Psicologa Organizacional

29 de abril de 2026

 




Mãe: nome que não se divide

 

Por Acimarley Freitas – Psicólogo Clínico

 

Foi uma perícia psicológica, mais uma entre tantas que fazem parte da minha rotina profissional. Ainda assim, como tantas outras vezes, aquele encontro carregava algo de singular. Era uma jovem senhora de 43 anos, moradora do interior desse Brasil tão vasto e, por vezes, tão desafiador. Havia em seu olhar uma mistura de cansaço e dignidade, como quem já enfrentou muito, mas decidiu continuar.

 

Durante a entrevista, sua fala fluía com naturalidade. Em meio à sua narrativa, ela sorriu e disse, quase com leveza: “É, Acimarley… eu sou mãe solo”. A expressão, dita de forma simples, teve em mim um efeito profundo. Não passou despercebida,  atravessou. Com cuidado, perguntei o que significava, para ela, ser uma mãe solo.

 

Ela então explicou: era mãe solteira. Disse que foi mãe, pai, provedora, educadora. Que trabalhou muito para criar o filho. Reconheceu que a sociedade costuma julgar mulheres como ela, mas afirmou, com uma serenidade que impressionava: “Eu sou uma mãe solo e sou feliz”.

 

Seguimos com o processo, como exige a técnica e a ética profissional. Ao final, fiz o encaminhamento necessário. No entanto, mesmo após o término da perícia, aquela fala permaneceu em mim. Ao longo do dia, a expressão “mãe solo” ecoava, como um convite silencioso à reflexão.

 

Passei a pensar nos caminhos que aquela mulher percorreu. Nos desafios enfrentados, muitos deles invisíveis aos olhos alheios. Nas dificuldades financeiras, nas escolhas difíceis, nas noites em que talvez tenha precisado ser forte mesmo estando cansada. Pensei também na ausência de escuta que tantas mulheres vivem, julgadas antes de serem compreendidas, rotuladas antes de serem acolhidas.

 

E então, em meio a essas reflexões, algo se reorganizou dentro de mim. Questionei, em silêncio: “Mãe solo?”. E a resposta veio quase como uma constatação simples, porém profunda: não. Mãe.

 

Porque, no fundo, não existem categorias capazes de definir o que é ser mãe. Os rótulos:  solteira, casada, viúva, adotiva são construções sociais que tentam organizar realidades complexas. Mas a experiência de maternar ultrapassa essas classificações. Ela é inteira, atravessada por cuidado, presença, renúncia e amor.

 

Talvez o que falte, muitas vezes, seja disposição para escutar essas histórias com mais humanidade. Para reconhecer que, por trás de cada termo, existe uma vida marcada por escolhas, lutas e afetos que não cabem em definições simplistas.

 

Naquele dia, eu realizei uma perícia psicológica. Mas, para além do procedimento técnico, vivi um encontro que me convidou a rever conceitos e ampliar meu olhar. Desde então, algo em mim passou a compreender com mais profundidade que, quando falamos de amor, especialmente o amor de uma mãe, não há categorias que deem conta.

 

Existe, simplesmente, mãe.


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