Quando o
Wi-Fi Cai e a Alma Volta a Falar
Por Acimarley Freitas
Vivemos conectados.
Conectados às notificações, aos vídeos curtos, às
mensagens instantâneas, às opiniões de desconhecidos e às vidas cuidadosamente
editadas que desfilam diante dos nossos olhos todos os dias.
Paradoxalmente,
nunca estivemos tão conectados... e tão distantes de nós mesmos.
Há alguns anos, quando alguém sentia tristeza,
procurava um amigo. Quando sentia saudade, escrevia uma carta. Quando amava,
olhava nos olhos. Hoje, muitas vezes, sentimos tudo isso diante de uma tela
iluminada que cabe na palma da mão.
Não sou contra a tecnologia. Ela aproxima quem está
longe, informa, ensina e cria oportunidades extraordinárias. O problema surge
quando a conexão digital começa a substituir a conexão humana.
Percebo isso frequentemente em meu consultório.
Pessoas
que sabem tudo sobre a vida dos outros, mas quase nada sobre a própria vida
emocional.
Sabem quantos seguidores possuem, mas não conseguem
dizer o que estão sentindo.
Conhecem as tendências do momento, mas perderam o
contato com os próprios sonhos.
Talvez o maior risco das redes sociais não seja o
tempo que elas consomem, mas o silêncio interior que elas abafam.
Porque sentir exige pausa.
E a pausa
se tornou um artigo raro.
Quando
desligamos a tela, muitas vezes encontramos aquilo que passamos o dia tentando
evitar: nossas
emoções.
Encontramos a tristeza que não foi chorada.
A saudade que não foi acolhida.
A ansiedade que não foi compreendida.
O medo que foi escondido atrás de mais um vídeo,
mais uma postagem, mais uma distração.
Mas existe algo curioso.
As
emoções ignoradas não desaparecem.
Elas apenas aguardam.
Esperam o momento em que finalmente teremos coragem
de escutá-las.
Desconectar
das redes sociais não significa abandonar a tecnologia.
Significa recuperar a capacidade de estar presente.
Presente numa conversa.
Presente num abraço.
Presente numa refeição em família.
Presente diante de um pôr do sol.
Presente
diante de si mesmo.
Talvez seja por isso que os momentos mais
importantes da vida raramente cabem em uma postagem.
O abraço de alguém que amamos.
O sorriso espontâneo de um filho.
A conversa sincera com um amigo.
O silêncio compartilhado com quem nos faz sentir
seguros.
Essas experiências não precisam de curtidas para
serem valiosas.
Elas já possuem significado por si mesmas.
Carl Rogers, um dos psicólogos que mais influenciam
minha forma de compreender o ser humano, acreditava que o crescimento acontece
quando encontramos ambientes de autenticidade, aceitação e empatia.
E penso que essa verdade continua atual.
Nenhum algoritmo consegue substituir a experiência
de ser verdadeiramente compreendido por outro ser humano.
Nenhuma tela consegue reproduzir a profundidade de
um olhar acolhedor.
Nenhuma rede social pode oferecer aquilo que os
afetos genuínos oferecem: pertencimento.
Talvez esteja na hora de fazermos uma pergunta
simples:
Quando
foi a última vez que você passou mais tempo sentindo do que rolando a tela?
Talvez a resposta revele algo importante.
Porque enquanto o mundo virtual disputa a sua
atenção, a sua vida real continua acontecendo.
Os afetos continuam esperando.
As emoções continuam pedindo espaço.
E a alma continua desejando aquilo que sempre
desejou: conexão.
Não conexão com o sinal do Wi-Fi.
Mas
conexão consigo mesmo, com quem você ama e com aquilo que dá sentido à sua
existência.
Às vezes, o melhor lugar para encontrar a si mesmo
não está online. Está dentro de você.
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