Psicologa Organizacional

3 de junho de 2026

 


A Cruz

 

Há algo profundamente inquietante acontecendo diante dos nossos olhos…

E talvez o mais assustador seja perceber que muitos já não conseguem enxergar.

 

A Cruz ficou vazia para que o homem pudesse ser cheio de graça.

Mas o homem esvaziou a graça e voltou a carregar pedras.

 

O Cristianismo nasceu em meio à dor, ao amor e ao sacrifício.

Nasceu entre pobres, feridos, marginalizados, prostitutas, pescadores e pecadores.

Jesus nunca construiu palanques.

Construiu pontes.

 

Mas o que fizeram com o Evangelho?

 

Transformaram púlpitos em trincheiras ideológicas.

Transformaram a Igreja em arena política.

Transformaram irmãos em inimigos por causa de partidos.

E agora medem espiritualidade pela cartilha ideológica que alguém carrega no bolso.

 

Se Cristo voltasse hoje… talvez fosse novamente rejeitado pelos religiosos.

 

Porque Jesus jamais foi refém de direita ou esquerda.

Ele confrontou os dois lados quando ambos perderam a humanidade.

 

Confrontou sacerdotes que exploravam a fé.

Fariseus que transformavam religião em vaidade espiritual.

Homens que sabiam citar as Escrituras, mas não sabiam amar.

 

E talvez hoje Ele entrasse em muitos templos e repetisse as mesmas palavras:

“Vocês falam de Deus, mas esqueceram do próximo.”

 

A Cruz virou símbolo de disputa.

Símbolo de poder.

Símbolo de barganha emocional e política.

 

Quem pensa diferente é chamado de herege.

Quem questiona é tratado como rebelde.

Quem não se curva à ideologia dominante é rotulado de endemoniado, perdido, filho do diabo.

 

Mas desde quando Cristo pediu uniformidade política para oferecer salvação?

 

A pergunta que ecoa é dolorosa:

O que fizeram com a essência do Cristianismo?

 

Porque a essência do Evangelho nunca foi o ódio.

Nunca foi o fanatismo.

Nunca foi a idolatria política travestida de santidade.

 

A essência do Cristianismo é amor.

 

Amar a Deus acima de todas as coisas.

E amar o próximo como a si mesmo.

 

Sim… amar até quem pensa diferente.

Até quem vota diferente.

Até quem interpreta a vida de outra maneira.

 

A Cruz não foi levantada para dividir homens.

Foi levantada para reconciliá-los.

 

Ela não representa domínio.

Representa entrega.

 

Não representa violência.

Representa perdão.

 

Não representa arrogância religiosa.

Representa graça.

 

Enquanto muitos disputam quem está “mais certo”, o mundo sangra emocionalmente.

Pessoas continuam deprimidas.

Famílias continuam destruídas.

Jovens continuam perdidos.

E muitos cristãos continuam mais preocupados em defender políticos do que em defender vidas.

 

Talvez os reformadores da Igreja chorassem ao ver o que parte do Cristianismo se tornou.

 

Porque a Reforma nunca foi um chamado ao orgulho religioso.

Foi um grito de retorno à essência.

 

E a essência sempre foi Cristo.

 

Não a vaidade humana.

Não os títulos.

Não o espetáculo.

Não os interesses escondidos atrás de discursos “santos”.

 

A Cruz continua vazia.

 

Mas talvez os corações estejam cheios demais de si mesmos para compreender seu significado.

 

A Cruz fala de renúncia.

De humildade.

De misericórdia.

De compaixão.

De perdão.

 

Ela não aponta para um partido.

Aponta para um Reino.

 

E talvez esteja faltando coragem para admitir:

em muitos momentos, usamos o nome de Deus para defender nossos próprios interesses.

 

Deus tenha compaixão desta sociedade.

 

Porque o Cristo que morreu na Cruz ainda continua procurando homens e mulheres capazes de amar mais do que atacar…

servir mais do que dominar…

e acolher mais do que condenar.

 

E talvez a maior conversão que precise acontecer hoje…

seja dentro da própria religião.

 

Acimarley Freitas

Filósofo, Psicólogo e Teólogo

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