Psicologa Organizacional

2 de julho de 2026

 




Vicaricídio:

Quando a Violência Atinge a Alma Antes de Ferir o Corpo

 

Por Acimarley Freitas

 

Há dores que chegam fazendo barulho. Outras entram em silêncio, ocupam todos os cômodos da alma e fazem da própria casa um lugar de medo.

 

O vicaricídio nasce exatamente nesse território escuro.

 

Imagine alguém que descobre que não consegue mais controlar a pessoa que dizia amar. Então, decide atingir aquilo que ela mais ama. Os filhos. A família. Os animais de estimação. A reputação. Os sonhos. Tudo aquilo que possui valor afetivo passa a ser usado como arma.

 

Essa é a lógica da violência vicária.

 

Não é apenas provocar sofrimento. É destruir emocionalmente alguém utilizando terceiros como instrumentos de vingança.

 

O agressor sabe onde mora o amor. E é exatamente ali que ele dispara.

 

A vítima, muitas vezes, demora a perceber que vive esse tipo de violência. No início parecem pequenas manipulações.

 

"Se você me deixar, nunca mais verá seus filhos."

 

"Vou destruir sua vida."

 

"Ninguém vai acreditar em você."

 

"Você vai pagar pelo que fez."

 

As ameaças aumentam. O medo cresce. O isolamento aparece. A autoestima desaparece lentamente.

 

Até que um dia a vítima já não consegue distinguir onde termina o medo e onde começa a própria identidade.

 

O que é o vicaricídio?

 

O termo está relacionado à forma mais extrema da violência vicária, quando o agressor provoca a morte de filhos ou de pessoas profundamente amadas pela vítima com o objetivo de causar sofrimento psicológico irreparável. Em um sentido mais amplo, a violência vicária também inclui ameaças, manipulações e agressões dirigidas a pessoas ou seres pelos quais a vítima tem forte vínculo afetivo.

 

Como identificar?

 

Alguns sinais merecem atenção:

 

ameaças constantes envolvendo filhos ou familiares;

 

chantagem emocional;

 

perseguição após separação;

 

tentativa de afastar os filhos da mãe ou do pai por manipulação;

 

controle financeiro;

 

humilhações públicas;

 

destruição de objetos com valor sentimental;

 

agressões a animais de estimação;

 

comportamentos obsessivos e vingativos.

 

 

O que a legislação diz?

 

No Brasil, embora o termo "vicaricídio" ainda não possua um tipo penal específico, essas condutas podem ser enquadradas em diversos dispositivos legais, conforme o caso:

 

Lei Maria da Penha, quando caracterizada violência psicológica, moral, patrimonial ou física.

 

Crimes previstos no Código Penal, como ameaça, perseguição (stalking), lesão corporal, homicídio, sequestro, constrangimento ilegal e outros.

 

Medidas protetivas de urgência podem ser solicitadas para preservar a integridade da vítima e dos filhos.

 

 

Diversos países, como Espanha e México, têm discutido ou adotado medidas específicas para reconhecer e combater a violência vicária, ampliando a proteção às vítimas e às crianças.

 

Consequências psicológicas

 

Quem vive esse tipo de violência pode desenvolver:

 

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT);

 

ansiedade intensa;

 

depressão;

 

ataques de pânico;

 

insônia;

 

culpa excessiva;

 

medo constante;

 

isolamento social;

 

dificuldades em confiar nas pessoas;

 

ideação suicida em casos graves.

 

 

As crianças também podem apresentar prejuízos importantes no desenvolvimento emocional, escolar e social.

 

Como ajudar uma pessoa que está vivendo isso?

 

O primeiro passo não é dar conselhos.

 

É acreditar.

 

Escutar sem julgamento.

 

Acolher.

 

Orientar para que procure ajuda especializada.

 

Estimular o registro de provas, mensagens, gravações e testemunhas, quando possível e permitido pela legislação.

 

Buscar imediatamente apoio da rede de proteção, familiares confiáveis, assistência social, serviços de saúde, psicólogos, advogados e autoridades policiais sempre que houver risco.

 

Ninguém deveria enfrentar essa violência sozinho.

 

Tratamento

 

O tratamento deve ser individualizado.

 

A psicoterapia é considerada fundamental para reconstrução emocional, elaboração do trauma, fortalecimento da autoestima e recuperação da sensação de segurança. Abordagens baseadas em evidências, como terapias focadas no trauma, podem ser indicadas conforme cada caso.

 

Quando existem sintomas importantes de depressão, ansiedade, insônia ou TEPT, o psiquiatra poderá indicar farmacoterapia, utilizando antidepressivos, ansiolíticos ou outros medicamentos apropriados. A medicação trata sintomas; a psicoterapia ajuda a elaborar a experiência traumática e promover recuperação.

 

Quem é o agressor?

 

Não existe um perfil único.

 

Entretanto, muitos apresentam características como:

 

necessidade extrema de controle;

 

incapacidade de aceitar rejeição;

 

ciúme patológico;

 

manipulação;

 

baixa tolerância à frustração;

 

comportamento possessivo;

 

ausência ou redução da empatia;

 

desejo de vingança;

 

alternância entre sedução e agressividade;

 

tendência a responsabilizar sempre o outro pelos próprios atos.

 

 

É importante destacar que essas características não permitem diagnosticar um transtorno mental específico. Somente uma avaliação clínica especializada pode fazê-lo.

 

O vicaricídio talvez seja uma das formas mais cruéis de violência porque transforma o amor em instrumento de destruição.

 

Quem agride não procura justiça.

 

Procura sofrimento.

 

Por isso, reconhecer os primeiros sinais pode salvar vidas.

 

Se você conhece alguém que vive sob ameaças constantes, não minimize o problema. Muitas tragédias poderiam ter sido evitadas se alguém tivesse escutado, acreditado e oferecido ajuda no momento certo.

 

Que a sociedade aprenda a proteger antes de lamentar. Porque nenhuma pessoa deveria descobrir que amar alguém pode ser transformado, pelas mãos da violência, na sua maior fonte de dor.

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico

CRP – 04/54732

1 de julho de 2026

 

Pateta no Trânsito






O homem que mora atrás do volante

 

Há alguns dias, voltei a assistir ao antigo desenho do Pateta no trânsito.

 

Confesso que, desta vez, não enxerguei um desenho. Enxerguei pessoas.

 

Enxerguei a mim.

 

Enxerguei você.

 

É curioso como uma animação tão simples consegue dizer tanto sobre a natureza humana.

 

O Pateta caminha pelas ruas com leveza. Sorri para quem encontra, espera a sua vez, demonstra gentileza. Parece alguém que compreendeu que a vida fica melhor quando existe espaço para o outro.

 

Então ele entra no carro.

 

Nada muda por fora.

 

É o mesmo chapéu.

 

O mesmo rosto.

 

A mesma roupa.

 

Mas algo acontece por dentro.

 

A calma cede lugar à impaciência.

 

O sorriso desaparece.

 

A gentileza se perde entre a buzina, a pressa e o desejo de chegar primeiro.

 

Enquanto assistia, uma pergunta permaneceu comigo:

 

Será que o volante transforma as pessoas ou apenas revela aquilo que elas ainda não aprenderam a cuidar dentro de si?

 

Talvez o trânsito seja um dos lugares mais sinceros da vida.

 

Ali não dirigimos apenas um automóvel.

 

Dirigimos nossas emoções.

 

Levamos conosco o cansaço da semana, as preocupações da família, as palavras que ouvimos e ainda doem, as frustrações que insistimos em carregar.

 

O carro apenas nos acompanha.

 

Quem realmente conduz a viagem é aquilo que habita o nosso coração.

 

Tenho aprendido, ao longo dos anos, que quase nunca nos irritamos apenas com o motorista que fechou nossa passagem.

 

Na maioria das vezes, reagimos também a muitas outras coisas que já estavam dentro de nós.

 

O trânsito apenas encontra essas emoções pelo caminho.

 

Talvez seja por isso que sempre acreditei que a Psicologia do Trânsito fala muito menos sobre veículos do que sobre pessoas.

 

Antes de sermos motoristas, somos seres humanos.

 

Pessoas que também se cansam.

 

Que também choram.

 

Que também erram.

 

Que também desejam chegar em casa e encontrar um pouco de paz.

 

Quando esquecemos disso, deixamos de enxergar pessoas e passamos a enxergar apenas obstáculos.

 

O carro da frente deixa de ser alguém.

 

O pedestre vira um atraso.

 

O ciclista se transforma em um incômodo.

 

E, sem perceber, perdemos uma das coisas mais bonitas da convivência humana: a capacidade de reconhecer o outro como alguém tão importante quanto nós.

 

Talvez seja isso que mais me encanta na Abordagem Centrada na Pessoa.

 

Ela me recorda, todos os dias, que cada ser humano carrega uma história que eu desconheço.

 

Quem dirige devagar pode estar vivendo um dia difícil.

 

Quem demorou a arrancar no sinal talvez tenha recebido uma notícia que mudou sua vida.

 

Quem errou pode estar apenas tentando continuar.

 

Nós nunca sabemos.

 

E justamente porque não sabemos, a gentileza continua sendo uma das formas mais profundas de respeito.

 

No fim, percebi que aquele velho desenho nunca quis ensinar apenas educação no trânsito.

 

Ele quis nos lembrar de algo muito maior.

 

Existe um homem que mora atrás do volante.

 

Existe uma mulher atrás do volante.

 

Existe uma história.

 

Existe um coração.

 

Existe alguém lutando batalhas que os nossos olhos não conseguem ver.

 

Talvez o grande desafio não seja aprender a dirigir melhor.

 

Talvez seja aprender a continuar humano, mesmo quando a vida acelera.

 

Porque chegar alguns minutos antes raramente muda a nossa história.

 

Mas chegar com o coração em paz... isso muda tudo.

 

No trânsito e na vida, a direção mais segura continua sendo aquela guiada pela empatia.

                                         

 

Acimarley Freitas

Psicólogo Clínico e do Trânsito

CRP- 04/54732


17 de junho de 2026


 

O Poder Terapêutico da Oração

 

Há dias em que a vida parece falar alto demais.

 

São contas para pagar, notícias difíceis, saudades que apertam, medos que não têm nome e perguntas que insistem em permanecer sem resposta. Nessas horas, a alma faz o que pode. Uns choram. Outros se calam. Há quem caminhe sem destino, quem procure um amigo e quem coloque uma música para tocar.

 

E há quem ore.

 

Como psicólogo, já escutei muitas histórias. Algumas delas carregavam a certeza de que tudo estava perdido. Outras traziam a dor de quem havia tentado ser forte por tempo demais. Curiosamente, em muitos desses encontros, a oração aparecia não como uma obrigação religiosa, mas como um lugar de descanso.

 

Talvez porque a oração seja uma das poucas experiências da vida em que não precisamos fingir.

 

Podemos chegar diante de Deus sem maquiagem emocional.

 

Não é preciso parecer forte.

 

Não é necessário organizar as palavras.

 

Não há exigência de discursos bonitos.

 

A oração aceita lágrimas, silêncios e até revoltas.

 

Há pessoas que acreditam que orar é convencer Deus a fazer a nossa vontade. Com o passar dos anos, tenho pensado diferente. Talvez a oração tenha menos a ver com mudar os planos do céu e mais com reorganizar os nossos próprios sentimentos.

 

Enquanto falamos, vamos nos ouvindo.

 

Enquanto choramos, vamos nos acolhendo.

 

Enquanto esperamos, vamos descobrindo que ainda existe esperança.

 

A psicologia nos ensina que colocar emoções em palavras diminui o peso daquilo que carregamos. A espiritualidade, por sua vez, acrescenta uma dimensão ainda mais profunda: a sensação de que não estamos sozinhos na caminhada.

 

Não são poucos os pacientes que me dizem:

— Doutor, depois que orei, o problema continuou o mesmo, mas eu já não me sentia da mesma forma.

 

Essa frase sempre me faz refletir.

 

Talvez esse seja um dos maiores milagres da oração.

 

Ela nem sempre muda as circunstâncias imediatamente, mas pode mudar a maneira como atravessamos as circunstâncias.

 

A tempestade continua.

 

Mas o coração encontra abrigo.

 

O diagnóstico ainda existe.

 

Mas o medo perde um pouco da sua força.

 

A saudade permanece.

 

Mas a lembrança ganha um toque de gratidão.

 

É como se a oração acendesse uma pequena luz dentro da gente, lembrando que há caminhos que os olhos ainda não conseguem enxergar.

 

Penso também que a oração tem uma curiosa semelhança com o encontro terapêutico. Em ambos os espaços existe alguém disposto a ouvir. Na terapia, um ser humano oferece escuta, presença e acolhimento. Na oração, a fé nos convida a acreditar que existe um Deus atento até às palavras que nunca saíram da boca.

 

Talvez por isso o salmista tenha escrito que Deus recolhe as lágrimas.

 

Que imagem bonita.

 

Um Deus que não despreza o sofrimento, não apressa o luto e não diz que sentir é sinal de fraqueza.

 

Um Deus que permanece.

 

Vivemos em uma época em que quase tudo precisa ser rápido. Mensagens instantâneas, respostas imediatas, entregas no mesmo dia. Mas existem dores que não obedecem ao relógio e feridas que não cicatrizam com pressa.

 

A oração nos ensina a arte da espera.

 

Ela nos lembra que há processos que acontecem em silêncio, como a semente que cresce debaixo da terra antes de aparecer em forma de flor.

 

Talvez você esteja vivendo um desses dias difíceis.

 

Talvez tenha perdido alguém, recebido uma notícia inesperada, enfrentado uma crise familiar ou simplesmente acordado cansado da vida.

 

Se for assim, permita-se orar.

 

Não porque a oração seja uma fórmula mágica contra o sofrimento.

 

Mas porque ela pode ser um abraço quando ninguém souber o que dizer.

 

Pode ser um descanso quando as forças acabarem.

 

Pode ser uma ponte entre a sua dor e a esperança.

 

E, quem sabe, ao terminar sua oração, você descubra que Deus não retirou imediatamente o peso dos seus ombros.

 

Mas caminhou ao seu lado, ajudando você a carregá-lo.

 

E isso, para muitos corações cansados, já é uma forma profunda de cura.

 

Se esta crônica encontrou espaço no seu coração, compartilhe com alguém que talvez esteja precisando de um pouco de esperança hoje.

 

 Se você está atravessando um momento difícil, lembre-se: pedir ajuda, conversar e cuidar da saúde emocional também são formas de coragem e de fé.

 

 "Lancem sobre Ele toda a sua ansiedade, porque Ele tem cuidado de vocês." (1 Pedro 5:7).

11 de junho de 2026

 


Quando a Fé Encontra a Psicologia

 

Por Acimarley Freitas

Outro dia, enquanto aguardava minha vez em uma sala de espera, ouvi uma senhora contar uma história.

Ela falava baixo, como quem revela um segredo antigo.

Disse que, todas as noites, conversava com o marido, falecido havia alguns anos.

Não o via exatamente.

Também não o tocava.

Mas sentia sua presença.

Às vezes, dizia ela, era como um perfume conhecido.

Outras vezes, um sonho tão real que acordava com a sensação de ter compartilhado mais uma noite de conversa.

Uma jovem que estava próxima sorriu.

— Minha avó também dizia isso.

Um rapaz interrompeu:

— Isso é saudade.

Um senhor comentou:

— Isso é espiritualidade.

Outro respondeu:

— Isso é coisa da cabeça.

E, de repente, percebi que aquela pequena sala de espera havia se transformado em uma das maiores discussões da humanidade.

Afinal...

Quando a fé encontra a Psicologia, quem está certo?

Talvez a pergunta esteja errada.

Desde que o ser humano descobriu que existia, passou a olhar para aquilo que não conseguia explicar.

Os antigos olhavam para os trovões e enxergavam deuses.

Os povos indígenas conversavam com a floresta.

Os ancestrais africanos mantinham viva a memória dos que partiram.

As grandes religiões encontraram diferentes formas de compreender o sagrado.

Uma igreja pode chamar de dom espiritual.

Um centro espírita pode compreender como mediunidade.

Um terreiro pode interpretar como manifestação das entidades.

Um povo tradicional pode dizer que são os ancestrais caminhando entre os vivos.

E, curiosamente, todas essas experiências carregam algo em comum.

O desejo humano de encontrar sentido.

Talvez ninguém consiga viver muito tempo acreditando que o universo seja apenas um grande acidente sem significado.

Há perguntas que parecem morar dentro de nós desde o nascimento.

Por que estamos aqui?

O que existe depois da morte?

Existe algo maior do que nós?

Há uma alma?

Existe Deus?

Existe um mundo invisível?

A Filosofia faz perguntas.

A religião oferece caminhos.

A ciência investiga fenômenos.

E a Psicologia?

A Psicologia talvez faça algo muito bonito.

Ela escuta.

Escuta quem acredita.

Escuta quem duvida.

Escuta quem sofre.

Escuta quem busca respostas.

Talvez esse seja um de seus maiores desafios.

Nem transformar toda experiência espiritual em doença.

Nem explicar todo sofrimento humano apenas pelo sobrenatural.

Porque a vida parece ser mais complexa do que nossas teorias.

Penso em uma mãe que perdeu um filho e, durante alguns meses, sonha frequentemente com ele.

Penso em alguém que, durante uma oração, sente uma paz difícil de explicar.

Penso em uma pessoa que, em um ritual religioso, experimenta uma profunda transformação interior.

Essas experiências pertencem à humanidade.

Elas atravessam culturas, povos e séculos.

Mas também penso em alguém que vive atormentado por medos constantes.

Que se isola.

Que sofre.

Que deixa de viver.

Que sente sua realidade se desfazer diante dos próprios olhos.

Talvez essa pessoa precise de acolhimento.

Talvez precise da família.

Talvez precise da comunidade religiosa.

Talvez precise da Psicologia.

Talvez precise da Medicina.

Talvez precise de todas elas caminhando juntas.

Existe uma curiosidade sobre o ser humano.

Gostamos de escolher lados.

Ciência ou religião.

Razão ou fé.

Corpo ou alma.

Como se a existência fosse obrigada a caber em nossas divisões.

Mas a vida parece não gostar de fronteiras tão rígidas.

A mesma pessoa que frequenta uma universidade pode fazer uma oração antes de uma prova.

O médico pode agradecer a Deus por uma cirurgia bem-sucedida.

O psicólogo pode respeitar a espiritualidade de seu cliente.

O religioso pode reconhecer a importância dos cuidados com a saúde mental.

Talvez maturidade seja justamente isso.

Reconhecer que o outro pode enxergar o mundo por uma janela diferente da nossa.

Há alguns anos, conheci um velho jardineiro.

Enquanto cuidava das plantas, ele disse algo que nunca esqueci.

— Existem flores que gostam do Sol.

Existem flores que gostam da sombra.

Existem flores que precisam de muita água.

Existem flores que quase vivem da seca.

Mas todas continuam sendo flores.

Acho que as pessoas são parecidas.

Algumas encontram sentido na oração.

Outras na meditação.

Outras na ciência.

Outras na arte.

Outras ainda permanecem procurando.

E talvez a procura também seja uma forma de espiritualidade.

No fim daquela conversa na sala de espera, a senhora voltou a sorrir.

Alguém perguntou:

— A senhora acredita mesmo que conversa com seu marido?

Ela olhou para todos nós.

Pensou por alguns segundos.

E respondeu:

— Não sei explicar.

Só sei que, depois dessas conversas, meu coração fica em paz.

Ninguém respondeu.

Talvez porque existam perguntas que a ciência ainda investiga.

Perguntas que a religião contempla.

Perguntas que a Filosofia admira.

Perguntas que a Psicologia escuta.

E perguntas que simplesmente acompanham a condição humana.

Naquela noite, enquanto caminhava para casa, olhei para o céu.

As estrelas continuavam onde sempre estiveram.

Pensei nos livros.

Nas teorias.

Nas religiões.

Nos consultórios.

Nos templos.

Nos hospitais.

Nos terreiros.

Nas igrejas.

Nos centros espirituais.

Nas pessoas que acreditam.

Nas pessoas que duvidam.

E descobri uma pequena verdade que talvez sirva para todos nós.

Talvez a maior demonstração de inteligência não seja provar que estamos certos.

Talvez seja aprender a caminhar com humildade diante dos mistérios que ainda não compreendemos.

Porque, no fundo, a fé e a Psicologia talvez não sejam inimigas.

Talvez sejam duas viajantes encontrando-se na mesma estrada, tentando compreender o coração humano.

E quem sabe o maior mistério não esteja nas respostas que encontramos...

Mas na capacidade profundamente humana de continuar fazendo perguntas.