A Gazeta das Ruas da Bahia
Um conto de caso sobre o dia em que a Bahia decidiu ser livre
Por Acimarley Freitas
Venham depressa!
Cheguem mais perto!
Fechem as portas para o vento não levar a notícia, porque o
que vou contar não é conversa de viajante nem exagero de feira.
Aconteceu na Bahia.
E quem viu, jura que nunca esquecerá.
Era o segundo dia do mês de julho do ano de Nosso Senhor de
1823. Logo cedo, o sol nasceu diferente. Parecia saber que aquele não seria um
dia qualquer.
As ruas de Salvador acordaram inquietas. O povo cochichava
nas esquinas. Mulheres rezavam. Crianças corriam sem entender direito o motivo
da agitação. Os sinos das igrejas pareciam tocar mais alto.
De um lado estavam as tropas portuguesas, decididas a manter
o domínio sobre a província. Do outro, homens e mulheres que já não aceitavam
viver sob ordens vindas do outro lado do oceano.
Não pensem que essa história foi escrita apenas por soldados.
Foi escrita também por gente simples.
Lavradores.
Pescadores.
Artesãos.
Padres.
Escravizados que sonhavam com dias mais justos.
Negros libertos.
Índios.
Mulheres que recusaram permanecer apenas observando as
janelas da História.
Dizem que entre elas caminhava uma mulher de coragem imensa.
Chamava-se Maria Quitéria.
Vestiu-se como soldado para lutar pela liberdade da Bahia
quando poucos acreditavam que uma mulher pudesse ocupar aquele lugar. Empunhou
armas, enfrentou batalhas e mostrou que a coragem não escolhe gênero.
Também contam que outra heroína percorria os campos levando
mantimentos, mensagens e esperança.
Era Maria Felipa, mulher negra da Ilha de Itaparica, que
reuniu outras mulheres para enfrentar soldados portugueses. Há quem diga que
usaram galhos de cansanção para surpreender os inimigos e incendiaram
embarcações, impedindo o avanço das tropas.
E como esquecer da jovem abadessa Joana Angélica?
Quando soldados portugueses tentaram invadir o Convento da
Lapa, ela colocou o próprio corpo diante da porta.
Pediu que respeitassem aquele lugar santo.
A resposta veio em forma de baioneta.
Seu sangue tornou-se um dos símbolos da resistência baiana.
Enquanto isso, o general francês Pierre Labatut, contratado
para organizar o Exército Libertador, conduzia parte das tropas brasileiras. Ao
lado dele lutavam inúmeros oficiais, voluntários e cidadãos comuns que
acreditavam que a independência proclamada meses antes por Dom Pedro, às
margens do Ipiranga, ainda precisava ser conquistada na Bahia.
Porque, vejam bem...
Embora o Brasil tivesse declarado sua independência em 7 de
setembro de 1822, os portugueses permaneciam ocupando Salvador.
Era preciso libertar a Bahia para consolidar, de fato, a
independência do país.
E foi então que aconteceu.
As tropas portuguesas embarcaram rumo à Europa.
O povo tomou as ruas.
Os abraços substituíram o medo.
As bandeiras tremularam.
Os sinos voltaram a tocar.
As vozes se misturavam em um só coro.
"A Bahia venceu!"
Quem passava pela praça dizia que nunca tinha visto tanta
gente sorrindo ao mesmo tempo.
Havia lágrimas.
Havia cantorias.
Havia esperança.
Naquele instante, não era apenas uma cidade que respirava
aliviada.
Era um povo inteiro que descobria o significado da palavra
liberdade.
Desde então, todo dia 2 de Julho deixou de ser apenas uma
data.
Transformou-se em memória viva.
Um lembrete de que a independência do Brasil não terminou às
margens do riacho do Ipiranga.
Ela precisou ser defendida com coragem nas ruas, nos
conventos, nos campos e nas águas da Bahia.
E assim encerro esta notícia, escrita às pressas para que
ninguém diga, no futuro, que desconhecia o valor desse povo.
Porque há dias que passam.
Há dias que ficam registrados nos livros.
E há dias, como este, que permanecem para sempre na alma de
uma nação.
Que nunca nos falte memória para honrar aqueles que fizeram
da coragem o caminho da liberdade.
E que, sempre que o calendário anunciar o 2 de Julho, a Bahia
continue lembrando ao Brasil que a independência também foi conquistada com o
sotaque, a bravura e o coração do povo baiano.
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