O homem que mora atrás do volante
Há alguns dias, voltei a assistir ao
antigo desenho do Pateta no trânsito.
Confesso que, desta vez, não
enxerguei um desenho. Enxerguei pessoas.
Enxerguei a mim.
Enxerguei você.
É curioso como uma animação tão
simples consegue dizer tanto sobre a natureza humana.
O Pateta caminha pelas ruas com
leveza. Sorri para quem encontra, espera a sua vez, demonstra gentileza. Parece
alguém que compreendeu que a vida fica melhor quando existe espaço para o
outro.
Então ele entra no carro.
Nada muda por fora.
É o mesmo chapéu.
O mesmo rosto.
A mesma roupa.
Mas algo acontece por dentro.
A calma cede lugar à impaciência.
O sorriso desaparece.
A gentileza se perde entre a buzina,
a pressa e o desejo de chegar primeiro.
Enquanto assistia, uma pergunta
permaneceu comigo:
Será que o volante transforma as
pessoas ou apenas revela aquilo que elas ainda não aprenderam a cuidar dentro
de si?
Talvez o trânsito seja um dos lugares
mais sinceros da vida.
Ali não dirigimos apenas um
automóvel.
Dirigimos nossas emoções.
Levamos conosco o cansaço da semana,
as preocupações da família, as palavras que ouvimos e ainda doem, as
frustrações que insistimos em carregar.
O carro apenas nos acompanha.
Quem realmente conduz a viagem é
aquilo que habita o nosso coração.
Tenho aprendido, ao longo dos anos,
que quase nunca nos irritamos apenas com o motorista que fechou nossa passagem.
Na maioria das vezes, reagimos também
a muitas outras coisas que já estavam dentro de nós.
O trânsito apenas encontra essas
emoções pelo caminho.
Talvez seja por isso que sempre
acreditei que a Psicologia do Trânsito fala muito menos sobre veículos do que
sobre pessoas.
Antes de sermos motoristas, somos
seres humanos.
Pessoas que também se cansam.
Que também choram.
Que também erram.
Que também desejam chegar em casa e
encontrar um pouco de paz.
Quando esquecemos disso, deixamos de
enxergar pessoas e passamos a enxergar apenas obstáculos.
O carro da frente deixa de ser
alguém.
O pedestre vira um atraso.
O ciclista se transforma em um
incômodo.
E, sem perceber, perdemos uma das
coisas mais bonitas da convivência humana: a capacidade de reconhecer o outro
como alguém tão importante quanto nós.
Talvez seja isso que mais me encanta
na Abordagem Centrada na Pessoa.
Ela me recorda, todos os dias, que
cada ser humano carrega uma história que eu desconheço.
Quem dirige devagar pode estar
vivendo um dia difícil.
Quem demorou a arrancar no sinal
talvez tenha recebido uma notícia que mudou sua vida.
Quem errou pode estar apenas tentando
continuar.
Nós nunca sabemos.
E justamente porque não sabemos, a
gentileza continua sendo uma das formas mais profundas de respeito.
No fim, percebi que aquele velho
desenho nunca quis ensinar apenas educação no trânsito.
Ele quis nos lembrar de algo muito
maior.
Existe um homem que mora atrás do
volante.
Existe uma mulher atrás do volante.
Existe uma história.
Existe um coração.
Existe alguém lutando batalhas que os
nossos olhos não conseguem ver.
Talvez o grande desafio não seja
aprender a dirigir melhor.
Talvez seja aprender a continuar
humano, mesmo quando a vida acelera.
Porque chegar alguns minutos antes
raramente muda a nossa história.
Mas chegar com o coração em paz...
isso muda tudo.
No trânsito e na vida, a direção mais
segura continua sendo aquela guiada pela empatia.
Acimarley Freitas
Psicólogo Clínico e do Trânsito
CRP- 04/54732