Psicologa Organizacional

22 de julho de 2026

 




Finanças do Casal: quando o amor aprende a caminhar de mãos dadas com a sabedoria

 

Estamos vivendo dias desafiadores.

 

Não quero falar de política. Não quero discutir partidos, governos ou ideologias. Cada cidadão possui o direito de formar sua própria opinião, e isso deve ser respeitado.

 

Quero conversar sobre algo que independe de qualquer posição política.

 

Quero falar da mesa da cozinha.

 

Da geladeira.

 

Dos boletos.

 

Do salário que entra e, muitas vezes, desaparece antes mesmo do mês terminar.

 

Mais um final de mês está chegando.

 

E eu gostaria de fazer apenas uma pergunta:

 

Como está a saúde financeira do seu casamento?

 

Não responda rapidamente.

 

Pense.

 

Converse com o seu coração.

 

Porque, às vezes, a conta bancária revela muito mais do que números. Ela revela prioridades, escolhas, hábitos e, principalmente, a forma como o casal administra a vida.

 

Há famílias em que marido e esposa trabalham fora.

 

Os dois acordam cedo.

 

Os dois enfrentam trânsito.

 

Os dois carregam responsabilidades.

 

Os dois chegam cansados ao final do dia.

 

Mesmo assim, o dinheiro parece nunca ser suficiente.

 

Quando o salário cai na conta, ele já possui destino certo.

 

Água.

 

Energia elétrica.

 

Internet.

 

Supermercado.

 

Frutas e verduras.

 

Medicamentos.

 

Combustível.

 

Material escolar.

 

Plano de saúde.

 

Financiamentos.

 

Prestação da casa.

 

Prestação do veículo.

 

Impostos.

 

Pequenos imprevistos.

 

A lista parece infinita.

 

Respiramos fundo.

 

Pagamos uma conta.

 

Depois outra.

 

E outra.

 

E, quando percebemos, o mês ainda não acabou.

 

Mas nem todos os lares vivem essa realidade.

 

Em muitos lugares, apenas uma pessoa consegue trabalhar.

 

Há esposos que saem todos os dias para buscar o sustento da família.

 

Não porque desejam enriquecer rapidamente.

 

Mas porque querem apenas colocar alimento sobre a mesa.

 

Entretanto, nem sempre o esforço é recompensado como deveria.

 

Existem profissionais extremamente competentes que trabalham muito e recebem pouco.

 

Não lhes falta disposição.

 

Faltam oportunidades.

 

Enquanto isso, muitas esposas permanecem em casa.

 

Algumas cuidam dos filhos pequenos.

 

Outras ainda procuram uma oportunidade de emprego.

 

E há aquelas que escolheram dedicar esse tempo à família.

 

Independentemente do motivo, uma verdade precisa ser reconhecida.

 

Cuidar de uma casa também é trabalho.

 

A casa não tira férias.

 

Não conhece feriados.

 

Não fecha aos finais de semana.

 

Há roupas para lavar.

 

Há roupas para passar.

 

Há refeições para preparar.

 

Há crianças para cuidar.

 

Há consultas médicas.

 

Há tarefas escolares.

 

Há uma rotina silenciosa que exige amor, dedicação e muita resistência.

 

Reconhecer isso não é discutir quem trabalha mais.

 

É apenas valorizar o esforço de cada membro da família.

 

Talvez um dos maiores desafios do casamento moderno seja aprender a conversar sobre dinheiro.

 

Dinheiro não deveria ser motivo de vergonha.

 

Nem de disputa.

 

Nem de acusações.

 

Dinheiro precisa ser assunto de parceria.

 

Casamento não é uma competição.

 

É uma construção.

 

Infelizmente, existe uma armadilha muito presente na sociedade atual.

 

O cartão de crédito.

 

Os bancos oferecem limites elevados.

 

À primeira vista, parece uma conquista.

 

Mas, muitas vezes, aquilo que parece liberdade acaba se tornando prisão.

 

Algumas pessoas possuem um limite quatro ou cinco vezes maior que o salário recebido.

 

O problema é que o limite do cartão não representa dinheiro.

 

Representa apenas a possibilidade de fazer uma dívida.

 

E muitos confundem crédito com renda.

 

Compram hoje.

 

Parcelam amanhã.

 

Renovam a dívida depois.

 

Quando percebem, trabalham apenas para pagar parcelas do passado.

 

E o futuro começa a ficar comprometido.

 

Existe uma pergunta que todo casal deveria fazer antes de qualquer compra.

 

Nós precisamos disso ou apenas desejamos isso?

 

Essa pergunta parece simples.

 

Mas pode mudar completamente o destino financeiro de uma família.

 

Vivemos em uma sociedade que fabrica desejos o tempo inteiro.

 

As redes sociais mostram vidas aparentemente perfeitas.

 

As propagandas despertam emoções.

 

Os influenciadores apresentam um estilo de vida que parece facilmente alcançável.

 

Todos parecem felizes.

 

Todos parecem possuir mais.

 

Todos parecem viajar mais.

 

Comprar mais.

 

Trocar de carro.

 

Trocar de celular.

 

Trocar de móveis.

 

Mas a realidade quase nunca aparece nas fotografias.

 

Poucos mostram as dívidas.

 

Poucos mostram as noites sem dormir.

 

Poucos mostram as preocupações escondidas atrás de um sorriso.

 

Por isso, nunca compare os bastidores da sua vida com a vitrine da vida de outra pessoa.

 

A verdadeira prosperidade não começa na carteira.

 

Começa na mente.

 

Começa quando o casal aprende a dizer:

 

"Hoje não."

 

"Agora não é o momento."

 

"Vamos esperar mais um pouco."

 

Essas pequenas decisões evitam grandes sofrimentos.

 

Sonhar é importante.

 

Comprar uma casa própria é um sonho legítimo.

 

Conquistar um veículo também.

 

Dar conforto aos filhos é um desejo nobre.

 

Viajar.

 

Estudar.

 

Investir.

 

Tudo isso faz parte da vida.

 

O problema não está nos sonhos.

 

O problema está em tentar realizar todos ao mesmo tempo.

 

Prosperidade não nasce da pressa.

 

Ela nasce do planejamento.

 

Do diálogo.

 

Da disciplina.

 

Da capacidade de abrir mão do imediato para construir algo maior no futuro.

 

Talvez o orçamento familiar pareça uma tarefa cansativa.

 

Mas ele é uma demonstração de cuidado.

 

Sentar à mesa.

 

Anotar receitas.

 

Relacionar despesas.

 

Definir prioridades.

 

Planejar metas.

 

Economizar onde for possível.

 

Essas atitudes parecem pequenas.

 

Mas produzem grandes resultados.

 

Quando marido e esposa caminham juntos, até os desafios financeiros se tornam mais leves.

 

Porque ninguém carrega o peso sozinho.

 

E, quando um desanima, o outro fortalece.

 

Quando um esquece, o outro lembra.

 

Quando um sonha, o outro ajuda a transformar o sonho em realidade.

 

No final das contas, prosperidade não significa possuir tudo.

 

Prosperidade é viver com paz.

 

É dormir sem o coração angustiado.

 

É olhar para o futuro com esperança.

 

É perceber que a riqueza de uma família não está apenas no saldo da conta bancária, mas na capacidade de permanecer unida mesmo em tempos difíceis.

 

Que este final de mês seja diferente.

 

Antes de falar das contas, conversem sobre os sonhos.

 

Antes de discutir despesas, lembrem-se dos motivos que os fizeram construir uma família.

 

Antes de procurar culpados, procurem soluções.

 

E nunca se esqueçam de uma verdade simples, mas poderosa:

 

Quando marido e esposa administram juntos o orçamento da casa, eles não estão apenas cuidando do dinheiro. Estão protegendo a paz, fortalecendo o casamento e construindo, todos os dias, um futuro melhor para toda a família.

 

Pense nisso.

Converse sobre isso.

E caminhem juntos. Sempre.

 

Espero que estas palavras encontrem espaço não apenas em sua leitura, mas também no coração de cada casal. Afinal, quando existe diálogo, planejamento e união, as dificuldades deixam de ser um muro e passam a ser apenas mais um degrau rumo à prosperidade.

 

Acimarley Freitas

20 de julho de 2026

 



Às vezes, a escola é o lugar mais seguro que eles têm

 

Há quem enxergue a escola apenas como um prédio. Salas, carteiras, quadro, livros, provas e boletins. Mas quem já caminhou pelos corredores da educação, quem já ouviu o silêncio de uma criança e a ausência de um adolescente, sabe que a escola é muito mais do que um espaço de aprendizagem. Ela é, muitas vezes, um lugar de sobrevivência.

 

Cada carteira vazia ou ocupada carrega uma história que raramente aparece na chamada.

 

Na primeira fila, senta a menina que aprendeu cedo demais que existem mãos que machucam, quando deveriam proteger.

 

Mais atrás, está o menino que só faz uma refeição completa quando atravessa o portão da escola. A merenda, para ele, não é um complemento; é esperança servida em um prato.

 

No canto da sala, quase invisível, está aquele que perdeu a mãe e ainda tenta entender como o mundo continua girando depois que a pessoa mais importante foi embora.

 

Há também quem chegue sonolento porque passou a noite ouvindo discussões, gritos e o som das garrafas quebrando. O álcool nunca entra sozinho em uma casa; frequentemente leva consigo o medo, a insegurança e o silêncio.

 

Outro estudante não consegue esconder a tristeza. O pai agride a mãe. E, sem perceber, ele aprende que a violência também deixa marcas em quem apenas assiste.

 

Existe aquela criança que nunca teve uma festa de aniversário. Nunca apagou uma vela. Nunca ouviu um coro desafinado cantando "Parabéns". Cresceu acreditando que celebrar a própria existência era um privilégio reservado aos outros.

 

E há quem carregue a dor mais silenciosa de todas: a de não se sentir amado.

 

Como psicólogo, aprendi que comportamento é linguagem. O aluno agitado pode estar gritando por socorro. O que dorme durante a aula talvez esteja exausto de uma noite sem paz. O que desafia o professor pode estar apenas testando se, finalmente, alguém permanecerá ao seu lado.

 

Como professor, aprendi que ensinar Filosofia não é apenas apresentar Platão, Aristóteles ou Kant. É ensinar um jovem a perguntar pelo sentido da própria existência, mesmo quando a vida parece ter lhe negado todas as respostas.

 

Educar é um ato profundamente humano.

 

Às vezes, uma palavra acolhedora vale mais do que uma aula perfeita. Um olhar atento pode impedir uma desistência. Um bom dia dito com sinceridade pode ser a única demonstração de afeto que um aluno receberá naquele dia.

 

Não conhecemos a batalha que cada estudante enfrenta antes de ocupar sua carteira. Por isso, antes de julgar a nota, o comportamento ou o silêncio, vale a pena lembrar que ninguém aprende plenamente quando está apenas tentando sobreviver.

 

A escola não pode resolver todos os problemas do mundo. Mas pode impedir que o mundo destrua completamente uma criança.

 

E talvez essa seja uma das missões mais nobres da educação: fazer com que cada aluno encontre, entre paredes de concreto, aquilo que tantas vezes lhe falta do lado de fora — segurança, respeito, esperança e a certeza de que sua vida tem valor.

 

Acimarley Freitas

Psicólogo, Professor de Filosofia


 


Atrás do Trio Elétrico, Só Não Vai Quem Já Morreu

 

Há frases que atravessam gerações. Elas sobrevivem ao tempo, às mudanças e até mesmo às rugas que, discretamente, a vida desenha em nosso rosto.

 

Outro dia, sem que eu esperasse, a Alexa resolveu tocar uma música qualquer. Bastaram os primeiros acordes, e lá estava ela, na voz de Bel Marques, ecoando uma das frases mais conhecidas do Carnaval da Bahia:

 

"Atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu."

 

Por alguns instantes, o tempo parou.

 

Fechei os olhos e me vi novamente nos anos 80. Um menino que cresceu ouvindo aquela canção. Depois, já adolescente, caminhando pelas micaretas de Vitória da Conquista, na Bahia. O coração acelerado, os amigos, a alegria espontânea, os sonhos ainda sem prazo para acontecer. Havia inocência. Havia descobertas. Havia uma vida inteira pela frente.

 

São lembranças que hoje fazem parte da minha memória afetiva. Memórias que o tempo não apaga; apenas transforma em saudade.

 

Então abri os olhos.

 

Hoje tenho cinquenta anos. Sou pai de Pedro e Augusto. Psicólogo, professor, escritor, filósofo. A juventude ficou para trás, mas a pergunta permaneceu viva dentro de mim.

 

O que essa frase significa agora?

 

Será que ela fala apenas do Carnaval?

 

Penso que não.

 

Hoje acredito que ela fala, sobretudo, da vida.

 

Porque o trio elétrico pode ser entendido como a própria existência, sempre em movimento. A vida não espera. Ela passa diante de nós todos os dias, convidando-nos a caminhar, a amar, a recomeçar, a cantar, a dançar, a criar novas histórias.

 

O trio representa a arte que nos emociona.

 

A música que nos desperta.

 

A dança que devolve leveza ao corpo.

 

A cultura que preserva nossas raízes.

 

Os encontros que alimentam a alma.

 

A esperança que insiste em nascer depois das maiores tempestades.

 

Mas também me pergunto...

 

Quantas pessoas estão respirando, porém deixaram de caminhar atrás do seu próprio trio?

 

Quantas continuam vivas biologicamente, mas perderam a alegria de existir?

 

A dor, o luto, a ansiedade, a depressão, as frustrações e as perdas, muitas vezes, silenciosamente, fazem com que alguém abandone o desfile da própria vida.

 

É uma espécie de morte que não aparece nos atestados de óbito.

 

É a morte da esperança.

 

A morte dos sonhos.

 

A morte da capacidade de sentir encanto.

 

Como psicólogo, aprendi que viver não é apenas manter o coração batendo. É preservar a capacidade de sentir. De se emocionar. De acreditar que ainda vale a pena.

 

Talvez seja esse o verdadeiro convite escondido naquela antiga canção.

 

Enquanto houver vida, ainda existe um trio passando diante de nós.

 

Talvez ele não tenha caixas de som gigantes.

 

Talvez não venha cercado por multidões.

 

Às vezes, ele chega na forma de um abraço inesperado, do sorriso de um filho, de uma conversa sincera, de um novo amanhecer, de um livro, de uma oração, de uma música tocada por acaso dentro de casa.

 

E, de repente, percebemos que ainda estamos vivos.

 

O tempo passou. Passará para todos nós.

 

Mas há algo que o tempo jamais conseguirá envelhecer: a capacidade humana de reencontrar sentido para viver.

 

Hoje, aquela velha frase do Carnaval já não me convida apenas para seguir um trio elétrico pelas ruas da Bahia.

 

Ela me convida a algo muito maior.

 

Convida-me a continuar seguindo a vida.

 

Porque, no fim das contas, morrer não é apenas deixar de existir.

 

Às vezes, a verdadeira morte acontece quando desistimos de caminhar.

 

E enquanto houver um motivo para amar, aprender, servir, sonhar e recomeçar, o trio continuará passando.

 

A pergunta que permanece não é se ele vai passar.

 

A pergunta é:

 

Você ainda está caminhando atrás do seu?

 

Acimarley Freitas


9 de julho de 2026

 

 


O lugar onde a alma recomeça

 

Há dias em que o silêncio faz mais perguntas do que o mundo inteiro.

 

Ele senta ao nosso lado, percorre os corredores da memória e abre gavetas que passamos anos tentando manter fechadas. Não para nos punir. Apenas para nos lembrar de que tudo aquilo que evitamos continua vivendo dentro de nós.

 

É curioso...

 

Passamos boa parte da vida tentando convencer os outros de quem somos, enquanto gastamos tão pouco tempo descobrindo quem realmente nos tornamos.

 

Há pessoas que envelhecem sem jamais se encontrarem.

 

Colecionam conquistas, acumulam diplomas, multiplicam bens, cercam-se de gente... e, ainda assim, carregam um vazio que nenhuma novidade consegue preencher. Não porque lhes falte alguma coisa, mas porque se afastaram da única companhia da qual nunca poderiam fugir: elas mesmas.

 

Talvez o maior cansaço não seja o excesso de trabalho.

 

Seja o peso de sustentar uma versão de si que já morreu por dentro.

 

E insistir em carregar o que já perdeu o sentido também é uma forma silenciosa de sofrimento.

 

O autoconhecimento não acontece quando encontramos respostas. Ele começa quando temos coragem de abandonar as perguntas erradas.

 

Não é "por que eu errei?".

 

É "o que esse erro revela sobre minhas necessidades, meus medos e minha história?"

 

Não é "como apago o passado?".

 

É "como permito que ele deixe de escrever o meu futuro?"

 

Existe uma diferença profunda entre viver preso ao que aconteceu e aprender com o que aconteceu.

 

A primeira escolha nos transforma em prisioneiros.

 

A segunda nos transforma em autores.

 

Somos ensinados a esconder nossas rachaduras, quando talvez fossem justamente elas que permitiriam a entrada da luz da consciência.

 

Ninguém amadurece negando a própria humanidade.

 

Crescemos quando deixamos de lutar contra quem somos e começamos, finalmente, a nos escutar.

 

Sem julgamento.

 

Sem condenação.

 

Sem a necessidade de sermos perfeitos para merecermos continuar.

 

A vida não pede perfeição.

 

Pede presença.

 

Porque toda transformação verdadeira nasce do encontro entre aquilo que sentimos e a coragem de não fugir desse sentimento.

 

Fechar ciclos nunca significou esquecer pessoas, lugares ou histórias.

 

Significa retirar deles o poder de decidir quem você será daqui para frente.

 

Ressignificar é devolver ao passado o lugar que lhe pertence: atrás de você.

 

Não como uma prisão.

 

Mas como uma estrada que, apesar dos desvios, trouxe você até aqui.

 

Há uma beleza que só aparece quando paramos de pedir licença para recomeçar.

 

Afinal, quem disse que você precisa continuar sendo a pessoa que precisou existir para sobreviver ontem?

 

A vida muda.

 

As dores mudam.

 

Os sonhos mudam.

 

E você também pode mudar.

 

Sem culpa.

 

Sem vergonha.

 

Sem carregar a obrigação de justificar cada passo dado em direção a si mesmo.

 

Talvez seja esse o encontro mais raro da existência: olhar para dentro e perceber que ainda existe vida onde você acreditava haver apenas ruínas.

 

Porque nenhuma estação permanece para sempre.

 

Depois do inverno, a árvore não pede desculpas por florescer.

 

Ela apenas floresce.

 

Quem sabe esteja aí a resposta que você tanto procura.

 

Não no desejo de voltar a ser quem era.

 

Mas na coragem de tornar-se quem sempre esteve esperando para nascer.

 

E talvez seja isso que chamamos de liberdade: quando o passado deixa de ser sentença, o presente deixa de ser culpa e o futuro volta, finalmente, a ser uma possibilidade.

 

Acimarley Freitas


2 de julho de 2026

 




A Gazeta das Ruas da Bahia

 

Um conto de caso sobre o dia em que a Bahia decidiu ser livre

 

Por Acimarley Freitas

 

Venham depressa!

 

Cheguem mais perto!

 

Fechem as portas para o vento não levar a notícia, porque o que vou contar não é conversa de viajante nem exagero de feira.

 

Aconteceu na Bahia.

 

E quem viu, jura que nunca esquecerá.

 

Era o segundo dia do mês de julho do ano de Nosso Senhor de 1823. Logo cedo, o sol nasceu diferente. Parecia saber que aquele não seria um dia qualquer.

 

As ruas de Salvador acordaram inquietas. O povo cochichava nas esquinas. Mulheres rezavam. Crianças corriam sem entender direito o motivo da agitação. Os sinos das igrejas pareciam tocar mais alto.

 

De um lado estavam as tropas portuguesas, decididas a manter o domínio sobre a província. Do outro, homens e mulheres que já não aceitavam viver sob ordens vindas do outro lado do oceano.

 

Não pensem que essa história foi escrita apenas por soldados.

 

Foi escrita também por gente simples.

 

Lavradores.

 

Pescadores.

 

Artesãos.

 

Padres.

 

Escravizados que sonhavam com dias mais justos.

 

Negros libertos.

 

Índios.

 

Mulheres que recusaram permanecer apenas observando as janelas da História.

 

Dizem que entre elas caminhava uma mulher de coragem imensa.

 

Chamava-se Maria Quitéria.

 

Vestiu-se como soldado para lutar pela liberdade da Bahia quando poucos acreditavam que uma mulher pudesse ocupar aquele lugar. Empunhou armas, enfrentou batalhas e mostrou que a coragem não escolhe gênero.

 

Também contam que outra heroína percorria os campos levando mantimentos, mensagens e esperança.

 

Era Maria Felipa, mulher negra da Ilha de Itaparica, que reuniu outras mulheres para enfrentar soldados portugueses. Há quem diga que usaram galhos de cansanção para surpreender os inimigos e incendiaram embarcações, impedindo o avanço das tropas.

 

E como esquecer da jovem abadessa Joana Angélica?

 

Quando soldados portugueses tentaram invadir o Convento da Lapa, ela colocou o próprio corpo diante da porta.

 

Pediu que respeitassem aquele lugar santo.

 

A resposta veio em forma de baioneta.

 

Seu sangue tornou-se um dos símbolos da resistência baiana.

 

Enquanto isso, o general francês Pierre Labatut, contratado para organizar o Exército Libertador, conduzia parte das tropas brasileiras. Ao lado dele lutavam inúmeros oficiais, voluntários e cidadãos comuns que acreditavam que a independência proclamada meses antes por Dom Pedro, às margens do Ipiranga, ainda precisava ser conquistada na Bahia.

 

Porque, vejam bem...

 

Embora o Brasil tivesse declarado sua independência em 7 de setembro de 1822, os portugueses permaneciam ocupando Salvador.

 

Era preciso libertar a Bahia para consolidar, de fato, a independência do país.

 

E foi então que aconteceu.

 

As tropas portuguesas embarcaram rumo à Europa.

 

O povo tomou as ruas.

 

Os abraços substituíram o medo.

 

As bandeiras tremularam.

 

Os sinos voltaram a tocar.

 

As vozes se misturavam em um só coro.

 

"A Bahia venceu!"

 

Quem passava pela praça dizia que nunca tinha visto tanta gente sorrindo ao mesmo tempo.

 

Havia lágrimas.

 

Havia cantorias.

 

Havia esperança.

 

Naquele instante, não era apenas uma cidade que respirava aliviada.

 

Era um povo inteiro que descobria o significado da palavra liberdade.

 

Desde então, todo dia 2 de Julho deixou de ser apenas uma data.

 

Transformou-se em memória viva.

 

Um lembrete de que a independência do Brasil não terminou às margens do riacho do Ipiranga.

 

Ela precisou ser defendida com coragem nas ruas, nos conventos, nos campos e nas águas da Bahia.

 

E assim encerro esta notícia, escrita às pressas para que ninguém diga, no futuro, que desconhecia o valor desse povo.

 

Porque há dias que passam.

 

Há dias que ficam registrados nos livros.

 

E há dias, como este, que permanecem para sempre na alma de uma nação.

 

Que nunca nos falte memória para honrar aqueles que fizeram da coragem o caminho da liberdade.

 

E que, sempre que o calendário anunciar o 2 de Julho, a Bahia continue lembrando ao Brasil que a independência também foi conquistada com o sotaque, a bravura e o coração do povo baiano.