Psicologa Organizacional

2 de julho de 2026

 




A Gazeta das Ruas da Bahia

 

Um conto de caso sobre o dia em que a Bahia decidiu ser livre

 

Por Acimarley Freitas

 

Venham depressa!

 

Cheguem mais perto!

 

Fechem as portas para o vento não levar a notícia, porque o que vou contar não é conversa de viajante nem exagero de feira.

 

Aconteceu na Bahia.

 

E quem viu, jura que nunca esquecerá.

 

Era o segundo dia do mês de julho do ano de Nosso Senhor de 1823. Logo cedo, o sol nasceu diferente. Parecia saber que aquele não seria um dia qualquer.

 

As ruas de Salvador acordaram inquietas. O povo cochichava nas esquinas. Mulheres rezavam. Crianças corriam sem entender direito o motivo da agitação. Os sinos das igrejas pareciam tocar mais alto.

 

De um lado estavam as tropas portuguesas, decididas a manter o domínio sobre a província. Do outro, homens e mulheres que já não aceitavam viver sob ordens vindas do outro lado do oceano.

 

Não pensem que essa história foi escrita apenas por soldados.

 

Foi escrita também por gente simples.

 

Lavradores.

 

Pescadores.

 

Artesãos.

 

Padres.

 

Escravizados que sonhavam com dias mais justos.

 

Negros libertos.

 

Índios.

 

Mulheres que recusaram permanecer apenas observando as janelas da História.

 

Dizem que entre elas caminhava uma mulher de coragem imensa.

 

Chamava-se Maria Quitéria.

 

Vestiu-se como soldado para lutar pela liberdade da Bahia quando poucos acreditavam que uma mulher pudesse ocupar aquele lugar. Empunhou armas, enfrentou batalhas e mostrou que a coragem não escolhe gênero.

 

Também contam que outra heroína percorria os campos levando mantimentos, mensagens e esperança.

 

Era Maria Felipa, mulher negra da Ilha de Itaparica, que reuniu outras mulheres para enfrentar soldados portugueses. Há quem diga que usaram galhos de cansanção para surpreender os inimigos e incendiaram embarcações, impedindo o avanço das tropas.

 

E como esquecer da jovem abadessa Joana Angélica?

 

Quando soldados portugueses tentaram invadir o Convento da Lapa, ela colocou o próprio corpo diante da porta.

 

Pediu que respeitassem aquele lugar santo.

 

A resposta veio em forma de baioneta.

 

Seu sangue tornou-se um dos símbolos da resistência baiana.

 

Enquanto isso, o general francês Pierre Labatut, contratado para organizar o Exército Libertador, conduzia parte das tropas brasileiras. Ao lado dele lutavam inúmeros oficiais, voluntários e cidadãos comuns que acreditavam que a independência proclamada meses antes por Dom Pedro, às margens do Ipiranga, ainda precisava ser conquistada na Bahia.

 

Porque, vejam bem...

 

Embora o Brasil tivesse declarado sua independência em 7 de setembro de 1822, os portugueses permaneciam ocupando Salvador.

 

Era preciso libertar a Bahia para consolidar, de fato, a independência do país.

 

E foi então que aconteceu.

 

As tropas portuguesas embarcaram rumo à Europa.

 

O povo tomou as ruas.

 

Os abraços substituíram o medo.

 

As bandeiras tremularam.

 

Os sinos voltaram a tocar.

 

As vozes se misturavam em um só coro.

 

"A Bahia venceu!"

 

Quem passava pela praça dizia que nunca tinha visto tanta gente sorrindo ao mesmo tempo.

 

Havia lágrimas.

 

Havia cantorias.

 

Havia esperança.

 

Naquele instante, não era apenas uma cidade que respirava aliviada.

 

Era um povo inteiro que descobria o significado da palavra liberdade.

 

Desde então, todo dia 2 de Julho deixou de ser apenas uma data.

 

Transformou-se em memória viva.

 

Um lembrete de que a independência do Brasil não terminou às margens do riacho do Ipiranga.

 

Ela precisou ser defendida com coragem nas ruas, nos conventos, nos campos e nas águas da Bahia.

 

E assim encerro esta notícia, escrita às pressas para que ninguém diga, no futuro, que desconhecia o valor desse povo.

 

Porque há dias que passam.

 

Há dias que ficam registrados nos livros.

 

E há dias, como este, que permanecem para sempre na alma de uma nação.

 

Que nunca nos falte memória para honrar aqueles que fizeram da coragem o caminho da liberdade.

 

E que, sempre que o calendário anunciar o 2 de Julho, a Bahia continue lembrando ao Brasil que a independência também foi conquistada com o sotaque, a bravura e o coração do povo baiano.

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