Eu preciso da falta
Por
Acimarley Freitas, Psicólogo Clínico
Há
dias em que tudo parece estar no lugar.
O
diploma na parede, o trabalho conquistado, os títulos que chegaram com esforço
graduação, mestrado, talvez até um doutorado. Há também os afetos: a pessoa
amada, os vínculos familiares, as amizades que sustentam. As viagens feitas, os
bens adquiridos, os planos realizados. Tudo isso compõe aquilo que, por muito
tempo, chamamos de “projeto de vida”.
E,
ainda assim… algo falta.
Não
é uma falta concreta, daquelas que conseguimos nomear com precisão. Não é
necessariamente a ausência de dinheiro, de amor ou de oportunidades. É uma
sensação mais sutil, quase silenciosa, mas profundamente presente. Uma espécie
de vazio que não grita, mas também não se cala.
E
então surgem as perguntas:
“Por
que me sinto assim, se tenho tudo?”
“Será
que me falta fé?”
“Será
que estou sendo ingrato?”
Mas
talvez… talvez a questão não seja eliminar essa falta.
Talvez
seja compreendê-la.
Ao
longo da minha caminhada como psicólogo, e também como alguém que sente, que
vive e que busca, tenho aprendido que essa sensação não é um defeito da
existência. Pelo contrário, ela é parte essencial dela.
A
falta não é apenas ausência.
A falta é movimento.
Na
perspectiva da psicologia, especialmente em diálogos com a psicanálise,
compreendemos que o ser humano é marcado por um desejo que nunca se satisfaz
completamente. Não porque algo esteja errado, mas porque é justamente esse “não preenchimento total” que nos
impulsiona a continuar. Se estivéssemos plenamente completos, não haveria
motivo para caminhar, sonhar, criar ou amar.
Na
filosofia, essa inquietação também aparece como condição humana. Somos seres
inacabados, em constante construção. E, na teologia, essa falta muitas vezes é
interpretada como um espaço onde o transcendente se insinua não como um vazio a
ser eliminado, mas como um convite à busca de sentido.
Percebe?
Aquilo
que você chama de “falta” pode ser,
na verdade, o que te mantém vivo por dentro.
É
ela que te faz levantar em dias difíceis.
É
ela que te move a buscar algo além do que já conquistou.
É
ela que te lembra, de forma sutil, que a vida não é um ponto de chegada, mas um
caminho em constante transformação.
O
problema não está em sentir a falta.
O
sofrimento começa quando acreditamos que não deveríamos senti-la.
Quando
tentamos preenchê-la a qualquer custo.
Quando
nos culpamos por ela.
Quando
a interpretamos como fracasso.
Mas
e se, ao invés disso, você pudesse olhar para essa sensação com mais gentileza?
E se
você pudesse dizer a si mesmo:
“Isso que sinto faz parte de ser humano.”
A
falta não precisa ser sua inimiga.
Ela
pode ser sua orientadora.
Ela
não te diminui, ela te direciona.
Talvez
você não precise correr para preencher esse espaço agora.
Talvez
precise apenas escutá-lo.
Porque,
no fundo, a grande verdade da vida é essa: não somos feitos para a completude
estática, mas para o movimento contínuo do vir a ser.
E,
de alguma forma paradoxal, é justamente a falta que nos permite continuar.
✨ Se
esse texto falou ao seu coração, compartilhe com alguém que também precise
escutar isso hoje.
💬
Se quiser conversar sobre isso, estou por aqui.
🙏
Que Deus continue guiando os seus passos com amor e propósito.
Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços
Humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes,
2008.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos
Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes,
2009.
MAY, Rollo. O Homem à Procura de Si Mesmo. Rio de Janeiro:
Vozes, 1982.
AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2017.
Nenhum comentário:
Postar um comentário