O País dos Olhos Abertos
Por
Acimarley Freitas
Dizem
que o Brasil nunca ficou cego.
E
talvez esteja aí o nosso maior problema.
Vemos
tudo.
Vemos
a criança pedindo esmola no sinal enquanto o vidro do carro sobe. Vemos a
enchente levar a casa de uma família e, no mesmo minuto, deslizamos o dedo para
assistir ao próximo vídeo engraçado. Vemos a corrupção e a defendemos quando
ela veste a camisa do nosso time. Vemos a fome, a violência, o preconceito, a
solidão, a destruição das matas e os sonhos abandonados nas esquinas.
Vemos.
Mas
há uma estranha doença rondando o país.
Uma
cegueira que não apaga a retina, apenas o coração.
Nas
ruas, pessoas caminham com os olhos grudados em pequenas telas luminosas. Nunca
tivemos tanto acesso à informação, mas faz tempo que confundimos opinião com
verdade e grito com argumento. Cada um carrega a própria lanterna, mas poucos a
apontam para dentro de si.
Há
quem enxergue apenas a própria dor.
Há
quem enxergue apenas o próprio bolso.
Há
quem enxergue apenas o próprio partido, a própria religião, a própria classe
social, o próprio mundo.
E,
de tanto olhar para si, deixamos de perceber que o Brasil sempre foi uma grande
mesa, onde o pão só faz sentido quando repartido.
O
curioso é que o país não perdeu a visão de uma vez.
Foi
aos poucos.
Primeiro
deixamos de enxergar o vizinho.
Depois
o amigo.
Depois
quem pensa diferente.
Depois
quem sofre.
Até
que um dia descobrimos que estávamos cercados de gente e, ainda assim,
profundamente sozinhos.
Talvez
a maior epidemia dos nossos tempos não seja a violência, nem a intolerância,
nem a desesperança.
Talvez
seja a indiferença.
Ela
não faz barulho.
Não
provoca febre.
Não
aparece nos exames.
Ela
apenas nos convence de que a dor do outro é problema do outro.
E
assim seguimos.
Construindo
muros mais altos e pontes mais curtas.
Colecionando
seguidores enquanto perdemos amigos.
Defendendo
discursos de humanidade sem oferecer um copo d'água a quem tem sede.
Às
vezes penso que o Brasil se parece com uma enorme praça ao entardecer.
Milhares
de pessoas passam umas pelas outras.
Cada
uma carregando seus medos, suas contas para pagar, suas feridas invisíveis.
Algumas
tropeçam.
Outras
caem.
E
a multidão continua andando, como se o chão nunca pudesse chamar pelo próprio
nome.
Mas
há uma esperança.
Ela
sempre existe.
Está
na professora que compra material escolar com o próprio salário.
No
médico que segura uma mão antes de entregar um diagnóstico.
No
agricultor que planta sabendo que talvez nem colha.
Na
mãe que divide o pouco que tem.
No
jovem que acredita que estudar ainda pode mudar uma história.
No
voluntário que cozinha para desconhecidos.
No
psicólogo que escolhe escutar onde o mundo só quer falar.
Talvez
sejam essas pessoas as únicas que ainda enxergam.
Não
porque tenham respostas para os problemas do país.
Mas
porque recusam a aceitar que a humanidade seja apenas um detalhe.
Tenho
pensado que o Brasil não precisa de um milagre nos olhos.
Precisa
de um milagre no olhar.
Porque
há uma enorme diferença entre olhar e ver.
Olhar
é um movimento das pálpebras.
Ver
é um compromisso da alma.
E
talvez o futuro desta terra não dependa daqueles que conseguem enxergar longe.
Mas
daqueles que ainda conseguem enxergar o outro.
Quem
sabe o verdadeiro antídoto para a nossa cegueira coletiva não seja uma cura
extraordinária.
Quem
sabe seja algo muito mais simples.
Parar.
Encontrar
alguém pelo caminho.
E
dizer, com a coragem dos que ainda acreditam na vida:
"Eu
estou vendo você."
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