Quando o silêncio de um adolescente começa a pedir socorro
Havia alguma coisa diferente nele.
Não era apenas tristeza.
Era um silêncio que chegava antes dele.
A mãe percebeu primeiro. O quarto permanecia
fechado por mais tempo. O celular já não parecia suficiente para distraí-lo. Os
amigos começaram a desaparecer da rotina. As notas, antes razoáveis, começaram
a cair. E aquilo que ele gostava de fazer já não despertava o mesmo brilho.
— É adolescência — alguém disse.
Talvez fosse.
Mas talvez não fosse apenas isso.
A adolescência é uma travessia. O corpo muda, a
identidade começa a ser reconstruída, as relações ganham novos significados e
perguntas que antes não existiam começam a ocupar espaço dentro da cabeça:
Quem sou eu?
Onde pertenço?
Será que sou bom o bastante?
Alguém realmente me entende?
É justamente nesse território de tantas
transformações que a depressão pode aparecer.
E existe um problema: nem sempre a depressão
adolescente se apresenta com lágrimas.
Às vezes, ela chega vestida de irritação.
Às vezes, de isolamento.
Às vezes, de preguiça.
Às vezes, de excesso de sono.
Às vezes, de noites inteiras acordado.
Às vezes, de uma queda inexplicável no rendimento
escolar.
E, às vezes, chega escondida atrás de uma frase
aparentemente simples:
— Tanto faz.
Mas talvez não seja “tanto faz”.
Talvez seja:
“Eu não sei mais como explicar o que está
acontecendo comigo.”
A depressão não é falta de força de vontade.
Também não é frescura.
E não significa que o adolescente seja fraco.
Ela pode afetar pensamentos, emoções, corpo,
comportamento, relações familiares, amizades, estudos e até a maneira como ele
imagina o próprio futuro.
Um adolescente deprimido pode olhar para a própria
vida e enxergar apenas portas fechadas.
Pode perder o prazer por aquilo que antes fazia
sentido.
Pode sentir-se inútil.
Pode acreditar que é um problema para a família.
Pode pensar que ninguém compreenderia.
E talvez seja justamente por isso que precisamos
aprender a fazer perguntas diferentes.
Em vez de:
— Por que você está assim?
Talvez seja melhor:
— O que está acontecendo com você?
Em vez de:
— Você tem tudo e ainda reclama?
Talvez:
— Eu percebi que você mudou. Quer conversar comigo?
Porque existe uma diferença enorme entre julgar
um comportamento e compreender um sofrimento.
A Psicologia nos ensina que aquilo que aparece do
lado de fora nem sempre revela aquilo que está acontecendo por dentro.
Um adolescente irritado pode estar triste.
Um adolescente isolado pode estar pedindo
aproximação.
Um adolescente que perdeu o interesse pode estar
emocionalmente esgotado.
E aquele que responde “não sei” talvez realmente
não saiba explicar.
Por isso, escutar é tão importante.
Escutar sem transformar imediatamente cada frase em
sermão.
Escutar sem comparar.
Escutar sem dizer:
— Na minha época era muito pior.
A dor não deixa de ser dor porque outra pessoa
sofreu mais.
Cada pessoa vive sua própria experiência.
Mas compreender não significa diagnosticar.
Nem toda tristeza é depressão.
Nem toda irritabilidade é transtorno.
Nem toda queda escolar significa doença.
É preciso olhar para a duração, intensidade,
frequência, contexto e prejuízo que os sintomas estão causando.
É preciso investigar.
É preciso diferenciar.
Às vezes, aquilo que parece depressão pode estar
relacionado à ansiedade, ao bullying, a dificuldades de aprendizagem, ao TDAH,
ao autismo, ao luto, a conflitos familiares, ao trauma, ao uso de substâncias
ou até a uma condição médica.
E existe uma investigação especialmente importante:
o transtorno bipolar.
Antes de concluir que alguém apresenta um quadro
depressivo, o profissional precisa compreender toda a história daquela pessoa.
Porque diagnóstico não é simplesmente marcar
sintomas em uma lista.
Diagnóstico é compreender uma história.
E tratamento também não é uma receita pronta.
Para alguns adolescentes, a psicoterapia será
fundamental.
Para outros, poderá ser necessária uma avaliação
psiquiátrica.
Em determinados casos, o psiquiatra poderá indicar
medicação.
Em outros, a psicoterapia e as intervenções
psicossociais poderão ocupar papel central.
E há algo que também pode fazer diferença:
movimento.
Caminhar.
Correr.
Praticar esporte.
Dançar.
Tocar um instrumento.
Sair de casa.
Encontrar um amigo.
Voltar, aos poucos, a fazer alguma coisa que um dia
trouxe prazer.
Não porque exercício ou música sejam uma “cura
mágica”.
Mas porque o ser humano precisa de corpo, vínculo,
rotina, experiência e significado.
Às vezes, a recuperação começa com uma pequena
mudança.
Uma caminhada.
Uma conversa.
Uma consulta.
Uma sessão de terapia.
Uma noite melhor de sono.
Um adulto que finalmente percebeu.
Uma mãe que parou de cobrar e começou a escutar.
Um pai que deixou de perguntar “o que você tem?” e
passou a dizer:
— Eu estou aqui.
Talvez seja essa uma das coisas mais importantes
que uma família pode oferecer.
Presença.
Não a presença que vigia.
A presença que acompanha.
Não a presença que controla.
A presença que protege.
Não a presença que exige explicações imediatas.
A presença que diz:
“Você não precisa enfrentar isso sozinho.”
E existe uma parte dessa conversa que não pode ser
escondida.
Quando um adolescente fala sobre morte,
desaparecimento, vontade de morrer ou desejo de machucar a si mesmo, não é hora
de discutir se aquilo é exagero.
É hora de levar a sério.
É hora de aproximar.
É hora de procurar ajuda profissional e garantir
segurança.
Porque algumas frases são pedidos de socorro que
chegam disfarçados.
E talvez uma das maiores responsabilidades de quem
cuida de um adolescente seja aprender a ouvir aquilo que ele ainda não
conseguiu dizer claramente.
A depressão pode escurecer o presente e fazer o
futuro parecer inexistente.
Mas o futuro não desapareceu.
Ele apenas pode estar difícil de enxergar.
Por isso, talvez seja preciso emprestar esperança a
quem, naquele momento, não consegue encontrá-la sozinho.
Não prometendo que tudo será fácil.
Não dizendo que “amanhã passa”.
Mas caminhando junto.
Porque tratamento é caminho.
Psicoterapia é caminho.
Cuidado é caminho.
Família é caminho.
E pedir ajuda também é caminho.
Talvez aquele adolescente sentado sozinho no quarto
não esteja querendo desaparecer.
Talvez ele esteja querendo que desapareça a dor.
E existe uma diferença enorme entre essas duas
coisas.
Por isso, antes de chamarmos um adolescente de
rebelde, preguiçoso, ingrato ou difícil, talvez devêssemos fazer uma pausa.
Olhar nos olhos.
Sentar ao lado.
E perguntar, com verdadeira disposição para ouvir:
— Como você está por dentro?
Talvez ele fique em silêncio.
Tudo bem.
Não precisamos preencher imediatamente o silêncio.
Às vezes, a primeira forma de cuidado é
simplesmente permanecer.
Porque há silêncios que não significam ausência.
Há silêncios que estão procurando coragem.
E, quando finalmente encontram alguém disposto a
escutar, podem se transformar em palavras.
E algumas palavras, quando encontram acolhimento,
podem ser o começo de uma nova história.
Acimarley
Freitas
Psicólogo Clínico e Professor

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