QUANDO A IGREJA CRESCE, MAS O
EVANGELHO DIMINUI
Outro
dia me peguei pensando em uma pergunta que talvez incomode muita gente:
E
se a igreja estiver crescendo, mas não necessariamente o Evangelho?
Nos
Estados Unidos, os templos protestantes enfrentam um fenômeno silencioso:
pessoas estão indo embora. Algumas perderam a fé. Outras perderam a confiança
nas instituições. Há quem continue acreditando em Deus, mas já não queira
pertencer a uma igreja.
E
os motivos são muitos: escândalos, abusos de poder, crises de liderança,
dinheiro, política, incoerência...
No
Brasil, a história parece diferente.
Aqui,
os evangélicos continuam crescendo.
Temos
mais templos, mais pregadores, mais músicas, mais congressos, mais seguidores,
mais transmissões ao vivo, mais influência política.
Mas
uma pergunta insiste em bater à porta:
Estamos
crescendo em quantidade ou em profundidade?
Porque
uma igreja pode lotar seus bancos e, ainda assim, deixar vazios os corações.
Pode
aumentar seus seguidores e diminuir sua credibilidade.
Pode
conquistar poder político e perder sua autoridade moral.
Pode
falar muito sobre Deus e pouco sobre o ser humano.
Pode
ensinar prosperidade e esquecer a compaixão.
Pode
defender a família e não saber acolher uma família destruída.
Pode
falar de cura e não compreender a dor de quem sofre.
Pode
combater o pecado dos outros enquanto não consegue enxergar suas próprias
contradições.
E
talvez o problema não esteja na igreja crescer.
O
problema começa quando crescer se torna mais importante do que transformar.
Quando
o número de membros passa a valer mais do que a maturidade deles.
Quando
o tamanho do templo importa mais que o tamanho do caráter.
Quando
o poder do líder se torna maior que o serviço.
Quando
a política ocupa o lugar que deveria pertencer à consciência.
Quando
quem pensa diferente deixa de ser irmão e passa a ser inimigo.
Talvez
estejamos diante de uma das maiores crises espirituais do nosso tempo:
não
uma crise de religião, mas uma crise de coerência.
Porque
o mundo não precisa apenas de pessoas que falem sobre Jesus.
Precisa
de pessoas que façam lembrar Jesus.
Talvez
a próxima geração não esteja necessariamente abandonando Deus.
Talvez
esteja abandonando uma determinada maneira de apresentar Deus.
Uma
maneira marcada pelo espetáculo, pela disputa, pelo medo, pela polarização e,
algumas vezes, pela transformação da fé em produto.
E
aqui está a pergunta que considero mais importante:
Se
amanhã todos os templos desaparecessem, aquilo que aprendemos dentro deles
continuaria existindo em nossa maneira de viver?
Se
a resposta for sim, talvez tenhamos construído uma fé.
Se
a resposta for não, talvez tenhamos construído apenas uma instituição.
Porque
igreja não é apenas aquilo que acontece dentro de quatro paredes.
Igreja
é aquilo que permanece quando saímos delas.
É
o modo como tratamos quem não pode nos oferecer nada.
É
a maneira como educamos nossos filhos.
É
a honestidade quando ninguém está olhando.
É
o perdão quando seria mais fácil vingar.
É
a compaixão diante da dor.
É
a capacidade de amar sem perguntar em quem o outro votou.
É
permanecer humano quando temos poder para desumanizar.
Talvez
seja por isso que a pergunta do nosso tempo não deva ser:
“Quantos
estamos levando para a igreja?”
Mas:
“Que
tipo de pessoas estamos formando?”
Porque,
no final das contas, uma igreja verdadeiramente viva não é aquela que apenas
cresce.
É
aquela que transforma pessoas e, através delas, transforma o mundo.
Acimarley Freitas
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