Psicologa Organizacional

2 de setembro de 2026

 



METAFÍSICA: RELIGIOSIDADE, ESPIRITUALISMO E ESPIRITUALIDADE

 

Uma leitura interdisciplinar entre Psicologia, Filosofia, Sociologia, Teologia e Linguagem

Acimarley Freitas

Resumo

A experiência humana diante do mistério da existência acompanha a humanidade desde os seus primeiros registros históricos. Perguntas como “De onde viemos?”, “Por que existimos?”, “Existe algo além da realidade material?” e “Qual é o sentido da vida?” constituem diferentes formas de expressão da busca humana por significado. Este artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre três conceitos frequentemente confundidos: religiosidade, espiritualismo e espiritualidade, relacionando-os ao campo da metafísica e dialogando com contribuições da Psicologia, Filosofia, Sociologia, Teologia e Letras. A discussão parte do pressuposto de que a experiência espiritual e religiosa pode ser estudada cientificamente enquanto fenômeno psicológico, social, cultural, histórico, linguístico e existencial, sem que a ciência precise confirmar ou negar as afirmações metafísicas que pertencem ao campo da crença e da especulação filosófica. São mobilizados autores como Platão, Aristóteles, Kant, Jung, Viktor Frankl, Durkheim, Weber, Bourdieu, Tillich, Leonardo Boff, Viktor Turner, Mircea Eliade e Bakhtin, entre outros. Defende-se que religiosidade, espiritualismo e espiritualidade não são conceitos equivalentes e que sua compreensão exige superar tanto o reducionismo materialista quanto a aceitação acrítica de afirmações metafísicas.

Palavras-chave: Metafísica. Religiosidade. Espiritualismo. Espiritualidade. Psicologia. Filosofia. Sociologia. Teologia. Linguagem.

 

1. INTRODUÇÃO

Existe uma pergunta que atravessa diferentes culturas, épocas e sociedades:

O que existe além daquilo que conseguimos perceber?

Antes mesmo de possuir instrumentos científicos capazes de investigar o mundo, o ser humano já contemplava o céu, enterrava seus mortos, criava rituais, contava histórias sobre deuses, espíritos e forças invisíveis e procurava atribuir significado à própria existência.

A pergunta metafísica nasce, em grande medida, dessa inquietação.

O ser humano não se limita a perguntar como as coisas acontecem. Ele também pergunta por quê acontecem, o que significam e **se existe algo para além daquilo que os sentidos conseguem alcançar.

É nesse território que aparecem conceitos como religião, religiosidade, espiritualismo e espiritualidade.

Entretanto, utilizar essas palavras como sinônimas produz confusão.

Uma pessoa pode participar intensamente de uma religião e possuir pouca reflexão sobre sua própria espiritualidade. Outra pode afirmar-se espiritualizada sem pertencer a qualquer religião institucional. Outra pode adotar uma concepção espiritualista específica, acreditando na existência e na continuidade do espírito. E alguém pode estudar todos esses fenômenos academicamente sem aderir pessoalmente a nenhuma dessas crenças.

Essa distinção é fundamental.

O objetivo deste artigo não é provar a existência de Deus, dos espíritos ou de qualquer realidade sobrenatural.

Também não é negar essas possibilidades.

O objetivo é mais modesto e, talvez por isso, mais científico:

compreender como o ser humano pensa, sente, organiza, comunica e vivencia aquilo que considera transcendente.

Para isso, é necessário colocar diferentes áreas do conhecimento em diálogo.

A Filosofia pergunta sobre o ser e a realidade.

A Psicologia investiga a experiência subjetiva.

A Sociologia observa a religião como fenômeno social.

A Teologia interpreta racionalmente a experiência religiosa a partir de tradições de fé.

E as Letras nos mostram como o ser humano transforma suas experiências em palavras, símbolos, narrativas, poemas, mitos e discursos.

É nesse encontro que este artigo se situa.

 

2. METAFÍSICA: A PERGUNTA SOBRE O QUE ESTÁ ALÉM DO VISÍVEL

A palavra metafísica possui uma longa história na tradição filosófica.

Em sentido amplo, ela se ocupa de questões fundamentais relacionadas ao ser, à realidade, à existência, às causas primeiras e àquilo que não pode ser reduzido imediatamente à experiência sensível.

Aristóteles dedicou-se a questões relacionadas ao ser enquanto ser e às causas fundamentais da realidade.

A pergunta metafísica, portanto, não precisa começar com uma crença.

Pode começar com uma dúvida.

Existe somente aquilo que podemos observar?

A realidade é exclusivamente material?

O ser humano possui alguma dimensão que não pode ser explicada apenas pela matéria?

Existe uma causa primeira?

Existe liberdade?

Existe uma realidade transcendente?

Essas perguntas permanecem relevantes porque não são simplesmente perguntas sobre objetos particulares.

São perguntas sobre os fundamentos da própria realidade.

Entretanto, é necessário estabelecer uma fronteira importante.

A metafísica é uma área da Filosofia.

A ciência empírica trabalha com observação, hipóteses, evidências e métodos que permitam investigação e, quando possível, replicação.

Portanto, uma afirmação metafísica não se transforma automaticamente em uma afirmação científica.

Dizer “acredito que exista uma realidade espiritual” é diferente de dizer “a ciência comprovou que existe uma realidade espiritual”.

São afirmações epistemologicamente diferentes.

Essa distinção permite respeitar tanto a ciência quanto a experiência religiosa.

 

3. RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE NÃO SÃO A MESMA COISA

A religião pode ser compreendida como um sistema social e cultural organizado em torno de crenças, símbolos, narrativas, valores, práticas e rituais relacionados ao sagrado.

A religiosidade, por sua vez, diz respeito à maneira como uma pessoa vivencia, interpreta e expressa sua relação com a religião, com o sagrado ou com aquilo que considera transcendente.

É possível, portanto, existir uma religião altamente institucionalizada e diferentes formas individuais de religiosidade dentro dela.

Émile Durkheim foi fundamental para compreender a religião como fenômeno social.

Em sua perspectiva, a religião não pode ser compreendida apenas como uma questão privada de crença. Ela também produz vínculos, símbolos, normas, pertencimento e formas de organização coletiva.

A religião pode criar comunidades.

Pode produzir identidades.

Pode estabelecer valores.

Pode organizar calendários.

Pode determinar ritos de passagem.

Pode oferecer narrativas para explicar sofrimento, morte, esperança e pertencimento.

Max Weber acrescentou outra dimensão importante ao analisar a relação entre religião, ação social e organização da vida.

A religião, portanto, não está somente no templo.

Ela também pode estar na família, na política, na educação, na cultura, na moral, na linguagem e nas escolhas cotidianas.

 

4. O SAGRADO E A EXPERIÊNCIA HUMANA

Mircea Eliade dedicou parte significativa de sua obra ao estudo do sagrado e do profano.

Independentemente de concordarmos ou não com todas as suas interpretações, sua contribuição ajuda a perceber que o ser humano não experimenta todos os espaços, tempos e acontecimentos da mesma maneira.

Um lugar pode ser apenas um espaço físico para uma pessoa e, para outra, um lugar sagrado.

Uma data pode ser apenas uma data no calendário e, para outra pessoa, representar nascimento, morte, libertação, salvação ou renovação.

Um objeto pode ser materialmente simples e, simultaneamente, possuir enorme significado simbólico.

Isso nos conduz a uma questão essencial:

o significado não está apenas nas coisas; ele também está na maneira como o ser humano as interpreta.

E aqui encontramos uma ponte entre religião, Psicologia, Sociologia e Letras.

 

5. PSICOLOGIA: A ESPIRITUALIDADE COMO EXPERIÊNCIA HUMANA

A Psicologia não precisa decidir se Deus existe para estudar a experiência religiosa.

Ela pode investigar algo diferente:

o que acontece psicologicamente quando uma pessoa acredita em Deus?

O que significa rezar?

Por que algumas pessoas encontram conforto na fé?

Por que outras experimentam culpa religiosa?

Como a crença influencia decisões?

Como uma experiência espiritual modifica a narrativa que alguém constrói sobre a própria vida?

Carl Gustav Jung atribuiu grande importância aos símbolos, mitos e imagens religiosas na compreensão da psique humana.

Para Jung, os símbolos religiosos podem expressar conteúdos profundos da experiência psíquica.

Isso não significa que a Psicologia deva reduzir Deus a uma projeção psicológica.

Significa que a experiência humana de Deus pode ser estudada psicologicamente.

Essa diferença é fundamental.

A ciência pode investigar a experiência de acreditar.

Isso não significa que ela tenha, por esse caminho, solucionado a questão metafísica da existência de Deus.

 

6. VIKTOR FRANKL E A BUSCA DE SENTIDO

Viktor Frankl oferece outra contribuição extremamente importante.

Para ele, a busca de sentido ocupa lugar central na existência humana.

O ser humano não procura apenas prazer ou satisfação.

Ele também procura uma razão para continuar vivendo.

Essa perspectiva permite compreender por que a espiritualidade pode adquirir importância em situações de sofrimento.

Quando uma pessoa enfrenta perdas, doenças, fracassos, crises ou a proximidade da morte, pode surgir uma pergunta que ultrapassa o problema imediato:

“Para que continuar?”

A espiritualidade pode, em determinados contextos, oferecer uma estrutura de significado.

Mas é importante não romantizar.

A religião também pode ser vivida de maneira angustiante, culpabilizante ou coercitiva.

Por isso, estudar espiritualmente o sofrimento exige considerar tanto suas possibilidades de proteção e sentido quanto suas possíveis formas de conflito psicológico e social.

 

7. ESPIRITUALISMO: UMA CONCEPÇÃO SOBRE A REALIDADE

Aqui encontramos uma distinção importante.

Espiritualidade é um conceito amplo.

Espiritualismo pode designar concepções filosóficas ou religiosas que atribuem primazia ou importância fundamental ao espírito em relação à matéria.

No contexto brasileiro, entretanto, o termo também é frequentemente utilizado para fazer referência a tradições espiritualistas específicas, particularmente aquelas relacionadas ao Espiritismo.

Nesse caso, é necessário evitar generalizações.

Nem toda pessoa espiritualizada é espírita.

Nem toda pessoa religiosa é espiritualista.

Nem todo espiritualista pertence a uma religião institucional.

São categorias que podem se aproximar, mas não são equivalentes.

O estudo acadêmico precisa preservar essas diferenças.

 

8. ESPIRITUALIDADE: UMA EXPERIÊNCIA MAIS AMPLA

A espiritualidade talvez seja o conceito mais amplo dos três.

Uma pessoa pode compreender espiritualidade como:

  • relação com Deus;
  • experiência do sagrado;
  • busca de sentido;
  • conexão com a natureza;
  • experiência de transcendência;
  • compaixão;
  • contemplação;
  • silêncio;
  • experiência estética;
  • compromisso ético;
  • busca interior.

Nesse sentido, espiritualidade não precisa necessariamente significar religiosidade institucional.

Pode existir espiritualidade religiosa.

Pode existir espiritualidade não religiosa.

Pode existir espiritualidade filosófica.

Pode existir uma espiritualidade vivenciada através da arte, da natureza, da música, da literatura ou do cuidado com o outro.

O conceito é suficientemente amplo para permitir diferentes interpretações.

 

9. SOCIOLOGIA: QUANDO A FÉ SE TORNA FENÔMENO SOCIAL

A experiência espiritual pode ser individual, mas a religião raramente é exclusivamente individual.

As pessoas acreditam dentro de sociedades.

Aprendem símbolos.

Recebem tradições.

Participam de rituais.

Frequentam comunidades.

Aprendem determinadas formas de interpretar o mundo.

Pierre Bourdieu permite aprofundar essa discussão ao pensar os campos sociais, os capitais e as relações de poder.

As instituições religiosas também possuem estruturas, autoridades, discursos e disputas internas.

Isso significa que religião não é apenas fé.

Também é instituição.

É cultura.

É identidade.

É comunidade.

É poder.

É linguagem.

É memória.

É tradição.

É necessário, portanto, estudar a religião sem ingenuidade, mas também sem preconceito.

A análise sociológica não precisa atacar a fé.

Precisa compreender suas estruturas e seus efeitos sociais.

 

10. TEOLOGIA: PENSAR A EXPERIÊNCIA DA FÉ

A Teologia ocupa uma posição particular nesse diálogo.

Enquanto outras áreas podem estudar a religião como fenômeno externo, a Teologia tradicionalmente procura compreender racionalmente a experiência de fé a partir de determinada tradição religiosa.

Paul Tillich, por exemplo, trabalhou intensamente com questões relacionadas à fé, ao sentido e à existência humana.

Leonardo Boff, dentro da teologia cristã latino-americana, desenvolveu reflexões relacionadas à libertação, à dignidade humana, à espiritualidade e à relação entre fé e realidade social.

A Teologia, nesse sentido, não precisa ser compreendida como simples repetição de dogmas.

Existe também uma tradição intelectual e crítica dentro do pensamento teológico.

Ela pergunta:

O que significa crer?

Como interpretar a experiência religiosa?

Qual a relação entre fé e razão?

Como a religião responde ao sofrimento?

Que consequências éticas possui determinada concepção de Deus?

Essas perguntas aproximam a Teologia da Filosofia, da Psicologia e das Ciências Humanas.

 

11. LETRAS: DEUS, ESPÍRITO E TRANSCENDÊNCIA TAMBÉM SÃO LINGUAGEM

Existe outro aspecto frequentemente esquecido:

a experiência religiosa precisa ser narrada.

O ser humano fala sobre Deus.

Escreve sobre Deus.

Canta sobre Deus.

Pinta Deus.

Conta histórias sobre Deus.

Cria poemas sobre a morte.

Escreve livros sobre o sentido da vida.

Produz mitos, parábolas, orações e narrativas.

A experiência espiritual é profundamente atravessada pela linguagem.

É por meio dela que transmitimos tradições de geração em geração.

Mikhail Bakhtin, ao estudar linguagem e dialogismo, ajuda-nos a compreender que toda palavra está inserida em relações sociais, históricas e culturais.

A palavra religiosa também possui uma história.

Quando alguém diz “fé”, “salvação”, “pecado”, “espírito”, “Deus”, “alma”, “eternidade” ou “transcendência”, não está utilizando palavras vazias.

Cada uma delas carrega histórias, tradições, interpretações e disputas de significado.

Estudar a espiritualidade também é estudar as palavras através das quais os seres humanos tentam falar sobre o indizível.

 

12. ENTRE O QUE PODE SER COMPROVADO E O QUE PODE SER CRIDO

Talvez um dos maiores desafios no estudo da espiritualidade seja não confundir fé com evidência científica.

A ciência pergunta:

“Como podemos investigar isso?”

A Filosofia pergunta:

“O que essa afirmação significa e quais são seus fundamentos?”

A Teologia pergunta:

“Como essa experiência pode ser compreendida dentro de uma tradição de fé?”

A Psicologia pergunta:

“Como essa crença ou experiência repercute na subjetividade?”

A Sociologia pergunta:

“Como essa crença funciona dentro da sociedade?”

As Letras perguntam:

“Como essa experiência é construída e transmitida pela linguagem?”

Nenhuma dessas perguntas precisa destruir a outra.

O problema começa quando uma área tenta responder sozinha a todas elas.

 

13. RELIGIOSIDADE, ESPIRITUALISMO E ESPIRITUALIDADE: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA

Podemos estabelecer uma distinção didática:

RELIGIOSIDADE

É a maneira como o indivíduo ou grupo vivencia uma tradição religiosa, seus valores, símbolos, crenças e práticas.

ESPIRITUALISMO

Refere-se, em sentido amplo, a concepções que atribuem importância fundamental à dimensão espiritual ou à existência do espírito; no Brasil, o termo também pode estar associado ao Espiritismo e a outras tradições espiritualistas.

ESPIRITUALIDADE

É uma categoria mais abrangente relacionada à busca de sentido, transcendência, conexão, interioridade ou relação com aquilo que a pessoa considera sagrado ou último.

Esses três conceitos podem se cruzar.

Mas não são iguais.

Uma pessoa pode ter religiosidade sem se identificar como espiritualista.

Pode ser espiritualista e participar de uma religião.

Pode cultivar espiritualidade sem pertencer a nenhuma religião.

E pode estudar todos esses fenômenos academicamente sem aderir a nenhum deles.

 

14. A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL COMO FENÔMENO HUMANO

Independentemente da posição metafísica adotada, existe algo que pode ser estudado objetivamente:

o fato de que seres humanos têm experiências espirituais e religiosas.

Milhões de pessoas rezam.

Participam de cultos.

Meditam.

Jejuam.

Fazem peregrinações.

Consultam textos sagrados.

Participam de rituais.

Experimentam estados de êxtase.

Relatam experiências de transcendência.

Encontram sentido na fé.

Ou rejeitam completamente essas experiências.

Tudo isso constitui fenômeno humano.

A ciência pode investigar suas consequências psicológicas, sociais e culturais.

A Filosofia pode analisar seus argumentos.

A Sociologia pode estudar suas instituições.

A Teologia pode interpretá-las dentro da fé.

As Letras podem investigar suas narrativas e símbolos.

E a Psicologia pode escutar aquilo que essa experiência significa para cada indivíduo.

 

15. ESPIRITUALIDADE E SAÚDE PSICOLÓGICA: CUIDADO COM OS EXTREMOS

É necessário evitar dois extremos.

O primeiro é afirmar:

“Toda espiritualidade faz bem.”

Isso não é cientificamente sustentável.

Experiências religiosas podem produzir conforto, pertencimento, esperança e significado, mas também podem envolver culpa excessiva, medo, intolerância, dependência institucional ou conflitos psicológicos.

O segundo extremo é afirmar:

“Toda espiritualidade é apenas ilusão.”

Essa também não é uma conclusão científica válida.

A Psicologia pode estudar os efeitos de uma crença sem precisar resolver sua verdade metafísica.

Essa distinção é especialmente importante no contexto clínico.

O profissional precisa respeitar a experiência religiosa ou espiritual do indivíduo, sem impor sua própria crença e sem transformar convicções religiosas em diagnóstico psicológico.

 

16. A ESPIRITUALIDADE DIANTE DO SOFRIMENTO

O sofrimento talvez seja um dos lugares onde a dimensão espiritual aparece com maior intensidade.

Diante da morte, perguntamos sobre a vida.

Diante da perda, perguntamos sobre permanência.

Diante da injustiça, perguntamos sobre justiça.

Diante da dor, perguntamos sobre sentido.

Diante do silêncio, perguntamos se existe alguém ouvindo.

Essas perguntas não são novas.

Elas atravessaram filósofos, teólogos, poetas, escritores e pessoas comuns.

A espiritualidade pode funcionar como uma linguagem para enfrentar aquilo que não conseguimos controlar.

Mas é preciso cuidado.

Nem todo sofrimento possui uma explicação.

Nem toda dor precisa ser interpretada como “propósito”.

Às vezes, dizer a alguém que seu sofrimento “tem uma razão” pode aumentar sua dor.

O acolhimento pode ser mais humano do que uma explicação.

 

17. A PALAVRA COMO PONTE ENTRE O VISÍVEL E O INVISÍVEL

Talvez seja justamente aqui que Filosofia, Teologia e Letras se encontram.

O ser humano tenta dizer o indizível.

Utiliza metáforas.

Símbolos.

Mitos.

Poemas.

Parábolas.

Orações.

Narrativas.

A linguagem tenta construir uma ponte entre aquilo que conseguimos explicar e aquilo que apenas conseguimos experimentar.

Quando alguém diz:

“Senti a presença de Deus.”

a ciência pode perguntar sobre as condições psicológicas daquela experiência.

A Sociologia pode perguntar sobre a cultura que oferece significado para essa experiência.

A Teologia pode interpretá-la à luz de determinada tradição.

A Filosofia pode questionar o estatuto da experiência.

As Letras podem investigar a linguagem utilizada para narrá-la.

E a pessoa que viveu a experiência pode simplesmente dizer:

“Eu sei o que vivi.”

Cada uma dessas perspectivas possui seu lugar.

 

18. O PSIFISOTELE E O ESTUDO DO TRANSCENDENTE

É justamente nesse ponto que a proposta interdisciplinar do PSIFISOTELE encontra sua razão de ser.

Psicologia para compreender a experiência subjetiva.

Filosofia para investigar conceitos, argumentos e fundamentos.

Sociologia para compreender religião, cultura, instituições e relações sociais.

Teologia para interpretar a experiência de fé e transcendência.

Letras para compreender as narrativas, símbolos e linguagens pelas quais o ser humano expressa aquilo que acredita.

O objetivo não é transformar uma área na outra.

É permitir que elas conversem.

Porque o ser humano que acredita é psicológico.

É social.

É histórico.

É linguístico.

É filosófico.

E, para milhões de pessoas, também é espiritual e religioso.

 

19. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pergunta sobre o transcendente não pertence exclusivamente à religião.

Ela também pertence à história da Filosofia, da Psicologia, da Sociologia, da Teologia e da Literatura.

O ser humano sempre procurou ultrapassar os limites do imediatamente visível.

Alguns encontram Deus.

Outros encontram os deuses.

Alguns encontram espíritos.

Outros encontram a natureza.

Alguns encontram sentido na religião.

Outros encontram sentido na Filosofia.

Outros na arte, na ciência, no amor, na ética ou na própria existência.

Talvez a questão mais importante não seja determinar rapidamente quem possui a resposta correta.

Talvez seja compreender por que o ser humano necessita perguntar.

A metafísica começa com uma pergunta.

A religião responde com a fé.

A Filosofia responde com a reflexão.

A ciência responde com investigação dentro de seus limites metodológicos.

A Teologia responde a partir da tradição e da experiência de fé.

A literatura responde por meio da narrativa, da metáfora e do símbolo.

E a Psicologia pergunta o que tudo isso significa para aquele que vive a experiência.

No final, talvez permaneça uma constatação simples:

o ser humano não vive apenas de fatos.

Vive também de significados.

Não procura apenas explicações.

Procura sentidos.

Não contempla apenas o mundo.

Pergunta pelo lugar que ocupa nele.

E talvez seja justamente essa capacidade de perguntar pelo que existe além de si mesmo que faça do ser humano um ser permanentemente inacabado.

A espiritualidade pode ser entendida, então, não necessariamente como uma resposta, mas como uma das formas pelas quais o ser humano continua perguntando.

Perguntando sobre a vida.

Sobre a morte.

Sobre o amor.

Sobre o sofrimento.

Sobre o mistério.

Sobre Deus.

Sobre si mesmo.

E sobre aquilo que talvez jamais consiga explicar completamente.

Porque existem perguntas que a ciência investiga, perguntas que a Filosofia problematiza, perguntas que a Teologia interpreta e perguntas que a poesia apenas consegue sussurrar.

E talvez seja justamente nessa fronteira entre o conhecimento e o mistério que o ser humano continue procurando aquilo que chama de transcendência.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução e edições em português. São Paulo: Edipro.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BOFF, Leonardo. Tempo de transcendência: o ser humano como um projeto infinito. Petrópolis: Vozes, 2000.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2015.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2019.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 2012.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

ALVES, Rubem. O que é religião? São Paulo: Brasiliense, 1981.

BERGER, Peter L. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.

FRANKL, Viktor E. A presença ignorada de Deus. Petrópolis: Vozes, 2007.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

JAMES, William. As variedades da experiência religiosa. São Paulo: Cultrix, 1995.

PLATÃO. O Banquete. São Paulo: Martin Claret.

TILLICH, Paul. Dinâmica da fé. São Leopoldo: Sinodal, 1985.

 


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