Psicologa Organizacional

11 de junho de 2026

 



Aperriado:

Uma Filosofia Tipicamente Brasileira

 

Por Acimarley Freitas

Existe uma palavra que deveria ser patrimônio cultural do Brasil.

Não está nos grandes tratados de filosofia. Não aparece nos manuais de administração. Pouco interessa aos economistas. Mas explica boa parte da vida do trabalhador brasileiro.

A palavra é: aperriado.

Aperriado não é apenas estar preocupado.

Também não é estar triste.

Muito menos estressado.

Aperriado é um estado de espírito.

É uma experiência existencial.

É quase uma pós-graduação em sobrevivência.

O trabalhador acorda cedo, ainda escuro. Pega o celular para conferir as horas.

Sem bateria.

O carregador ficou na sala.

Já começa aperriado.

Levanta correndo.

Vai tomar café.

O pão acabou.

O café também.

Aperriado pela segunda vez.

Olha para o relógio.

Está atrasado.

Corre para o ponto de ônibus.

O ônibus passa lotado.

O próximo só Deus sabe quando.

Enquanto espera, abre o aplicativo do transporte.

O Uber está no dinâmico.

Quarenta e oito reais.

"Vou esperar baixar."

Espera cinco minutos.

Sessenta e dois reais.

O algoritmo parece perceber o desespero humano.

Aperriado.

Finalmente consegue chegar ao trabalho.

No intervalo, lembra que precisa apresentar um comprovante de residência.

Abre a gaveta.

A conta de luz está no nome da mãe.

A água, no nome do pai.

A internet, no nome da esposa.

O aluguel não aceitam.

A autodeclaração ninguém sabe se vale.

O trabalhador começa a questionar se realmente mora onde mora.

Aperriado.

Chega a hora do almoço.

Pega o celular para fazer um Pix.

Digita rápido.

Confirma.

Envia.

Cinco segundos depois, percebe.

Mandou para o número errado.

A pessoa visualiza.

Não responde.

O trabalhador descobre que confiança no próximo é um conceito bastante relativo.

Aperriado.

No fim do expediente, resolve passar no supermercado.

Pega apenas três produtos.

Uma banana.

Um leite.

Um pacote de arroz.

Escolhe a fila menor.

Naturalmente, a senhora da frente resolve discutir o preço da cebola, procurar moedas na bolsa e lembrar que esqueceu um item.

A fila ao lado, com quinze pessoas, anda mais rápido.

Existe uma lei universal que explica isso.

Mas a ciência ainda não descobriu qual é.

Aperriado.

Na volta para casa, o celular avisa:

"Seu pacote de dados acabou."

Sem internet.

Sem aplicativo.

Sem música.

Sem mapa.

Sem notícias.

Pela primeira vez em muito tempo, resta apenas uma companhia.

Os próprios pensamentos.

Talvez seja esse o maior aperreio dos tempos modernos.

Ficar sozinho consigo mesmo.

Chega em casa cansado.

Abre a geladeira.

Lembra que amanhã vence a conta da água.

Semana que vem o cartão.

No outro mês o IPVA.

A escola do menino.

O remédio da mãe.

A manutenção do carro.

A vida adulta parece um grupo de WhatsApp onde os boletos nunca param de mandar mensagem.

Aperriado.

Mas existe algo curioso no brasileiro.

Mesmo aperriado, ele faz piada.

Conta histórias.

Divide um café.

Ajuda um vizinho.

Empresta uma ferramenta.

Leva um amigo de moto.

Faz um churrasco com pouco dinheiro.

Dá risada das próprias dificuldades.

Talvez seja essa a nossa maior riqueza.

A capacidade de transformar o aperreio em conversa.

A preocupação em solidariedade.

O cansaço em esperança.

Porque, pensando bem, a vida nunca foi totalmente organizada.

Sempre haverá um ônibus atrasado.

Uma fila demorada.

Um Pix enviado errado.

Um documento faltando.

Um Uber no dinâmico.

Um comprovante de residência que não comprova residência.

Sempre haverá algum aperreio esperando por nós.

A diferença talvez esteja em como caminhamos com eles.

Há pessoas que colecionam problemas.

Outras colecionam histórias.

E suspeito que o segredo da felicidade não seja viver sem aperreios.

Isso seria impossível.

Talvez o segredo seja olhar para a vida e dizer:

— "Meu Deus, que aperreio..."

Respirar fundo.

Dar uma risada.

E continuar caminhando.

Porque, no fim das contas, o brasileiro já descobriu uma verdade que poucos filósofos conseguiram explicar:

Quem aprende a rir dos pequenos aperreios da vida acaba descobrindo que a felicidade, muitas vezes, mora justamente no intervalo entre um problema e outro.

 


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