Psicologa Organizacional

17 de maio de 2026

 


PERCEPÇÃO HUMANA E SUA RELEVÂNCIA PARA A SEGURANÇA NO TRÂNSITO: ASPECTOS NEUROPSICOLÓGICOS, DESENVOLVIMENTAIS E AVALIATIVOS

 

Acimarley Freitas

 

Psicólogo Clínico e Psicólogo do Trânsito – CRP 04/54732

 

RESUMO

 

A percepção constitui um dos processos psicológicos fundamentais para a adaptação humana ao ambiente, sendo responsável pela organização, interpretação e atribuição de significado aos estímulos captados pelos órgãos sensoriais. No contexto do trânsito, a percepção desempenha papel central na identificação de riscos, tomada de decisão, coordenação motora e resposta rápida diante de situações inesperadas. O presente artigo objetiva discutir o conceito de percepção, seu desenvolvimento humano, funcionamento neurobiológico, alterações perceptivas e seus impactos na condução veicular. Busca ainda compreender como a avaliação clínica e psicológica pode identificar déficits perceptivos por meio de testes psicológicos utilizados na Psicologia do Trânsito. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica fundamentada em livros, artigos científicos, resoluções técnicas e produções acadêmicas relacionadas à neuropsicologia, psicologia do desenvolvimento humano e psicologia do trânsito. Os resultados demonstram que alterações perceptivas podem comprometer significativamente a segurança viária, elevando riscos de acidentes, falhas de julgamento e dificuldades psicomotoras. Conclui-se que a avaliação psicológica exerce papel essencial na identificação de alterações perceptivas relevantes para a aptidão à direção, contribuindo para a prevenção de acidentes e promoção da saúde mental no trânsito.

 

Palavras-chave: Percepção; Psicologia do Trânsito; Neuropsicologia; Desenvolvimento Humano; Avaliação Psicológica; Segurança Viária.

 

 

INTRODUÇÃO

 

A percepção humana representa um dos fenômenos mais complexos e fascinantes do funcionamento psicológico. Muito além da simples recepção de estímulos sensoriais, perceber significa organizar, interpretar e atribuir sentido ao mundo ao nosso redor. É através da percepção que o ser humano reconhece rostos, identifica perigos, interpreta movimentos, compreende expressões emocionais e estabelece contato significativo com a realidade.

 

Sob a perspectiva da Psicologia do Desenvolvimento Humano, a percepção não surge de maneira pronta e acabada. Ela se desenvolve progressivamente ao longo da vida, sendo influenciada pelas experiências emocionais, cognitivas, culturais e sociais vivenciadas pelo indivíduo. Desde os primeiros meses de vida, o cérebro humano inicia um processo contínuo de aprendizagem perceptiva, refinando sua capacidade de interpretar estímulos e responder ao ambiente de forma adaptativa.

 

No campo das neurociências, compreende-se que a percepção envolve uma integração sofisticada entre diferentes áreas cerebrais responsáveis pelo processamento sensorial, atenção, memória, emoção e tomada de decisão. Dessa forma, alterações neurológicas, emocionais ou cognitivas podem comprometer diretamente a maneira como o indivíduo interpreta a realidade e reage diante dela.

 

No contexto do trânsito, a percepção assume papel essencial para a preservação da vida. Dirigir exige atenção constante, velocidade de resposta, integração visomotora, percepção espacial e capacidade de antecipação de riscos. Em poucos segundos, o condutor precisa interpretar placas, calcular distâncias, perceber movimentos periféricos, analisar comportamentos de outros motoristas e tomar decisões rápidas. Pequenas alterações perceptivas podem resultar em erros graves de julgamento e acidentes potencialmente fatais.

 

Nesse sentido, compreender o funcionamento da percepção humana torna-se indispensável para a Psicologia do Trânsito, especialmente no que se refere à avaliação psicológica de condutores. A investigação das capacidades perceptivas permite identificar limitações cognitivas e emocionais capazes de comprometer a segurança viária, contribuindo para práticas preventivas mais éticas, científicas e humanizadas.

 

OBJETIVO GERAL E OBJETIVOS ESPECÍFICOS

 

O presente artigo possui como objetivo geral analisar o processo perceptivo humano, seu desenvolvimento, funcionamento cerebral e impactos das alterações perceptivas na segurança no trânsito, destacando a importância da avaliação psicológica e clínica na identificação desses prejuízos.

 

Como objetivos específicos, busca-se compreender o conceito psicológico e neurocientífico de percepção; explicar como a percepção se desenvolve ao longo do desenvolvimento humano; identificar as principais áreas cerebrais envolvidas nesse processo; analisar alterações perceptivas e seus impactos funcionais; discutir os prejuízos perceptivos no contexto da direção veicular; investigar como a avaliação psicológica identifica déficits perceptivos; e relacionar os testes psicológicos utilizados na Psicologia do Trânsito com a análise das funções perceptivas.

 

 

JUSTIFICATIVA

 

A crescente complexidade do trânsito moderno exige condutores cada vez mais preparados emocional, cognitiva e perceptivamente. O ambiente viário atual é marcado por excesso de estímulos, velocidade, pressão emocional e necessidade constante de tomada de decisão rápida. Nesse cenário, a percepção torna-se uma habilidade indispensável para a condução segura.

 

Entretanto, alterações perceptivas decorrentes de transtornos neurológicos, fadiga, privação de sono, envelhecimento, uso de substâncias psicoativas ou sofrimento emocional podem comprometer significativamente a capacidade do indivíduo em dirigir com segurança.

 

A relevância deste estudo fundamenta-se na necessidade de ampliar o conhecimento científico acerca da percepção humana e sua relação direta com o comportamento no trânsito. Além disso, o presente artigo busca fortalecer o diálogo entre psicologia, neurociência e segurança viária, promovendo reflexões sobre prevenção de acidentes, saúde mental e responsabilidade social.

 

METODOLOGIA

 

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa e exploratória. Foram utilizados livros, artigos científicos, dissertações, resoluções do Conselho Federal de Psicologia e materiais acadêmicos relacionados à neuropsicologia, psicologia do desenvolvimento humano e psicologia do trânsito.

 

A pesquisa fundamentou-se em autores clássicos e contemporâneos que discutem percepção, funcionamento cerebral, cognição, comportamento humano e avaliação psicológica. A análise do conteúdo foi realizada de maneira descritiva e interpretativa, buscando integrar conhecimentos neurocientíficos, psicológicos e periciais aplicados ao contexto da segurança no trânsito.

 

REFERENCIAL TEÓRICO

 

A percepção pode ser compreendida como o processo psicológico responsável por organizar, interpretar e atribuir significado aos estímulos captados pelos órgãos sensoriais. Diferentemente da sensação, que corresponde à recepção fisiológica dos estímulos, a percepção envolve interpretação subjetiva, elaboração cognitiva e integração emocional.

 

Segundo os princípios da Gestalt, o ser humano percebe o ambiente como totalidades organizadas e não como elementos isolados. Dessa maneira, o cérebro integra informações visuais, auditivas e táteis para construir experiências significativas. Tal processo sofre influência das experiências anteriores, emoções, memória, cultura e expectativas individuais.

 

No desenvolvimento humano, a percepção inicia seu processo de amadurecimento ainda nos primeiros meses de vida. Jean Piaget descreveu que o desenvolvimento cognitivo ocorre em estágios progressivos, nos quais a criança amplia gradativamente sua capacidade de interpretar o ambiente. Durante a infância e adolescência, ocorre amadurecimento das conexões neurais relacionadas à atenção, integração sensorial e tomada de decisão.

 

Sob a ótica neurocientífica, a percepção envolve múltiplas estruturas cerebrais integradas. O córtex occipital participa do processamento visual; o córtex temporal atua no reconhecimento auditivo; o córtex parietal auxilia na percepção espacial e integração sensorial; enquanto o córtex pré-frontal participa do julgamento, análise crítica e tomada de decisão. O sistema límbico, por sua vez, interfere diretamente na percepção emocional dos estímulos.

 

Além das estruturas cerebrais, neurotransmissores como dopamina, serotonina e acetilcolina exercem influência significativa sobre os processos perceptivos e atencionais. Alterações nesses sistemas podem provocar distorções perceptivas, prejuízos cognitivos e dificuldades adaptativas.

 

As alterações de percepção podem ocorrer em diferentes condições clínicas, emocionais e neurológicas. Entre as principais alterações encontram-se ilusões perceptivas, alucinações visuais e auditivas, déficits atencionais, lentificação perceptiva, distorções espaciais e alterações decorrentes de fadiga ou substâncias psicoativas.

 

No trânsito, tais alterações representam importante fator de risco. O condutor necessita interpretar rapidamente estímulos complexos e dinâmicos, exigindo funcionamento perceptivo eficiente e integrado. Déficits perceptivos podem comprometer percepção de distância, reconhecimento de sinais, coordenação motora, julgamento de velocidade e capacidade de antecipação de perigos.

 

DISCUSSÃO

 

A segurança no trânsito depende diretamente da integridade das funções perceptivas do condutor. Pequenas falhas na interpretação de estímulos podem gerar consequências graves, principalmente em situações que exigem respostas rápidas e decisões imediatas.

 

Estudos em Psicologia do Trânsito demonstram que alterações perceptivas estão associadas ao aumento significativo do risco de acidentes automobilísticos. Déficits de atenção, lentificação psicomotora, fadiga mental e dificuldades de integração sensorial reduzem a capacidade do motorista em responder adequadamente diante de situações críticas.

 

Além disso, fatores emocionais também influenciam diretamente a percepção humana. Ansiedade intensa, estresse, irritabilidade e sofrimento psicológico podem alterar a interpretação da realidade, favorecendo comportamentos impulsivos, distração e erros de julgamento no trânsito.

 

Nesse contexto, a avaliação psicológica torna-se uma ferramenta essencial para identificação preventiva de prejuízos perceptivos relevantes à condução veicular. O psicólogo do trânsito investiga funções como atenção concentrada, atenção dividida, velocidade perceptiva, coordenação visomotora, tempo de reação e controle emocional.

 

Entre os instrumentos frequentemente utilizados destacam-se testes de atenção concentrada, testes de raciocínio lógico, avaliações perceptomotoras, instrumentos de personalidade e avaliações neuropsicológicas complementares. A observação clínica integrada aos testes psicológicos possibilita análise mais ampla do funcionamento cognitivo e emocional do indivíduo.

 

A atuação ética e científica do psicólogo do trânsito permite não apenas avaliar aptidão para dirigir, mas também promover conscientização, prevenção e cuidado com a saúde mental no trânsito.

 

DADOS

 

Pesquisas em neuropsicologia e segurança viária apontam que déficits perceptivos e atencionais figuram entre os principais fatores humanos relacionados aos acidentes de trânsito.

 

Estudos demonstram que alterações perceptivas reduzem significativamente o tempo de resposta diante de estímulos inesperados, comprometendo a tomada de decisão em situações críticas. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que fatores cognitivos e comportamentais associados à atenção e percepção estão entre os principais determinantes dos acidentes automobilísticos em nível mundial.

 

Além disso, pesquisas relacionadas ao envelhecimento humano apontam que alterações perceptivas associadas ao declínio cognitivo podem interferir diretamente na capacidade de condução segura, reforçando a importância das avaliações psicológicas periódicas.

 

CONCLUSÃO

 

A percepção humana constitui um processo complexo, dinâmico e essencial para a adaptação ao ambiente e preservação da vida. Seu funcionamento depende da integração entre estruturas cerebrais, experiências subjetivas, fatores emocionais e desenvolvimento cognitivo.

 

No contexto do trânsito, a percepção assume papel central na identificação de riscos, tomada de decisão e coordenação psicomotora. Alterações perceptivas podem comprometer significativamente a condução veicular, aumentando riscos de acidentes, falhas de julgamento e prejuízos na segurança viária.

 

Dessa forma, a Psicologia do Trânsito desempenha função preventiva indispensável ao investigar capacidades perceptivas relacionadas à direção segura. A avaliação psicológica, associada aos conhecimentos da neurociência e da psicologia do desenvolvimento humano, contribui para práticas mais éticas, humanizadas e cientificamente fundamentadas.

 

Compreender a percepção é, sobretudo, compreender como o ser humano interpreta o mundo e responde à realidade que o cerca. No trânsito, essa compreensão pode representar a diferença entre o risco e a preservação da vida.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALMEIDA, N. D. Psicologia do trânsito: teoria e prática. São Paulo: Vetor, 2018.

 

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2019.

 

GARDNER, H. Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artmed, 1995.

 

KAPLAN, H.; SADOCK, B. Compêndio de psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2017.

 

LENT, R. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Atheneu, 2019.

 

PIAGET, J. A psicologia da criança. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

 

ROZESTRATEN, R. J. A. Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos. São Paulo: EPU, 1988.

 

SILVA, F. H. V.; GÜNTHER, H. Psicologia do trânsito no Brasil. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

 

STERNBERG, R. Psicologia cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 2010.

 

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 


INTERFERÊNCIA DOS PSICOFÁRMACOS NA CONDUÇÃO VEICULAR: IMPLICAÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS, PSICOMOTORAS E PERICIAIS NA PSICOLOGIA DO TRÂNSITO

 

Acimarley Freitas

 

Psicólogo Clínico e Psicólogo do Trânsito – CRP 04/54732

 

A condução de veículos automotores representa uma atividade complexa que exige adequado funcionamento das capacidades cognitivas, emocionais, perceptivas e psicomotoras do indivíduo. Dirigir envolve processos contínuos de atenção concentrada, tomada de decisão rápida, percepção espacial, controle inibitório, coordenação motora e estabilidade emocional. Qualquer alteração nessas funções pode comprometer significativamente a segurança viária e aumentar os riscos de acidentes de trânsito.

 

Nas últimas décadas, observou-se crescimento expressivo no uso de medicamentos psiquiátricos em decorrência do aumento dos transtornos mentais na população mundial. Ansiedade, depressão, transtornos do humor, insônia e transtornos psicóticos passaram a ser tratados com maior frequência por meio da psicofarmacologia moderna. Embora esses medicamentos sejam fundamentais para estabilização clínica e melhora da qualidade de vida, diversos psicofármacos possuem efeitos colaterais capazes de interferir diretamente na capacidade de dirigir.

 

Sob a perspectiva da Psicologia do Trânsito e da psicofarmacologia clínica, torna-se essencial compreender como determinadas substâncias psicoativas afetam o funcionamento neuropsicológico do condutor. Muitos medicamentos psiquiátricos atuam diretamente no sistema nervoso central, modificando processos relacionados à vigilância, percepção, tempo de reação, coordenação motora, memória operacional e julgamento crítico. Em determinados casos, tais alterações podem produzir prejuízos comparáveis aos observados em estados de intoxicação alcoólica moderada.

 

Entre os principais grupos farmacológicos associados a interferências na direção veicular encontram-se os benzodiazepínicos, amplamente prescritos para tratamento da ansiedade e da insônia. Medicamentos como Clonazepam, Diazepam e Alprazolam possuem ação depressora sobre o sistema nervoso central, potencializando a atividade do neurotransmissor GABA. Embora sejam eficazes na redução da ansiedade e promoção do relaxamento, frequentemente produzem sonolência, lentificação psicomotora, redução dos reflexos e prejuízo da atenção sustentada. Estudos em medicina do tráfego indicam aumento significativo do risco de acidentes automobilísticos em indivíduos sob uso dessas substâncias, principalmente durante as primeiras semanas de tratamento, em idosos ou quando associados ao consumo de álcool.

 

Os antidepressivos também merecem atenção especial no contexto da direção veicular. Antidepressivos tricíclicos, como Amitriptilina, apresentam forte potencial sedativo e efeitos anticolinérgicos capazes de provocar visão turva, tontura, diminuição da vigilância e lentidão cognitiva. Já medicamentos mais modernos, como Sertralina e Fluoxetina, geralmente apresentam menor comprometimento psicomotor, embora possam ocasionar efeitos adversos como agitação, fadiga, sonolência ou alterações do sono em determinados pacientes. A resposta ao medicamento varia significativamente conforme fatores biológicos, dose utilizada e adaptação do organismo.

 

Outro grupo de elevada relevância clínica corresponde aos antipsicóticos, utilizados no tratamento de transtornos psicóticos, transtorno bipolar e algumas condições graves de instabilidade emocional. Medicamentos como Quetiapina, Risperidona e Olanzapina podem produzir sedação intensa, alterações perceptivas, redução da velocidade psicomotora e prejuízos na coordenação motora. Alguns antipsicóticos ainda apresentam efeitos extrapiramidais, interferindo diretamente na fluidez dos movimentos e na capacidade de resposta rápida do condutor diante de situações inesperadas no trânsito.

 

Os hipnóticos também representam importante fator de risco para direção veicular. Medicamentos como Zolpidem são frequentemente utilizados para tratamento da insônia e podem produzir sonolência residual no dia seguinte, além de episódios dissociativos, alterações de consciência e comportamentos automáticos descritos na literatura psiquiátrica. Existem relatos clínicos de indivíduos que realizaram atividades complexas, incluindo dirigir veículos, sem plena consciência do comportamento executado.

 

Apesar dos riscos associados ao uso dessas substâncias, é fundamental destacar que o simples fato de uma pessoa utilizar medicação psiquiátrica não determina automaticamente incapacidade para dirigir. Em muitos casos, o tratamento adequado promove exatamente o contrário: melhora da atenção, estabilização emocional, redução da impulsividade e recuperação funcional do indivíduo. Pacientes com transtornos psiquiátricos estabilizados frequentemente apresentam condições seguras de condução quando acompanhados adequadamente por profissionais especializados.

 

Nesse sentido, a avaliação realizada pelo psicólogo do trânsito deve ocorrer de forma individualizada, ética e científica, evitando estigmatizações ou interpretações reducionistas. O foco da análise pericial não deve ser exclusivamente o diagnóstico psiquiátrico ou o nome do medicamento utilizado, mas principalmente o impacto funcional produzido sobre as capacidades necessárias para a condução segura.

 

Durante a avaliação psicológica no trânsito, o profissional necessita investigar aspectos como atenção concentrada, memória operacional, controle emocional, impulsividade, percepção de risco, tempo de reação, capacidade de julgamento e sinais de sedação psicomotora. A observação clínica associada aos testes psicológicos permite compreender se existem prejuízos significativos capazes de comprometer a segurança viária.

 

A atuação interdisciplinar entre psicólogos do trânsito, psiquiatras e médicos peritos torna-se indispensável nesse contexto. A integração entre diferentes áreas do conhecimento favorece avaliações mais precisas, humanizadas e tecnicamente fundamentadas, respeitando tanto os direitos do indivíduo quanto a proteção coletiva no trânsito.

 

Sob a ótica da saúde pública, a discussão sobre psicofármacos e direção veicular ganha relevância crescente diante do aumento do consumo de medicamentos psicoativos em nível mundial. A Organização Mundial da Saúde destaca que fatores relacionados ao comportamento humano e ao uso de substâncias psicoativas permanecem entre os principais determinantes de acidentes automobilísticos graves e fatais.

 

Dessa forma, torna-se evidente a necessidade de fortalecimento das pesquisas científicas na área da Psicologia do Trânsito e da psicofarmacologia aplicada à condução veicular. O conhecimento técnico-científico permite não apenas aprimorar os processos de avaliação psicológica, mas também desenvolver estratégias preventivas, educativas e clínicas voltadas à promoção de um trânsito mais seguro e humanizado.

 

Conclui-se que os psicofármacos possuem potencial significativo de interferência sobre habilidades essenciais para a direção, especialmente atenção, percepção, coordenação motora e velocidade de resposta. Entretanto, a análise da aptidão para conduzir veículos deve considerar a funcionalidade global do indivíduo, a adaptação ao tratamento, a estabilidade clínica e os efeitos reais observados no cotidiano do condutor. A Psicologia do Trânsito, associada à psiquiatria e à psicofarmacologia, desempenha papel fundamental na construção de avaliações técnicas responsáveis, éticas e comprometidas com a preservação da vida.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALMEIDA, N. D. Psicologia do trânsito: teoria e prática. São Paulo: Vetor, 2018.

 

BALLONE, G. J. Psicofarmacologia para não psiquiatras. São Paulo: Manole, 2015.

 

BRASIL. Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 001/2019. Institui normas para avaliação psicológica no trânsito. Brasília: CFP, 2019.

 

BRASIL. Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN. Resoluções sobre aptidão física e mental para condutores. Brasília: CONTRAN, 2022.

 

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

 

GORENSTEIN, C.; SCAVONE, C. Psicofarmacologia clínica. São Paulo: Atheneu, 2016.

 

KAPLAN, H.; SADOCK, B.; GREBB, J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Porto Alegre: Artmed, 2017.

 

ROZESTRATEN, R. J. A. Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos. São Paulo: EPU, 1988.

 

SILVA, F. H. V.; GÜNTHER, H. Psicologia do trânsito no Brasil. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

 

STAHL, S. Psicofarmacologia: bases neurocientíficas e aplicações clínicas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

 

11 de maio de 2026

 


Garçom

 

Lá está ele…

Pronto a servir.

Olhar atento,

gentileza no falar,

sabedoria silenciosa

de quem aprendeu a observar.

 

Com educação orienta,

sem jamais invadir.

Não força presença,

mas sabe existir.

 

Cliente indeciso,

ele percebe no olhar.

Uma dica delicada

consegue entregar.

 

Há algo curioso em seu dom:

escuta o que ninguém diz.

Lê silêncios nas mesas,

sorrisos por um triz.

 

Agilidade é seu lema,

mas sensibilidade também.

Enquanto leva pedidos,

carrega histórias além.

 

Ouve risos, discussões,

confissões ao telefone,

amores começando,

corações sem nome.

 

Às vezes é destratado,

outras vezes nem é visto.

Como se servir pessoas

fosse algo automático e previsto.

 

Mas ainda assim permanece.

Na ética do servir,

segue firme entre bandejas,

mesmo cansado de sorrir.

 

Já serviu tanta gente

que às vezes esqueceu de si.

Esqueceu que também possui sonhos,

medos guardados aqui.

 

Há dias em que uma gorjeta

vale o almoço do mês.

Outros… vale apenas

a sensação de escassez.

 

Mesmo assim ele continua.

Passos rápidos pelo salão.

Enquanto o mundo se alimenta,

ele disfarça a exaustão.

 

Talvez a vida tenha dessas ironias:

quem mais acolhe,

muitas vezes quase nunca

recebe companhia.

 

Essa é minha homenagem

a todos os garçons.

Aos que servem café,

esperança

e atenção.

 

E no meio de tantos pedidos,

talvez esteja faltando uma pergunta simples,

mas profundamente humana:

 

— Garçom… qual é o seu nome?

 

Por Acimarley Freitas

10 de maio de 2026

 


A Saudade Que Continua Abraçando

 

Por Acimarley Freitas

 

Há pessoas que passam pela vida como o vento.

Outras… permanecem mesmo depois da partida.

 

Hoje, no Dia das Mães, enquanto muitos celebram com abraços, fotografias e almoços em família, existe também um silêncio sentado à mesa de alguém.

Existe um quarto vazio.

Uma ligação que não pode mais ser feita.

Uma voz que mora apenas na lembrança.

 

E talvez, para alguns, este seja um dos dias mais difíceis do ano.

 

Porque a ausência de uma mãe não termina no funeral.

Ela reaparece nos detalhes mais simples da vida.

No cheiro de um café recém-passado.

Na comida que nunca mais teve o mesmo gosto.

Na vontade de contar algo importante e perceber que aquela pessoa que mais vibrava por você já não está fisicamente aqui.

 

A dor da perda tem um jeito estranho de visitar o coração.

Às vezes ela chega silenciosa.

Outras vezes, atravessa a alma sem pedir licença.

 

Mas hoje… eu queria convidar você a olhar para essa saudade de uma outra forma.

 

Quem foi sua mãe dentro da sua história?

 

Talvez ela tenha sido abrigo quando o mundo parecia assustador.

Talvez tenha sido aquela mulher cansada, imperfeita, humana… mas que fazia o possível para cuidar de você.

Talvez tenha deixado conselhos que você só compreendeu depois de adulto.

Talvez as repreensões dela tenham se transformado em proteção quando a vida lhe ensinou certas dores.

 

E mesmo que existam feridas, ausências emocionais ou palavras nunca ditas… ainda assim, algo dela continua vivendo em você.

 

Porque mães não permanecem apenas nas fotografias.

Elas permanecem nos gestos que aprendemos sem perceber.

Na forma como cuidamos de alguém.

Na maneira como enfrentamos a vida.

Na força que encontramos em dias difíceis.

 

A saudade dói porque o amor foi verdadeiro.

 

E talvez o grande desafio deste dia seja justamente transformar a dor da ausência em gratidão pela presença que um dia existiu.

 

Sentir saudade da voz.

Do cheiro.

Do carinho.

Dos conselhos repetidos tantas vezes.

Das orações silenciosas que ela fazia sem que ninguém soubesse.

 

Talvez hoje você chore.

E tudo bem.

 

Mas entre as lágrimas, tente também perceber uma verdade delicada:

de todas as mulheres do mundo… justamente ela foi a sua mãe.

 

E isso nunca poderá ser apagado pelo tempo.

 

O amor verdadeiro encontra maneiras de permanecer.

Às vezes na memória.

Às vezes no coração.

Às vezes naquele pequeno detalhe da vida que faz a gente sorrir enquanto os olhos se enchem de lágrimas.

 

Hoje, mais do que lembrar da perda, permita-se honrar a história.

Honrar o amor vivido.

Honrar os momentos simples que agora se tornaram eternos dentro de você.

 

Porque algumas pessoas partem da vida…

mas nunca deixam de habitar a alma de quem ficou.

6 de maio de 2026

 


Não é coisa de louco: uma conversa que pode mudar tudo

 

Outro dia, sentado no consultório, entre um atendimento e outro, me peguei pensando nas histórias que nunca chegaram até mim.

Sim… histórias que ficaram do lado de fora.
Histórias interrompidas por um pensamento silencioso:
“Psicólogo não é pra mim.”

E eu confesso… isso sempre me inquieta.

Sou Acimarley Freitas, psicólogo, e hoje quero conversar com você não como especialista distante, mas como alguém que escuta, todos os dias, o peso que muita gente carrega sozinha… por acreditar em ideias que nem sempre são verdadeiras.

Vivemos na era da informação.
Mas, curiosamente, também vivemos na era dos equívocos bem vestidos de verdade.

Quantas vezes você já ouviu, ou até pensou, que psicoterapia é “coisa de gente fraca”?
Ou que “quem vai ao psicólogo é porque está louco”?
Ou ainda: “eu dou conta sozinho”?

E talvez a mais perigosa de todas:
“não está tão ruim assim…”

A questão é que a dor não precisa gritar para ser legítima.

No silêncio da rotina, muita gente vai aprendendo a engolir sentimentos. Vai adiando conversas internas. Vai sobrevivendo… quando poderia estar vivendo com mais leveza.

E aqui vai uma verdade simples, mas libertadora:
ir ao psicólogo não é um sinal de fraqueza, é um ato de coragem.

Coragem de olhar para dentro.
Coragem de se escutar de verdade.
Coragem de admitir que, às vezes, a gente precisa de ajuda para organizar o que sente.

Outro mito comum é imaginar que o psicólogo vai dar conselhos prontos, como quem entrega respostas numa bandeja.


Mas não… a psicoterapia não é sobre isso.

Ela é um espaço.


Um encontro.


Um lugar onde você pode ser quem é, sem máscaras, sem julgamentos, sem precisar parecer forte o tempo todo.

Na Abordagem Centrada na Pessoa, que guia meu trabalho, acreditamos que você já carrega dentro de si recursos valiosos.


A terapia não cria você… ela revela você.

E talvez seja por isso que tanta gente tem medo.
Porque se encontrar… nem sempre é confortável.

Mas é transformador.

 

Outro dia, um cliente me disse:
“Eu achava que vir aqui era sinal de que eu tinha perdido o controle… hoje percebo que foi a primeira vez que comecei a assumir ele.”

 

E essa frase ficou.

Porque, no fundo, o maior mito sobre a psicoterapia…
é pensar que ela é sobre fraqueza.

Quando, na verdade, ela é sobre verdade.

Sobre se permitir sentir.


Sobre entender suas escolhas.


Sobre ressignificar dores.


Sobre aprender a viver com mais consciência.

E eu te pergunto, com respeito e sinceridade:

 

quantas decisões você tem tomado baseado em mitos… e não naquilo que você realmente precisa?

Talvez você não precise esperar “ficar pior”.
Talvez você não precise dar conta de tudo sozinho.
Talvez você só precise… começar.

A psicoterapia não é um fim.


É um caminho.

E, quem sabe, o primeiro passo não seja resolver tudo…
mas apenas permitir-se conversar.