Psicologa Organizacional

8 de junho de 2026

 



Narciso Digital:

Quando o Espelho Cabe na Palma da Mão

 

Por Acimarley Freitas Psicólogo

 

Conta a mitologia grega que Narciso era um jovem tão encantado com a própria imagem que acabou perdendo a capacidade de enxergar qualquer coisa além do seu reflexo. Fascinado por si mesmo, permaneceu diante das águas até que sua vida se consumiu naquele encontro interminável com a própria aparência.

 

Séculos se passaram.

 

O lago desapareceu.

 

Mas o espelho permaneceu.

 

Hoje ele cabe na palma da mão.

 

Está no celular. Nas selfies. Nos filtros. Nas curtidas. Nos comentários. Nas métricas que prometem medir o valor humano em números.

 

Vivemos uma época curiosa. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão necessitados de aprovação. Nunca tivemos tantas formas de nos comunicar e, paradoxalmente, tantas dificuldades para nos mostrar como realmente somos.

 

As redes sociais trouxeram benefícios inegáveis. Aproximaram famílias, democratizaram informações, criaram oportunidades e deram voz a muitas pessoas. Mas também inauguraram um fenômeno silencioso: a construção de versões idealizadas de nós mesmos.

 

Publicamos os sorrisos.

 

Escondemos as lágrimas.

 

Exibimos as conquistas.

 

Silenciamos as inseguranças.

 

Mostramos os aplausos.

 

Ocultamos os fracassos.

 

E, aos poucos, passamos a acreditar que a vida dos outros é perfeita enquanto a nossa parece insuficiente.

 

O problema não está em compartilhar momentos felizes. O problema surge quando a busca por reconhecimento externo se torna a principal fonte de autoestima. Quando uma foto sem curtidas provoca ansiedade. Quando um comentário negativo destrói o humor do dia. Quando o valor pessoal passa a depender da validação de desconhecidos. Estudos e observações sobre o comportamento nas redes mostram que muitas pessoas se sentem incomodadas quando suas publicações não recebem a atenção esperada, revelando uma crescente necessidade de visibilidade e aprovação.

 

Como psicólogo, percebo que esse fenômeno atinge crianças, adolescentes, adultos e idosos. Muitos chegam ao consultório cansados de competir. Cansados de parecer felizes. Cansados de sustentar personagens que criaram para sobreviver no palco digital.

 

E talvez essa seja a grande armadilha contemporânea.

 

Não estamos apenas olhando para o espelho.

 

Estamos vivendo para ele.

 

Enquanto isso, relacionamentos reais enfraquecem. Conversas profundas são substituídas por reações rápidas. A autenticidade cede espaço à performance. A pessoa deixa de perguntar "Quem eu sou?" para perguntar "Como estou sendo visto?".

 

A sociedade precisa refletir sobre isso.

 

Precisamos ensinar nossas crianças que valor não se mede por seguidores.

 

Precisamos lembrar nossos adolescentes que beleza não é filtro.

 

Precisamos mostrar aos adultos que sucesso não é aparência.

 

Precisamos reaprender que a vida acontece fora das telas.

 

O ser humano foi criado para se relacionar, não para se exibir. Para encontrar significado, não apenas visibilidade. Para ser amado por quem é, e não pela imagem que projeta.

 

Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente esse: usar a tecnologia sem nos tornarmos prisioneiros dela.

 

Porque, no final das contas, o maior risco não é olhar para o espelho.

 

O maior risco é esquecer quem somos quando ele se apaga.

 

E quando a tela escurecer, restará apenas uma pergunta:

 

Você conhece a pessoa que existe por trás do perfil?

 

Uma sociedade emocionalmente saudável não é aquela que produz pessoas perfeitas para serem vistas, mas seres humanos autênticos que têm coragem de ser quem realmente são.

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico

CRP 04/54732

 


A Caixa de Pandora e o Mistério de Tornar-se Quem Somos

 

Por Acimarley Freitas

 

Conta a mitologia grega que Pandora recebeu uma caixa que não deveria ser aberta. Movida pela curiosidade humana, ela a abriu e, de dentro dela, escaparam dores, medos, incertezas e desafios que passaram a habitar o mundo. Mas poucos se lembram de que, no fundo daquela caixa, permaneceu algo precioso: a esperança.

 

Gosto de pensar que cada ser humano carrega dentro de si uma espécie de Caixa de Pandora particular.

 

Não uma caixa de castigos ou maldições, mas um universo inteiro de possibilidades ainda desconhecidas.

 

Dentro dela vivem nossos medos e nossas coragens. Nossas lágrimas e nossos sorrisos. Nossas feridas e nossos sonhos. Dentro dela habita aquilo que Carl Rogers chamava de potencial humano, a tendência atualizante: essa força silenciosa que nos impulsiona na direção do crescimento, da maturidade e da realização de quem verdadeiramente somos.

 

Talvez o grande desafio da vida não seja abrir a caixa.

 

Talvez o desafio seja ter coragem de olhar para o que encontramos lá dentro.

 

Muitas pessoas passam anos tentando construir um "eu ideal" perfeito. Um personagem admirável, forte, sem falhas, sem dúvidas e sem contradições. Correm atrás de uma versão imaginária de si mesmas, acreditando que só serão dignas de amor quando alcançarem determinado padrão.

 

Enquanto isso, o "eu real" permanece esquecido em algum canto da alma.

 

E quanto mais distante o eu ideal fica do eu real, maior tende a ser o sofrimento.

 

Vivemos então uma existência dividida: mostramos ao mundo aquilo que acreditamos que deveríamos ser, enquanto escondemos aquilo que verdadeiramente somos.

 

Mas a vida possui uma curiosa sabedoria.

 

Ela sempre encontra uma maneira de nos conduzir de volta para nós mesmos.

 

Às vezes isso acontece através de uma perda.

 

Outras vezes através de uma decepção, de uma crise ou de uma pergunta que insiste em nos acompanhar durante noites inteiras.

 

São momentos em que a caixa se abre.

 

E quando ela se abre, não encontramos apenas dores.

 

Encontramos também potencialidades adormecidas.

 

Encontramos talentos esquecidos.

 

Encontramos forças que não sabíamos possuir.

 

Encontramos uma pessoa que esteve ali o tempo todo esperando apenas ser reconhecida.

 

Carl Rogers acreditava profundamente que o ser humano possui dentro de si os recursos necessários para crescer e se desenvolver. Não porque a vida seja fácil. Não porque não existam obstáculos. Mas porque existe uma força vital que nos empurra continuamente em direção àquilo que podemos nos tornar.

 

É a semente buscando a luz.

 

É o rio procurando o mar.

 

É a alma procurando a si mesma.

 

Por isso, o autoconhecimento não é um ato de perfeição.

 

É um ato de encontro.

 

Não se trata de transformar-se em alguém diferente.

 

Trata-se de aproximar-se de quem você já é.

 

O processo humano não acontece de forma instantânea. A natureza nos ensina isso diariamente. Nenhuma árvore cresce em uma noite. Nenhuma flor desabrocha antes do seu tempo. Nenhum fruto amadurece pela força da ansiedade.

 

Com as pessoas não é diferente.

 

Existe um tempo para compreender.

 

Um tempo para sentir.

 

Um tempo para reconstruir.

 

Um tempo para florescer.

 

Talvez você esteja vivendo exatamente esse tempo agora.

 

Talvez sua Caixa de Pandora tenha se aberto recentemente e você esteja assustado com tudo o que encontrou dentro dela.

 

Se for assim, permita-se continuar.

 

Não feche a tampa.

 

Não abandone a jornada.

 

No fundo dessa caixa existe algo muito maior do que os medos que você vê hoje.

 

Existe a sua capacidade de crescer.

 

Existe a sua humanidade.

 

Existe a sua tendência atualizante.

 

Existe a possibilidade de tornar-se, pouco a pouco, aquilo que você nasceu para ser.

 

E quando isso acontece, percebemos que a verdadeira esperança não estava escondida na caixa.

 

Ela sempre esteve escondida dentro de nós.

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico — Abordagem Centrada na Pessoa

 



Os Amores que Habitam em Nós

 

Por Acimarley Freitas

 

Outro dia me peguei observando uma roseira.

 

Algumas flores estavam plenamente abertas. Outras ainda eram apenas botões tímidos. Algumas pétalas já começavam a cair, cumprindo silenciosamente o ciclo da vida.

 

Enquanto observava aquela cena simples, pensei no amor.

 

Passamos boa parte da vida acreditando que amor é uma coisa só. Crescemos ouvindo histórias de romances, canções apaixonadas e promessas de felicidade eterna. Mas, à medida que amadurecemos, percebemos que o amor possui muitos rostos, muitas vozes e muitas formas de se manifestar.

 

Talvez o autoconhecimento seja justamente a arte de descobrir quais amores já floresceram em nós, quais ainda estão adormecidos e quais precisam ser cultivados.

 

Conhecemos o Éros, o amor da paixão.

 

É ele que acelera o coração, colore os dias e faz o mundo parecer mais bonito. É o amor dos encontros, dos olhares demorados e dos sonhos compartilhados. Mas a vida ensina que nenhuma paixão consegue sustentar sozinha uma existência inteira. O fogo aquece, mas também precisa de lenha para permanecer aceso.

 

Conhecemos também o Phileo, o amor da amizade.

 

É aquele que se senta ao nosso lado quando o mundo parece pesado demais. É a mão estendida sem julgamentos. É a conversa que cura sem precisar oferecer soluções. Muitos descobrem que os melhores relacionamentos amorosos são aqueles que aprendem a preservar a amizade mesmo depois que o encanto inicial se transforma em convivência.

 

Existe ainda o Storgé, o amor dos vínculos familiares.

 

Nem sempre perfeito. Nem sempre fácil.

 

Mas é nesse amor que aprendemos nossas primeiras lições sobre pertencimento, cuidado, proteção e afeto. Algumas pessoas receberam esse amor em abundância. Outras precisaram reconstruí-lo ao longo da vida, encontrando família em amigos, comunidades e pessoas que o coração escolheu para caminhar junto.

 

Há também o Ágape.

 

Talvez o mais desafiador de todos.

 

É o amor que ultrapassa interesses pessoais. É a capacidade de desejar o bem mesmo quando não há retorno. É o amor presente nos gestos silenciosos, no perdão, na compaixão e na generosidade. Não é um amor ingênuo. É um amor maduro. Um amor que escolhe cuidar.

 

Mas existe um amor sobre o qual falamos pouco.

 

Philautia.

 

O amor por si mesmo.

 

E talvez seja justamente aí que muitos de nós tropeçamos.

 

Fomos ensinados a amar os outros, a servir, a cuidar, a agradar. Porém, nem sempre aprendemos a olhar para dentro com gentileza. Nem sempre aprendemos a acolher nossas fragilidades, respeitar nossos limites e reconhecer nosso próprio valor.

 

Na clínica, tenho percebido algo curioso.

 

Muitas dores emocionais não nascem da falta de amor dos outros. Nascem da ausência de amor por si mesmo.

 

Como oferecer compreensão se não nos compreendemos?

 

Como acolher se não nos acolhemos?

 

Como perdoar se ainda carregamos condenações contra nós mesmos?

 

Talvez o crescimento humano não esteja em escolher um único tipo de amor.

 

Talvez esteja em desenvolver todos eles.

 

Aprender a amar romanticamente sem perder a amizade.

 

Aprender a cuidar da família sem abandonar a própria individualidade.

 

Aprender a servir sem esquecer de si mesmo.

 

Aprender a olhar para si sem se tornar egoísta.

 

Será possível alcançar esse equilíbrio?

 

Acredito que sim.

 

Não como um destino final, mas como uma caminhada.

 

Porque o amor não é um lugar onde chegamos. É uma experiência que vamos aprendendo a viver.

 

Em seu tempo.

 

Em cada encontro.

 

Em cada perda.

 

Em cada recomeço.

 

Talvez o verdadeiro autoconhecimento aconteça quando percebemos que carregamos dentro de nós todas essas possibilidades de amor.

 

E que amadurecer é permitir que cada uma delas encontre seu espaço para florescer.

 

Assim como a roseira que observei naquela manhã.

 

Algumas flores já abertas.

 

Outras ainda por nascer.

 

Mas todas carregando a mesma essência.


3 de junho de 2026

 


A Cruz

 

Há algo profundamente inquietante acontecendo diante dos nossos olhos…

E talvez o mais assustador seja perceber que muitos já não conseguem enxergar.

 

A Cruz ficou vazia para que o homem pudesse ser cheio de graça.

Mas o homem esvaziou a graça e voltou a carregar pedras.

 

O Cristianismo nasceu em meio à dor, ao amor e ao sacrifício.

Nasceu entre pobres, feridos, marginalizados, prostitutas, pescadores e pecadores.

Jesus nunca construiu palanques.

Construiu pontes.

 

Mas o que fizeram com o Evangelho?

 

Transformaram púlpitos em trincheiras ideológicas.

Transformaram a Igreja em arena política.

Transformaram irmãos em inimigos por causa de partidos.

E agora medem espiritualidade pela cartilha ideológica que alguém carrega no bolso.

 

Se Cristo voltasse hoje… talvez fosse novamente rejeitado pelos religiosos.

 

Porque Jesus jamais foi refém de direita ou esquerda.

Ele confrontou os dois lados quando ambos perderam a humanidade.

 

Confrontou sacerdotes que exploravam a fé.

Fariseus que transformavam religião em vaidade espiritual.

Homens que sabiam citar as Escrituras, mas não sabiam amar.

 

E talvez hoje Ele entrasse em muitos templos e repetisse as mesmas palavras:

“Vocês falam de Deus, mas esqueceram do próximo.”

 

A Cruz virou símbolo de disputa.

Símbolo de poder.

Símbolo de barganha emocional e política.

 

Quem pensa diferente é chamado de herege.

Quem questiona é tratado como rebelde.

Quem não se curva à ideologia dominante é rotulado de endemoniado, perdido, filho do diabo.

 

Mas desde quando Cristo pediu uniformidade política para oferecer salvação?

 

A pergunta que ecoa é dolorosa:

O que fizeram com a essência do Cristianismo?

 

Porque a essência do Evangelho nunca foi o ódio.

Nunca foi o fanatismo.

Nunca foi a idolatria política travestida de santidade.

 

A essência do Cristianismo é amor.

 

Amar a Deus acima de todas as coisas.

E amar o próximo como a si mesmo.

 

Sim… amar até quem pensa diferente.

Até quem vota diferente.

Até quem interpreta a vida de outra maneira.

 

A Cruz não foi levantada para dividir homens.

Foi levantada para reconciliá-los.

 

Ela não representa domínio.

Representa entrega.

 

Não representa violência.

Representa perdão.

 

Não representa arrogância religiosa.

Representa graça.

 

Enquanto muitos disputam quem está “mais certo”, o mundo sangra emocionalmente.

Pessoas continuam deprimidas.

Famílias continuam destruídas.

Jovens continuam perdidos.

E muitos cristãos continuam mais preocupados em defender políticos do que em defender vidas.

 

Talvez os reformadores da Igreja chorassem ao ver o que parte do Cristianismo se tornou.

 

Porque a Reforma nunca foi um chamado ao orgulho religioso.

Foi um grito de retorno à essência.

 

E a essência sempre foi Cristo.

 

Não a vaidade humana.

Não os títulos.

Não o espetáculo.

Não os interesses escondidos atrás de discursos “santos”.

 

A Cruz continua vazia.

 

Mas talvez os corações estejam cheios demais de si mesmos para compreender seu significado.

 

A Cruz fala de renúncia.

De humildade.

De misericórdia.

De compaixão.

De perdão.

 

Ela não aponta para um partido.

Aponta para um Reino.

 

E talvez esteja faltando coragem para admitir:

em muitos momentos, usamos o nome de Deus para defender nossos próprios interesses.

 

Deus tenha compaixão desta sociedade.

 

Porque o Cristo que morreu na Cruz ainda continua procurando homens e mulheres capazes de amar mais do que atacar…

servir mais do que dominar…

e acolher mais do que condenar.

 

E talvez a maior conversão que precise acontecer hoje…

seja dentro da própria religião.

 

Acimarley Freitas

Filósofo, Psicólogo e Teólogo

28 de maio de 2026

 




Vender o Almoço para Comprar a Janta

 

Por Acimarley Freitas

 

Existe uma frase antiga no Brasil que muita gente repete quase sorrindo, como quem conta uma piada já cansada da própria tristeza:

 

“Estou vendendo o almoço para comprar a janta.”

 

Mas talvez o mais assustador não seja a frase.

 

Talvez seja o fato de termos nos acostumado a ela.

 

Ela virou bordão. Meme. Costume. Folclore urbano. E quando o sofrimento vira linguagem popular, é porque a sociedade já começou a normalizar aquilo que deveria causar indignação.

 

Um trabalhador que recebe um salário mínimo de R$ 1.612,00 — depois de descontos, contas e sobrevivência — descobre, fazendo as contas friamente, que seu dia de trabalho vale menos de cinquenta e cinco reais.

 

Menos de cinquenta e cinco reais.

 

Agora imagine isso: um prato feito simples, em muitas cidades, custa quase trinta reais.

 

Ou seja: uma única refeição pode consumir mais da metade do valor de um dia inteiro da vida de alguém.

 

E talvez seja aqui que mora a violência mais silenciosa da desigualdade: ela não mata apenas o corpo. Ela desgasta a dignidade aos poucos.

 

Porque existe algo psicologicamente cruel em acordar cedo, enfrentar ônibus lotado, trânsito, pressão, humilhações sutis, metas, cobranças, dores físicas e emocionais… e perceber que o resultado financeiro do seu esforço mal consegue sustentar o básico da existência humana.

 

O trabalhador moderno muitas vezes não vive. Ele administra escassez.

 

Ele aprende a parcelar a própria sobrevivência.

 

Divide comida. Divide remédio. Divide sonhos. Divide o gás. Divide a ansiedade. Divide até a esperança.

 

E o mais curioso é que, sociologicamente, criamos uma cultura onde a exaustão virou símbolo de honra.

 

Quem descansa é chamado de preguiçoso. Quem questiona é chamado de ingrato. Quem adoece emocionalmente é acusado de fraqueza.

 

Então milhões seguem trabalhando não apenas para sobreviver… mas para provar valor dentro de um sistema que frequentemente mede seres humanos pela capacidade de produzir até o esgotamento.

 

A filosofia talvez perguntasse: em que momento o ser humano deixou de ser fim e passou a ser apenas ferramenta?

 

Porque há algo profundamente adoecido em uma sociedade onde o trabalhador produz riqueza, movimenta mercados, sustenta cidades inteiras… mas termina o mês calculando se consegue comprar carne, pagar energia ou abastecer a moto.

 

E talvez a autocrítica mais dura não seja dirigida apenas aos governos, aos empresários ou ao sistema econômico.

 

Talvez ela precise alcançar também o nosso silêncio coletivo.

 

Porque, aos poucos, fomos aceitando.

 

Aceitando trabalhar sem viver. Aceitando sobreviver sem sonhar. Aceitando transformar necessidades básicas em luxo. Aceitando romantizar o cansaço. Aceitando chamar sobrevivência de privilégio.

 

E isso produz um fenôeno perigoso: o ser humano começa a desaprender o direito de desejar uma vida minimamente digna.

 

Não é apenas sobre dinheiro.

 

É sobre saúde mental. É sobre tempo. É sobre humanidade. É sobre poder sentar à mesa sem sentir culpa pelo preço da comida. É sobre não precisar escolher entre comprar o almoço ou garantir a janta.

 

No fundo, talvez o maior sinal de pobreza de uma sociedade não seja a falta de recursos.

 

Seja a capacidade que ela desenvolveu de fazer pessoas honestas acreditarem que viver no limite é normal.

 

E quando um trabalhador passa a agradecer apenas por conseguir sobreviver… talvez o sistema já tenha vencido uma batalha silenciosa dentro da alma humana.

 

(Cognitio est veritas quae liberat.)

 

“O conhecimento é a verdade que liberta.”