Psicologa Organizacional

28 de abril de 2026

 



Infância, abandono parental e formação do conceito de amor: implicações para o desenvolvimento da personalidade e dos vínculos afetivos à luz da Abordagem Centrada na Pessoa e de abordagens correlatas

 

O presente estudo tem como objetivo analisar os impactos do abandono parental na infância sobre a formação da personalidade e, especialmente, sobre a construção do conceito de amor ao longo da vida. Parte-se da compreensão de que crianças que vivenciam a ausência de figuras parentais significativas, ainda que posteriormente recebam cuidado de responsáveis substitutos, elaboram suas experiências afetivas de maneira singular, o que repercute diretamente na forma como desenvolvem seus vínculos interpessoais. Fundamentado na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), proposta por Carl Rogers, e dialogando com outras abordagens psicológicas, como a teoria do apego e a psicanálise, este estudo adota uma metodologia qualitativa de natureza bibliográfica, com base em autores nacionais e internacionais de relevância. Os achados indicam que o abandono parental pode gerar marcas profundas na estrutura do self, influenciando a forma como o indivíduo percebe, oferece e recebe amor, repercutindo em suas relações afetivas ao longo da vida. Ainda assim, observa-se que a presença de vínculos reparadores e de contextos terapêuticos facilitadores pode favorecer a ressignificação dessas vivências.

A infância constitui um período fundamental para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social do indivíduo, sendo nesse estágio que se estabelecem as primeiras relações de apego, responsáveis por moldar a forma como a criança percebe a si mesma, ao outro e ao mundo. Nesse sentido, o abandono parental configura-se como uma experiência potencialmente traumática, capaz de impactar significativamente a formação da personalidade e a construção de vínculos afetivos ao longo da vida. Embora muitas crianças em situação de abandono venham a ser acolhidas por responsáveis substitutos, que lhes oferecem cuidado, proteção e afeto, permanece uma lacuna subjetiva relacionada à ausência das figuras parentais originais. Tal lacuna pode influenciar diretamente a forma como o indivíduo compreenderá o amor, bem como suas expectativas e comportamentos em relacionamentos futuros, como namoro, casamento, relações familiares e amizades. Assim, o presente estudo busca analisar, à luz da Abordagem Centrada na Pessoa e de outras perspectivas teóricas da psicologia, como se dá a construção do conceito de amor em indivíduos que vivenciaram o abandono parental na infância, considerando suas implicações para o desenvolvimento da personalidade e das relações interpessoais.

Nesse contexto, o objetivo geral deste trabalho consiste em analisar os efeitos do abandono parental na infância sobre a formação da personalidade e a construção do conceito de amor, enquanto, de forma específica, busca-se compreender o papel das primeiras relações afetivas no desenvolvimento da personalidade, investigar os impactos do abandono na estrutura psíquica, analisar a constituição do conceito de amor nesses sujeitos, discutir as repercussões dessas vivências nos relacionamentos ao longo da vida e identificar possibilidades de ressignificação por meio de vínculos reparadores e processos terapêuticos.

A metodologia adotada caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica, fundamentada na análise de livros, artigos científicos e publicações acadêmicas. Foram utilizados autores de relevância nas áreas da psicologia humanista, psicanálise e teoria do apego, tais como John Bowlby, Donald Winnicott, além de contribuições nacionais como Mauro Martins Amatuzzi, Ana Mercês Bahia Bock e Luís Cláudio Figueiredo. A análise foi realizada por meio de leitura crítica e interpretação teórica, buscando integrar diferentes perspectivas sobre o desenvolvimento emocional e relacional.

A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de compreender os efeitos do abandono parental na infância, especialmente no contexto da prática clínica. Em uma sociedade marcada por rupturas familiares e múltiplas configurações de cuidado, torna-se fundamental investigar como essas experiências iniciais influenciam a vida emocional dos indivíduos. Assim, amplia-se o olhar sobre o desenvolvimento humano, considerando tanto os impactos das vivências adversas quanto as possibilidades de transformação e crescimento.

No campo teórico, John Bowlby destaca que os vínculos estabelecidos na infância com figuras cuidadoras são fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável, sendo que sua ausência ou inconsistência pode gerar padrões de apego inseguros, influenciando negativamente a capacidade de estabelecer relações afetivas estáveis. Na perspectiva psicanalítica, Donald Winnicott enfatiza a importância de um ambiente suficientemente bom para o desenvolvimento do self, sendo que falhas nesse ambiente, como no abandono, podem comprometer a integração psíquica e a confiança no outro; contudo, o autor reconhece a possibilidade de experiências reparadoras ao longo da vida.

Por sua vez, a Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, compreende o ser humano como dotado de uma tendência atualizante, isto é, uma capacidade inata de crescimento e realização. Entretanto, experiências de rejeição e abandono podem gerar incongruência entre o self real e o self ideal, distorcendo o conceito de amor, que passa a ser associado à dor, à perda ou à insegurança. Nessa direção, autores brasileiros como Mauro Martins Amatuzzi e Ana Mercês Bahia Bock reforçam que o amor é uma construção relacional, desenvolvida nas interações humanas. Assim, indivíduos que vivenciaram o abandono podem apresentar dificuldades em confiar, se entregar ou manter vínculos duradouros, ainda que exista um desejo profundo de serem amados.

Entretanto, é fundamental destacar que a presença de vínculos afetivos posteriores, como aqueles estabelecidos com responsáveis substitutos, amigos ou parceiros, pode atuar como fator de proteção e reparação. Além disso, o processo psicoterapêutico, especialmente quando fundamentado na Abordagem Centrada na Pessoa, pode oferecer um espaço seguro de escuta empática, aceitação incondicional e autenticidade, favorecendo a ressignificação das experiências e a reconstrução do conceito de amor.

Diante do exposto, conclui-se que o abandono parental na infância exerce influência significativa sobre a formação da personalidade e a construção do conceito de amor. Ainda que cuidadores substitutos possam oferecer suporte emocional, a ausência das figuras parentais originais pode deixar marcas subjetivas que se manifestam nos relacionamentos ao longo da vida. Contudo, à luz da Abordagem Centrada na Pessoa, reconhece-se que o indivíduo possui potencial para ressignificar suas experiências e desenvolver formas mais saudáveis de amar e se relacionar. Para isso, torna-se essencial a presença de vínculos empáticos, autênticos e acolhedores, tanto no contexto social quanto no terapêutico, promovendo, assim, crescimento, integração e autonomia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 2001.

 

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002.

 

BOWLBY, John. Apego e perda: apego. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

 

FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Psicologia: uma introdução. São Paulo: EDUC, 1991.

 

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.

 

ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.


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