Psicologa Organizacional

1 de março de 2026

 


O SELF SEGUNDO A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS E INTERFACES COM O CONCEITO DE ESCUTA NA PSICOLOGIA BRASILEIRA

 

A compreensão do conceito de self ocupa posição central na teoria da personalidade desenvolvida por Carl Rogers, fundador da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Para o autor, o self constitui-se como uma organização perceptual fluida e dinâmica, formada a partir das experiências vividas pelo organismo, especialmente aquelas simbolizadas na consciência. Essa organização estrutura a maneira como o indivíduo percebe a si mesmo e se relaciona com o mundo, influenciando diretamente seus processos de ajustamento psicológico.

No contexto contemporâneo da Psicologia brasileira, o estudo do self, articulado ao conceito de escuta, ganha relevância diante das demandas clínicas que exigem intervenções pautadas na ética, na empatia e na compreensão fenomenológica da experiência subjetiva. Autores brasileiros como Rogério Paes de Barros, Mauro Amatuzzi e José Célio Freire têm contribuído significativamente para a consolidação da escuta como instrumento técnico e atitude fundamental no exercício clínico, dialogando com os pressupostos rogerianos.

Dessa forma, investigar o conceito de self segundo a ACP e suas interfaces com a prática da escuta psicológica no cenário brasileiro configura-se como relevante aporte teórico e prático para a formação e atuação do psicólogo clínico.

Analisar o conceito de self na Abordagem Centrada na Pessoa, articulando-o com as contribuições de teóricos brasileiros acerca do conceito de escuta no contexto da prática psicológica.

Descrever a concepção de self segundo a teoria de Carl Rogers; Identificar a relação entre self, experiência e tendência atualizante na ACP;  Discutir as contribuições de autores brasileiros para a compreensão da escuta como elemento estruturante do desenvolvimento do self.

 

O estudo do self na perspectiva rogeriana apresenta relevância científica e social, uma vez que fundamenta práticas clínicas centradas na valorização da subjetividade e na promoção da autonomia do indivíduo. Em um cenário marcado por crescente sofrimento psíquico, torna-se imprescindível compreender como a escuta qualificada pode favorecer processos de reorganização do self e ampliação da consciência experiencial.

No Brasil, a consolidação da Psicologia Humanista e da ACP tem sido fortalecida por produções acadêmicas que reafirmam a centralidade da escuta empática como condição facilitadora de crescimento pessoal. Assim, esta investigação justifica-se pela necessidade de integrar fundamentos teóricos clássicos com contribuições contemporâneas da produção científica nacional.

 

O presente estudo caracteriza-se como pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e natureza exploratória. Foram analisadas obras clássicas de Carl Rogers, bem como produções científicas de autores brasileiros reconhecidos na área da Psicologia Humanista e da prática da escuta clínica.

A seleção das fontes considerou publicações indexadas, livros acadêmicos e artigos científicos que abordam o conceito de self e a escuta psicológica, priorizando materiais alinhados às normas vigentes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT NBR 6023:2018).

 

O conceito de self na Abordagem Centrada na Pessoa

 

Para Carl Rogers (1951/1992), o self refere-se a uma configuração organizada de percepções que o indivíduo tem de si mesmo, incluindo características, valores e relações. Trata-se de uma estrutura fenomenológica que emerge da interação entre o organismo e o ambiente.

O autor distingue entre o self real (experiencial) e o self ideal, sendo que a incongruência entre essas dimensões pode gerar sofrimento psicológico. A tendência atualizante, conceito central da ACP, representa a força motivacional inerente ao organismo humano para desenvolver suas potencialidades. Quando o indivíduo encontra um ambiente facilitador  caracterizado por empatia, consideração positiva incondicional e congruência ocorre maior integração do self.

 

A escuta como condição facilitadora do desenvolvimento do self

 

No contexto brasileiro, Mauro Amatuzzi enfatiza que a escuta fenomenológica possibilita ao sujeito reconhecer e simbolizar sua experiência, favorecendo a ampliação da consciência e a reorganização do self.

De modo semelhante, José Célio Freire destaca que a escuta clínica, quando pautada na empatia e na suspensão de julgamentos, cria um espaço intersubjetivo que legitima a experiência do cliente, promovendo crescimento psicológico.

Essas contribuições dialogam diretamente com a proposição rogeriana de que a mudança terapêutica ocorre quando o indivíduo se sente profundamente compreendido em sua experiência interna.

 

A análise do conceito de self na ACP evidencia que sua constituição não ocorre de forma isolada, mas em permanente relação com o outro. A escuta, nesse contexto, não se reduz a uma técnica, mas configura-se como atitude ética e epistemológica.

Os autores brasileiros revisados ampliam a compreensão rogeriana ao enfatizar a dimensão cultural e relacional da escuta no cenário nacional, reconhecendo que o desenvolvimento do self está imerso em contextos históricos e sociais específicos.

Observa-se que a incongruência, entendida como discrepância entre experiência e autoconceito, pode ser atenuada por meio de uma escuta que favoreça a simbolização adequada das vivências. Assim, a prática clínica fundamentada na ACP reafirma a centralidade da relação terapêutica como espaço privilegiado de transformação.

 

Conclui-se que o conceito de self, segundo Carl Rogers, constitui elemento estruturante da Abordagem Centrada na Pessoa, estando intrinsecamente relacionado à qualidade das relações interpessoais vivenciadas pelo indivíduo.

As contribuições de teóricos brasileiros reforçam a importância da escuta como condição facilitadora do crescimento psicológico, ampliando o entendimento da ACP no contexto nacional.

Dessa forma, o estudo reafirma que a prática clínica orientada pela escuta empática e pela consideração positiva incondicional favorece a integração do self, promovendo maior autenticidade e congruência existencial.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 1989.

 

FREIRE, José Célio. A escuta clínica e a ética do cuidado. Fortaleza: Edições UFC, 2002.

 

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

 

ROGERS, Carl R. Terapia centrada no cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

 

ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

(Organizado conforme ABNT NBR 6023:2018.)

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