Atrás do Trio Elétrico, Só Não Vai Quem Já Morreu
Há frases que atravessam gerações.
Elas sobrevivem ao tempo, às mudanças e até mesmo às rugas que, discretamente,
a vida desenha em nosso rosto.
Outro dia, sem que eu esperasse, a
Alexa resolveu tocar uma música qualquer. Bastaram os primeiros acordes, e lá
estava ela, na voz de Bel Marques, ecoando uma das frases mais conhecidas do
Carnaval da Bahia:
"Atrás do trio elétrico, só não
vai quem já morreu."
Por alguns instantes, o tempo parou.
Fechei os olhos e me vi novamente nos
anos 80. Um menino que cresceu ouvindo aquela canção. Depois, já adolescente,
caminhando pelas micaretas de Vitória da Conquista, na Bahia. O coração
acelerado, os amigos, a alegria espontânea, os sonhos ainda sem prazo para
acontecer. Havia inocência. Havia descobertas. Havia uma vida inteira pela
frente.
São lembranças que hoje fazem parte
da minha memória afetiva. Memórias que o tempo não apaga; apenas transforma em
saudade.
Então abri os olhos.
Hoje tenho cinquenta anos. Sou pai de
Pedro e Augusto. Psicólogo, professor, escritor, filósofo. A juventude ficou
para trás, mas a pergunta permaneceu viva dentro de mim.
O que essa frase significa agora?
Será que ela fala apenas do Carnaval?
Penso que não.
Hoje acredito que ela fala,
sobretudo, da vida.
Porque o trio elétrico pode ser
entendido como a própria existência, sempre em movimento. A vida não espera.
Ela passa diante de nós todos os dias, convidando-nos a caminhar, a amar, a
recomeçar, a cantar, a dançar, a criar novas histórias.
O trio representa a arte que nos
emociona.
A música que nos desperta.
A dança que devolve leveza ao corpo.
A cultura que preserva nossas raízes.
Os encontros que alimentam a alma.
A esperança que insiste em nascer
depois das maiores tempestades.
Mas também me pergunto...
Quantas pessoas estão respirando,
porém deixaram de caminhar atrás do seu próprio trio?
Quantas continuam vivas
biologicamente, mas perderam a alegria de existir?
A dor, o luto, a ansiedade, a
depressão, as frustrações e as perdas, muitas vezes, silenciosamente, fazem com
que alguém abandone o desfile da própria vida.
É uma espécie de morte que não
aparece nos atestados de óbito.
É a morte da esperança.
A morte dos sonhos.
A morte da capacidade de sentir
encanto.
Como psicólogo, aprendi que viver não
é apenas manter o coração batendo. É preservar a capacidade de sentir. De se
emocionar. De acreditar que ainda vale a pena.
Talvez seja esse o verdadeiro convite
escondido naquela antiga canção.
Enquanto houver vida, ainda existe um
trio passando diante de nós.
Talvez ele não tenha caixas de som
gigantes.
Talvez não venha cercado por
multidões.
Às vezes, ele chega na forma de um
abraço inesperado, do sorriso de um filho, de uma conversa sincera, de um novo
amanhecer, de um livro, de uma oração, de uma música tocada por acaso dentro de
casa.
E, de repente, percebemos que ainda
estamos vivos.
O tempo passou. Passará para todos
nós.
Mas há algo que o tempo jamais
conseguirá envelhecer: a capacidade humana de reencontrar sentido para viver.
Hoje, aquela velha frase do Carnaval
já não me convida apenas para seguir um trio elétrico pelas ruas da Bahia.
Ela me convida a algo muito maior.
Convida-me a continuar seguindo a
vida.
Porque, no fim das contas, morrer não
é apenas deixar de existir.
Às vezes, a verdadeira morte acontece
quando desistimos de caminhar.
E enquanto houver um motivo para
amar, aprender, servir, sonhar e recomeçar, o trio continuará passando.
A pergunta que permanece não é se ele
vai passar.
A pergunta é:
Você ainda está caminhando atrás do
seu?
Acimarley Freitas
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