A
pessoa de ânimo dobre
Há pessoas que parecem morar
em dois lugares ao mesmo tempo.
Dizem que querem ir, mas
permanecem paradas.
Dizem que acreditam, mas
vivem como se não acreditassem.
Dizem que amam, mas agem
como quem já decidiu partir.
Querem a mudança, mas
continuam abraçadas aos velhos hábitos.
São pessoas divididas por
dentro.
A Bíblia chama isso de
“ânimo dobre”.
Tiago escreveu: “O homem de
ânimo dobre é inconstante em todos os seus caminhos” (Tiago 1:8). No texto
grego aparece a palavra dípsychos — formada por dis, “duas vezes”, e psyché,
“alma”. A ideia é a de alguém com a interioridade dividida: duas vontades, dois
interesses, duas direções.
Não é simplesmente alguém
que tem dúvidas.
A dúvida faz parte da
experiência humana. Todos nós, em algum momento, hesitamos. Todos temos dias em
que a coragem diminui e o medo fala mais alto.
O problema começa quando a
pessoa transforma a indecisão em modo de vida.
Ela quer Deus, mas também
quer aquilo que Deus lhe pede para abandonar.
Quer uma vida nova, mas não
quer abrir mão da antiga.
Quer paz, mas alimenta
conflitos.
Quer relacionamentos
saudáveis, mas continua repetindo comportamentos que adoecem suas relações.
Quer ser livre, mas
permanece dependente da aprovação dos outros.
Quer mudar, mas encontra
sempre uma justificativa para continuar igual.
É como alguém que coloca um
pé no caminho e mantém o outro no lugar.
E assim não consegue
caminhar.
Talvez uma das maiores
dificuldades do ser humano contemporâneo seja justamente essa: saber o que
deseja, mas não conseguir alinhar desejo, pensamento, palavra e atitude.
Vivemos em uma época de
muitas possibilidades. Podemos mudar de profissão, de cidade, de
relacionamento, de opinião, de grupo, de projeto e até de identidade virtual
com uma velocidade impressionante.
Mas existe uma coisa que
nenhuma tecnologia consegue fazer por nós:
decidir quem queremos ser.
Porque uma vida dividida
produz uma existência cansada.
A pessoa de ânimo dobre
passa boa parte da vida negociando consigo mesma.
“Eu vou mudar.”
Mas não muda.
“Dessa vez será diferente.”
E repete.
“Não quero mais isso.”
E volta.
“Preciso me afastar.”
Mas permanece.
“Preciso começar.”
Mas adia.
E, pouco a pouco, a pessoa
deixa de perceber que sua maior prisão talvez não esteja nas circunstâncias
externas, mas na divisão interna que a impede de assumir uma direção.
Tiago usa outra vez a
expressão dípsychos quando escreve: “vós que sois de ânimo dobre, purificai o
coração” (Tiago 4:8).
É interessante perceber que,
nessa segunda passagem, o problema aparece relacionado ao coração.
Como se dissesse:
“Não basta aproximar-se de
Deus com os lábios; é preciso reorganizar o coração.”
Porque há pessoas que vivem
uma espécie de duplicidade existencial.
Uma versão delas aparece
para o mundo.
Outra permanece escondida
dentro delas.
Sorriso por fora.
Confusão por dentro.
Fé nas palavras.
Medo nas decisões.
Promessas no discurso.
Contradições nas atitudes.
E talvez seja justamente aí
que começa o processo de amadurecimento: quando deixamos de tentar parecer
inteiros e começamos a reconhecer honestamente nossas próprias divisões.
Reconhecer não é fraqueza.
É o primeiro passo para
mudar.
Talvez você não precise,
hoje, tomar todas as decisões da sua vida.
Mas talvez precise tomar uma
decisão verdadeira.
Aquela que você vem adiando.
Aquela conversa que precisa
acontecer.
Aquele hábito que precisa
ser abandonado.
Aquele projeto que precisa
começar.
Aquela porta que precisa ser
fechada.
Ou aquela outra que,
finalmente, precisa ser aberta.
Porque viver é escolher
caminhos.
E cada escolha,
silenciosamente, vai construindo a pessoa que nos tornamos.
O homem de ânimo dobre não é
aquele que um dia teve dúvidas.
É aquele que se acostumou a
viver dividido.
E ninguém precisa permanecer
assim para sempre.
Há momentos em que
precisamos parar diante do espelho e perguntar:
“Afinal, para onde estou
indo?”
Não para acusarmos a nós
mesmos.
Mas para finalmente
escolhermos um caminho.
Porque quando o coração
encontra uma direção, a vida começa a recuperar o sentido.
E talvez maturidade seja
exatamente isso:
deixar de viver entre duas
vontades e começar a viver de acordo com aquilo que, no mais profundo da alma,
reconhecemos como verdadeiro.
No fim, talvez a pergunta
mais importante não seja:
“Por que estou tão perdido?”
Mas:
“O que dentro de mim ainda
está dividido?”
Às vezes, a resposta para
essa pergunta é o começo de uma vida inteira.
Acimarley Freitas

Nenhum comentário:
Postar um comentário