Psicologa Organizacional

8 de junho de 2026

 




Quando o Wi-Fi Cai e a Alma Volta a Falar

 

Por Acimarley Freitas

 

Vivemos conectados.

Conectados às notificações, aos vídeos curtos, às mensagens instantâneas, às opiniões de desconhecidos e às vidas cuidadosamente editadas que desfilam diante dos nossos olhos todos os dias.

Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados... e tão distantes de nós mesmos.

Há alguns anos, quando alguém sentia tristeza, procurava um amigo. Quando sentia saudade, escrevia uma carta. Quando amava, olhava nos olhos. Hoje, muitas vezes, sentimos tudo isso diante de uma tela iluminada que cabe na palma da mão.

Não sou contra a tecnologia. Ela aproxima quem está longe, informa, ensina e cria oportunidades extraordinárias. O problema surge quando a conexão digital começa a substituir a conexão humana.

Percebo isso frequentemente em meu consultório.

Pessoas que sabem tudo sobre a vida dos outros, mas quase nada sobre a própria vida emocional.

Sabem quantos seguidores possuem, mas não conseguem dizer o que estão sentindo.

Conhecem as tendências do momento, mas perderam o contato com os próprios sonhos.

Talvez o maior risco das redes sociais não seja o tempo que elas consomem, mas o silêncio interior que elas abafam.

Porque sentir exige pausa.

E a pausa se tornou um artigo raro.

Quando desligamos a tela, muitas vezes encontramos aquilo que passamos o dia tentando evitar: nossas emoções.

Encontramos a tristeza que não foi chorada.

A saudade que não foi acolhida.

A ansiedade que não foi compreendida.

O medo que foi escondido atrás de mais um vídeo, mais uma postagem, mais uma distração.

Mas existe algo curioso.

As emoções ignoradas não desaparecem.

Elas apenas aguardam.

Esperam o momento em que finalmente teremos coragem de escutá-las.

Desconectar das redes sociais não significa abandonar a tecnologia.

Significa recuperar a capacidade de estar presente.

Presente numa conversa.

Presente num abraço.

Presente numa refeição em família.

Presente diante de um pôr do sol.

Presente diante de si mesmo.

Talvez seja por isso que os momentos mais importantes da vida raramente cabem em uma postagem.

O abraço de alguém que amamos.

O sorriso espontâneo de um filho.

A conversa sincera com um amigo.

O silêncio compartilhado com quem nos faz sentir seguros.

Essas experiências não precisam de curtidas para serem valiosas.

Elas já possuem significado por si mesmas.

Carl Rogers, um dos psicólogos que mais influenciam minha forma de compreender o ser humano, acreditava que o crescimento acontece quando encontramos ambientes de autenticidade, aceitação e empatia.

E penso que essa verdade continua atual.

Nenhum algoritmo consegue substituir a experiência de ser verdadeiramente compreendido por outro ser humano.

Nenhuma tela consegue reproduzir a profundidade de um olhar acolhedor.

Nenhuma rede social pode oferecer aquilo que os afetos genuínos oferecem: pertencimento.

Talvez esteja na hora de fazermos uma pergunta simples:

Quando foi a última vez que você passou mais tempo sentindo do que rolando a tela?

Talvez a resposta revele algo importante.

Porque enquanto o mundo virtual disputa a sua atenção, a sua vida real continua acontecendo.

Os afetos continuam esperando.

As emoções continuam pedindo espaço.

E a alma continua desejando aquilo que sempre desejou: conexão.

Não conexão com o sinal do Wi-Fi.

Mas conexão consigo mesmo, com quem você ama e com aquilo que dá sentido à sua existência.

Às vezes, o melhor lugar para encontrar a si mesmo não está online. Está dentro de você.

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