Psicologa Organizacional

28 de abril de 2026

 


Violência religiosa em comunidades terapêuticas: uma análise interdisciplinar à luz da Abordagem Centrada na Pessoa sobre o uso da espiritualidade no tratamento de pessoas dependentes de álcool e outras drogas

 

O presente texto tem como objetivo analisar criticamente a ocorrência de violência religiosa em comunidades terapêuticas destinadas ao tratamento de pessoas dependentes de álcool e outras drogas, especialmente quando uma única tradição religiosa é imposta como referência institucional. A partir de uma abordagem interdisciplinar que integra psicologia, teologia e sociologia, busca-se compreender os impactos dessa imposição sobre a subjetividade do indivíduo, bem como discutir a possibilidade de utilização da espiritualidade como ferramenta terapêutica de forma ética, respeitosa e centrada na pessoa. Para tanto, adota-se uma metodologia qualitativa de natureza bibliográfica, fundamentada na análise de livros, artigos científicos e revistas acadêmicas, com base em autores de reconhecida relevância nacional e internacional. Nesse sentido, parte-se do pressuposto de que a dependência de álcool e outras drogas constitui um fenômeno complexo, envolvendo dimensões biológicas, psicológicas, sociais e espirituais, o que exige uma compreensão ampliada e integrada do cuidado.

Inicialmente, é importante destacar que as comunidades terapêuticas têm se consolidado como dispositivos amplamente utilizados no Brasil, muitas vezes vinculadas a instituições religiosas. Contudo, observa-se que, em determinados contextos, tais espaços adotam práticas que impõem uma única visão religiosa como condição para o tratamento, o que pode configurar formas de violência simbólica e institucional. Diante disso, torna-se fundamental refletir sobre o lugar da espiritualidade no cuidado terapêutico, distinguindo-a da religiosidade institucionalizada. A Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, oferece fundamentos teóricos consistentes para essa análise, ao propor uma compreensão do ser humano como um sujeito singular, dotado de liberdade, potencial de crescimento e necessidade de aceitação incondicional.

Dando continuidade à análise, à luz da sociologia, a violência religiosa pode ser compreendida como uma forma de violência simbólica, conforme proposto por Bourdieu (1989). Segundo o autor, essa forma de violência ocorre quando estruturas de poder impõem significados e valores de maneira naturalizada, levando os indivíduos a internalizarem tais imposições como legítimas. No contexto das comunidades terapêuticas, a imposição de uma única prática religiosa pode comprometer a autonomia do indivíduo, especialmente em situações de vulnerabilidade, como no caso da dependência química, podendo gerar conflitos internos, sentimentos de inadequação e resistência ao processo terapêutico.

Sob a perspectiva psicológica, Carl Rogers (1961) destaca que o desenvolvimento saudável do indivíduo depende de condições facilitadoras como a consideração positiva incondicional, a empatia e a congruência. Dessa forma, a imposição religiosa contraria os princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, uma vez que desconsidera a experiência subjetiva do indivíduo e impõe condições de valor externas. Em continuidade, Viktor Frankl (2008), ao desenvolver a logoterapia, enfatiza a dimensão espiritual como central na busca de sentido da vida; contudo, ressalta que essa dimensão deve ser acessada de forma livre e pessoal, e não imposta. Assim, a espiritualidade pode ser compreendida como uma força existencial que auxilia na superação do sofrimento, desde que respeitada em sua singularidade.

No campo teológico, Leonardo Boff (2006) propõe uma espiritualidade libertadora, centrada no cuidado, na compaixão e no respeito à dignidade humana. Tal perspectiva dialoga diretamente com a proposta de uma abordagem terapêutica que utilize a espiritualidade como recurso de acolhimento, e não como instrumento de dominação. Ademais, autores brasileiros como Safra (2004) e Amatuzzi (2001) reforçam a importância de uma escuta sensível, ética e profunda, que considere o ser humano em sua totalidade. Dessa maneira, a integração entre psicologia, teologia e sociologia permite uma compreensão mais ampla do fenômeno, favorecendo práticas interdisciplinares que respeitem a singularidade do sujeito e promovam seu desenvolvimento integral.

Além disso, é importante ressaltar que a utilização da espiritualidade como ferramenta terapêutica pode ser extremamente benéfica quando conduzida de forma ética e centrada na pessoa. Nesse sentido, ao invés de impor uma crença específica, o profissional pode acolher e valorizar a espiritualidade já existente no indivíduo, utilizando-a como recurso subjetivo de fortalecimento, ressignificação e enfrentamento do sofrimento. Tal postura está em consonância com os princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, que valoriza a autonomia, a liberdade e o potencial de crescimento do ser humano.

Diante do exposto, conclui-se que a violência religiosa em comunidades terapêuticas constitui um problema ético e clínico relevante, que pode comprometer significativamente o processo de recuperação de indivíduos em situação de dependência química. A imposição de uma única visão religiosa, especialmente em contextos de vulnerabilidade, configura uma forma de violência simbólica que fere a autonomia e a dignidade do sujeito. Por outro lado, a espiritualidade, quando compreendida como dimensão subjetiva e existencial, pode constituir-se como um importante recurso terapêutico. Assim, à luz da Abordagem Centrada na Pessoa, é possível afirmar que o respeito à experiência individual, aliado a uma escuta empática e à aceitação incondicional, favorece o crescimento, a reestruturação e a autonomia do indivíduo. Portanto, a utilização da espiritualidade no contexto terapêutico deve ser pautada por princípios éticos, humanizados e interdisciplinares, promovendo o cuidado integral do ser humano e respeitando sua liberdade de crença e expressão.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 2001.

 

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002.

 

BOFF, Leonardo. Espiritualidade: um caminho de transformação. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

 

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

 

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.

 

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.

 

ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

SAFRA, Gilberto. A face estética do self. São Paulo: Unimarco, 2004.


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