Toda Mulher Guarda um Universo que Não se Revela de Uma Só Vez
Há pessoas que passam pela vida como
quem atravessa uma sala.
Chegam, olham, conversam, sorriem e
vão embora.
E há mulheres.
Não porque sejam mais difíceis de
compreender do que os homens, mas porque, muitas vezes, carregam dentro de si
uma quantidade de histórias que não cabem naquilo que mostram.
Talvez por isso alguns homens olhem
para uma mulher e pensem que precisam desvendá-la.
Como se ela fosse um enigma.
Como se houvesse uma resposta
escondida em algum lugar.
Como se bastasse descobrir a
combinação certa de palavras para abrir todas as portas.
Mas não é assim.
Uma mulher não é um mistério
esperando por alguém que venha solucioná-la.
Ela é uma história acontecendo.
E histórias não se desvendam à força.
Leem-se.
Com paciência.
Com presença.
Com escuta.
Com respeito.
Há mulheres que aprenderam a sorrir
enquanto choravam por dentro.
Outras se tornaram fortes porque a
vida não lhes ofereceu muitas oportunidades para serem frágeis.
Há aquelas que parecem independentes,
mas gostariam de encontrar alguém diante de quem não precisassem ser fortes o
tempo inteiro.
Há mulheres que falam muito porque
precisam ser ouvidas.
E há aquelas que se calam porque, em
algum momento da vida, descobriram que ninguém realmente queria escutar.
Há mulheres que amam intensamente.
Outras aprenderam a amar com cuidado.
Algumas entregam o coração
rapidamente.
Outras passaram tanto tempo reconstruindo
os pedaços de si mesmas que agora observam antes de confiar.
E talvez exista uma coisa que muitos
esquecem:
Cada mulher carrega uma história que
começou muito antes de qualquer relacionamento.
Antes do namorado.
Antes do marido.
Antes dos filhos.
Antes da profissão.
Antes dos títulos.
Houve uma menina.
Uma menina que sonhou.
Que teve medo.
Que desejou ser aceita.
Que talvez tenha ouvido palavras que
nunca deveria ter ouvido.
Que talvez tenha recebido abraços que
ainda hoje moram em sua memória.
Que aprendeu, pouco a pouco, o
significado de ser mulher em um mundo que tantas vezes tentou dizer a ela quem
deveria ser.
Por isso, quando alguém encontra uma
mulher, não encontra apenas o presente.
Encontra também memórias.
Experiências.
Feridas.
Desejos.
Esperanças.
Contradições.
E uma infinidade de coisas que não
aparecem na primeira conversa.
É por isso que conhecer alguém exige
tempo.
Não basta saber sua comida preferida.
Nem sua música.
Nem o lugar onde gosta de viajar.
Conhecer alguém é perceber o que
acontece quando ela está triste.
É perceber como seus olhos mudam
quando fala de algo que ama.
É compreender seus silêncios sem
transformá-los imediatamente em acusações.
É saber que, algumas vezes, “está
tudo bem” significa exatamente isso.
Mas, em outras, significa:
“Eu ainda não sei como explicar o que
estou sentindo.”
E talvez amar seja justamente
oferecer espaço para que a explicação possa nascer.
Porque algumas pessoas querem
respostas imediatas.
Querem saber:
“Por que você está assim?”
“Por que mudou?”
“Por que está distante?”
“Por que não fala?”
Mas nem toda emoção chega organizada.
Existem sentimentos que precisam primeiro ser sentidos para
depois serem compreendidos.
A Psicologia sabe disso.
A Filosofia também.
E a vida ensina diariamente.
O ser humano não é uma equação
matemática.
Não existe uma fórmula capaz de
explicar completamente alguém.
E talvez essa seja uma das belezas
dos relacionamentos.
Nunca terminamos de conhecer
verdadeiramente quem amamos.
Sempre existe uma nova camada.
Uma nova descoberta.
Um novo medo que aparece.
Um novo sonho que nasce.
Uma nova versão daquela pessoa que
chega com o tempo.
É como observar o mar.
Podem passar anos olhando para ele e,
ainda assim, nunca conhecerão todas as profundezas.
Com as pessoas acontece algo
semelhante.
Há profundidades que não aparecem na
superfície.
E há mulheres que passaram tanto
tempo tentando sobreviver que ninguém percebeu o quanto gostariam,
simplesmente, de poder descansar.
Descansar de agradar.
Descansar de provar.
Descansar de parecer forte.
Descansar da obrigação de estar
sempre bonita, sempre disponível, sempre compreensiva, sempre pronta.
Talvez uma das formas mais bonitas de
amar uma mulher seja permitir que ela seja humana.
Que tenha dias bons e ruins.
Que mude de opinião.
Que diga não.
Que estabeleça limites.
Que chore.
Que ria alto.
Que tenha medo.
Que seja contraditória.
Que seja inteira.
Porque amor não deveria ser uma
tentativa de moldar alguém.
Amor deveria ser encontro.
E encontro verdadeiro não acontece
quando uma pessoa tenta transformar a outra naquilo que gostaria que ela fosse.
Acontece quando duas pessoas
conseguem dizer:
“Eu vejo você.”
Não apenas a aparência.
Não apenas o sorriso.
Não apenas aquilo que você oferece.
Eu vejo você.
Vejo sua história.
Vejo suas lutas.
Vejo suas imperfeições.
Vejo suas forças.
E, mesmo sem compreender tudo,
escolho respeitar aquilo que ainda não conheço.
Talvez seja esse o verdadeiro
mistério de uma mulher.
Não aquilo que ela esconde.
Mas aquilo que ainda está descobrindo
sobre si mesma.
Porque ninguém chega ao fim da
própria história completamente decifrado.
Nem homens.
Nem mulheres.
Somos todos territórios em
construção.
Todos carregamos quartos dentro da alma onde nem nós mesmos entramos com
frequência.
Por isso, talvez não precisem tentar
desvendar uma mulher.
Caminhem ao lado dela.
Escutem.
Observem.
Perguntem.
Respeitem.
Tenham paciência.
Porque algumas das coisas mais
bonitas que alguém pode descobrir sobre outra pessoa não aparecem quando se
procura desesperadamente por respostas.
Aparecem quando existe confiança
suficiente para que o outro finalmente diga:
“Agora posso mostrar quem sou.”
E quando isso acontece, talvez
percebam que nunca estiveram diante de um mistério.
Estavam diante de um universo.
E universos não foram feitos para
serem conquistados.
Foram feitos para serem contemplados, respeitados e conhecidos, pouco a
pouco.
Acimarley Freitas
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