O EU ATUALIZANTE NA ABORDAGEM
CENTRADA NA PESSOA: FUNDAMENTOS TEÓRICOS E INTERFACES COM A ESCUTA NA PRODUÇÃO
BRASILEIRA
A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl
Rogers, fundamenta-se na concepção de que o ser humano possui uma tendência
inata ao crescimento, à autonomia e à realização de suas potencialidades. Tal
princípio, denominado tendência atualizante, constitui o núcleo motivacional da
teoria rogeriana e sustenta a compreensão do que pode ser denominado eu
atualizante, expressão que designa o movimento contínuo de desenvolvimento do
self em direção à maior congruência e integração experiencial.
Na perspectiva rogeriana, o eu não é uma entidade fixa, mas
um processo dinâmico de organização da experiência. O desenvolvimento do eu
atualizante ocorre em contextos relacionais que favoreçam condições
facilitadoras, especialmente empatia, consideração positiva incondicional e
congruência.
No Brasil, a consolidação da ACP foi significativamente
ampliada por autores como Mauro Amatuzzi, Virginia Moreira e Adriano Holanda,
que aprofundaram a compreensão fenomenológica da experiência e da escuta
clínica. Além disso, pesquisadores brasileiros que trabalham o conceito de
escuta psicológica têm contribuído para a articulação entre teoria e prática
clínica, reconhecendo a escuta como elemento estruturante do processo de
atualização do eu.
Dessa forma, este estudo propõe analisar o conceito de eu
atualizante na ACP, articulando-o às contribuições da produção científica
brasileira acerca da escuta psicológica.
Analisar o conceito de eu atualizante na Abordagem Centrada
na Pessoa, destacando suas implicações clínicas e sua relação com o conceito de
escuta na produção teórica brasileira.
Descrever a tendência atualizante e sua relação com a
constituição do self na teoria rogeriana; Examinar as condições facilitadoras
do desenvolvimento do eu atualizante; Discutir as contribuições de autores
brasileiros sobre a escuta como elemento promotor da atualização do eu.
O aprofundamento do conceito de eu atualizante apresenta
relevância teórica e prática, pois permite compreender os fundamentos da
mudança terapêutica na ACP. Em um contexto clínico marcado por demandas
complexas e crescente sofrimento psíquico, torna-se imprescindível resgatar
fundamentos que sustentem intervenções éticas e centradas na experiência do
cliente.
No cenário brasileiro, a ampliação da escuta clínica como
prática fundamentada em bases fenomenológicas e humanistas reforça a
necessidade de integrar o conceito de atualização do eu às especificidades
culturais e sociais do país. Assim, este estudo justifica-se pela contribuição
à formação acadêmica e à qualificação da prática clínica em Psicologia.
Trata-se de pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa
e caráter exploratório-descritivo. Foram analisadas obras clássicas de Carl
Rogers, bem como produções de autores brasileiros reconhecidos na Psicologia
Humanista e na discussão sobre escuta clínica.
As referências foram selecionadas com base em relevância
acadêmica, circulação científica e consonância com a temática proposta,
observando-se as diretrizes da ABNT NBR 6023:2018 para apresentação das
referências e o sistema autor-data conforme ABNT NBR 10520:2023.
Tendência atualizante e constituição do eu
Segundo Carl Rogers (1951/1992), todo organismo possui uma
tendência inerente à atualização, definida como impulso direcional para
desenvolver capacidades e manter ou aprimorar o organismo. Essa tendência
constitui a base do funcionamento psicológico saudável.
O eu, nesse contexto, emerge como uma configuração organizada
de percepções acerca de si mesmo. Quando a experiência vivida é simbolizada de
forma adequada à consciência, ocorre maior congruência entre experiência e
autoconceito. O eu atualizante representa, portanto, o processo no qual o
indivíduo se permite integrar experiências antes negadas ou distorcidas,
ampliando sua autenticidade.
A incongruência surge quando experiências ameaçadoras ao
autoconceito são negadas ou distorcidas, gerando ansiedade e desorganização
interna. A função do contexto terapêutico consiste em oferecer condições
facilitadoras para que o indivíduo possa reorganizar seu campo experiencial.
Escuta e atualização do eu na produção brasileira
No Brasil, Mauro Amatuzzi destaca que a escuta autêntica
possibilita ao sujeito reconhecer sentidos implícitos em sua vivência,
favorecendo o movimento de atualização. Para o autor, a escuta não é mera
técnica, mas atitude fenomenológica de abertura à experiência do outro.
Virginia Moreira amplia essa compreensão ao integrar
fundamentos fenomenológicos existenciais à ACP, ressaltando que o eu se
constitui na relação e na historicidade do sujeito.
Adriano Holanda enfatiza a importância da escuta clínica como
espaço intersubjetivo de validação da experiência, no qual o cliente pode
reorganizar significados e promover crescimento psicológico.
Assim, a literatura brasileira converge ao reconhecer que a
escuta empática e não julgadora constitui condição essencial para o
florescimento do eu atualizante.
A análise teórica evidencia que o eu atualizante não deve ser
compreendido como estado idealizado de perfeição, mas como processo contínuo de
integração experiencial. A atualização do eu ocorre quando o indivíduo encontra
ambientes relacionais que favoreçam autenticidade e aceitação.
As contribuições brasileiras ampliam a teoria rogeriana ao
enfatizar dimensões culturais e contextuais da escuta, reconhecendo que a
experiência humana é atravessada por fatores históricos e sociais. A escuta
clínica, nesse sentido, configura-se como prática ética e política, ao
legitimar a subjetividade do cliente.
Observa-se que o fortalecimento do eu atualizante depende
menos de intervenções diretivas e mais da qualidade da relação terapêutica,
corroborando a hipótese central da ACP acerca das condições necessárias e
suficientes para a mudança terapêutica.
Conclui-se que o conceito de eu atualizante constitui
elemento fundamental da Abordagem Centrada na Pessoa, representando o movimento
intrínseco de desenvolvimento e integração do self.
A produção teórica brasileira reforça a centralidade da
escuta como condição facilitadora desse processo, ampliando a compreensão da
ACP no contexto sociocultural nacional.
Desse modo, reafirma-se que a prática clínica fundamentada na
empatia, congruência e consideração positiva incondicional favorece a
emergência de um eu mais integrado, autêntico e aberto à experiência.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMATUZZI, Mauro Martins. O
resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 1989.
HOLANDA, Adriano Furtado.
Fenomenologia e psicologia: diálogos e possibilidades. Curitiba: Juruá, 2014.
MOREIRA, Virginia. Psicopatologia
crítica. São Paulo: Escuta, 2012.
ROGERS, Carl R. Terapia centrada
no cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa.
São Paulo: Martins Fontes, 1997.
ROGERS, Carl R. Um jeito de ser.
São Paulo: EPU, 1983.
(Referências organizadas conforme
ABNT NBR 6023:2018.)
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