Psicologa Organizacional

11 de junho de 2026

 


A Motiva(ação)

 

Por Acimarley Freitas

Outro dia, enquanto esperava minha vez em uma fila de banco, observei um senhor de cabelos brancos conversando com um menino.

O garoto parecia inquieto.

Olhava para o relógio.

Olhava para a porta.

Olhava para o celular.

Suspirava.

Então perguntou ao avô:

— Vô, quanto tempo falta?

O velho sorriu e respondeu:

— Para quê?

O menino pensou um pouco.

— Para a gente ir embora.

O senhor olhou para ele e disse algo que talvez nem ele mesmo soubesse o tamanho da sabedoria que carregava:

— Engraçado… quando eu tinha a sua idade, queria que o tempo passasse rápido. Hoje, queria que ele andasse devagar.

A fila continuou.

Mas aquela conversa ficou comigo.

Talvez porque ela revele uma das maiores inquietações do ser humano.

Estamos sempre esperando alguma coisa.

Esperamos o fim da aula.

Esperamos a faculdade.

Esperamos o emprego.

Esperamos a promoção.

Esperamos encontrar alguém.

Esperamos casar.

Esperamos os filhos crescerem.

Esperamos a aposentadoria.

Esperamos as férias.

Esperamos a sexta-feira.

Esperamos o próximo feriado.

Esperamos a motivação chegar.

E, enquanto esperamos, a vida vai acontecendo.

Existe uma curiosidade sobre a palavra motivação.

As pessoas costumam imaginá-la como uma visita inesperada.

Um dia ela bate à porta.

Entra.

Senta no sofá.

E diz:

— Hoje você vai conquistar o mundo.

Mas a experiência humana parece funcionar de outro jeito.

Há dias em que acordamos cheios de energia.

Há dias em que não.

Há manhãs em que acreditamos em nós mesmos.

Há tardes em que duvidamos de tudo.

Há noites em que pensamos em desistir.

E talvez isso seja mais comum do que gostamos de admitir.

Vivemos numa época curiosa.

As redes sociais transformaram a motivação em espetáculo.

Alguém acorda às cinco da manhã.

Corre dez quilômetros.

Lê três livros.

Abre uma empresa.

Investe na bolsa.

Prepara um café perfeito.

Sorri para a câmera.

E ainda encontra tempo para dizer que basta querer.

Enquanto isso, do outro lado da tela, existe alguém tentando apenas levantar da cama para enfrentar mais um dia.

E essa pessoa acredita que está falhando na vida.

Talvez este seja um dos grandes enganos do nosso tempo.

Confundir motivação com comparação.

Há pessoas que passam a vida tentando alcançar sonhos que nunca foram seus.

Compram aquilo que não desejavam.

Estudam o que não gostam.

Vestem personagens.

Sorriem fotografias.

Acumulam conquistas.

Mas não conseguem encontrar sentido.

E então surge uma pergunta desconfortável.

Quem escolheu a vida que estou vivendo?

Foi meu coração?

Foi minha família?

Foi a sociedade?

Foi o medo?

Foi a necessidade de aprovação?

Ou fui eu?

Talvez a motivação não seja uma chama que aparece do nada.

Talvez seja uma fogueira.

E fogueiras não permanecem acesas sozinhas.

Precisam de pequenos gravetos.

Pequenos cuidados.

Pequenas escolhas.

Um passo.

Uma conversa.

Um abraço.

Uma caminhada.

Uma página lida.

Uma oração.

Um café compartilhado.

Um pedido de ajuda.

Uma noite de sono.

Uma pausa necessária.

A vida parece gostar das pequenas coisas.

Curiosamente, são elas que sustentam as grandes.

Penso também que existe uma diferença entre viver empurrado e viver chamado.

Há quem acorde todos os dias apenas porque precisa.

E há quem encontre alguma razão para caminhar.

Essa razão não precisa ser grandiosa.

Pode ser cuidar de um filho.

Ensinar uma criança.

Cultivar uma planta.

Construir uma casa.

Ajudar alguém.

Aprender um instrumento.

Fazer um bolo para a família.

Ou simplesmente descobrir quem se é.

Talvez a maior motivação do ser humano não esteja em conquistar o mundo.

Talvez esteja em não abandonar a si mesmo.

E isso me faz lembrar do velho da fila.

Enquanto o menino queria que o tempo corresse, ele desejava apenas permanecer um pouco mais naquele instante.

Talvez porque tenha descoberto algo que a juventude demora a entender.

A felicidade raramente mora na chegada.

Ela gosta do caminho.

Gosta das conversas.

Dos tropeços.

Dos recomeços.

Dos encontros.

Dos dias comuns.

Dos afetos simples.

Dos sonhos possíveis.

Talvez seja por isso que tantas pessoas, ao alcançarem aquilo que tanto desejavam, sintam um estranho vazio.

Elas descobriram que o destino não era o verdadeiro presente.

O presente era a caminhada.

E agora deixo uma pergunta.

Quando foi a última vez que você parou de esperar a vida começar e percebeu que ela já estava acontecendo?

Talvez a motivação não seja encontrar forças para chegar a algum lugar.

Talvez seja descobrir que existe uma razão para dar o próximo passo.

E, quem sabe, enquanto você termina esta leitura, exista uma pequena fila em algum lugar, um avô conversando com um neto, uma criança olhando para o relógio e um adulto correndo atrás do amanhã.

Talvez nenhum deles saiba.

Mas a vida, silenciosamente, continua convidando cada um de nós para a mesma aventura:

Não a de sermos extraordinários.

Mas a de sermos verdadeiros.

E talvez a história que você acabou de ler não seja sobre motivação.

Talvez ela seja sobre você.

 



Aperriado:

Uma Filosofia Tipicamente Brasileira

 

Por Acimarley Freitas

Existe uma palavra que deveria ser patrimônio cultural do Brasil.

Não está nos grandes tratados de filosofia. Não aparece nos manuais de administração. Pouco interessa aos economistas. Mas explica boa parte da vida do trabalhador brasileiro.

A palavra é: aperriado.

Aperriado não é apenas estar preocupado.

Também não é estar triste.

Muito menos estressado.

Aperriado é um estado de espírito.

É uma experiência existencial.

É quase uma pós-graduação em sobrevivência.

O trabalhador acorda cedo, ainda escuro. Pega o celular para conferir as horas.

Sem bateria.

O carregador ficou na sala.

Já começa aperriado.

Levanta correndo.

Vai tomar café.

O pão acabou.

O café também.

Aperriado pela segunda vez.

Olha para o relógio.

Está atrasado.

Corre para o ponto de ônibus.

O ônibus passa lotado.

O próximo só Deus sabe quando.

Enquanto espera, abre o aplicativo do transporte.

O Uber está no dinâmico.

Quarenta e oito reais.

"Vou esperar baixar."

Espera cinco minutos.

Sessenta e dois reais.

O algoritmo parece perceber o desespero humano.

Aperriado.

Finalmente consegue chegar ao trabalho.

No intervalo, lembra que precisa apresentar um comprovante de residência.

Abre a gaveta.

A conta de luz está no nome da mãe.

A água, no nome do pai.

A internet, no nome da esposa.

O aluguel não aceitam.

A autodeclaração ninguém sabe se vale.

O trabalhador começa a questionar se realmente mora onde mora.

Aperriado.

Chega a hora do almoço.

Pega o celular para fazer um Pix.

Digita rápido.

Confirma.

Envia.

Cinco segundos depois, percebe.

Mandou para o número errado.

A pessoa visualiza.

Não responde.

O trabalhador descobre que confiança no próximo é um conceito bastante relativo.

Aperriado.

No fim do expediente, resolve passar no supermercado.

Pega apenas três produtos.

Uma banana.

Um leite.

Um pacote de arroz.

Escolhe a fila menor.

Naturalmente, a senhora da frente resolve discutir o preço da cebola, procurar moedas na bolsa e lembrar que esqueceu um item.

A fila ao lado, com quinze pessoas, anda mais rápido.

Existe uma lei universal que explica isso.

Mas a ciência ainda não descobriu qual é.

Aperriado.

Na volta para casa, o celular avisa:

"Seu pacote de dados acabou."

Sem internet.

Sem aplicativo.

Sem música.

Sem mapa.

Sem notícias.

Pela primeira vez em muito tempo, resta apenas uma companhia.

Os próprios pensamentos.

Talvez seja esse o maior aperreio dos tempos modernos.

Ficar sozinho consigo mesmo.

Chega em casa cansado.

Abre a geladeira.

Lembra que amanhã vence a conta da água.

Semana que vem o cartão.

No outro mês o IPVA.

A escola do menino.

O remédio da mãe.

A manutenção do carro.

A vida adulta parece um grupo de WhatsApp onde os boletos nunca param de mandar mensagem.

Aperriado.

Mas existe algo curioso no brasileiro.

Mesmo aperriado, ele faz piada.

Conta histórias.

Divide um café.

Ajuda um vizinho.

Empresta uma ferramenta.

Leva um amigo de moto.

Faz um churrasco com pouco dinheiro.

Dá risada das próprias dificuldades.

Talvez seja essa a nossa maior riqueza.

A capacidade de transformar o aperreio em conversa.

A preocupação em solidariedade.

O cansaço em esperança.

Porque, pensando bem, a vida nunca foi totalmente organizada.

Sempre haverá um ônibus atrasado.

Uma fila demorada.

Um Pix enviado errado.

Um documento faltando.

Um Uber no dinâmico.

Um comprovante de residência que não comprova residência.

Sempre haverá algum aperreio esperando por nós.

A diferença talvez esteja em como caminhamos com eles.

Há pessoas que colecionam problemas.

Outras colecionam histórias.

E suspeito que o segredo da felicidade não seja viver sem aperreios.

Isso seria impossível.

Talvez o segredo seja olhar para a vida e dizer:

— "Meu Deus, que aperreio..."

Respirar fundo.

Dar uma risada.

E continuar caminhando.

Porque, no fim das contas, o brasileiro já descobriu uma verdade que poucos filósofos conseguiram explicar:

Quem aprende a rir dos pequenos aperreios da vida acaba descobrindo que a felicidade, muitas vezes, mora justamente no intervalo entre um problema e outro.

 


10 de junho de 2026

 



O País dos Olhos Abertos

 

Por Acimarley Freitas

 

Dizem que o Brasil nunca ficou cego.

 

E talvez esteja aí o nosso maior problema.

 

Vemos tudo.

 

Vemos a criança pedindo esmola no sinal enquanto o vidro do carro sobe. Vemos a enchente levar a casa de uma família e, no mesmo minuto, deslizamos o dedo para assistir ao próximo vídeo engraçado. Vemos a corrupção e a defendemos quando ela veste a camisa do nosso time. Vemos a fome, a violência, o preconceito, a solidão, a destruição das matas e os sonhos abandonados nas esquinas.

 

Vemos.

 

Mas há uma estranha doença rondando o país.

 

Uma cegueira que não apaga a retina, apenas o coração.

 

Nas ruas, pessoas caminham com os olhos grudados em pequenas telas luminosas. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas faz tempo que confundimos opinião com verdade e grito com argumento. Cada um carrega a própria lanterna, mas poucos a apontam para dentro de si.

 

Há quem enxergue apenas a própria dor.

 

Há quem enxergue apenas o próprio bolso.

 

Há quem enxergue apenas o próprio partido, a própria religião, a própria classe social, o próprio mundo.

 

E, de tanto olhar para si, deixamos de perceber que o Brasil sempre foi uma grande mesa, onde o pão só faz sentido quando repartido.

 

O curioso é que o país não perdeu a visão de uma vez.

 

Foi aos poucos.

 

Primeiro deixamos de enxergar o vizinho.

 

Depois o amigo.

 

Depois quem pensa diferente.

 

Depois quem sofre.

 

Até que um dia descobrimos que estávamos cercados de gente e, ainda assim, profundamente sozinhos.

 

Talvez a maior epidemia dos nossos tempos não seja a violência, nem a intolerância, nem a desesperança.

 

Talvez seja a indiferença.

 

Ela não faz barulho.

 

Não provoca febre.

 

Não aparece nos exames.

 

Ela apenas nos convence de que a dor do outro é problema do outro.

 

E assim seguimos.

 

Construindo muros mais altos e pontes mais curtas.

 

Colecionando seguidores enquanto perdemos amigos.

 

Defendendo discursos de humanidade sem oferecer um copo d'água a quem tem sede.

 

Às vezes penso que o Brasil se parece com uma enorme praça ao entardecer.

 

Milhares de pessoas passam umas pelas outras.

 

Cada uma carregando seus medos, suas contas para pagar, suas feridas invisíveis.

 

Algumas tropeçam.

 

Outras caem.

 

E a multidão continua andando, como se o chão nunca pudesse chamar pelo próprio nome.

 

Mas há uma esperança.

 

Ela sempre existe.

 

Está na professora que compra material escolar com o próprio salário.

 

No médico que segura uma mão antes de entregar um diagnóstico.

 

No agricultor que planta sabendo que talvez nem colha.

 

Na mãe que divide o pouco que tem.

 

No jovem que acredita que estudar ainda pode mudar uma história.

 

No voluntário que cozinha para desconhecidos.

 

No psicólogo que escolhe escutar onde o mundo só quer falar.

 

Talvez sejam essas pessoas as únicas que ainda enxergam.

 

Não porque tenham respostas para os problemas do país.

 

Mas porque recusam a aceitar que a humanidade seja apenas um detalhe.

 

Tenho pensado que o Brasil não precisa de um milagre nos olhos.

 

Precisa de um milagre no olhar.

 

Porque há uma enorme diferença entre olhar e ver.

 

Olhar é um movimento das pálpebras.

 

Ver é um compromisso da alma.

 

E talvez o futuro desta terra não dependa daqueles que conseguem enxergar longe.

 

Mas daqueles que ainda conseguem enxergar o outro.

 

Quem sabe o verdadeiro antídoto para a nossa cegueira coletiva não seja uma cura extraordinária.

 

Quem sabe seja algo muito mais simples.

 

Parar.

 

Encontrar alguém pelo caminho.

 

E dizer, com a coragem dos que ainda acreditam na vida:

 

"Eu estou vendo você."