Psicologa Organizacional

7 de abril de 2026

 


ANDARILHOS NAS RODOVIAS FEDERAIS DO BRASIL: UMA ANÁLISE PSICOSSOCIAL E EXISTENCIAL

 

 

Resumo

 

O presente artigo tem como objetivo analisar a realidade dos andarilhos nas rodovias federais do Brasil sob uma perspectiva psicossocial e filosófica. Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter bibliográfico, fundamentado em produções acadêmicas das áreas da Psicologia, Sociologia e Filosofia. A problemática central investiga os fatores que levam indivíduos a viverem em constante deslocamento, à margem da sociedade formal, evidenciando aspectos como exclusão social, sofrimento psíquico e busca de sentido existencial. Os resultados apontam que os andarilhos são sujeitos marcados por rupturas familiares, vulnerabilidade socioeconômica e processos de invisibilidade social. Sob a ótica psicológica, identificam-se fragilidades na constituição da identidade e experiências de sofrimento emocional. No campo sociológico, observa-se a presença de desigualdades estruturais que perpetuam a marginalização. Já a filosofia contribui com reflexões acerca da liberdade, do abandono e da condição humana. Conclui-se que a realidade dos andarilhos exige um olhar sensível e interdisciplinar, bem como políticas públicas inclusivas e práticas de acolhimento que respeitem a singularidade desses sujeitos.

 

Palavras-chave

Andarilhos. Exclusão social. Sofrimento psíquico. Existência. Vulnerabilidade.

 

1. Introdução

A presença de andarilhos nas rodovias federais brasileiras é um fenômeno social que, embora visível, permanece amplamente negligenciado. Esses indivíduos, que transitam entre cidades e estados, muitas vezes carregam histórias marcadas por perdas, rupturas e exclusão. A errância, nesse contexto, não se apresenta apenas como deslocamento físico, mas como expressão de uma trajetória existencial complexa.

Do ponto de vista sociológico, os andarilhos podem ser compreendidos como sujeitos inseridos em processos de marginalização social, reflexo das desigualdades estruturais que caracterizam a sociedade brasileira. Já na perspectiva psicológica, emergem questões relacionadas à subjetividade, identidade e sofrimento psíquico. A filosofia, por sua vez, permite problematizar a condição humana desses indivíduos, especialmente no que tange à liberdade, ao abandono e à busca de sentido.

Diante disso, questiona-se: quem são os andarilhos das rodovias federais? Quais fatores os conduzem a essa forma de existência? E como a ciência pode contribuir para a compreensão e intervenção nessa realidade?

Este estudo justifica-se pela necessidade de dar visibilidade a uma população historicamente invisibilizada, promovendo reflexões que ultrapassem o senso comum e contribuam para a construção de práticas mais humanizadas.

 

2. Objetivos

 

2.1 Objetivo Geral

Analisar a realidade dos andarilhos nas rodovias federais do Brasil sob uma perspectiva psicossocial e filosófica.

 

2.2 Objetivos Específicos

Compreender os fatores psicológicos envolvidos na vida dos andarilhos, como identidade e sofrimento psíquico;

Analisar os aspectos sociológicos relacionados à exclusão social e desigualdade;

Refletir filosoficamente sobre liberdade, existência e sentido da vida;

Identificar possibilidades de intervenção e acolhimento.

 

3. Metodologia

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória, realizada por meio de levantamento bibliográfico. Foram utilizadas fontes como livros, artigos científicos e revistas acadêmicas indexadas em bases como SciELO e PePSIC.

A seleção do material considerou autores de relevância nacional e internacional nas áreas de Psicologia, Sociologia e Filosofia. No campo psicológico, destacam-se as contribuições de Carl Rogers (1961) e Sigmund Freud (1923); na Sociologia, Florestan Fernandes (1975) e Jessé Souza (2009); e na Filosofia, Jean-Paul Sartre (1943) e Michel Foucault (1975).

Os dados foram analisados de forma interpretativa, buscando articulação entre os referenciais teóricos e o fenômeno estudado.

 

4. Justificativa

A temática dos andarilhos nas rodovias federais revela-se de grande relevância social e acadêmica, sobretudo por tratar-se de uma população em situação de extrema vulnerabilidade e invisibilidade. Apesar de sua presença constante nas estradas brasileiras, esses sujeitos raramente são contemplados em políticas públicas efetivas.

Do ponto de vista científico, o estudo contribui para o aprofundamento das discussões sobre exclusão social, sofrimento psíquico e condição humana, promovendo um diálogo interdisciplinar entre diferentes áreas do conhecimento.

Além disso, a pesquisa pode subsidiar práticas profissionais mais sensíveis, especialmente no campo da Psicologia, favorecendo intervenções pautadas no respeito à singularidade e na promoção da dignidade humana.

 

5. Discussão Teórica

A análise dos andarilhos sob a perspectiva psicológica evidencia a presença de sofrimento psíquico, frequentemente associado a experiências de abandono, perdas afetivas e rupturas familiares. Segundo Rogers (1961), o ser humano possui uma tendência atualizante, que pode ser comprometida em contextos de não aceitação e ausência de condições facilitadoras. Nesse sentido, a errância pode ser compreendida como uma tentativa de reorganização subjetiva diante de um mundo percebido como hostil.

Freud (1923), ao discutir a constituição do sujeito, aponta para conflitos intrapsíquicos que podem influenciar comportamentos de fuga e isolamento. Embora não se possa generalizar, é possível considerar que alguns andarilhos apresentam fragilidades emocionais que impactam sua inserção social.

No campo sociológico, Fernandes (1975) destaca que a desigualdade social no Brasil é estruturante, produzindo exclusões sistemáticas. Jessé Souza (2009) reforça essa perspectiva ao abordar a “ralé brasileira”, composta por indivíduos historicamente marginalizados. Os andarilhos, nesse contexto, representam uma expressão extrema dessa exclusão, vivendo à margem dos direitos básicos.

A filosofia existencialista, especialmente em Sartre (1943), contribui para a compreensão da liberdade como condição inerente ao ser humano, ainda que permeada por angústia e responsabilidade. O andarilho, ao romper com normas sociais, pode ser visto como alguém que exerce sua liberdade, mas também enfrenta o peso do abandono e da ausência de sentido.

Foucault (1975), por sua vez, problematiza os mecanismos de poder e exclusão que definem quem pertence ou não à sociedade. Os andarilhos, nesse sentido, ocupam um lugar de invisibilidade, sendo frequentemente ignorados ou estigmatizados.

 

6. Considerações Finais

A análise dos andarilhos nas rodovias federais do Brasil evidencia a complexidade desse fenômeno, que envolve dimensões psicológicas, sociais e existenciais. Longe de serem apenas “viajantes”, esses indivíduos carregam histórias marcadas por dor, exclusão e busca de sentido.

Os objetivos propostos foram alcançados ao evidenciar os fatores que contribuem para essa realidade, bem como ao promover reflexões críticas sobre a condição desses sujeitos. Destaca-se a necessidade de políticas públicas mais inclusivas e de práticas profissionais que valorizem a escuta, o acolhimento e o respeito à singularidade.

Por fim, compreende-se que olhar para os andarilhos é, também, olhar para as falhas da sociedade e para os limites da própria condição humana. Trata-se de um convite à empatia, à reflexão e à ação.

 

Referências

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

 

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1975.

 

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1923.

 

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.

 

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1943.

 

SOUZA, Jessé. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.

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