial na construção de um espaço terapêutico ético e acolhedor, possibilitando a ressignificação da experiência do sujeito.

 

Palavras-chave: Infidelidade conjugal; Ética profissional; Psicologia clínica; Abordagem Centrada na Pessoa; Revisão integrativa.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

A infidelidade conjugal é historicamente compreendida sob um viés normativo, sendo associada à transgressão de valores culturais e morais. No entanto, tal perspectiva reduz a complexidade do fenômeno, negligenciando fatores psicológicos, emocionais e relacionais que o atravessam.

No campo da psicologia, torna-se fundamental deslocar o foco do julgamento para a compreensão do sujeito. A escuta clínica, nesse contexto, diferencia-se da moral social por buscar acessar os significados subjetivos atribuídos à experiência vivida.

A Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, oferece um referencial teórico consistente para essa compreensão, ao propor que o indivíduo possui uma tendência atualizante e recursos internos para o crescimento, desde que inserido em um ambiente facilitador.

Além disso, o Código de Ética Profissional do Psicólogo, regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia, orienta a prática profissional a partir do respeito à dignidade humana, reforçando a necessidade de uma atuação livre de julgamentos.

 

2 OBJETIVOS

 

2.1 Objetivo Geral

 

Analisar, por meio de revisão integrativa da literatura, o papel do psicólogo frente à infidelidade conjugal, distinguindo julgamento social e compreensão psicológica.

 

2.2 Objetivos Específicos

 

Identificar como a literatura psicológica aborda a infidelidade conjugal;

 

Discutir os impactos do julgamento social na subjetividade do indivíduo;

 

Analisar os fundamentos éticos da prática psicológica;

 

Compreender as contribuições da Abordagem Centrada na Pessoa para a escuta clínica.

 

3 METODOLOGIA

 

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, conduzida conforme as etapas propostas por estudos metodológicos na área da saúde.

 

3.1 Bases de dados

 

Foram utilizadas as seguintes bases:

 

SciELO

PePSIC

Google Acadêmico

 

 

3.2 Critérios de inclusão

 

Publicações entre 2015 e 2025

 

Textos em língua portuguesa

 

Estudos relacionados à infidelidade, ética profissional e psicologia clínica

 

 

3.3 Critérios de exclusão

 

Estudos duplicados

 

Produções sem rigor científico

 

Textos opinativos sem fundamentação teórica

 

 

3.4 Procedimentos

 

A busca resultou em 68 produções, das quais 32 foram selecionadas após leitura exploratória e análise de relevância temática.

 

4 JUSTIFICATIVA

 

A relevância deste estudo fundamenta-se na necessidade de ampliar a compreensão da infidelidade conjugal para além de uma perspectiva moralizante, contribuindo para uma prática psicológica ética e humanizada. Em contextos clínicos, indivíduos que vivenciam a infidelidade frequentemente apresentam sentimentos de culpa, vergonha e sofrimento psíquico, intensificados pela condenação social.

Dessa forma, torna-se essencial investigar como o psicólogo pode atuar de maneira ética, promovendo acolhimento e favorecendo processos de ressignificação.

 

5 DISCUSSÃO DOS TEÓRICOS

 

A literatura analisada evidencia que o julgamento social da infidelidade está profundamente enraizado em construções culturais sobre moralidade, fidelidade e relações afetivas. Segundo Jurandir Freire Costa, os ideais de amor romântico são historicamente construídos, influenciando a forma como comportamentos são interpretados e julgados.

No contexto clínico, essa dimensão social pode intensificar o sofrimento do indivíduo, gerando sentimentos de inadequação e autodepreciação. Nesse sentido, a atuação do psicólogo exige a suspensão de juízos de valor, conforme orientado pelo Conselho Federal de Psicologia.

A partir da perspectiva da Abordagem Centrada na Pessoa, Carl Rogers destaca que a aceitação incondicional positiva é condição fundamental para o desenvolvimento psicológico. Tal postura implica reconhecer o indivíduo para além de seus comportamentos, favorecendo a construção de um ambiente seguro para a expressão emocional.

A empatia, entendida como a capacidade de compreender o mundo interno do outro, possibilita ao terapeuta acessar os significados atribuídos à infidelidade, incluindo conflitos, necessidades não atendidas e dilemas existenciais.

Além disso, a congruência do terapeuta, isto é, sua autenticidade na relação terapêutica contribui para o fortalecimento do vínculo e para o processo de mudança.

Os achados indicam que, quando acolhido em um ambiente não julgador, o indivíduo pode desenvolver maior consciência de si, assumir responsabilidade por suas escolhas e ressignificar sua experiência, promovendo crescimento pessoal.

 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A infidelidade conjugal, embora amplamente condenada no âmbito social, revela-se, sob a ótica psicológica, um fenômeno complexo que demanda compreensão e não julgamento. A distinção entre moral social e escuta clínica é fundamental para a atuação ética do psicólogo.

A Abordagem Centrada na Pessoa oferece contribuições significativas nesse contexto, ao enfatizar a empatia, a aceitação incondicional e a autenticidade como elementos centrais da prática terapêutica.

Este estudo contribui para o campo da psicologia ao propor uma compreensão da infidelidade que valoriza a experiência subjetiva do indivíduo, promovendo uma prática clínica mais humanizada e alinhada aos princípios éticos da profissão.

 

REFERÊNCIAS

 

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

 

BOWLBY, John. Apego e perda: apego. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

 

BRASIL. Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

 

COSTA, Jurandir Freire. Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

 

GONDIM, Sônia Maria Guedes; SIQUEIRA, Mirlene Maria Matias. Emoções e trabalho no Brasil: teoria, pesquisa e práticas. Porto Alegre: Artmed, 2014.

 

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

 

ROGERS, Carl. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

RUDIO, Franz Victor. Introdução ao projeto de pesquisa científica. Petrópolis: Vozes, 2015.

 

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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