Quando a política divide, a Palavra convida à mesa
"Tolerância para com os fracos na fé"
(Romanos 14)
Vivemos um tempo curioso.
Nunca tivemos tantas formas de nos comunicar e,
paradoxalmente, talvez nunca tenhamos tido tanta dificuldade para conversar.
Basta abrir uma rede social.
Em poucos minutos surgem discussões acaloradas.
Esquerda.
Direita.
Conservadores.
Progressistas.
Liberais.
Socialistas.
Patriotas.
Globalistas.
Cada lado apresenta argumentos, estatísticas,
convicções e interpretações da realidade. Cada grupo acredita possuir as
melhores respostas para os problemas do país. Isso faz parte da democracia.
Pensar diferente nunca foi um problema.
O problema começa quando deixamos de enxergar
pessoas e passamos a enxergar apenas adversários.
Quando uma opinião política passa a valer mais do
que a dignidade humana.
Quando o respeito desaparece.
Quando o amor dá lugar ao desprezo.
É justamente nesse contexto que o texto de Romanos
14 soa surpreendentemente atual.
O título dessa passagem não poderia ser mais
oportuno:
"Tolerância para com os
fracos na fé."
O apóstolo Paulo escrevia para uma igreja
profundamente dividida.
Não era uma divisão partidária como a nossa.
Mas era uma divisão de costumes, tradições
religiosas, interpretações e convicções pessoais.
Alguns cristãos acreditavam que poderiam comer de
tudo.
Outros entendiam que deveriam restringir sua
alimentação.
Alguns davam importância especial a determinados
dias.
Outros consideravam todos os dias igualmente
santos.
O curioso é que Paulo não escolhe um lado.
Ele escolhe algo muito maior.
Escolhe preservar a comunhão.
Ele escreve:
"O que come não despreze o que não come; e o
que não come não julgue o que come; porque Deus o recebeu."
(Romanos 14:3)
Observe a profundidade desse ensinamento.
Paulo não pede uniformidade.
Ele pede respeito.
Não exige pensamento único.
Exige maturidade.
Depois faz uma pergunta que atravessa os séculos:
"Quem és tu, que julgas o servo alheio?"
(Romanos 14:4)
Talvez essa pergunta também devesse ecoar em nossos
dias.
Quem somos nós para cancelar alguém apenas porque
votou diferente?
Quem somos nós para concluir que uma pessoa perdeu
seu caráter apenas porque possui outra visão econômica, social ou política?
A democracia não nasce da unanimidade.
Ela nasce da convivência entre diferentes.
Nesse ponto, a própria Constituição Federal brasileira
oferece um importante ensinamento.
A Constituição de 1988, logo em seu artigo
1º, estabelece como fundamentos da República a cidadania, a dignidade da pessoa
humana e o pluralismo político.
Não por acaso.
Pluralismo significa reconhecer que diferentes
ideias podem coexistir dentro do mesmo Estado Democrático de Direito.
Já o artigo 5º assegura a todos a liberdade
de consciência, de pensamento, de expressão e de convicção, garantindo que
ninguém seja privado de seus direitos por causa de suas opiniões, desde que
respeitados os limites constitucionais.
Nossa democracia não foi construída para eliminar
diferenças.
Foi construída para protegê-las.
A mesma lógica aparece na Declaração Universal
dos Direitos Humanos, aprovada em 1948.
Seu artigo 1º afirma:
"Todos os seres humanos nascem livres e iguais
em dignidade e em direitos."
E o artigo 19 reconhece o direito à liberdade de
opinião e de expressão.
Esses princípios não existem para proteger apenas
aqueles com quem concordamos.
Eles existem principalmente para proteger aqueles
de quem discordamos.
Talvez seja exatamente aí que a sociedade esteja
enfrentando uma de suas maiores dificuldades.
Estamos aprendendo a defender direitos.
Mas estamos desaprendendo a cultivar respeito.
É interessante observar que Jesus nunca ensinou
seus discípulos a vencer debates.
Ele ensinou a amar pessoas.
Quando lhe perguntaram qual era o maior mandamento,
Ele respondeu:
"Amarás o Senhor teu Deus... e amarás o teu
próximo como a ti mesmo."
(Mateus 22:37-39)
Não acrescentou nenhuma observação dizendo:
"...desde que ele vote igual a você."
Também não disse:
"...desde que pertença ao seu grupo."
"...desde que pense como você."
O amor cristão nunca foi condicionado à
concordância.
Isso não significa abandonar princípios.
Nem abrir mão das próprias convicções.
Ter posicionamento é saudável.
O problema começa quando o posicionamento substitui
a compaixão.
Quando a ideologia ocupa o lugar da humanidade.
Quando a identidade política se torna mais
importante do que a identidade moral.
Talvez seja justamente por isso que Paulo conclui
aquele ensino dizendo:
"Cada um esteja inteiramente seguro em seu
próprio ânimo."
(Romanos 14:5)
Em outras palavras:
Tenha suas convicções.
Estude.
Pense.
Vote.
Participe da vida pública.
Exerça sua cidadania.
Mas não transforme quem pensa diferente em inimigo.
Nenhuma eleição deveria destruir uma amizade
verdadeira.
Nenhuma ideologia deveria romper uma família.
Nenhuma preferência partidária deveria justificar
ofensas, humilhações ou violência.
O Brasil precisa de cidadãos conscientes.
Mas também precisa de corações equilibrados.
Precisamos aprender que firmeza de princípios não
exige agressividade.
Convicção não precisa caminhar ao lado da
intolerância.
É possível defender ideias sem desrespeitar pessoas.
É possível discordar sem odiar.
É possível debater sem destruir.
A verdadeira grandeza de uma sociedade não está na
ausência de diferenças.
Está na capacidade de conviver com elas.
Romanos 14 continua nos lembrando de uma verdade
que permanece atual:
Antes de pertencermos a qualquer partido,
pertencemos à humanidade.
Antes de sermos identificados por uma bandeira
política, somos chamados à responsabilidade, ao respeito e à dignidade.
E talvez a pergunta mais importante não seja:
"Você é de direita ou de
esquerda?"
Talvez a pergunta seja outra:
"As suas palavras têm
construído pontes ou levantado muros?"
Porque, no final das contas, a História quase nunca
se lembrará do partido que defendíamos.
Mas certamente se lembrará da forma como tratamos
as pessoas.
Pense nisso.
Acimarley Freitas
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