O SELF
SEGUNDO A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS E INTERFACES COM
O CONCEITO DE ESCUTA NA PSICOLOGIA BRASILEIRA
A
compreensão do conceito de self ocupa posição central na teoria da
personalidade desenvolvida por Carl Rogers, fundador da Abordagem Centrada na
Pessoa (ACP). Para o autor, o self constitui-se como uma organização perceptual
fluida e dinâmica, formada a partir das experiências vividas pelo organismo,
especialmente aquelas simbolizadas na consciência. Essa organização estrutura a
maneira como o indivíduo percebe a si mesmo e se relaciona com o mundo,
influenciando diretamente seus processos de ajustamento psicológico.
No
contexto contemporâneo da Psicologia brasileira, o estudo do self, articulado
ao conceito de escuta, ganha relevância diante das demandas clínicas que exigem
intervenções pautadas na ética, na empatia e na compreensão fenomenológica da
experiência subjetiva. Autores brasileiros como Rogério Paes de Barros, Mauro
Amatuzzi e José Célio Freire têm contribuído significativamente para a
consolidação da escuta como instrumento técnico e atitude fundamental no
exercício clínico, dialogando com os pressupostos rogerianos.
Dessa
forma, investigar o conceito de self segundo a ACP e suas interfaces com a
prática da escuta psicológica no cenário brasileiro configura-se como relevante
aporte teórico e prático para a formação e atuação do psicólogo clínico.
Analisar
o conceito de self na Abordagem Centrada na Pessoa, articulando-o com as
contribuições de teóricos brasileiros acerca do conceito de escuta no contexto
da prática psicológica.
Descrever
a concepção de self segundo a teoria de Carl Rogers; Identificar a relação
entre self, experiência e tendência atualizante na ACP; Discutir as contribuições de autores
brasileiros para a compreensão da escuta como elemento estruturante do
desenvolvimento do self.
O
estudo do self na perspectiva rogeriana apresenta relevância científica e
social, uma vez que fundamenta práticas clínicas centradas na valorização da
subjetividade e na promoção da autonomia do indivíduo. Em um cenário marcado
por crescente sofrimento psíquico, torna-se imprescindível compreender como a
escuta qualificada pode favorecer processos de reorganização do self e
ampliação da consciência experiencial.
No
Brasil, a consolidação da Psicologia Humanista e da ACP tem sido fortalecida
por produções acadêmicas que reafirmam a centralidade da escuta empática como
condição facilitadora de crescimento pessoal. Assim, esta investigação
justifica-se pela necessidade de integrar fundamentos teóricos clássicos com
contribuições contemporâneas da produção científica nacional.
O
presente estudo caracteriza-se como pesquisa bibliográfica, de abordagem
qualitativa e natureza exploratória. Foram analisadas obras clássicas de Carl
Rogers, bem como produções científicas de autores brasileiros reconhecidos na
área da Psicologia Humanista e da prática da escuta clínica.
A
seleção das fontes considerou publicações indexadas, livros acadêmicos e
artigos científicos que abordam o conceito de self e a escuta psicológica,
priorizando materiais alinhados às normas vigentes da Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT NBR 6023:2018).
O
conceito de self na Abordagem Centrada na Pessoa
Para
Carl Rogers (1951/1992), o self refere-se a uma configuração organizada de
percepções que o indivíduo tem de si mesmo, incluindo características, valores
e relações. Trata-se de uma estrutura fenomenológica que emerge da interação
entre o organismo e o ambiente.
O
autor distingue entre o self real (experiencial) e o self ideal, sendo que a
incongruência entre essas dimensões pode gerar sofrimento psicológico. A
tendência atualizante, conceito central da ACP, representa a força motivacional
inerente ao organismo humano para desenvolver suas potencialidades. Quando o
indivíduo encontra um ambiente facilitador
caracterizado por empatia, consideração positiva incondicional e
congruência ocorre maior integração do self.
A
escuta como condição facilitadora do desenvolvimento do self
No
contexto brasileiro, Mauro Amatuzzi enfatiza que a escuta fenomenológica
possibilita ao sujeito reconhecer e simbolizar sua experiência, favorecendo a
ampliação da consciência e a reorganização do self.
De
modo semelhante, José Célio Freire destaca que a escuta clínica, quando pautada
na empatia e na suspensão de julgamentos, cria um espaço intersubjetivo que
legitima a experiência do cliente, promovendo crescimento psicológico.
Essas
contribuições dialogam diretamente com a proposição rogeriana de que a mudança
terapêutica ocorre quando o indivíduo se sente profundamente compreendido em
sua experiência interna.
A
análise do conceito de self na ACP evidencia que sua constituição não ocorre de
forma isolada, mas em permanente relação com o outro. A escuta, nesse contexto,
não se reduz a uma técnica, mas configura-se como atitude ética e
epistemológica.
Os
autores brasileiros revisados ampliam a compreensão rogeriana ao enfatizar a
dimensão cultural e relacional da escuta no cenário nacional, reconhecendo que
o desenvolvimento do self está imerso em contextos históricos e sociais
específicos.
Observa-se
que a incongruência, entendida como discrepância entre experiência e
autoconceito, pode ser atenuada por meio de uma escuta que favoreça a
simbolização adequada das vivências. Assim, a prática clínica fundamentada na
ACP reafirma a centralidade da relação terapêutica como espaço privilegiado de
transformação.
Conclui-se
que o conceito de self, segundo Carl Rogers, constitui elemento estruturante da
Abordagem Centrada na Pessoa, estando intrinsecamente relacionado à qualidade
das relações interpessoais vivenciadas pelo indivíduo.
As
contribuições de teóricos brasileiros reforçam a importância da escuta como
condição facilitadora do crescimento psicológico, ampliando o entendimento da
ACP no contexto nacional.
Dessa
forma, o estudo reafirma que a prática clínica orientada pela escuta empática e
pela consideração positiva incondicional favorece a integração do self,
promovendo maior autenticidade e congruência existencial.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica.
Campinas: Papirus, 1989.
FREIRE, José Célio. A escuta clínica e a ética do cuidado.
Fortaleza: Edições UFC, 2002.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1997.
ROGERS, Carl R. Terapia centrada no cliente. São Paulo:
Martins Fontes, 1992.
ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.
(Organizado conforme ABNT NBR 6023:2018.)
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