Psicologa Organizacional

8 de junho de 2026

 



Os Amores que Habitam em Nós

 

Por Acimarley Freitas

 

Outro dia me peguei observando uma roseira.

 

Algumas flores estavam plenamente abertas. Outras ainda eram apenas botões tímidos. Algumas pétalas já começavam a cair, cumprindo silenciosamente o ciclo da vida.

 

Enquanto observava aquela cena simples, pensei no amor.

 

Passamos boa parte da vida acreditando que amor é uma coisa só. Crescemos ouvindo histórias de romances, canções apaixonadas e promessas de felicidade eterna. Mas, à medida que amadurecemos, percebemos que o amor possui muitos rostos, muitas vozes e muitas formas de se manifestar.

 

Talvez o autoconhecimento seja justamente a arte de descobrir quais amores já floresceram em nós, quais ainda estão adormecidos e quais precisam ser cultivados.

 

Conhecemos o Éros, o amor da paixão.

 

É ele que acelera o coração, colore os dias e faz o mundo parecer mais bonito. É o amor dos encontros, dos olhares demorados e dos sonhos compartilhados. Mas a vida ensina que nenhuma paixão consegue sustentar sozinha uma existência inteira. O fogo aquece, mas também precisa de lenha para permanecer aceso.

 

Conhecemos também o Phileo, o amor da amizade.

 

É aquele que se senta ao nosso lado quando o mundo parece pesado demais. É a mão estendida sem julgamentos. É a conversa que cura sem precisar oferecer soluções. Muitos descobrem que os melhores relacionamentos amorosos são aqueles que aprendem a preservar a amizade mesmo depois que o encanto inicial se transforma em convivência.

 

Existe ainda o Storgé, o amor dos vínculos familiares.

 

Nem sempre perfeito. Nem sempre fácil.

 

Mas é nesse amor que aprendemos nossas primeiras lições sobre pertencimento, cuidado, proteção e afeto. Algumas pessoas receberam esse amor em abundância. Outras precisaram reconstruí-lo ao longo da vida, encontrando família em amigos, comunidades e pessoas que o coração escolheu para caminhar junto.

 

Há também o Ágape.

 

Talvez o mais desafiador de todos.

 

É o amor que ultrapassa interesses pessoais. É a capacidade de desejar o bem mesmo quando não há retorno. É o amor presente nos gestos silenciosos, no perdão, na compaixão e na generosidade. Não é um amor ingênuo. É um amor maduro. Um amor que escolhe cuidar.

 

Mas existe um amor sobre o qual falamos pouco.

 

Philautia.

 

O amor por si mesmo.

 

E talvez seja justamente aí que muitos de nós tropeçamos.

 

Fomos ensinados a amar os outros, a servir, a cuidar, a agradar. Porém, nem sempre aprendemos a olhar para dentro com gentileza. Nem sempre aprendemos a acolher nossas fragilidades, respeitar nossos limites e reconhecer nosso próprio valor.

 

Na clínica, tenho percebido algo curioso.

 

Muitas dores emocionais não nascem da falta de amor dos outros. Nascem da ausência de amor por si mesmo.

 

Como oferecer compreensão se não nos compreendemos?

 

Como acolher se não nos acolhemos?

 

Como perdoar se ainda carregamos condenações contra nós mesmos?

 

Talvez o crescimento humano não esteja em escolher um único tipo de amor.

 

Talvez esteja em desenvolver todos eles.

 

Aprender a amar romanticamente sem perder a amizade.

 

Aprender a cuidar da família sem abandonar a própria individualidade.

 

Aprender a servir sem esquecer de si mesmo.

 

Aprender a olhar para si sem se tornar egoísta.

 

Será possível alcançar esse equilíbrio?

 

Acredito que sim.

 

Não como um destino final, mas como uma caminhada.

 

Porque o amor não é um lugar onde chegamos. É uma experiência que vamos aprendendo a viver.

 

Em seu tempo.

 

Em cada encontro.

 

Em cada perda.

 

Em cada recomeço.

 

Talvez o verdadeiro autoconhecimento aconteça quando percebemos que carregamos dentro de nós todas essas possibilidades de amor.

 

E que amadurecer é permitir que cada uma delas encontre seu espaço para florescer.

 

Assim como a roseira que observei naquela manhã.

 

Algumas flores já abertas.

 

Outras ainda por nascer.

 

Mas todas carregando a mesma essência.


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