Psicologa Organizacional

28 de abril de 2026

 



Desvio de caráter: compreensão teórica e possibilidades de reestruturação à luz da Abordagem Centrada na Pessoa

 

O presente artigo tem como objetivo analisar o conceito de desvio de caráter sob a perspectiva da psicologia, especialmente à luz da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Busca-se compreender os fatores que contribuem para a formação de padrões comportamentais considerados desviantes, bem como investigar a possibilidade de reestruturação psíquica e moral do indivíduo. A partir de uma metodologia de natureza qualitativa, baseada em pesquisa bibliográfica com autores clássicos e contemporâneos da psicologia humanista, como Carl Rogers, Abraham Maslow, Rollo May, além de contribuições brasileiras como Bock, Figueiredo e Amatuzzi, este estudo se propõe a oferecer uma leitura mais aprofundada e humanizada do tema. Os resultados indicam que o chamado “desvio de caráter” não deve ser compreendido como uma condição fixa ou essencial do sujeito, mas como uma construção relacional e histórica, passível de transformação mediante condições facilitadoras de crescimento. Dessa forma, parte-se do pressuposto de que, dentro da ACP, a reestruturação é possível quando há um ambiente terapêutico que favoreça autenticidade, aceitação incondicional e compreensão empática.

Inicialmente, é importante destacar que o conceito de “desvio de caráter” é frequentemente utilizado no senso comum para designar comportamentos moralmente inadequados, antiéticos ou socialmente reprováveis. Entretanto, no campo científico da psicologia, tal expressão carece de uma definição precisa, exigindo uma análise mais criteriosa que considere os aspectos subjetivos, sociais e históricos envolvidos na constituição da personalidade. Nesse sentido, a psicologia humanista, especialmente por meio da Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, propõe uma compreensão do ser humano como um organismo em constante processo de desenvolvimento, dotado de uma tendência atualizante. Assim, comportamentos considerados desviantes podem ser compreendidos não como manifestações fixas de um “caráter corrompido”, mas como respostas adaptativas a contextos adversos vivenciados pelo indivíduo ao longo de sua trajetória.

Dando continuidade à análise, torna-se fundamental compreender que, segundo Carl Rogers (1961), todo indivíduo possui uma tendência inata à atualização, ou seja, uma força interna que o impulsiona ao crescimento e à realização de seu potencial. Contudo, essa tendência pode ser distorcida quando o sujeito é submetido a condições de valor, isto é, quando sua aceitação passa a estar condicionada a determinados comportamentos impostos pelo meio. Como consequência, o indivíduo pode internalizar tais condições, desenvolvendo uma incongruência entre sua experiência real e seu autoconceito, o que, por sua vez, pode resultar em comportamentos considerados disfuncionais ou desviantes. Portanto, o chamado “desvio de caráter” pode ser compreendido como uma manifestação dessa incongruência interna.

Além disso, ao dialogar com outros teóricos da psicologia humanista, observa-se que Abraham Maslow (1970), ao tratar da hierarquia das necessidades, destaca que a frustração de necessidades básicas pode comprometer o desenvolvimento saudável da personalidade. Em consonância com essa perspectiva, Rollo May (1983) enfatiza a importância da liberdade e da responsabilidade na construção do ser, apontando que a ausência de sentido existencial pode levar o indivíduo a adotar comportamentos destrutivos. No contexto brasileiro, Bock, Furtado e Teixeira (2002) ressaltam que o comportamento humano é resultado de múltiplas determinações, incluindo fatores sociais, culturais e históricos, enquanto Amatuzzi (2001) destaca a importância da escuta empática no processo terapêutico como meio de facilitar a reorganização interna do sujeito.

Dessa forma, à luz da Abordagem Centrada na Pessoa, compreende-se que a reestruturação do indivíduo é possível, desde que ele esteja inserido em um ambiente que ofereça condições facilitadoras adequadas. Especificamente, Rogers propõe três condições fundamentais para o crescimento terapêutico: a congruência, que se refere à autenticidade do terapeuta; a consideração positiva incondicional, caracterizada pela aceitação do cliente sem julgamentos; e a compreensão empática, que envolve a capacidade de compreender o mundo interno do outro como se fosse o seu, sem, contudo, perder a própria referência. Tais condições favorecem a redução da incongruência e promovem o desenvolvimento de um self mais integrado e funcional.

Ademais, a relevância deste estudo se justifica pela necessidade de superar visões reducionistas e deterministas acerca do comportamento humano, especialmente em um contexto social marcado por julgamentos e estigmatizações. Ao propor uma compreensão mais empática e fundamentada, este trabalho contribui para a valorização da subjetividade e da possibilidade de transformação, reconhecendo o indivíduo como um ser em constante construção.

Por fim, conclui-se que o conceito de “desvio de caráter” deve ser abordado com cautela no campo da psicologia, uma vez que não representa uma essência fixa do sujeito, mas sim uma construção dinâmica, influenciada por experiências de vida, relações interpessoais e contextos socioculturais. À luz da Abordagem Centrada na Pessoa, torna-se possível afirmar que a reestruturação do indivíduo é não apenas viável, mas também inerente à sua natureza, desde que sejam oferecidas condições facilitadoras que promovam autenticidade, aceitação e empatia. Nesse sentido, o processo terapêutico configura-se como um espaço privilegiado para a reconstrução do self, favorecendo o desenvolvimento pessoal, a autonomia e a realização humana.

 

REFERÊNCIAS

AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 2001.

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002.

FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Psicologia: uma introdução. São Paulo: EDUC, 1991.

MASLOW, Abraham H. Motivação e personalidade. Rio de Janeiro: Harper & Row do Brasil, 1970.

MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. Petrópolis: Vozes, 1983.

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.

ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.


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