Mãe: nome que não se divide
Por
Acimarley Freitas – Psicólogo Clínico
Foi
uma perícia psicológica, mais uma entre tantas que fazem parte da minha rotina
profissional. Ainda assim, como tantas outras vezes, aquele encontro carregava
algo de singular. Era uma jovem senhora de 43 anos, moradora do interior desse
Brasil tão vasto e, por vezes, tão desafiador. Havia em seu olhar uma mistura
de cansaço e dignidade, como quem já enfrentou muito, mas decidiu continuar.
Durante
a entrevista, sua fala fluía com naturalidade. Em meio à sua narrativa, ela
sorriu e disse, quase com leveza: “É,
Acimarley… eu sou mãe solo”. A expressão, dita de forma simples, teve em
mim um efeito profundo. Não passou despercebida, atravessou. Com cuidado, perguntei o que
significava, para ela, ser uma mãe solo.
Ela
então explicou: era mãe solteira. Disse que foi mãe, pai, provedora, educadora.
Que trabalhou muito para criar o filho. Reconheceu que a sociedade costuma
julgar mulheres como ela, mas afirmou, com uma serenidade que impressionava: “Eu sou uma mãe solo e sou feliz”.
Seguimos
com o processo, como exige a técnica e a ética profissional. Ao final, fiz o
encaminhamento necessário. No entanto, mesmo após o término da perícia, aquela
fala permaneceu em mim. Ao longo do dia, a expressão “mãe solo” ecoava, como um convite silencioso à reflexão.
Passei
a pensar nos caminhos que aquela mulher percorreu. Nos desafios enfrentados,
muitos deles invisíveis aos olhos alheios. Nas dificuldades financeiras, nas
escolhas difíceis, nas noites em que talvez tenha precisado ser forte mesmo
estando cansada. Pensei também na ausência de escuta que tantas mulheres vivem,
julgadas antes de serem compreendidas, rotuladas antes de serem acolhidas.
E
então, em meio a essas reflexões, algo se reorganizou dentro de mim.
Questionei, em silêncio: “Mãe solo?”.
E a resposta veio quase como uma constatação simples, porém profunda: não. Mãe.
Porque,
no fundo, não existem categorias capazes de definir o que é ser mãe. Os rótulos:
solteira, casada, viúva, adotiva são
construções sociais que tentam organizar realidades complexas. Mas a
experiência de maternar ultrapassa essas classificações. Ela é inteira,
atravessada por cuidado, presença, renúncia e amor.
Talvez
o que falte, muitas vezes, seja disposição para escutar essas histórias com
mais humanidade. Para reconhecer que, por trás de cada termo, existe uma vida
marcada por escolhas, lutas e afetos que não cabem em definições simplistas.
Naquele
dia, eu realizei uma perícia psicológica. Mas, para além do procedimento
técnico, vivi um encontro que me convidou a rever conceitos e ampliar meu
olhar. Desde então, algo em mim passou a compreender com mais profundidade que,
quando falamos de amor, especialmente o amor de uma mãe, não há categorias que
deem conta.
Existe,
simplesmente, mãe.
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