MOBILIDADE, TRÂNSITO E PESSOAS
Vivemos a geração da pressa.
Todo mundo está ocupado.
Todo mundo está atrasado.
Todo mundo diz que não tem tempo.
E, quando entramos no trânsito,
parece que levamos essa pressa conosco.
O trânsito não é apenas um conjunto
de veículos circulando por uma via.
O trânsito é um encontro de pessoas.
Pessoas com histórias, necessidades,
preocupações, emoções e diferentes maneiras de perceber o mundo.
A carreta tem seu tamanho, seu peso,
seu espaço e suas limitações. Precisa de distância, tempo e atenção.
O caminhão tem suas
responsabilidades.
O ônibus carrega mais do que
passageiros: carrega vidas e também uma importante função social.
A caminhonete tem suas
características e seus limites.
O automóvel tem sua função, mas não
possui o direito de transformar a via pública em espaço particular.
A motocicleta, seja de baixa ou alta
cilindrada, exige atenção, equilíbrio, prudência e respeito aos demais.
A bicicleta também é um meio de
transporte.
E o ciclista também é parte do
trânsito.
E existe aquele que muitas vezes
esquecemos:
o pedestre.
Aquele que não está protegido por uma
carroceria, um capacete ou um cinto de segurança.
E temos ainda os novos meios de
mobilidade, especialmente os veículos e equipamentos elétricos, que chegam
rapidamente às nossas ruas e desafiam legislação, fiscalização, infraestrutura
e, principalmente, a nossa capacidade de convivência.
Mas existe uma questão ainda maior:
não basta criar meios de transporte.
É preciso formar pessoas para utilizá-los.
Porque tecnologia sem consciência
pode aumentar o risco.
Uma pessoa sem conhecimento das
regras, sem percepção dos próprios limites e sem respeito pela vida pode
transformar um simples deslocamento em uma situação de perigo para si e para os
outros.
E os desafios não terminam aí.
Temos uma infraestrutura urbana que
precisa ser constantemente aprimorada.
Temos estradas rurais que ainda
precisam de atenção.
Temos sinalização que precisa ser
respeitada e, quando necessário, melhorada.
Temos regras de trânsito que precisam
ser conhecidas, compreendidas e praticadas.
Temos fiscalização e mecanismos de
responsabilização que precisam acompanhar as transformações da mobilidade.
Mas talvez o maior desafio seja
outro.
Como transformar o trânsito em um espaço de convivência e não
em um campo de disputa?
Porque chegar cinco minutos antes não
deveria valer mais do que chegar vivo.
Ter preferência não significa ter o
direito de colocar outra vida em risco.
Estar com pressa não elimina a responsabilidade.
Ter um veículo maior não dá mais
direito à vida.
Ter um veículo menor não significa
ser invisível.
E estar certo, muitas vezes, não
significa que precisamos provar isso da maneira mais perigosa possível.
No trânsito, existe algo que deveria
estar acima da pressa, da razão, da preferência, do orgulho e da disputa:
A VIDA.
Mobilidade não deveria significar
apenas conseguir chegar.
Deveria significar chegar com
segurança.
Porque atrás de cada volante, de cada
guidão, de cada bicicleta e de cada pessoa que atravessa uma rua, existe uma
história.
E toda história merece continuar.
E você?
Quando entra no trânsito, o que tem
levado consigo?
A pressa?
A irritação?
A disputa?
Ou a consciência de que, do outro
lado da via, também existe alguém tentando chegar em casa?
O trânsito que queremos começa no
comportamento que escolhemos ter.
Acimarley Freitas
Psicólogo: Clínico e Transito; Professor
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