Psicologa Organizacional

10 de junho de 2026

 



O País dos Olhos Abertos

 

Por Acimarley Freitas

 

Dizem que o Brasil nunca ficou cego.

 

E talvez esteja aí o nosso maior problema.

 

Vemos tudo.

 

Vemos a criança pedindo esmola no sinal enquanto o vidro do carro sobe. Vemos a enchente levar a casa de uma família e, no mesmo minuto, deslizamos o dedo para assistir ao próximo vídeo engraçado. Vemos a corrupção e a defendemos quando ela veste a camisa do nosso time. Vemos a fome, a violência, o preconceito, a solidão, a destruição das matas e os sonhos abandonados nas esquinas.

 

Vemos.

 

Mas há uma estranha doença rondando o país.

 

Uma cegueira que não apaga a retina, apenas o coração.

 

Nas ruas, pessoas caminham com os olhos grudados em pequenas telas luminosas. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas faz tempo que confundimos opinião com verdade e grito com argumento. Cada um carrega a própria lanterna, mas poucos a apontam para dentro de si.

 

Há quem enxergue apenas a própria dor.

 

Há quem enxergue apenas o próprio bolso.

 

Há quem enxergue apenas o próprio partido, a própria religião, a própria classe social, o próprio mundo.

 

E, de tanto olhar para si, deixamos de perceber que o Brasil sempre foi uma grande mesa, onde o pão só faz sentido quando repartido.

 

O curioso é que o país não perdeu a visão de uma vez.

 

Foi aos poucos.

 

Primeiro deixamos de enxergar o vizinho.

 

Depois o amigo.

 

Depois quem pensa diferente.

 

Depois quem sofre.

 

Até que um dia descobrimos que estávamos cercados de gente e, ainda assim, profundamente sozinhos.

 

Talvez a maior epidemia dos nossos tempos não seja a violência, nem a intolerância, nem a desesperança.

 

Talvez seja a indiferença.

 

Ela não faz barulho.

 

Não provoca febre.

 

Não aparece nos exames.

 

Ela apenas nos convence de que a dor do outro é problema do outro.

 

E assim seguimos.

 

Construindo muros mais altos e pontes mais curtas.

 

Colecionando seguidores enquanto perdemos amigos.

 

Defendendo discursos de humanidade sem oferecer um copo d'água a quem tem sede.

 

Às vezes penso que o Brasil se parece com uma enorme praça ao entardecer.

 

Milhares de pessoas passam umas pelas outras.

 

Cada uma carregando seus medos, suas contas para pagar, suas feridas invisíveis.

 

Algumas tropeçam.

 

Outras caem.

 

E a multidão continua andando, como se o chão nunca pudesse chamar pelo próprio nome.

 

Mas há uma esperança.

 

Ela sempre existe.

 

Está na professora que compra material escolar com o próprio salário.

 

No médico que segura uma mão antes de entregar um diagnóstico.

 

No agricultor que planta sabendo que talvez nem colha.

 

Na mãe que divide o pouco que tem.

 

No jovem que acredita que estudar ainda pode mudar uma história.

 

No voluntário que cozinha para desconhecidos.

 

No psicólogo que escolhe escutar onde o mundo só quer falar.

 

Talvez sejam essas pessoas as únicas que ainda enxergam.

 

Não porque tenham respostas para os problemas do país.

 

Mas porque recusam a aceitar que a humanidade seja apenas um detalhe.

 

Tenho pensado que o Brasil não precisa de um milagre nos olhos.

 

Precisa de um milagre no olhar.

 

Porque há uma enorme diferença entre olhar e ver.

 

Olhar é um movimento das pálpebras.

 

Ver é um compromisso da alma.

 

E talvez o futuro desta terra não dependa daqueles que conseguem enxergar longe.

 

Mas daqueles que ainda conseguem enxergar o outro.

 

Quem sabe o verdadeiro antídoto para a nossa cegueira coletiva não seja uma cura extraordinária.

 

Quem sabe seja algo muito mais simples.

 

Parar.

 

Encontrar alguém pelo caminho.

 

E dizer, com a coragem dos que ainda acreditam na vida:

 

"Eu estou vendo você."


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