Psicologa Organizacional

27 de agosto de 2026

 


Quando o silêncio de um adolescente começa a pedir socorro

 

Havia alguma coisa diferente nele.

Não era apenas tristeza.

Era um silêncio que chegava antes dele.

A mãe percebeu primeiro. O quarto permanecia fechado por mais tempo. O celular já não parecia suficiente para distraí-lo. Os amigos começaram a desaparecer da rotina. As notas, antes razoáveis, começaram a cair. E aquilo que ele gostava de fazer já não despertava o mesmo brilho.

— É adolescência — alguém disse.

Talvez fosse.

Mas talvez não fosse apenas isso.

A adolescência é uma travessia. O corpo muda, a identidade começa a ser reconstruída, as relações ganham novos significados e perguntas que antes não existiam começam a ocupar espaço dentro da cabeça:

Quem sou eu?

Onde pertenço?

Será que sou bom o bastante?

Alguém realmente me entende?

É justamente nesse território de tantas transformações que a depressão pode aparecer.

E existe um problema: nem sempre a depressão adolescente se apresenta com lágrimas.

Às vezes, ela chega vestida de irritação.

Às vezes, de isolamento.

Às vezes, de preguiça.

Às vezes, de excesso de sono.

Às vezes, de noites inteiras acordado.

Às vezes, de uma queda inexplicável no rendimento escolar.

E, às vezes, chega escondida atrás de uma frase aparentemente simples:

— Tanto faz.

Mas talvez não seja “tanto faz”.

Talvez seja:

“Eu não sei mais como explicar o que está acontecendo comigo.”

A depressão não é falta de força de vontade.

Também não é frescura.

E não significa que o adolescente seja fraco.

Ela pode afetar pensamentos, emoções, corpo, comportamento, relações familiares, amizades, estudos e até a maneira como ele imagina o próprio futuro.

Um adolescente deprimido pode olhar para a própria vida e enxergar apenas portas fechadas.

Pode perder o prazer por aquilo que antes fazia sentido.

Pode sentir-se inútil.

Pode acreditar que é um problema para a família.

Pode pensar que ninguém compreenderia.

E talvez seja justamente por isso que precisamos aprender a fazer perguntas diferentes.

Em vez de:

— Por que você está assim?

Talvez seja melhor:

— O que está acontecendo com você?

Em vez de:

— Você tem tudo e ainda reclama?

Talvez:

— Eu percebi que você mudou. Quer conversar comigo?

Porque existe uma diferença enorme entre julgar um comportamento e compreender um sofrimento.

A Psicologia nos ensina que aquilo que aparece do lado de fora nem sempre revela aquilo que está acontecendo por dentro.

Um adolescente irritado pode estar triste.

Um adolescente isolado pode estar pedindo aproximação.

Um adolescente que perdeu o interesse pode estar emocionalmente esgotado.

E aquele que responde “não sei” talvez realmente não saiba explicar.

Por isso, escutar é tão importante.

Escutar sem transformar imediatamente cada frase em sermão.

Escutar sem comparar.

Escutar sem dizer:

— Na minha época era muito pior.

A dor não deixa de ser dor porque outra pessoa sofreu mais.

Cada pessoa vive sua própria experiência.

Mas compreender não significa diagnosticar.

Nem toda tristeza é depressão.

Nem toda irritabilidade é transtorno.

Nem toda queda escolar significa doença.

É preciso olhar para a duração, intensidade, frequência, contexto e prejuízo que os sintomas estão causando.

É preciso investigar.

É preciso diferenciar.

Às vezes, aquilo que parece depressão pode estar relacionado à ansiedade, ao bullying, a dificuldades de aprendizagem, ao TDAH, ao autismo, ao luto, a conflitos familiares, ao trauma, ao uso de substâncias ou até a uma condição médica.

E existe uma investigação especialmente importante:

o transtorno bipolar.

Antes de concluir que alguém apresenta um quadro depressivo, o profissional precisa compreender toda a história daquela pessoa.

Porque diagnóstico não é simplesmente marcar sintomas em uma lista.

Diagnóstico é compreender uma história.

E tratamento também não é uma receita pronta.

Para alguns adolescentes, a psicoterapia será fundamental.

Para outros, poderá ser necessária uma avaliação psiquiátrica.

Em determinados casos, o psiquiatra poderá indicar medicação.

Em outros, a psicoterapia e as intervenções psicossociais poderão ocupar papel central.

E há algo que também pode fazer diferença: movimento.

Caminhar.

Correr.

Praticar esporte.

Dançar.

Tocar um instrumento.

Sair de casa.

Encontrar um amigo.

Voltar, aos poucos, a fazer alguma coisa que um dia trouxe prazer.

Não porque exercício ou música sejam uma “cura mágica”.

Mas porque o ser humano precisa de corpo, vínculo, rotina, experiência e significado.

Às vezes, a recuperação começa com uma pequena mudança.

Uma caminhada.

Uma conversa.

Uma consulta.

Uma sessão de terapia.

Uma noite melhor de sono.

Um adulto que finalmente percebeu.

Uma mãe que parou de cobrar e começou a escutar.

Um pai que deixou de perguntar “o que você tem?” e passou a dizer:

— Eu estou aqui.

Talvez seja essa uma das coisas mais importantes que uma família pode oferecer.

Presença.

Não a presença que vigia.

A presença que acompanha.

Não a presença que controla.

A presença que protege.

Não a presença que exige explicações imediatas.

A presença que diz:

“Você não precisa enfrentar isso sozinho.”

E existe uma parte dessa conversa que não pode ser escondida.

Quando um adolescente fala sobre morte, desaparecimento, vontade de morrer ou desejo de machucar a si mesmo, não é hora de discutir se aquilo é exagero.

É hora de levar a sério.

É hora de aproximar.

É hora de procurar ajuda profissional e garantir segurança.

Porque algumas frases são pedidos de socorro que chegam disfarçados.

E talvez uma das maiores responsabilidades de quem cuida de um adolescente seja aprender a ouvir aquilo que ele ainda não conseguiu dizer claramente.

A depressão pode escurecer o presente e fazer o futuro parecer inexistente.

Mas o futuro não desapareceu.

Ele apenas pode estar difícil de enxergar.

Por isso, talvez seja preciso emprestar esperança a quem, naquele momento, não consegue encontrá-la sozinho.

Não prometendo que tudo será fácil.

Não dizendo que “amanhã passa”.

Mas caminhando junto.

Porque tratamento é caminho.

Psicoterapia é caminho.

Cuidado é caminho.

Família é caminho.

E pedir ajuda também é caminho.

Talvez aquele adolescente sentado sozinho no quarto não esteja querendo desaparecer.

Talvez ele esteja querendo que desapareça a dor.

E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Por isso, antes de chamarmos um adolescente de rebelde, preguiçoso, ingrato ou difícil, talvez devêssemos fazer uma pausa.

Olhar nos olhos.

Sentar ao lado.

E perguntar, com verdadeira disposição para ouvir:

— Como você está por dentro?

Talvez ele fique em silêncio.

Tudo bem.

Não precisamos preencher imediatamente o silêncio.

Às vezes, a primeira forma de cuidado é simplesmente permanecer.

Porque há silêncios que não significam ausência.

Há silêncios que estão procurando coragem.

E, quando finalmente encontram alguém disposto a escutar, podem se transformar em palavras.

E algumas palavras, quando encontram acolhimento, podem ser o começo de uma nova história.

Acimarley Freitas
Psicólogo Clínico e Professor

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