Psicologa Organizacional

25 de março de 2026

 


O SETTING TERAPÊUTICO NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

 

O conceito de setting terapêutico é fundamental na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl Rogers, e refere-se ao conjunto de condições físicas, psíquicas e relacionais que possibilitam o encontro genuíno entre terapeuta e cliente. O setting, neste contexto, transcende a mera disposição espacial, compreendendo um ambiente relacional pautado pela autenticidade, aceitação e compreensão empática, elementos considerados nucleares na promoção do crescimento psicológico e na facilitação da mudança.

Fundamentação do Setting Terapêutico na ACP

Carl Rogers (1951, 1961), em suas obras pioneiras, destaca que o setting deve ser um espaço livre de julgamentos, no qual o cliente se sinta seguro para expressar sentimentos, conflitos e experiências. Para Rogers, o ambiente terapêutico não está apenas fisicamente delimitado, mas é construído a partir da atitude do terapeuta que se propõe a oferecer as chamadas “condições necessárias e suficientes”: consideração positiva incondicional, empatia e congruência (Rogers, 1957; 1961). Estes elementos criam a atmosfera de confiança e liberdade responsável pelo caráter transformador do processo.

O setting envolve elementos concretos como privacidade, conforto, ausência de interrupções externas e aspectos simbólicos, como a postura ética, o respeito à confidencialidade e a responsabilização pelo espaço comum (Cunha, 2017). A teórica brasileira Jurema Cunha enfatiza a importância do setting como um lugar de acolhimento psíquico, argumentando que a presença acolhedora do terapeuta é, ela mesma, terapêutica, pois ativa no cliente o sentimento de pertencimento e disponibilidade interna para o autoconhecimento.

A Dinâmica do Setting como Espaço Favorecedor da Experiência

Na ACP, o setting é considerado uma extensão da atitude fenomenológica: o terapeuta suspende juízos e expectativas, focando integralmente na experiência do cliente. Rogers defende que, nesse espaço, a escuta empática e a autenticidade do terapeuta funcionam como catalisadores de um processo de autodescoberta. O setting, portanto, é um ambiente sustentador, em que se vivenciam relações horizontais, de não-diretividade, onde o cliente se torna protagonista de sua própria trajetória (Rogers, 1983).

Cunha (2017) reafirma a centralidade do setting ao postular que “não existe processo terapêutico genuíno sem uma ambiência protetora, legitimadora e calorosa” (Cunha, 2017, p. 98). Dessa forma, o setting funciona como um continente psíquico, um “espaço potencial” no sentido de Winnicott (1975), mesmo que, na prática da ACP, a noção se expanda para uma vivência de encontro e disponibilidade radical.

Considerações Finais

O setting terapêutico na Abordagem Centrada na Pessoa é mais que um espaço físico: consiste em uma construção relacional que demanda, do terapeuta, presença autêntica, empatia e aceitação incondicional. Constitui-se como “ambiente facilitador” capaz de promover a liberdade experiencial e o desenvolvimento pleno do potencial humano, elementos fundamentais para o exercício clínico e ético do psicólogo na contemporaneidade.

 

Referências Bibliográficas

  • Cunha, J. (2017). Acolhimento e Presença: Reflexões sobre o Setting na Abordagem Centrada na Pessoa. Porto Alegre: Editora Sulina.
  • Rogers, C. R. (1951). Client-Centered Therapy: Its Current Practice, Implications, and Theory. Boston: Houghton Mifflin.
  • Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95–103.
  • Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person: A Therapist’s View of Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin.
  • Rogers, C. R. (1983). Liberdade para Aprender. Porto Alegre: Artmed.
  • Winnicott, D. W. (1975). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.

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