Psicologa Organizacional

27 de agosto de 2026

 


CARÊNCIA


Penia, Deusa da Carência

 

Há palavras que carregam consigo uma história maior do que o seu próprio tamanho.

 

Carência é uma delas.

Quando dizemos que alguém é carente, quase sempre imaginamos uma pessoa que precisa demais: precisa de atenção, de afeto, de reconhecimento, de companhia, de aprovação. Às vezes, falamos disso com certa reprovação, como se sentir falta de alguma coisa fosse uma espécie de fraqueza moral.

Mas e se a carência não for simplesmente uma fraqueza?

E se, antes de ser um defeito, ela for uma experiência profundamente humana?

É aqui que podemos encontrar Penia, personagem da mitologia grega que aparece de maneira particularmente interessante no Banquete, de Platão. E é importante fazer uma ressalva: embora frequentemente seja chamada de “deusa da pobreza” ou “deusa da carência”, neste texto nos interessa exclusivamente aquilo que sua figura representa como falta, ausência, necessidade, privação e desejo.

Penia é, simbolicamente, aquilo que não temos.

Aquilo que sentimos faltar.

Aquilo que nos faz olhar para a vida e pensar:

“Eu preciso de alguma coisa que ainda não encontrei.”

E talvez seja justamente aí que comece uma das experiências mais profundas da existência humana.

 

1. A carência não é apenas ter pouco

Quando ouvimos a palavra carência, geralmente pensamos em ausência de alguma coisa concreta.

Falta dinheiro.

Falta comida.

Falta emprego.

Falta casa.

Falta saúde.

Falta companhia.

Falta amor.

Mas a carência não se limita àquilo que podemos colocar em uma conta bancária ou medir em uma balança.

Existe uma carência que não aparece nos exames laboratoriais.

É a carência de reconhecimento.

A carência de pertencimento.

A carência de segurança.

A carência de sentido.

A carência de ser ouvido.

A carência de sentir que a própria existência importa para alguém.

E aqui a Psicologia encontra uma antiga intuição filosófica.

Décadas depois de Platão, diferentes teorias psicológicas passaram a investigar as necessidades humanas e sua relação com a motivação. Abraham Maslow, por exemplo, propôs que o comportamento humano está relacionado a necessidades que podem envolver aspectos fisiológicos, segurança, amor, estima e realização pessoal. Para ele, necessidades não satisfeitas podem ocupar fortemente a vida psíquica e orientar o comportamento.

Em outras palavras:

aquilo que nos falta pode começar a organizar aquilo que fazemos.

 

2. Penia: a personificação da falta

No Banquete, Platão apresenta, por meio do discurso de Diotima, uma narrativa simbólica sobre a origem de Eros.

Penia aparece como figura da necessidade e da pobreza. Ela se aproxima de Poros, associado à disponibilidade de recursos, caminhos e meios. Dessa união nasce Eros, que carregará em si características contraditórias: de um lado, a falta; de outro, a capacidade de buscar aquilo que falta.

 

Não precisamos, neste artigo, entrar nos inúmeros atributos atribuídos a Eros.

Basta perceber uma coisa:

Eros nasce da carência.

E isso é filosoficamente poderoso.

Porque significa que o desejo não nasce necessariamente daquilo que possuímos.

O desejo nasce, muitas vezes, daquilo que percebemos não possuir.

Platão coloca essa questão de maneira bastante direta: desejamos aquilo que não temos, aquilo que nos falta ou aquilo que não está presente.

Então talvez a carência não seja simplesmente o vazio.

Talvez ela seja também o espaço onde nasce o movimento.

 

3. O ser humano é um ser que sente falta

Pense em uma criança.

Ela sente fome e procura alimento.

Sente medo e procura proteção.

Sente solidão e procura alguém.

Sente curiosidade e procura conhecimento.

Sente dor e procura cuidado.

Desde os primeiros momentos da vida, somos seres orientados para aquilo que nos falta.

A teoria do apego, desenvolvida inicialmente por John Bowlby e posteriormente ampliada por inúmeros pesquisadores, mostra como a busca por proximidade e segurança ocupa um papel importante no desenvolvimento humano. A criança procura a figura de apego especialmente diante do medo, da ameaça ou da vulnerabilidade, utilizando essa relação como fonte de segurança e como base para explorar o mundo.

Isso nos ensina algo muito simples:

precisar de alguém não é necessariamente sinal de fraqueza.

É parte da condição humana.

O problema não está em precisar.

O problema começa quando acreditamos que precisar nos torna inferiores.

 

4. Existe uma diferença entre carência e fraqueza

Vivemos em uma sociedade que frequentemente glorifica a autossuficiência.

“Eu não preciso de ninguém.”

“Eu me viro sozinho.”

“Não dependo de ninguém.”

“Não preciso de aprovação.”

“Não preciso de carinho.”

À primeira vista, essas frases parecem demonstrar força.

Mas, às vezes, podem esconder justamente o contrário.

Porque uma pessoa pode aprender a dizer “não preciso” quando, na verdade, passou a vida inteira aprendendo que demonstrar necessidade era perigoso.

É importante não transformar isso em diagnóstico.

Nem toda independência é defesa.

Nem toda necessidade é saudável.

Nem toda carência significa sofrimento psicológico.

Mas existe uma questão que merece nossa atenção:

o que fazemos com aquilo que nos falta?

Essa talvez seja uma pergunta mais importante do que simplesmente perguntar:

“Do que você é carente?”

 

5. A carência pode virar busca

Imagine uma pessoa que sente que não é reconhecida.

Ela pode transformar essa falta em uma busca permanente por aplausos.

Pode trabalhar excessivamente.

Pode tentar agradar todo mundo.

Pode precisar constantemente ouvir:

“Você é incrível.”

“Você é importante.”

“Você é especial.”

E, quando não recebe isso, sente novamente o vazio.

A busca tenta preencher a carência.

Mas nem sempre consegue.

É como beber água do mar quando se está com sede: momentaneamente existe uma sensação de ingestão, mas a necessidade fundamental não é verdadeiramente resolvida.

Por isso, precisamos compreender que satisfazer uma necessidade não é necessariamente o mesmo que anestesiar uma falta.

A Psicologia da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, identifica três necessidades psicológicas básicas relacionadas ao funcionamento e ao bem-estar: autonomia, competência e relacionamento/pertencimento. Quando essas necessidades são favorecidas, tendem a contribuir para motivação e bem-estar; quando são frustradas, podem ocorrer prejuízos motivacionais e psicológicos.

Portanto, não somos carentes apenas porque queremos alguma coisa.

Somos seres humanos que precisam de condições relacionais e psicológicas para florescer.

 

6. Algumas carências não pedem pessoas; pedem compreensão

Existe uma armadilha perigosa:

acreditar que toda carência afetiva será resolvida quando encontrarmos “a pessoa certa”.

Nem sempre.

Às vezes, alguém entra em um relacionamento esperando que o outro resolva uma história que começou muito antes daquele encontro.

Então a pessoa amada passa a carregar uma responsabilidade impossível:

“Faça-me sentir suficiente.”

“Prove que você não vai embora.”

“Diga que me ama.”

“Demonstre que eu sou importante.”

“Não me decepcione.”

“Não me abandone.”

E, pouco a pouco, o relacionamento deixa de ser encontro e transforma-se em tratamento para uma falta que ninguém sozinho consegue preencher.

É por isso que precisamos ter cuidado.

O outro pode oferecer afeto.

Pode oferecer presença.

Pode oferecer cuidado.

Pode caminhar conosco.

Mas ninguém deveria ser obrigado a carregar sozinho o peso de construir nossa autoestima, nosso sentido de existência ou nossa identidade.

 

7. A carência também pode ser social

Existe ainda uma dimensão que não podemos ignorar.

Nem toda carência nasce dentro do indivíduo.

Algumas são produzidas pelas circunstâncias sociais.

Uma pessoa que passa fome não está necessariamente enfrentando uma “carência emocional”.

Uma criança que cresce sem acesso adequado à educação enfrenta uma privação concreta.

Uma família que vive sem segurança, sem moradia adequada ou sem condições mínimas de sobrevivência experimenta uma carência que não pode ser reduzida à Psicologia individual.

É preciso ter cuidado para não psicologizar aquilo que também é social.

Às vezes, o indivíduo não precisa simplesmente “aprender a lidar com sua carência”.

Ele precisa de direitos, oportunidades, políticas públicas, solidariedade e condições concretas de existência.

A carência, portanto, pode ser psicológica, afetiva, material, social ou existencial.

E cada uma exige uma forma diferente de compreensão.

 

8. Penia mora em muitos lugares

Penia pode estar naquele homem que trabalha todos os dias, mas ainda sente que não conseguiu provar seu valor.

Pode estar na mulher que cuida de todos, mas não sabe quem cuida dela.

Pode estar no adolescente que passa horas nas redes sociais procurando alguma confirmação de que é aceito.

Pode estar no idoso que possui uma casa cheia de objetos, mas uma agenda vazia de visitas.

Pode estar naquele profissional que conquistou títulos, dinheiro e reconhecimento, mas continua perguntando silenciosamente:

“Será que eu sou suficiente?”

E pode estar naquele sujeito que sorri para todos enquanto carrega, em segredo, uma falta que ninguém conhece.

A carência nem sempre grita.

Às vezes, ela trabalha silenciosamente.

Ela aparece no excesso.

No controle.

Na necessidade de agradar.

Na dificuldade de ficar sozinho.

Na busca incessante por aprovação.

Na incapacidade de dizer “não”.

No medo de ser abandonado.

Na necessidade de ser indispensável.

E, às vezes, aparece justamente naquela pessoa que insiste:

“Eu não preciso de ninguém.”

 

9. O perigo não está em sentir falta

Sentir falta faz parte da vida.

O problema surge quando transformamos a falta em identidade.

“Eu sou abandonado.”

“Eu sou rejeitado.”

“Eu não sou suficiente.”

“Ninguém fica.”

“Ninguém me ama.”

“Nunca vou conseguir.”

Observe a diferença.

Uma coisa é dizer:

“Estou sentindo falta de amor.”

Outra, muito diferente, é concluir:

“Eu não sou digno de amor.”

A primeira frase descreve uma experiência.

A segunda transforma uma experiência em identidade.

E isso pode mudar completamente a maneira como uma pessoa passa a enxergar a si mesma.

 

10. A carência pode ensinar

Talvez seja aqui que a imagem de Penia se torne mais interessante.

A carência nos incomoda.

Mas também pode nos ensinar.

Quem sente falta pode aprender a procurar.

Quem reconhece que não sabe pode aprender.

Quem percebe que precisa de ajuda pode pedir ajuda.

Quem reconhece a própria solidão pode construir vínculos.

Quem percebe sua insegurança pode desenvolver recursos.

Quem reconhece sua fragilidade pode descobrir que vulnerabilidade não é sinônimo de incapacidade.

A carência pode ser uma professora difícil.

Mas professora.

Ela nos revela onde dói.

E aquilo que dói merece ser compreendido, não necessariamente escondido.

 

11. Nem toda falta precisa ser preenchida imediatamente

Existe uma cultura da urgência.

Sentiu solidão?

Arrume alguém.

Sentiu tristeza?

Distraia-se.

Sentiu vazio?

Compre alguma coisa.

Sentiu insegurança?

Procure aprovação.

Sentiu falta?

Substitua.

Mas talvez algumas faltas precisem primeiro ser escutadas.

Nem todo vazio precisa ser imediatamente ocupado.

Alguns precisam ser compreendidos.

Porque, às vezes, corremos tanto para preencher o espaço que nunca descobrimos por que ele estava vazio.

A psicoterapia pode justamente oferecer um espaço de elaboração dessa experiência: não necessariamente para eliminar toda carência, algo impossível para qualquer ser humano,  mas para compreender como determinadas necessidades aparecem, que significados receberam ao longo da história pessoal e quais maneiras mais saudáveis existem de lidar com elas.

 

12. Talvez a maturidade não seja deixar de precisar

Talvez maturidade não seja chegar ao ponto de dizer:

“Eu não preciso de ninguém.”

Talvez seja conseguir dizer:

“Eu preciso de algumas coisas, reconheço isso e sei cuidar dessas necessidades sem transformar o outro em responsável pela minha existência.”

Isso é diferente.

É mais humano.

Mais realista.

Mais saudável.

Precisar não diminui ninguém.

O que precisamos aprender é como precisar.

Como pedir.

Como receber.

Como oferecer.

Como estabelecer limites.

Como suportar algumas ausências.

Como construir vínculos.

Como desenvolver autonomia.

Como reconhecer aquilo que está sob nossa responsabilidade e aquilo que pertence ao outro.

 

13. Penia e o espelho humano

Talvez Penia seja interessante justamente porque ela nos obriga a olhar para uma verdade que nem sempre gostamos de admitir:

somos incompletos.

Há coisas que não sabemos.

Há coisas que não conseguimos.

Há pessoas que precisamos.

Há momentos em que precisamos de ajuda.

Há perdas que nos atravessam.

Há feridas que não desaparecem apenas porque decidimos ser fortes.

Há necessidades que retornam.

Há desejos que permanecem.

Há vazios que fazem parte da experiência de existir.

E reconhecer isso não deveria produzir vergonha.

Deveria produzir humanidade.

 

CONCLUSÃO: O QUE FAZER COM A NOSSA PENIA?

Talvez a pergunta não seja:

“Como faço para nunca mais sentir carência?”

Mas:

“O que faço quando percebo que algo está faltando em mim?”

Se falta afeto, posso aprender a construir vínculos.

Se falta segurança, posso buscar proteção e apoio.

Se falta reconhecimento, posso investigar de onde vem minha necessidade de validação.

Se falta pertencimento, posso procurar relações nas quais exista reciprocidade.

Se falta autonomia, posso começar a escolher.

Se falta competência, posso aprender.

Se falta sentido, posso perguntar o que realmente importa para mim.

Se existe uma carência antiga, posso procurar compreendê-la em vez de simplesmente escondê-la.

E, quando necessário, posso pedir ajuda.

Porque pedir ajuda também é uma forma de inteligência.

Talvez seja essa a grande lição escondida na figura de Penia:

a carência não precisa ser o lugar onde terminamos.

Ela pode ser o lugar de onde começamos.

A falta pode gerar movimento.

O vazio pode gerar pergunta.

A pergunta pode gerar consciência.

A consciência pode gerar escolha.

E a escolha pode transformar uma existência.

No fundo, talvez todos carreguemos um pouco de Penia.

Todos temos alguma falta.

Todos desejamos alguma coisa.

Todos, em algum momento, olhamos para a própria vida e pensamos:

“Ainda falta alguma coisa.”

E talvez isso não seja uma condenação.

Talvez seja simplesmente a condição humana.

Porque enquanto houver algo que nos falte, haverá também uma possibilidade de buscar.

E enquanto houver busca, ainda haverá caminho.

Penia representa a falta.

Mas a história humana começa justamente quando temos coragem de olhar para aquilo que nos falta e perguntar:

“O que essa carência está tentando me dizer?”

 

Referências bibliográficas

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOWLBY, John. Apego e perda: volume 1 — Apego. Nova York: Basic Books, 1969/1982.
Título original: Attachment and Loss: Vol. 1. Attachment.

DECI, Edward L.; RYAN, Richard M. O “quê” e o “porquê” das buscas por objetivos: necessidades humanas e a autodeterminação do comportamento. Psychological Inquiry, v. 11, n. 4, p. 227–268, 2000.
Título original: The “What” and “Why” of Goal Pursuits: Human Needs and the Self-Determination of Behavior.

MASLOW, Abraham H. Uma teoria da motivação humana. Psychological Review, v. 50, n. 4, p. 370–396, 1943.
Título original: A Theory of Human Motivation.

PLATÃO. O Banquete. Especialmente o discurso de Sócrates/Diotima, 200e–212c. Tradução do título original: Symposium.

RYAN, Richard M.; DECI, Edward L. Teoria da autodeterminação e a facilitação da motivação intrínseca, do desenvolvimento social e do bem-estar. American Psychologist, v. 55, n. 1, p. 68–78, 2000.
Título original: Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation, Social Development, and Well-Being.

WATERS, Everett; WATERS, Harold. Uma perspectiva do roteiro de uma base segura sobre o apego: avanços, possibilidades e perspectivas. In: Advances in Child Development and Behavior, v. 69, 2025.
Título original: A Secure Base Script Perspective on Attachment: Progress, Promise, and Prospects.

Acimarley Freitas
Psicólogo Clínico | CRP-04/54732


26 de agosto de 2026

 


Desgraça, afinal, o que significa isso?

 

Há palavras que parecem nascer prontas para causar impacto. “Desgraça” é uma delas.

 

É uma palavra pesada. Quando pronunciada, parece carregar consigo uma história inteira. Às vezes vem acompanhada de raiva; outras, de tristeza. Pode aparecer em uma discussão, em uma tragédia, numa conversa descontraída ou até numa gargalhada entre amigos.

 

Mas, afinal, o que significa “desgraça”?

 

Curiosamente, a palavra não nasceu com o significado que hoje atribuímos a ela.

 

“Desgraça” está relacionada ao latim e à ideia de privação da graça. O prefixo “des-” pode indicar ausência, afastamento ou privação. “Graça”, por sua vez, vem de gratia, palavra latina associada a favor, benevolência, benefício e, no contexto religioso, à graça divina.

 

Ou seja, originalmente, havia algo quase teológico nessa palavra.

 

A “graça” era aquilo que se recebia como favor, bondade ou benefício. A “desgraça”, portanto, seria a ausência dessa graça.

 

Com o passar do tempo, a palavra atravessou séculos, culturas e transformações sociais. Saiu dos ambientes predominantemente religiosos e entrou definitivamente na linguagem cotidiana.

 

E então passou a significar infortúnio, sofrimento, tragédia, calamidade.

 

Uma pessoa perdeu tudo?

 

“Que desgraça!”

 

Algo deu completamente errado?

 

“Que desgraça!”

 

Alguém está profundamente irritado?

 

“Desgraça!”

 

Mas existe algo ainda mais interessante.

 

A mesma palavra que pode expressar uma tragédia pode, dependendo da situação, ser utilizada quase como uma brincadeira.

 

“Seu desgraçado!”

 

Entre duas pessoas íntimas, isso pode ser uma ofensa. Mas também pode ser uma forma bem-humorada de demonstrar proximidade.

 

É a língua mostrando que nenhuma palavra vive sozinha.

 

Quem determina a força de uma palavra não é apenas o dicionário. É também o contexto, a intenção, a relação entre as pessoas e a maneira como ela é pronunciada.

 

Talvez seja por isso que “desgraça” seja uma palavra tão interessante.

 

Porque, olhando com atenção, percebemos que ela fala muito mais sobre nós do que imaginamos.

 

Durante muito tempo, em uma sociedade profundamente influenciada pelo cristianismo, “graça” e “desgraça” carregavam significados espirituais muito fortes.

 

Estar na graça era estar sob favor.

 

Estar na desgraça era experimentar a perda desse favor.

 

E não é curioso perceber como essa antiga ideia ainda permanece escondida dentro da nossa maneira moderna de falar?

 

Quando alguém diz:

 

“Minha vida está uma desgraça.”

 

Talvez não esteja falando apenas de problemas.

 

Talvez esteja dizendo, sem perceber, que sente que alguma coisa perdeu o sentido, a direção, a esperança ou o equilíbrio.

 

É interessante como algumas palavras conseguem traduzir estados da alma.

 

A desgraça pode ser um acontecimento.

 

Mas também pode ser uma interpretação.

 

Um mesmo acontecimento pode destruir uma pessoa e transformar outra.

 

Uma perda pode ser apenas uma perda para alguém e, para outra pessoa, tornar-se o início de uma reconstrução.

 

Por isso, talvez devêssemos ter um pouco de cuidado quando chamamos a nossa própria vida de “desgraça”.

 

Porque a vida pode estar difícil.

 

Pode estar dolorosa.

 

Pode estar confusa.

 

Pode haver perdas, fracassos, decepções e dias em que tudo parece dar errado.

 

Mas um capítulo difícil não significa necessariamente que a história inteira terminou.

 

Às vezes, aquilo que chamamos de “desgraça” é apenas uma fase da existência que ainda não conseguimos compreender.

 

A palavra é antiga.

 

O sofrimento também.

 

Mas o ser humano continua tentando fazer a mesma coisa desde sempre: encontrar palavras para aquilo que sente.

 

Talvez “desgraça” seja uma dessas palavras.

 

Uma palavra que começou significando ausência de graça e terminou significando infortúnio, tragédia, sofrimento e até indignação.

 

Mas existe uma pergunta que permanece:

 

Será que toda desgraça é realmente uma ausência de graça?

 

Talvez não.

 

Talvez, em algumas circunstâncias, aquilo que parece ser o fim seja apenas uma mudança de caminho.

 

Talvez algumas perdas nos ensinem coisas que a tranquilidade jamais ensinaria.

 

Talvez algumas quedas revelem forças que desconhecíamos.

 

E talvez a vida, de vez em quando, nos faça experimentar a “desgraça” não para nos destruir, mas para nos obrigar a reconstruir aquilo que havíamos deixado de perceber.

 

No fim das contas, palavras também envelhecem.

 

Seus significados mudam.

 

Mas algumas carregam consigo as marcas da história humana.

 

“Desgraça” é uma delas.

 

E talvez, antes de pronunciá-la sobre alguém, ou sobre nós mesmos, valha a pena perguntar:

 

É realmente uma desgraça?

 

Ou é apenas uma parte difícil da história que ainda estamos aprendendo a compreender?

 

Acimarley Freitas

20 de agosto de 2026

 




Uma empresa chamada “Família”

 

Certa vez, alguém me disse:

— Às vezes, tenho a impressão de que moro em uma empresa chamada família.

Eu ri.

Mas, depois, fiquei pensando.

Talvez seja exatamente assim que muitas famílias estejam funcionando.

Existe um setor financeiro: alguém paga as contas, alguém reclama dos gastos, alguém pergunta por que a fatura do cartão veio tão alta.

Existe o setor de recursos humanos: quem está cansado, quem está sobrecarregado, quem precisa de férias e quem já está pensando seriamente em pedir demissão.

Existe o setor de logística: levar filho para a escola, buscar, passar no supermercado, levar ao médico, resolver aquele problema que apareceu justamente no dia em que ninguém tinha tempo.

Existe o setor de alimentação: “O que vamos comer hoje?”

E existe uma pergunta que parece simples, mas pode provocar uma reunião extraordinária:

— Quem vai lavar a louça?

Na empresa chamada “Família”, todo mundo tem uma função.

Só que existe um pequeno problema:

algumas pessoas acumulam cargos demais.

Tem gente que é mãe, esposa, profissional, cozinheira, motorista, cuidadora, psicóloga, administradora, mediadora de conflitos e, quando sobra tempo, tenta lembrar quem ela mesma é.

Tem homem que também vive assim.

Trabalha o dia inteiro, resolve problemas, sustenta responsabilidades e chega em casa com a sensação de que o expediente terminou.

Mas, na verdade, começou o segundo turno.

Porque família não fecha às 18 horas.

Não tem feriado.

Não tem banco de horas.

E, infelizmente, algumas pessoas acreditam que amor é suficiente para manter essa empresa funcionando.

Não é.

Amor é fundamental.

Mas relacionamento precisa de parceria.

Uma família não deveria funcionar como uma empresa em que existe um diretor e vários funcionários.

Família deveria ser sociedade.

Sociedade afetiva.

Sociedade de responsabilidades.

Sociedade de sonhos.

Sociedade de cuidado.

O problema é que, às vezes, alguém vira o “funcionário do mês” durante anos.

Resolve tudo.

Organiza tudo.

Lembra de tudo.

Cuida de todos.

Até que um dia se cansa.

E quando finalmente diz:

— Eu não aguento mais.

A família se assusta.

Mas talvez a pergunta não devesse ser:

“Por que você está tão cansado?”

Talvez fosse:

“Por que deixamos você carregar tudo sozinho durante tanto tempo?”

Existe também outro detalhe curioso nessa empresa chamada família.

Todos querem receber benefícios.

Carinho.

Atenção.

Respeito.

Comida pronta.

Casa organizada.

Filhos bem cuidados.

Abraços.

Companhia.

Mas nem sempre todos querem participar da administração.

E relacionamento não sobrevive quando apenas uma pessoa trabalha para mantê-lo de pé.

Uma hora, a conta chega.

E não estou falando da conta de energia.

Estou falando da conta emocional.

Ela chega em forma de silêncio.

De irritação.

De distância.

De falta de desejo.

De conversas que deixam de existir.

De pessoas que moram na mesma casa, mas vivem em mundos completamente diferentes.

É quando alguém percebe que está casado, mas emocionalmente desempregado.

Ou pior:

trabalhando sozinho em uma empresa que deveria ter dois sócios.

Talvez precisemos rever o conceito de família.

Não é apenas dividir o mesmo endereço.

Não é apenas pagar contas juntos.

Não é apenas ter filhos.

Não é apenas postar fotografias bonitas nas redes sociais.

Família é também perguntar:

— Como você está?

E esperar a resposta.

É perceber o cansaço antes que ele vire exaustão.

É dividir tarefas sem transformar cada ajuda em favor.

É cuidar sem contabilizar.

É reconhecer que ninguém deveria precisar adoecer para finalmente ser ouvido.

Talvez a família seja a única empresa em que o lucro não pode ser medido em dinheiro.

O lucro está no abraço.

Na confiança.

Na segurança emocional.

Na infância dos filhos.

Na cumplicidade do casal.

Na sensação de chegar em casa e pensar:

“Aqui eu posso descansar. Aqui eu não preciso fingir.”

E talvez seja essa a grande diferença.

Uma empresa tradicional existe para produzir resultados.

Uma família deveria existir para produzir vínculos.

Porque, no final da vida, dificilmente alguém perguntará quantas reuniões participou, quantas horas extras fez ou quantos boletos pagou.

Talvez a pergunta seja outra:

“Você esteve presente na vida daqueles que amava?”

Por isso, de vez em quando, talvez seja necessário convocar uma reunião extraordinária da empresa chamada “Família”.

Sem planilhas.

Sem cobranças.

Sem discursos.

Apenas sentar ao redor da mesa e perguntar:

— Está todo mundo bem?

E, principalmente, ter coragem para ouvir quando alguém responder:

— Não.

Porque uma família saudável não é aquela que nunca tem problemas.

É aquela em que ninguém precisa enfrentar os problemas sozinho.

No fim das contas, talvez a família seja a empresa mais importante que construiremos na vida.

E seu maior patrimônio não é a casa, o carro ou o dinheiro no banco.

É aquilo que não aparece no balanço patrimonial:

o amor que conseguimos preservar enquanto a vida acontecia.

 

 

Acimarley Freitas