O SETTING TERAPÊUTICO NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA
O conceito de setting terapêutico
é fundamental na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl
Rogers, e refere-se ao conjunto de condições físicas, psíquicas e relacionais
que possibilitam o encontro genuíno entre terapeuta e cliente. O setting, neste
contexto, transcende a mera disposição espacial, compreendendo um ambiente relacional
pautado pela autenticidade, aceitação e compreensão empática, elementos
considerados nucleares na promoção do crescimento psicológico e na facilitação
da mudança.
Fundamentação do Setting Terapêutico na ACP
Carl Rogers (1951, 1961), em suas obras
pioneiras, destaca que o setting deve ser um espaço livre de julgamentos, no
qual o cliente se sinta seguro para expressar sentimentos, conflitos e
experiências. Para Rogers, o ambiente terapêutico não está apenas fisicamente
delimitado, mas é construído a partir da atitude do terapeuta que se propõe a
oferecer as chamadas “condições necessárias e suficientes”: consideração
positiva incondicional, empatia e congruência (Rogers, 1957; 1961). Estes
elementos criam a atmosfera de confiança e liberdade responsável pelo caráter
transformador do processo.
O setting envolve elementos concretos
como privacidade, conforto, ausência de interrupções externas e aspectos
simbólicos, como a postura ética, o respeito à confidencialidade e a
responsabilização pelo espaço comum (Cunha, 2017). A teórica brasileira Jurema
Cunha enfatiza a importância do setting como um lugar de acolhimento psíquico,
argumentando que a presença acolhedora do terapeuta é, ela mesma, terapêutica,
pois ativa no cliente o sentimento de pertencimento e disponibilidade interna
para o autoconhecimento.
A Dinâmica do Setting como Espaço Favorecedor da Experiência
Na ACP, o setting é considerado uma
extensão da atitude fenomenológica: o terapeuta suspende juízos e expectativas,
focando integralmente na experiência do cliente. Rogers defende que, nesse
espaço, a escuta empática e a autenticidade do terapeuta funcionam como
catalisadores de um processo de autodescoberta. O setting, portanto, é um
ambiente sustentador, em que se vivenciam relações horizontais, de
não-diretividade, onde o cliente se torna protagonista de sua própria
trajetória (Rogers, 1983).
Cunha (2017) reafirma a centralidade do
setting ao postular que “não existe processo terapêutico genuíno sem uma
ambiência protetora, legitimadora e calorosa” (Cunha, 2017, p. 98). Dessa
forma, o setting funciona como um continente psíquico, um “espaço potencial” no
sentido de Winnicott (1975), mesmo que, na prática da ACP, a noção se expanda
para uma vivência de encontro e disponibilidade radical.
Considerações Finais
O setting terapêutico na Abordagem
Centrada na Pessoa é mais que um espaço físico: consiste em uma construção
relacional que demanda, do terapeuta, presença autêntica, empatia e aceitação
incondicional. Constitui-se como “ambiente facilitador” capaz de promover a
liberdade experiencial e o desenvolvimento pleno do potencial humano, elementos
fundamentais para o exercício clínico e ético do psicólogo na
contemporaneidade.
Referências Bibliográficas
- Cunha, J. (2017). Acolhimento
e Presença: Reflexões sobre o Setting na Abordagem Centrada na Pessoa.
Porto Alegre: Editora Sulina.
- Rogers, C. R. (1951). Client-Centered
Therapy: Its Current Practice, Implications, and Theory. Boston:
Houghton Mifflin.
- Rogers, C. R. (1957). The
necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal
of Consulting Psychology, 21(2), 95–103.
- Rogers, C. R. (1961). On
Becoming a Person: A Therapist’s View of Psychotherapy. Boston:
Houghton Mifflin.
- Rogers, C. R. (1983). Liberdade
para Aprender. Porto Alegre: Artmed.
- Winnicott, D. W. (1975). O
Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
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