Psicologa Organizacional

22 de julho de 2026


 

Quando a política divide, a Palavra convida à mesa

"Tolerância para com os fracos na fé" 

(Romanos 14)

 

Vivemos um tempo curioso.

Nunca tivemos tantas formas de nos comunicar e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos tido tanta dificuldade para conversar.

Basta abrir uma rede social.

Em poucos minutos surgem discussões acaloradas.

Esquerda.

Direita.

Conservadores.

Progressistas.

Liberais.

Socialistas.

Patriotas.

Globalistas.

Cada lado apresenta argumentos, estatísticas, convicções e interpretações da realidade. Cada grupo acredita possuir as melhores respostas para os problemas do país. Isso faz parte da democracia. Pensar diferente nunca foi um problema.

O problema começa quando deixamos de enxergar pessoas e passamos a enxergar apenas adversários.

Quando uma opinião política passa a valer mais do que a dignidade humana.

Quando o respeito desaparece.

Quando o amor dá lugar ao desprezo.

É justamente nesse contexto que o texto de Romanos 14 soa surpreendentemente atual.

O título dessa passagem não poderia ser mais oportuno:

"Tolerância para com os fracos na fé."

O apóstolo Paulo escrevia para uma igreja profundamente dividida.

Não era uma divisão partidária como a nossa.

Mas era uma divisão de costumes, tradições religiosas, interpretações e convicções pessoais.

Alguns cristãos acreditavam que poderiam comer de tudo.

Outros entendiam que deveriam restringir sua alimentação.

Alguns davam importância especial a determinados dias.

Outros consideravam todos os dias igualmente santos.

O curioso é que Paulo não escolhe um lado.

Ele escolhe algo muito maior.

Escolhe preservar a comunhão.

Ele escreve:

"O que come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come; porque Deus o recebeu."
(Romanos 14:3)

Observe a profundidade desse ensinamento.

Paulo não pede uniformidade.

Ele pede respeito.

Não exige pensamento único.

Exige maturidade.

Depois faz uma pergunta que atravessa os séculos:

"Quem és tu, que julgas o servo alheio?"
(Romanos 14:4)

Talvez essa pergunta também devesse ecoar em nossos dias.

Quem somos nós para cancelar alguém apenas porque votou diferente?

Quem somos nós para concluir que uma pessoa perdeu seu caráter apenas porque possui outra visão econômica, social ou política?

A democracia não nasce da unanimidade.

Ela nasce da convivência entre diferentes.

Nesse ponto, a própria Constituição Federal brasileira oferece um importante ensinamento.

A Constituição de 1988, logo em seu artigo 1º, estabelece como fundamentos da República a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político.

Não por acaso.

Pluralismo significa reconhecer que diferentes ideias podem coexistir dentro do mesmo Estado Democrático de Direito.

Já o artigo 5º assegura a todos a liberdade de consciência, de pensamento, de expressão e de convicção, garantindo que ninguém seja privado de seus direitos por causa de suas opiniões, desde que respeitados os limites constitucionais.

Nossa democracia não foi construída para eliminar diferenças.

Foi construída para protegê-las.

A mesma lógica aparece na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948.

Seu artigo 1º afirma:

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos."

E o artigo 19 reconhece o direito à liberdade de opinião e de expressão.

Esses princípios não existem para proteger apenas aqueles com quem concordamos.

Eles existem principalmente para proteger aqueles de quem discordamos.

Talvez seja exatamente aí que a sociedade esteja enfrentando uma de suas maiores dificuldades.

Estamos aprendendo a defender direitos.

Mas estamos desaprendendo a cultivar respeito.

É interessante observar que Jesus nunca ensinou seus discípulos a vencer debates.

Ele ensinou a amar pessoas.

Quando lhe perguntaram qual era o maior mandamento, Ele respondeu:

"Amarás o Senhor teu Deus... e amarás o teu próximo como a ti mesmo."
(Mateus 22:37-39)

Não acrescentou nenhuma observação dizendo:

"...desde que ele vote igual a você."

Também não disse:

"...desde que pertença ao seu grupo."

"...desde que pense como você."

O amor cristão nunca foi condicionado à concordância.

Isso não significa abandonar princípios.

Nem abrir mão das próprias convicções.

Ter posicionamento é saudável.

O problema começa quando o posicionamento substitui a compaixão.

Quando a ideologia ocupa o lugar da humanidade.

Quando a identidade política se torna mais importante do que a identidade moral.

Talvez seja justamente por isso que Paulo conclui aquele ensino dizendo:

"Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo."
(Romanos 14:5)

Em outras palavras:

Tenha suas convicções.

Estude.

Pense.

Vote.

Participe da vida pública.

Exerça sua cidadania.

Mas não transforme quem pensa diferente em inimigo.

Nenhuma eleição deveria destruir uma amizade verdadeira.

Nenhuma ideologia deveria romper uma família.

Nenhuma preferência partidária deveria justificar ofensas, humilhações ou violência.

O Brasil precisa de cidadãos conscientes.

Mas também precisa de corações equilibrados.

Precisamos aprender que firmeza de princípios não exige agressividade.

Convicção não precisa caminhar ao lado da intolerância.

É possível defender ideias sem desrespeitar pessoas.

É possível discordar sem odiar.

É possível debater sem destruir.

A verdadeira grandeza de uma sociedade não está na ausência de diferenças.

Está na capacidade de conviver com elas.

Romanos 14 continua nos lembrando de uma verdade que permanece atual:

Antes de pertencermos a qualquer partido, pertencemos à humanidade.

Antes de sermos identificados por uma bandeira política, somos chamados à responsabilidade, ao respeito e à dignidade.

E talvez a pergunta mais importante não seja:

"Você é de direita ou de esquerda?"

Talvez a pergunta seja outra:

"As suas palavras têm construído pontes ou levantado muros?"

Porque, no final das contas, a História quase nunca se lembrará do partido que defendíamos.

Mas certamente se lembrará da forma como tratamos as pessoas.

Pense nisso.

Acimarley Freitas


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