Psicologa Organizacional

29 de abril de 2026

 


Eu preciso da falta

 

Por Acimarley Freitas, Psicólogo Clínico

 

Há dias em que tudo parece estar no lugar.

 

O diploma na parede, o trabalho conquistado, os títulos que chegaram com esforço graduação, mestrado, talvez até um doutorado. Há também os afetos: a pessoa amada, os vínculos familiares, as amizades que sustentam. As viagens feitas, os bens adquiridos, os planos realizados. Tudo isso compõe aquilo que, por muito tempo, chamamos de “projeto de vida”.

 

E, ainda assim… algo falta.

 

Não é uma falta concreta, daquelas que conseguimos nomear com precisão. Não é necessariamente a ausência de dinheiro, de amor ou de oportunidades. É uma sensação mais sutil, quase silenciosa, mas profundamente presente. Uma espécie de vazio que não grita, mas também não se cala.

 

E então surgem as perguntas:

“Por que me sinto assim, se tenho tudo?”

“Será que me falta fé?”

“Será que estou sendo ingrato?”

 

Mas talvez… talvez a questão não seja eliminar essa falta.

 

Talvez seja compreendê-la.

 

Ao longo da minha caminhada como psicólogo, e também como alguém que sente, que vive e que busca, tenho aprendido que essa sensação não é um defeito da existência. Pelo contrário, ela é parte essencial dela.

 

A falta não é apenas ausência.

A falta é movimento.

 

Na perspectiva da psicologia, especialmente em diálogos com a psicanálise, compreendemos que o ser humano é marcado por um desejo que nunca se satisfaz completamente. Não porque algo esteja errado, mas porque é justamente esse “não preenchimento total” que nos impulsiona a continuar. Se estivéssemos plenamente completos, não haveria motivo para caminhar, sonhar, criar ou amar.

 

Na filosofia, essa inquietação também aparece como condição humana. Somos seres inacabados, em constante construção. E, na teologia, essa falta muitas vezes é interpretada como um espaço onde o transcendente se insinua não como um vazio a ser eliminado, mas como um convite à busca de sentido.

 

Percebe?

 

Aquilo que você chama de “falta” pode ser, na verdade, o que te mantém vivo por dentro.

 

É ela que te faz levantar em dias difíceis.

É ela que te move a buscar algo além do que já conquistou.

É ela que te lembra, de forma sutil, que a vida não é um ponto de chegada, mas um caminho em constante transformação.

 

O problema não está em sentir a falta.

O sofrimento começa quando acreditamos que não deveríamos senti-la.

 

Quando tentamos preenchê-la a qualquer custo.

Quando nos culpamos por ela.

Quando a interpretamos como fracasso.

 

Mas e se, ao invés disso, você pudesse olhar para essa sensação com mais gentileza?

 

E se você pudesse dizer a si mesmo:

Isso que sinto faz parte de ser humano.”

 

A falta não precisa ser sua inimiga.

Ela pode ser sua orientadora.

 

Ela não te diminui, ela te direciona.

 

Talvez você não precise correr para preencher esse espaço agora.

Talvez precise apenas escutá-lo.

 

Porque, no fundo, a grande verdade da vida é essa: não somos feitos para a completude estática, mas para o movimento contínuo do vir a ser.

 

E, de alguma forma paradoxal, é justamente a falta que nos permite continuar.

 

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🙏 Que Deus continue guiando os seus passos com amor e propósito.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

 

FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.

 

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

 

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

 

ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

 

MAY, Rollo. O Homem à Procura de Si Mesmo. Rio de Janeiro: Vozes, 1982.

 

AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2017.


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